O que todo brasileiro precisa aprender para viver no século XXI

Um novo significado para alfabetização

Durante muito tempo, alfabetizar significou, essencialmente, ensinar uma pessoa a ler, escrever e realizar operações elementares de matemática. Essa concepção representou um avanço extraordinário em sociedades nas quais grande parcela da população sequer tinha acesso à escola.

O mundo, entretanto, mudou profundamente.

Vivemos em uma sociedade marcada pelo avanço acelerado da ciência e da tecnologia, pela inteligência artificial, pela globalização, pelas transformações no mundo do trabalho, pela circulação instantânea de informações e por desafios sociais, ambientais, econômicos e políticos que ultrapassam as fronteiras nacionais.

Nesse novo contexto, saber apenas decodificar palavras, escrever frases e realizar cálculos elementares já não é suficiente para assegurar a plena participação de uma pessoa na sociedade.

Precisamos ampliar o próprio significado da palavra alfabetização.

Propomos chamar de Alfabetização Plena o conjunto de conhecimentos, competências, valores e atitudes que uma pessoa precisa adquirir para compreender o mundo contemporâneo, participar da sociedade, trabalhar com dignidade, exercer plenamente sua cidadania e continuar aprendendo durante toda a vida.

Não se trata de transformar cada cidadão em especialista em todas as áreas do conhecimento. Trata-se de garantir a todos uma base intelectual, cultural, científica, tecnológica, profissional e humana suficientemente sólida para compreender a realidade, fazer escolhas e construir seu próprio futuro.

Essa Alfabetização Plena pode ser sintetizada em dez dimensões fundamentais da formação humana contemporânea.

1. Falar, ler e escrever muito bem o idioma português

A primeira condição continua sendo o domínio pleno da língua portuguesa.

A linguagem é uma das principais ferramentas do pensamento. Quem compreende bem um texto, consegue organizar argumentos, expressar ideias e interpretar informações dispõe de melhores condições para aprender todas as demais áreas do conhecimento.

Em uma época caracterizada por redes sociais, mensagens instantâneas e enorme quantidade de informações, compreender aquilo que se lê tornou-se ainda mais importante.

Uma sociedade democrática necessita de cidadãos capazes de interpretar informações, compreender diferentes argumentos, identificar manipulações e comunicar com clareza suas próprias ideias.

O domínio da língua não é apenas uma competência escolar. É condição para o exercício da cidadania.

2. Ser fluente em pelo menos outro idioma de uso internacional

O século XXI tornou o mundo profundamente interligado.

Ciência, tecnologia, economia, cultura e conhecimento circulam internacionalmente em velocidade crescente.

Por isso, todo jovem deveria concluir sua educação básica com capacidade de se comunicar em pelo menos um segundo idioma de ampla utilização internacional.

Essa possibilidade não deveria ser privilégio daqueles que podem pagar cursos particulares ou estudar em escolas de maior renda. Deveria constituir parte da formação oferecida a todos.

Dominar outro idioma amplia possibilidades de estudo, trabalho, comunicação e acesso ao conhecimento produzido em diferentes partes do mundo.

3. Conhecer e compreender os fundamentos da matemática, das ciências, da geografia e da história

Toda pessoa deveria concluir sua formação básica compreendendo os fundamentos necessários para interpretar o mundo em que vive.

Isso não significa memorizar enormes quantidades de fórmulas, datas ou definições.

Significa compreender conceitos.

A matemática ajuda a raciocinar, comparar grandezas, interpretar estatísticas e avaliar probabilidades.

As ciências permitem compreender a natureza, o corpo humano, a energia, o meio ambiente e as tecnologias que transformam nossas vidas.

A geografia ajuda a compreender territórios, populações, recursos naturais e relações entre países.

A história permite entender como as sociedades se transformaram e como chegamos ao mundo atual.

Uma população incapaz de compreender os fundamentos científicos da realidade torna-se mais vulnerável à desinformação e à manipulação.

4. Conhecer, apreciar e debater os grandes temas humanísticos

Uma educação completa não pode limitar-se às disciplinas consideradas imediatamente utilitárias.

Precisamos formar pessoas capazes de refletir sobre as grandes questões humanas.

Filosofia, política, artes, antropologia e sociologia ajudam a compreender valores, culturas, conflitos, instituições e diferentes formas de organização da sociedade.

A educação deve despertar curiosidade, sensibilidade, capacidade de reflexão e também o encantamento diante das realizações humanas.

Precisamos de jovens capazes não apenas de operar máquinas e utilizar tecnologias, mas também de perguntar para que essas tecnologias serão utilizadas e que tipo de sociedade desejamos construir com elas.

5. Saber utilizar criticamente as ferramentas digitais

A alfabetização contemporânea necessariamente inclui a alfabetização digital.

Computadores, redes digitais, plataformas online e inteligência artificial estão presentes na educação, na ciência, nas empresas, nos governos e na vida cotidiana.

Saber utilizar essas ferramentas tornou-se tão necessário quanto saber utilizar livros, lápis e papel.

Mas alfabetização digital não significa simplesmente saber operar aplicativos.

É necessário compreender criticamente a informação, reconhecer riscos, proteger dados pessoais, identificar manipulações e utilizar as tecnologias como instrumentos de conhecimento, criação e participação social.

Com a expansão da inteligência artificial generativa, essa competência torna-se ainda mais importante.

A escola precisa ensinar o estudante não apenas a obter respostas das máquinas, mas principalmente a formular boas perguntas, verificar informações, avaliar respostas, identificar limitações e continuar pensando por conta própria.

A inteligência artificial deve ampliar a inteligência humana, e não substituir o exercício do pensamento.

6. Dispor de pelo menos um ofício que permita trabalho e renda

Educação também precisa oferecer condições para que cada pessoa conquiste autonomia econômica.

Todo jovem deveria terminar sua formação dispondo de pelo menos uma competência profissional capaz de lhe oferecer possibilidades concretas de trabalho e geração de renda.

Isso não significa reduzir a escola à formação profissional.

Significa reconhecer que educação, trabalho e autonomia estão profundamente relacionados.

Durante muito tempo estabelecemos uma separação excessiva entre formação acadêmica e formação profissional. Precisamos superar essa falsa oposição.

Em uma economia transformada pela automação e pela inteligência artificial, a formação profissional deverá ser cada vez mais flexível e combinada com capacidade de adquirir novas habilidades ao longo da vida.

7. Aprender e praticar a solidariedade

Educação não é apenas transmissão de conhecimentos.

Também é formação para a convivência.

Uma pessoa plenamente educada precisa compreender que sua vida está relacionada à vida de outras pessoas.

A solidariedade começa na família e na vizinhança, amplia-se para a comunidade e para os compatriotas e alcança toda a humanidade.

No mundo contemporâneo, precisamos ainda incluir nessa responsabilidade nossa relação com a natureza.

Não existe educação plena sem consciência de que nossas decisões individuais e coletivas produzem consequências para outras pessoas, para as próximas gerações e para o planeta.

Conhecimento sem responsabilidade não é suficiente para construir uma sociedade civilizada.

8. Querer participar da construção de um mundo melhor, mais belo e sustentável

A escola também deveria estimular nos jovens a convicção de que o futuro não é algo simplesmente recebido.

O futuro pode ser construído.

Precisamos formar cidadãos interessados em melhorar suas comunidades, suas cidades, seu país e o planeta.

Desenvolvimento econômico, justiça social, preservação ambiental e qualidade de vida precisam caminhar juntos.

A educação deve transmitir conhecimento, mas também esperança, responsabilidade e disposição para transformar a realidade.

O estudante precisa compreender que não é apenas espectador do mundo. É também participante de sua construção.

9. Ser capaz de continuar aprendendo durante toda a vida

Talvez esta seja uma das maiores transformações educacionais de nosso tempo.

Durante grande parte da história moderna, a educação concentrava-se nos primeiros anos da vida. Uma pessoa estudava, obtinha uma profissão e podia exercê-la durante décadas utilizando conhecimentos relativamente estáveis.

Esse modelo está desaparecendo.

Conhecimentos envelhecem. Profissões se transformam. Tecnologias surgem. Novas atividades aparecem enquanto outras desaparecem.

A inteligência artificial tende a acelerar ainda mais esse processo.

Por isso, uma das principais competências da educação contemporânea é aprender a aprender.

Todo cidadão precisa estar preparado para continuar sua educação durante toda a vida.

A educação deixa de ser apenas uma etapa anterior à vida profissional e passa a acompanhar permanentemente a existência humana.

Talvez o diploma mais importante do futuro seja a capacidade de continuar aprendendo depois de receber todos os demais diplomas.

10. Ter condições intelectuais para disputar uma vaga no ensino superior, se assim desejar

Finalmente, a educação deve assegurar que qualquer jovem brasileiro que deseje disputar uma vaga em um curso superior de qualidade tenha condições intelectuais para fazê-lo em igualdade de oportunidades.

Essa talvez seja uma das maiores dívidas históricas do Brasil.

O destino educacional de uma criança ainda depende excessivamente do lugar onde nasceu, da renda de sua família e da escola que teve a oportunidade de frequentar.

Uma verdadeira democracia educacional exige que educação de qualidade não seja privilégio de poucos.

Toda criança brasileira deveria ter acesso aos conhecimentos fundamentais necessários para escolher livremente seu caminho.

Algumas optarão pelo ensino superior.

Outras seguirão formação técnica, empreenderão ou desenvolverão diferentes atividades profissionais.

O essencial é que essa decisão seja verdadeiramente uma escolha, e não consequência das limitações da educação que receberam.

Igualdade de oportunidades não significa que todos seguirão o mesmo caminho. Significa que a qualidade da escola não deverá determinar antecipadamente quais caminhos estarão fechados para cada criança.

Da alfabetização tradicional à Alfabetização Plena

Esses dez pontos procuram responder a uma pergunta simples e, ao mesmo tempo, decisiva:

O que uma pessoa precisa saber e ser capaz de fazer para ser considerada plenamente educada no século XXI?

A resposta não pode ser apenas uma lista cada vez maior de disciplinas e conteúdos escolares.

Educação plena envolve linguagem, ciência, cultura, tecnologia, trabalho, ética, solidariedade, cidadania e capacidade permanente de aprendizagem.

Isso não significa aumentar indefinidamente os conteúdos escolares.

Talvez seja justamente o contrário.

Precisamos discutir se não chegou o momento de ensinar menos conteúdos fragmentados e ensinar melhor aquilo que é essencial.

A escola precisa superar gradualmente uma lógica excessivamente enciclopédica, baseada na memorização e na reprodução de informações, e avançar para uma educação orientada à compreensão, à capacidade de pensar, à criatividade e à aplicação do conhecimento.

A inteligência artificial torna essa transformação ainda mais urgente.

Quando uma máquina pode oferecer em segundos informações que anteriormente precisavam ser procuradas durante horas ou memorizadas, o valor da educação desloca-se cada vez mais da simples acumulação de informações para a capacidade humana de interpretá-las, relacioná-las, questioná-las, verificá-las e utilizá-las com inteligência e responsabilidade.

Um compromisso nacional com a Alfabetização Plena

O Brasil precisa discutir qual formação deseja oferecer às próximas gerações.

Não basta ampliar matrículas.

Não basta assegurar que crianças e jovens permaneçam determinado número de anos dentro da escola.

Não basta distribuir diplomas.

Precisamos perguntar: o que cada brasileiro efetivamente aprendeu ao final de sua trajetória escolar?

A Alfabetização Plena pode servir como referência para esse debate.

Todo jovem brasileiro deveria deixar a educação básica sabendo comunicar-se plenamente em seu idioma; utilizar outro idioma internacional; compreender os fundamentos científicos, históricos e humanísticos do mundo; utilizar criticamente as tecnologias; possuir condições para trabalhar; conviver solidariamente; respeitar a natureza; participar da construção da sociedade; e continuar aprendendo durante toda a vida.

E, se desejar chegar à universidade, precisa ter recebido uma formação que lhe permita disputar essa oportunidade sem que sua origem social tenha previamente determinado seu destino.

É uma proposta ambiciosa.

Mas países não constroem seu futuro reduzindo suas ambições educacionais.

Constroem-no oferecendo às novas gerações os instrumentos necessários para compreender e transformar o mundo.

O grande desafio educacional brasileiro do século XXI, portanto, não é apenas alfabetizar todos no sentido tradicional.

É assegurar que cada criança e cada jovem tenham direito à Alfabetização Plena.

Porque somente quando todos os brasileiros tiverem acesso ao patrimônio linguístico, científico, cultural, tecnológico e humano de nossa época poderemos dizer que a educação está cumprindo plenamente sua missão.

E somente então a origem de uma criança deixará de definir os limites de seu futuro.


Professor Cristovam Buarque- Ex Ministro de Educação e Ex Senador

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP – Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo