O Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP) acompanha com grande atenção o relatório “From Learning Recession to Learning Recovery: Understanding the Sources of U.S. K-12 Improvement”, elaborado por pesquisadores de Harvard, Stanford e Dartmouth e publicado em maio de 2026 pelo Education Scorecard. O estudo traz reflexões extremamente relevantes para o debate educacional contemporâneo e oferece importantes lições para o Brasil.

O relatório demonstra que os Estados Unidos já viviam uma “recessão da aprendizagem” antes mesmo da pandemia da COVID-19. A partir de 2013, houve desaceleração consistente dos ganhos em matemática e leitura, seguida posteriormente pelas perdas agravadas durante a pandemia.

Essa constatação é particularmente importante porque revela que a crise educacional contemporânea não pode ser atribuída exclusivamente à pandemia. O estudo aponta fatores estruturais anteriores, como a redução da accountability educacional, o crescimento do absenteísmo, a perda de foco acadêmico e possíveis impactos associados ao uso intensivo de redes sociais e celulares.

O IVEPESP considera especialmente relevante a conclusão de que a recuperação educacional depende fortemente de políticas públicas baseadas em evidências científicas e em monitoramento contínuo da aprendizagem. O relatório mostra que distritos escolares mais pobres somente conseguiram iniciar recuperação significativa graças ao forte investimento federal direcionado.

Outro ponto central destacado pelo estudo é o impacto persistente do absenteísmo escolar. Mesmo após a pandemia, os elevados índices de ausência continuam comprometendo a recuperação acadêmica. Os pesquisadores estimam que, caso os níveis de presença escolar tivessem retornado aos padrões pré-pandemia, os ganhos educacionais seriam significativamente maiores.

O relatório também chama atenção para a relevância das políticas de alfabetização baseadas na chamada “Science of Reading”. Segundo os autores, praticamente todos os estados norte-americanos que apresentaram melhora consistente em leitura entre 2022 e 2025 implementaram reformas estruturadas de alfabetização fundamentadas em evidências científicas.

O IVEPESP entende que essa discussão possui enorme relevância para o Brasil. O país enfrenta crescimento do absenteísmo, dificuldades de engajamento escolar, perda de aprendizagem e ampliação das desigualdades educacionais. Contudo, ainda carecemos de sistemas nacionais robustos e transparentes de monitoramento contínuo da aprendizagem capazes de orientar políticas públicas baseadas em dados.

Diante desse cenário, o IVEPESP propõe que o Brasil implemente uma agenda nacional de reformas estruturadas para alfabetização baseada em evidências científicas, inspirada nas melhores experiências internacionais.

O IVEPESP também destaca a importante contribuição do Professor João Batista Araújo e Oliveira, do Instituto iDados, um dos pioneiros no Brasil na defesa de políticas de alfabetização baseadas em evidências científicas.

Ao longo de décadas, o Professor João Batista tem defendido a necessidade de uma alfabetização estruturada, sistemática e fundamentada em conhecimentos científicos sobre desenvolvimento cognitivo, consciência fonológica, fluência leitora e instrução explícita da leitura.

Suas propostas enfatizam especialmente:

  • alfabetização na idade adequada;
  • ensino explícito e estruturado da leitura;
  • fortalecimento da consciência fonológica;
  • formação consistente de professores alfabetizadores;
  • uso de avaliações diagnósticas contínuas;
  • materiais didáticos estruturados e validados;
  • acompanhamento rigoroso dos resultados de aprendizagem.

O IVEPESP considera particularmente relevante sua defesa de que políticas educacionais devem ser avaliadas não apenas por intenções pedagógicas ou discursos teóricos, mas principalmente pelos resultados concretos de aprendizagem obtidos pelas crianças.

A experiência brasileira demonstra que muitas crianças chegam aos anos finais do ensino fundamental sem domínio adequado da leitura, escrita e compreensão textual, comprometendo toda sua trajetória educacional posterior. Nesse contexto, propostas fundamentadas em evidências científicas e monitoramento rigoroso da aprendizagem tornam-se fundamentais para enfrentar o grave déficit de alfabetização existente no país.

O IVEPESP entende que o debate nacional sobre alfabetização precisa superar polarizações ideológicas e concentrar-se naquilo que efetivamente produz melhores resultados para os estudantes brasileiros.

Entre as principais propostas destacam-se:

1. Formação Cientificamente Fundamentada de Professores Alfabetizadores

É essencial reformular a formação inicial e continuada dos professores da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental, incorporando conhecimentos atualizados sobre:

  • consciência fonológica;
  • desenvolvimento da linguagem;
  • fluência leitora;
  • vocabulário;
  • compreensão textual;
  • neurociência da aprendizagem;
  • dificuldades específicas de leitura e escrita.

A alfabetização não pode depender apenas de abordagens intuitivas ou ideológicas, mas deve estar fundamentada em evidências científicas acumuladas internacionalmente.

2. Avaliação Diagnóstica Contínua e Intervenção Precoce

O Brasil necessita implementar sistemas nacionais de avaliação diagnóstica contínua da alfabetização desde os primeiros anos escolares.

As avaliações devem permitir:

  • identificar precocemente dificuldades;
  • acompanhar evolução individual dos estudantes;
  • orientar intervenções pedagógicas rápidas;
  • apoiar professores com dados concretos sobre aprendizagem.

Milhões de crianças ainda avançam escolarmente sem domínio adequado da leitura e escrita.

3. Tutoria Intensiva e Apoio Individualizado

As evidências internacionais demonstram que programas de tutoria intensiva possuem elevado impacto na recuperação da aprendizagem.

O IVEPESP propõe:

  • programas nacionais de tutoria para crianças com dificuldades de alfabetização;
  • utilização de estudantes universitários bolsistas e professores aposentados;
  • modelos híbridos presenciais e digitais;
  • uso de inteligência artificial para personalização do ensino.

4. Recuperação da Autoridade Acadêmica da Escola

A alfabetização exige ambiente de aprendizagem estruturado, organizado e cognitivamente estimulante.

É necessário:

  • combater o absenteísmo escolar;
  • reduzir interrupções pedagógicas;
  • reorganizar o uso de celulares e redes sociais no ambiente escolar;
  • fortalecer cultura de leitura;
  • ampliar o tempo efetivo de aprendizagem.

A escola precisa voltar a ser espaço de concentração, leitura, raciocínio e desenvolvimento intelectual.

5. Política Nacional de Alfabetização Baseada em Evidências

O Brasil necessita de uma política de Estado — e não apenas de governo — para alfabetização.

Essa política deve incluir:

  • metas nacionais claras;
  • indicadores públicos transparentes;
  • acompanhamento longitudinal;
  • apoio técnico aos municípios;
  • financiamento orientado a resultados;
  • disseminação de boas práticas;
  • integração entre MEC, estados, municípios e universidades.

6. Uso Estratégico de Inteligência Artificial e Ciência de Dados

O IVEPESP considera que a Inteligência Artificial poderá desempenhar papel transformador na alfabetização brasileira.

Ferramentas baseadas em IA podem:

  • identificar padrões de dificuldade;
  • personalizar atividades;
  • apoiar professores;
  • monitorar progresso em tempo real;
  • gerar materiais adaptativos;
  • reduzir desigualdades regionais.

Entretanto, tais tecnologias devem ser utilizadas como apoio ao professor, e não como substituição da relação pedagógica humana.

7. Fortalecimento da Cultura Nacional de Leitura

Nenhuma política de alfabetização terá pleno sucesso sem reconstrução da cultura da leitura no país.

É fundamental:

  • ampliar bibliotecas escolares;
  • incentivar leitura em família;
  • promover programas nacionais de leitura;
  • estimular produção de conteúdo infantil de qualidade;
  • valorizar o livro e a literatura desde a primeira infância.

O desafio brasileiro não é apenas alfabetizar tecnicamente, mas formar leitores capazes de compreender, interpretar, argumentar e participar plenamente da vida social, científica e democrática.

O IVEPESP entende que a alfabetização constitui a base de toda a trajetória educacional, científica, profissional e cidadã de uma nação. Sem uma alfabetização sólida, amplia-se o risco de exclusão social, baixa produtividade econômica, fragilidade democrática e aprofundamento das desigualdades.

A educação brasileira necessita urgentemente de uma agenda nacional de recuperação da aprendizagem baseada em ciência, dados, transparência, responsabilidade pública e compromisso efetivo com o futuro do país.

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
[email protected]