O Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP) acompanha com interesse o debate internacional recentemente reavivado por publicações e análises que discutem a redução da utilização de determinados cenários climáticos extremos que, durante mais de uma década, serviram como referência para estudos científicos, relatórios técnicos e avaliações de risco em todo o mundo.

Entre esses cenários destaca-se o RCP8.5 (Representative Concentration Pathway 8.5), desenvolvido para representar uma trajetória de emissões extremamente elevadas de gases de efeito estufa ao longo do século XXI. Durante muitos anos, o RCP8.5 desempenhou papel relevante na pesquisa científica ao permitir a análise de riscos máximos associados às mudanças climáticas, contribuindo para estudos sobre agricultura, recursos hídricos, biodiversidade, saúde pública, infraestrutura e adaptação climática.

Com o avanço do conhecimento científico e a disponibilidade de novos dados econômicos, energéticos e tecnológicos, diversos pesquisadores passaram a questionar a probabilidade de ocorrência desse cenário específico. A expansão das energias renováveis, a evolução tecnológica, a melhoria da eficiência energética e a adoção de políticas climáticas por diversos países levaram parte da comunidade científica a considerar que o RCP8.5 deixou de representar uma trajetória provável de desenvolvimento global, permanecendo, entretanto, como uma importante ferramenta para análises de risco extremo.

É importante destacar que essa discussão não significa que as mudanças climáticas tenham deixado de representar um desafio global. Tampouco significa que a ciência climática esteja equivocada em seus fundamentos. O que está em debate é a adequação de determinados cenários para representar o futuro mais provável da humanidade, bem como a necessidade de distinguir claramente entre cenários de risco extremo e projeções consideradas mais plausíveis.

Para o IVEPESP, este episódio oferece uma importante oportunidade de reflexão sobre o próprio funcionamento da ciência. Diferentemente de sistemas de crença ou posições ideológicas, a ciência avança justamente porque está permanentemente aberta à revisão de hipóteses, modelos e interpretações à medida que novas evidências se tornam disponíveis.

A revisão do papel atribuído ao RCP8.5 constitui um exemplo de maturidade científica. Não se trata de abandonar preocupações ambientais nem de minimizar os riscos associados às mudanças climáticas, mas de aperfeiçoar os instrumentos utilizados para compreender a realidade e orientar a tomada de decisões públicas e privadas.

O IVEPESP considera fundamental que a comunicação científica seja realizada com rigor, transparência e responsabilidade. Cenários extremos possuem papel importante na avaliação de riscos e no planejamento estratégico, mas não devem ser automaticamente interpretados como previsões mais prováveis. Da mesma forma, a existência de incertezas não deve ser utilizada como justificativa para a inação diante de desafios reais e documentados.

A discussão atual reforça a importância da alfabetização científica da população e da formação de gestores públicos capazes de compreender adequadamente conceitos como modelagem, cenários prospectivos, probabilidade, incerteza e gestão de riscos. Em uma sociedade cada vez mais dependente do conhecimento científico para orientar políticas públicas, decisões empresariais e investimentos de longo prazo, a compreensão desses conceitos torna-se essencial.

O IVEPESP reafirma seu compromisso com a promoção da educação, da pesquisa científica, da inovação tecnológica e do pensamento crítico baseado em evidências. Entendemos que o fortalecimento da ciência depende não apenas da produção de conhecimento, mas também da capacidade de comunicar à sociedade, de forma clara e equilibrada, tanto as certezas quanto as incertezas inerentes ao processo científico.

A principal lição do debate em torno do RCP8.5 é que a ciência não se fortalece quando evita revisões, mas justamente quando possui a coragem intelectual de reavaliar suas hipóteses, corrigir seus modelos e aperfeiçoar continuamente sua compreensão da realidade.

Essa capacidade de autocrítica e aperfeiçoamento permanente é uma das maiores virtudes do método científico e uma das razões pelas quais ele continua sendo o instrumento mais confiável de que dispomos para compreender os grandes desafios do presente e do futuro.

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP