Recentemente recebi a Manifestação de docentes da Universidade de São Paulo à Reitoria, aos Colegiados e às Direções de Unidade diante dos acontecimentos relacionados à atual greve e às tensões institucionais que vêm afetando a Universidade a qual sem dúvida subscrevo.
Como docente aposentado do Instituto de Física da USP, instituição à qual dediquei mais de quatro décadas de minha vida acadêmica, considero importante registrar algumas reflexões.
Inicialmente, reconheço o mérito da manifestação ao reafirmar princípios fundamentais para qualquer universidade pública democrática: o respeito às instituições, a valorização do diálogo, a preservação dos colegiados e a rejeição de qualquer forma de intimidação ou constrangimento que impeça o funcionamento regular da Universidade.
Também considero relevante o registro dos esforços realizados pela Reitoria para a negociação com servidores técnico-administrativos e estudantes, bem como os avanços observados nos programas de permanência estudantil e inclusão nos últimos anos.
Entretanto, embora a manifestação contribua para enfrentar a conjuntura atual, acredito que ela não responde integralmente a uma questão mais profunda: como evitar que crises semelhantes se repitam periodicamente?
A experiência demonstra que os conflitos universitários raramente decorrem apenas das reivindicações apresentadas. Em muitos casos, eles refletem fragilidades institucionais relacionadas aos mecanismos de diálogo, mediação, participação e responsabilização.
Nesse contexto, parece oportuno discutir algumas medidas estruturantes para o futuro:
elaboração de uma Carta de Convivência Universitária que estabeleça claramente direitos, deveres e limites de atuação de todos os segmentos da comunidade;
criação de mecanismos de consulta eletrônica ampla à comunidade universitária em situações de impasse prolongado;
instituição de uma Câmara Permanente de Mediação para prevenção e resolução de conflitos;
garantia do funcionamento contínuo dos colegiados por meio de mecanismos híbridos ou digitais quando necessário;
elaboração de relatórios públicos sobre os impactos acadêmicos, científicos e financeiros decorrentes de paralisações prolongadas;
definição clara de procedimentos para proteger simultaneamente o direito à manifestação e o direito ao funcionamento regular das atividades universitárias.
Ao longo de minha trajetória acadêmica aprendi que uma universidade forte não é aquela que evita conflitos, mas aquela que possui instituições suficientemente maduras para administrá-los sem comprometer sua missão principal de produzir conhecimento, formar pessoas e servir à sociedade.
As greves e manifestações fazem parte da história das universidades em todo o mundo. Contudo, quando se prolongam indefinidamente, acabam produzindo prejuízos significativos aos estudantes, às atividades de pesquisa, aos projetos de extensão e à imagem institucional da própria universidade perante a sociedade que a financia.
Talvez o maior desafio não seja encerrar a atual greve, mas construir mecanismos capazes de evitar que futuras divergências evoluam para situações semelhantes.
A USP sempre foi uma das mais importantes instituições acadêmicas da América Latina. Preservar sua excelência exige não apenas liberdade de expressão e pluralidade de ideias, mas também compromisso coletivo com regras de convivência, respeito às instituições e responsabilidade perante a sociedade.
É nesse espírito que recebo a manifestação dos colegas docentes e apresento estas reflexões para contribuir com um debate que precisa ir além da conjuntura atual e olhar para o futuro da Universidade de São Paulo.
Prof. Dr. Helio Dias
Professor Associado Aposentado do Instituto de Física da USP