Nas últimas semanas, uma iniciativa surgida em diferentes cidades chinesas chamou atenção por sua simplicidade e, ao mesmo tempo, por sua força simbólica: grandes telas e painéis publicitários localizados em áreas comerciais de alta circulação passaram a exibir cientistas e pesquisadores em espaços normalmente destinados à publicidade comercial.
Em Shandong, Anhui e Mongólia Interior, entre outras localidades, apareceram painéis com nomes como Qian Xuesen, Yuan Longping, Tu Youyou e Nan Rendong. Posteriormente, iniciativas semelhantes foram registradas em outras regiões chinesas.
Mais do que uma homenagem, essas ações procuram apresentar cientistas e pesquisadores como referências públicas, aproximando suas trajetórias da população e, especialmente, das novas gerações.
Não se trata apenas de colocar uma fotografia em um outdoor
O aspecto mais interessante dessa experiência talvez não esteja no painel em si, mas na pergunta que ele provoca:
Quem uma sociedade escolhe tornar visível?
As cidades estão permanentemente transmitindo mensagens. Fachadas, telas, anúncios, redes sociais e espaços públicos mostram diariamente às crianças e aos jovens quem recebe prestígio, reconhecimento e projeção.
Celebridades, artistas e atletas evidentemente possuem seu espaço legítimo na sociedade. A questão não é substituí-los, mas ampliar nossas referências.
Quando um cientista passa a ocupar uma tela de grandes dimensões em uma área central, outra mensagem também é transmitida:
pesquisar, descobrir, ensinar, inovar e produzir conhecimento são atividades socialmente relevantes e merecedoras de reconhecimento público.
Uma ressalva necessária
É importante não transformar uma experiência interessante em uma afirmação maior do que as evidências permitem.
Os registros disponíveis indicam que parte desse movimento surgiu de iniciativas de centros comerciais, organizações e localidades que voluntariamente destinaram espaços publicitários à divulgação de cientistas, posteriormente reproduzidas em outras regiões.
Não há, até o momento, evidência suficiente para caracterizar o fenômeno simplesmente como uma campanha nacional centralizada determinando a substituição de celebridades por pesquisadores.
Isso, porém, não diminui sua importância. Ao contrário, mostra como uma iniciativa relativamente simples pode estimular uma discussão mais ampla sobre quem são os exemplos que uma sociedade oferece às novas gerações.
E o Brasil?
A experiência chinesa merece ser observada não para que seja simplesmente copiada, mas para que provoque uma reflexão.
O Brasil possui uma extraordinária história científica.
Nomes como Carlos Chagas, Oswaldo Cruz, César Lattes, Johanna Döbereiner e Bertha Lutz, entre tantos outros, realizaram contribuições que ultrapassaram nossas fronteiras.
Temos também milhares de pesquisadores contemporâneos trabalhando em universidades, institutos de pesquisa, hospitais, empresas e centros tecnológicos, muitas vezes praticamente desconhecidos pela população.
A pergunta que precisamos fazer é:
quanto espaço damos a esses pesquisadores no imaginário de nossas crianças e jovens?
É difícil despertar vocações científicas quando o estudante raramente conhece cientistas, não sabe onde trabalham, desconhece o impacto de suas descobertas e quase nunca os encontra nos espaços de maior visibilidade pública.
Uma proposta para o Brasil
O IVEPESP entende que uma iniciativa brasileira poderia ser construída de forma voluntária, educativa e plural, envolvendo universidades, institutos de pesquisa, agências de fomento, museus, escolas, empresas, shopping centers, aeroportos, estações de metrô e administrações municipais.
Algumas ações seriam relativamente simples:
- Destinar periodicamente espaços publicitários para cientistas brasileiros, do passado e do presente.
- Associar cada imagem a um QR Code, permitindo conhecer a trajetória do pesquisador, sua descoberta e sua contribuição para a sociedade.
- Desenvolver campanhas voltadas às escolas, apresentando cientistas de diferentes áreas, regiões, gerações e trajetórias.
- Envolver FAPESP, CNPq, CAPES, universidades, institutos de pesquisa e sociedades científicas na seleção e produção dos conteúdos.
- Valorizar não apenas grandes nomes históricos, mas também jovens pesquisadores e equipes científicas que estão produzindo conhecimento atualmente no Brasil.
Imagine, por exemplo, estações de metrô, aeroportos, shopping centers ou grandes avenidas brasileiras apresentando, durante algumas semanas, pesquisadores e descobertas produzidas no país.
E abaixo de cada fotografia uma pergunta:
“Você sabe o que este cientista fez pelo Brasil?”
Seria uma forma simples e direta de aproximar ciência e sociedade.
Reconhecimento também educa
Educação não acontece exclusivamente dentro da escola.
Uma sociedade educa também pelos exemplos que oferece, pelas pessoas que reconhece e pelos valores aos quais concede visibilidade.
Não basta pedir aos jovens que se interessem por Matemática, Física, Química, Biologia, Medicina, Engenharia ou Computação.
É preciso mostrar que por trás dessas áreas existem pessoas, histórias, desafios, descobertas e possibilidades concretas de transformação da sociedade.
Se queremos construir um país que produza mais conhecimento, tecnologia e inovação, precisamos também construir uma cultura na qual quem produz conhecimento seja conhecido e reconhecido.
A experiência chinesa, portanto, deixa uma provocação importante:
E se o Brasil também colocasse seus cientistas no centro das cidades?
Não para transformá-los em celebridades, mas para mostrar às próximas gerações que o conhecimento também merece ocupar o centro da sociedade.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
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