Há dimensões da educação que não aparecem nas avaliações de desempenho, nos rankings ou nas estatísticas de aprendizagem.
Uma delas é o sentimento de pertencimento.
Para muitas gerações de brasileiros, a escola não era apenas o lugar em que se aprendia Português, Matemática, História ou Ciências. Era também um espaço no qual se construíam referências de convivência, respeito, responsabilidade e vínculo com a comunidade e com o país.
Pertencem à memória de muitos estudantes de outras décadas práticas como conhecer e cantar o Hino Nacional, aprender sobre os símbolos do Brasil, respeitar solenidades cívicas e levantar-se quando o professor entrava na sala de aula.
Naturalmente, os tempos mudaram.
E não se trata de simplesmente reproduzir a escola do passado.
A educação precisa acompanhar as transformações da sociedade, incorporar novas tecnologias, estimular pensamento crítico e preparar os jovens para um mundo profundamente diferente daquele vivido pelas gerações anteriores.
Mas talvez seja necessário fazer uma pergunta:
Ao modernizarmos a escola, perdemos também alguma coisa importante pelo caminho?
A escola não forma apenas profissionais
Quando discutimos educação, frequentemente falamos de aprendizagem, empregabilidade, formação profissional, vestibulares, avaliações nacionais e internacionais e preparação para o mercado de trabalho.
Tudo isso é fundamental.
Mas educação é mais do que isso.
A educação não forma apenas trabalhadores. Forma cidadãos.
Uma criança precisa aprender Matemática.
Precisa saber ler e interpretar textos.
Precisa compreender ciência.
Precisa aprender a utilizar inteligência artificial e novas tecnologias.
Mas também precisa aprender a conviver.
A respeitar.
A ouvir.
A discordar.
A cooperar.
A compreender direitos e deveres.
A reconhecer que faz parte de uma comunidade maior.
E a perceber que suas escolhas individuais também produzem consequências coletivas.
Respeito ao professor
Há outro aspecto dessa discussão que merece atenção especial.
O gesto de levantar-se quando o professor entrava na sala talvez pertença a outro contexto histórico e cultural.
Mas aquilo que ele simbolizava permanece extremamente atual:
o reconhecimento da importância do professor.
É difícil imaginar uma sociedade que valorize verdadeiramente a educação sem valorizar aqueles que ensinam.
Respeitar o professor não significa impedir questionamentos.
Muito menos substituir diálogo por autoridade.
Uma educação moderna precisa estimular perguntas, divergências e pensamento crítico.
Mas liberdade intelectual e respeito não são conceitos incompatíveis.
Ao contrário.
Uma sala de aula pode ser simultaneamente um espaço de:
liberdade,
curiosidade,
questionamento
e
respeito.
Talvez precisemos reconstruir esse equilíbrio.
Conhecer o Brasil
Também existe uma dimensão do pertencimento relacionada ao conhecimento do próprio país.
Conhecer os símbolos nacionais não deveria significar nacionalismo acrítico.
Conhecer o Hino Nacional não impede ninguém de questionar os problemas brasileiros.
Estudar a história do Brasil não significa esconder seus conflitos, injustiças ou contradições.
Pelo contrário.
Só é possível construir um país melhor quando se conhece profundamente o país que se deseja transformar.
Nossos jovens precisam conhecer nossa história.
Nossa cultura.
Nossa literatura.
Nossa ciência.
Nossos cientistas.
Nossos artistas.
Nossa diversidade.
Nossa geografia.
Nossos problemas sociais.
Nossas conquistas.
E nossas enormes possibilidades.
Pertencer a um país não significa acreditar que ele seja perfeito.
Significa reconhecer que também somos responsáveis pelaquilo que ele poderá se tornar.
Pertencimento não é uniformidade
Esse ponto é particularmente importante.
Recuperar o sentimento de pertencimento não significa exigir que todos pensem da mesma maneira.
Uma democracia pressupõe divergências.
Pessoas terão opiniões diferentes sobre economia, educação, política, cultura, desenvolvimento e praticamente todas as grandes questões nacionais.
Isso é natural.
O desafio é construir algo anterior às divergências:
a percepção de que continuamos fazendo parte da mesma sociedade.
Podemos discordar profundamente e, ainda assim, desejar:
que nossas crianças aprendam;
que nossos professores sejam respeitados;
que nossas universidades sejam melhores;
que nossa ciência avance;
que nossas empresas inovem;
que nossas cidades melhorem;
que diminuam as desigualdades;
e que nossos jovens encontrem oportunidades.
Uma sociedade precisa aprender a conviver com diferenças sem perder aquilo que possui em comum.
Educação para a cidadania no século XXI
Talvez precisemos discutir uma nova concepção de formação cidadã.
Não necessariamente recuperar modelos escolares de outras épocas.
Mas recuperar algumas perguntas que parecem ter perdido espaço:
O que significa viver em sociedade?
Quais são nossos direitos?
Quais são nossos deveres?
Por que existem instituições?
Por que existem regras?
Como funciona uma democracia?
Como devemos conviver com quem pensa diferente de nós?
Qual é nossa responsabilidade pela comunidade em que vivemos?
O que significa pertencer ao Brasil?
Essas perguntas tornam-se ainda mais relevantes na era das redes sociais e da inteligência artificial.
Um jovem hoje recebe milhares de informações.
Mas informação não é conhecimento.
E conhecimento não é necessariamente sabedoria.
Por isso, formar cidadãos no século XXI exigirá combinar:
conhecimento científico,
pensamento crítico,
educação digital,
ética,
responsabilidade
e
convivência.
Inteligência artificial torna essa formação ainda mais necessária
As novas tecnologias estão transformando rapidamente a maneira como estudamos, trabalhamos e nos comunicamos.
A inteligência artificial poderá ampliar extraordinariamente o acesso ao conhecimento.
Mas também poderá ampliar a desinformação, a manipulação e a dificuldade de distinguir fatos de opiniões.
Por isso, talvez nunca tenha sido tão importante ensinar nossos jovens a perguntar:
Qual é a fonte?
Qual é a evidência?
Essa informação é verdadeira?
Existe outro ponto de vista?
Quais são as consequências dessa decisão?
A educação do futuro não poderá ser apenas tecnológica.
Precisará ser profundamente humana.
Ciência também pode construir pertencimento
Há outra dimensão frequentemente esquecida.
O Brasil possui uma história científica que deveria ser muito mais conhecida por nossos estudantes.
Conhecemos suficientemente nossos cientistas?
Nossos pesquisadores?
Nossas universidades?
Nossas instituições de pesquisa?
Nossas contribuições para agricultura, medicina, energia, engenharia, aviação, saúde pública e tantas outras áreas?
Um jovem que conhece apenas os problemas de seu país poderá naturalmente desenvolver desalento.
Um jovem que conhece apenas suas virtudes desenvolverá uma visão igualmente incompleta.
Precisamos oferecer às novas gerações uma visão madura do Brasil:
um país com problemas enormes, mas também com enormes capacidades.
Do pertencimento à responsabilidade
Talvez seja esse o ponto central.
Pertencimento não deveria produzir apenas orgulho.
Deveria produzir responsabilidade.
Se este país também é nosso, então sua escola é nossa preocupação.
Sua ciência é nossa preocupação.
Sua pobreza é nossa preocupação.
Sua produtividade é nossa preocupação.
Seu meio ambiente é nossa preocupação.
Seu desenvolvimento é nossa preocupação.
E o futuro de suas crianças também é nossa responsabilidade.
Pertencer significa participar.
Voltar a acreditar no Brasil
Talvez, portanto, a expressão que melhor represente esse sentimento não seja simplesmente “Ame o Brasil”.
Paixões podem ser intensas, mas também passageiras.
O desafio que temos diante de nós parece mais profundo.
Precisamos:
voltar a acreditar no Brasil.
Mas acreditar não significa fechar os olhos para os problemas.
Significa exatamente o contrário.
Acreditar significa reconhecer nossas deficiências e compreender que elas podem ser transformadas.
Significa recuperar a capacidade de construir projetos de longo prazo.
Significa valorizar a educação.
Valorizar o professor.
Valorizar a ciência.
Valorizar o trabalho.
Valorizar nossas instituições.
Valorizar a convivência.
E, principalmente, oferecer às novas gerações perspectivas concretas de futuro.
Uma lembrança, uma pergunta
Muitos de nós guardamos lembranças de uma escola em que determinados gestos ajudavam a construir respeito e pertencimento.
Não precisamos necessariamente recuperar os mesmos gestos.
Mas talvez precisemos recuperar aquilo que eles representavam.
Respeito.
Responsabilidade.
Comunidade.
Pertencimento.
E isso nos leva a uma questão que deveria acompanhar qualquer discussão sobre educação:
Que tipo de cidadão queremos formar?
Porque a resposta a essa pergunta determinará, em grande medida, o tipo de país que teremos.
O Brasil que deixaremos para nossas crianças
Uma criança que entra hoje na escola provavelmente continuará profissionalmente ativa até depois de 2070.
Ela viverá um mundo que mal conseguimos imaginar.
Será necessário prepará-la para tecnologias ainda inexistentes.
Mas algumas necessidades humanas continuarão as mesmas.
Ela precisará aprender a conviver.
A confiar.
A cooperar.
A respeitar.
A assumir responsabilidades.
A fazer parte de uma comunidade.
Por isso, talvez o projeto educacional brasileiro precise combinar duas dimensões que às vezes tratamos separadamente:
preparar para o mundo
e
construir pertencimento ao Brasil.
Uma ideia para o futuro
Antes de perguntarmos por que os jovens não acreditam suficientemente no país, talvez devêssemos perguntar:
Que razões estamos oferecendo para que acreditem?
Antes de pedir respeito à escola, precisamos construir escolas que mereçam respeito.
Antes de pedir valorização do professor, precisamos valorizá-lo efetivamente.
Antes de pedir confiança nas instituições, precisamos aperfeiçoá-las.
Antes de pedir esperança aos jovens, precisamos oferecer oportunidades.
E antes de pedir que eles acreditem no futuro do Brasil,
precisamos construir um Brasil no qual tenham razões para acreditar.
Talvez seja esse o desafio de nossa geração.
Não voltar ao passado.
Mas recuperar do passado aquilo que continua essencial — respeito, pertencimento, responsabilidade e compromisso com o coletivo — e combiná-lo com aquilo que o futuro exige:
educação de qualidade, ciência, inovação, tecnologia, pensamento crítico e liberdade.
Esse encontro entre valores permanentes e um mundo em transformação pode ser um dos caminhos para:
voltar a acreditar no Brasil.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
Av. Paulista, nº 1636, Conjunto 4, 15º Pavimento
Cerqueira César – São Paulo/SP
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