A publicação “Agents, Robots, and Us: How AI Reshapes Work and Skills in Europe”, divulgada pelo McKinsey Global Institute (maio de 2026), apresenta uma das análises mais abrangentes sobre o impacto da Inteligência Artificial nas competências profissionais. Em vez de concentrar a análise nas profissões, o estudo introduz o Skill Change Index, um indicador que mede o grau de exposição de aproximadamente 10.500 habilidades à automação proporcionada pela IA.
Os resultados representam uma mudança de paradigma. Ao contrário da percepção difundida de que apenas ocupações repetitivas seriam substituídas, o estudo demonstra que praticamente todas as profissões serão transformadas, mas em intensidades diferentes, conforme o conjunto de competências que as compõem.
Esta Nota Técnica analisa os principais resultados do estudo, discute suas implicações para o sistema educacional brasileiro, para o ensino superior, para a formação profissional e para as políticas públicas de desenvolvimento de capital humano.

1. Introdução
Desde a Revolução Industrial, praticamente todas as grandes transformações tecnológicas provocaram alterações profundas no mercado de trabalho. Entretanto, poucas mudanças apresentam potencial comparável ao da Inteligência Artificial Generativa.
Nas revoluções anteriores, a automação concentrou-se predominantemente sobre atividades físicas e operacionais. A atual revolução tecnológica avança justamente sobre aquilo que tradicionalmente era considerado exclusivamente humano: o trabalho intelectual.
Modelos capazes de interpretar linguagem natural, produzir textos, gerar códigos de programação, analisar grandes volumes de dados e auxiliar na tomada de decisão passaram rapidamente do ambiente de pesquisa para aplicações empresariais.
Nesse novo cenário, torna-se insuficiente perguntar quais profissões desaparecerão. A pergunta mais relevante passa a ser:
Quais competências humanas serão transformadas pela Inteligência Artificial?
É exatamente essa questão que o Skill Change Index procura responder.
2. O que é o Skill Change Index?
O Skill Change Index é um indicador desenvolvido pela McKinsey para medir o grau de exposição de diferentes competências profissionais à automação baseada em Inteligência Artificial.
O índice varia entre 0 e 100.
Quanto maior o índice:
- maior a possibilidade de transformação daquela competência;
- maior a incorporação de IA nas atividades relacionadas;
- maior necessidade de atualização profissional.
É importante destacar que o índice não mede substituição de trabalhadores.
Ele mede transformação das competências.
Essa diferença é fundamental.
Uma profissão pode permanecer existindo, mas exigir um conjunto completamente diferente de habilidades.
3. A principal descoberta do estudo
Talvez o maior mérito do estudo seja abandonar a ideia tradicional de analisar profissões inteiras.
Na prática, nenhuma profissão é composta por uma única atividade.
Um médico:
- interpreta exames;
- conversa com pacientes;
- toma decisões clínicas;
- lidera equipes;
- realiza procedimentos.
Cada uma dessas atividades possui diferentes níveis de exposição à automação.
O mesmo ocorre com engenheiros, professores, advogados, cientistas, administradores e contadores.
O futuro do trabalho será determinado muito mais pela transformação das competências do que pela eliminação das ocupações.
4. O que o gráfico revela?
O gráfico organiza aproximadamente 10.500 competências profissionais em ordem crescente de exposição à automação.
Os resultados mostram três grandes grupos.
Competências pouco expostas
Entre as menos afetadas encontram-se:
- Resiliência
- Empatia
- Liderança
- Influência
- Colaboração
- Inovação
São competências profundamente humanas.
Todas dependem de:
- inteligência emocional;
- relacionamento interpessoal;
- julgamento ético;
- compreensão de contexto;
- confiança;
- criatividade.
A IA pode apoiar essas atividades, mas dificilmente poderá substituí-las integralmente.
Competências intermediárias
Na região central aparecem:
- Pesquisa
- Resolução de problemas
- Pensamento analítico
- Atenção aos detalhes
Esse grupo talvez seja o mais interessante.
Essas competências serão profundamente ampliadas pela IA.
O profissional continuará exercendo essas funções, porém utilizando sistemas inteligentes como instrumentos de apoio.
Competências altamente expostas
Entre as mais impactadas aparecem:
- SQL
- Desenvolvimento de software
- Contabilidade
- Controle de qualidade
- Faturamento (Invoicing)
Trata-se de atividades estruturadas.
Quanto maior a existência de:
- regras;
- padrões;
- linguagem formal;
- processos repetitivos,
maior tende a ser o potencial de automação.
5. A grande surpresa: programação entre as habilidades mais transformadas
Há poucos anos predominava a percepção de que programadores estariam entre os profissionais mais protegidos pela revolução da IA.
O estudo demonstra exatamente o contrário.
Ferramentas como:
- ChatGPT;
- GitHub Copilot;
- Claude;
- Gemini;
- Cursor;
- agentes autônomos de programação,
passaram a produzir códigos de alta qualidade.
Isso não elimina o programador.
Transforma profundamente seu papel.
O profissional deixa de gastar tempo escrevendo linhas de código para dedicar-se a:
- arquitetura de sistemas;
- validação;
- segurança;
- integração;
- definição de requisitos;
- supervisão da IA.
O foco desloca-se da execução para a engenharia do conhecimento.
6. Pesquisa científica: substituição ou ampliação?
O estudo também traz uma mensagem importante para pesquisadores.
Pesquisa científica aparece na região intermediária do índice.
Isso significa que:
A IA acelera significativamente:
- revisão bibliográfica;
- mineração de artigos;
- síntese de literatura;
- análise estatística;
- programação;
- elaboração de gráficos;
- escrita inicial de manuscritos.
Mas continua dependendo do pesquisador para:
- formular hipóteses;
- identificar problemas relevantes;
- interpretar resultados;
- construir novos modelos teóricos;
- exercer pensamento crítico.
Na prática, a IA não substitui o cientista.
Ela amplia sua produtividade.
7. O paradoxo da criatividade
Um dos resultados mais interessantes do estudo é o posicionamento da inovação.
Apesar da enorme capacidade da IA para gerar textos, imagens, músicas e códigos, a inovação permanece entre as competências menos automatizáveis.
Isso ocorre porque inovar envolve:
- compreender necessidades humanas;
- combinar conhecimentos distintos;
- assumir riscos;
- formular perguntas inéditas;
- desafiar paradigmas existentes.
A IA oferece possibilidades.
O ser humano continua responsável por escolher quais delas possuem significado.
8. O novo papel da educação
Talvez nenhuma instituição seja tão impactada quanto a escola.
Durante décadas, grande parte dos sistemas educacionais concentrou esforços na transmissão de conteúdos e na memorização de procedimentos.
Esse modelo torna-se insuficiente.
O estudo aponta que as competências mais valorizadas passam a ser justamente aquelas menos suscetíveis à automação:
- criatividade;
- colaboração;
- comunicação;
- liderança;
- pensamento crítico;
- resolução de problemas complexos;
- aprendizagem contínua;
- ética;
- adaptabilidade.
Em outras palavras:
A escola do século XXI precisa ensinar aquilo que as máquinas têm maior dificuldade para aprender.
9. Ensino superior: uma necessária reformulação
Cursos como:
- Engenharia;
- Administração;
- Direito;
- Contabilidade;
- Ciência da Computação;
- Economia;
precisarão rever seus currículos.
Não basta ensinar técnicas.
Será necessário desenvolver competências para trabalhar em parceria com sistemas inteligentes.
O profissional do futuro deverá:
- saber formular perguntas;
- interpretar respostas produzidas pela IA;
- validar informações;
- supervisionar agentes inteligentes;
- tomar decisões complexas.
10. As implicações para o Brasil
Para o Brasil, os resultados representam um alerta estratégico.
Historicamente, boa parte da educação brasileira valorizou a reprodução de conteúdos e procedimentos padronizados. Contudo, são justamente essas atividades que tendem a apresentar maior exposição à automação. Em contrapartida, competências como criatividade, colaboração, liderança, comunicação e resolução de problemas complexos — ainda desenvolvidas de forma desigual em nossas escolas — deverão tornar-se os principais diferenciais competitivos na economia do conhecimento.
Essa constatação impõe uma agenda de transformação para o país:
- reformulação curricular em todos os níveis de ensino;
- fortalecimento da formação docente para o uso pedagógico da IA;
- incorporação da alfabetização em Inteligência Artificial e em dados desde a educação básica;
- valorização de metodologias ativas, projetos interdisciplinares e aprendizagem baseada em problemas;
- revisão dos sistemas de avaliação para contemplar competências complexas, e não apenas memorização;
- estímulo à educação continuada e à requalificação profissional ao longo da vida.
Sem essas mudanças, o Brasil corre o risco de ampliar o descompasso entre a formação oferecida e as competências efetivamente demandadas pelo mercado de trabalho.
11. Recomendações do IVEPESP
À luz das evidências apresentadas, o IVEPESP propõe:
- Atualização das Diretrizes Curriculares Nacionais para incorporar competências relacionadas ao trabalho colaborativo com Inteligência Artificial.
- Criação de indicadores nacionais para monitorar a evolução das competências humanas mais estratégicas, como criatividade, pensamento crítico, liderança e resolução de problemas complexos.
- Formação continuada de professores em IA, ciência de dados e metodologias inovadoras de ensino.
- Ampliação de programas de pesquisa sobre os impactos da IA na educação, no trabalho e na produtividade brasileira.
- Incentivo a parcerias entre universidades, empresas e governo para desenvolver programas de requalificação profissional alinhados às novas demandas tecnológicas.
- Inclusão de competências socioemocionais e éticas como elementos centrais dos currículos, reconhecendo que elas representam um diferencial humano difícil de ser automatizado.
Conclusão
O Skill Change Index da McKinsey oferece uma mensagem clara: a Inteligência Artificial não redefine apenas profissões, mas transforma profundamente as competências que as sustentam. O futuro do trabalho será determinado pela capacidade de combinar inteligência humana e inteligência artificial de forma complementar.
Para o Brasil, esse cenário representa simultaneamente um desafio e uma oportunidade. Países que reorganizarem seus sistemas educacionais, investirem em formação docente, promoverem aprendizagem ao longo da vida e desenvolverem competências humanas avançadas estarão mais preparados para competir na economia do conhecimento.
Mais do que substituir trabalhadores, a IA redefine o que significa ser um profissional qualificado. A vantagem competitiva deixará de residir apenas no domínio de procedimentos técnicos e passará a depender da capacidade de criar, liderar, colaborar, interpretar contextos complexos e utilizar a tecnologia para ampliar a inteligência humana. Nesse sentido, o maior ativo estratégico de uma nação continuará sendo seu capital humano — agora potencializado, e não substituído, pela Inteligência Artificial.
Referência
McKinsey Global Institute. Agents, Robots, and Us: How AI Reshapes Work and Skills in Europe. Maio de 2026.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo – IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/