1. Uma questão que merece ser medida

Uma instituição com mais de 250 mil alunos de graduação deve ser analisada pelos mesmos critérios de uma instituição tecnológica com três ou quatro mil estudantes?

O levantamento realizado pelo IVEPESP sobre UNIP, UNINOVE, Universidade Presbiteriana Mackenzie, PUC-SP, Centro Universitário FEI, Instituto Mauá de Tecnologia e Insper mostra que o ensino superior privado paulista reúne instituições com dimensões, missões e modelos acadêmicos profundamente distintos.

Algumas alcançaram enorme escala de atendimento. Outras trabalham com contingentes relativamente pequenos de alunos, mas concentram elevado número de professores doutores, laboratórios, atividades de pesquisa, pós-graduação e interação com empresas.

Por isso, avaliar o ensino superior somente pelo número de matrículas produz uma visão incompleta.

O IVEPESP propõe acrescentar ao debate o conceito de:

Índice de Densidade Acadêmica e Tecnológica — IDAT

O objetivo não é estabelecer simplesmente mais um ranking de universidades.

A proposta é responder a uma pergunta diferente:

quanto de capacidade acadêmica, científica e tecnológica existe em uma instituição em relação à sua própria escala educacional?


2. O primeiro painel comparável: Censo da Educação Superior 2024

Para evitar comparações entre dados institucionais de anos diferentes, o IVEPESP adotou como referência inicial o Censo da Educação Superior 2024, do INEP.

A utilização de uma mesma base e de um mesmo ano permite uma comparação muito mais consistente.

Matrículas, docentes e titulação

InstituiçãoMatrículas de graduaçãoDocentesDoutoresDoutores no corpo docenteAlunos por docente
UNIP260.3623.417~1.34439,3%76,2
UNINOVE162.7141.498~66844,6%108,6
Mackenzie25.7541.18889575,3%21,7
PUC-SP10.2321.122~91181,2%9,1
FEI3.23920916378,0%15,5
Mauá/IMT2.35317811665,2%13,2
Insper3.88722518080,0%17,3

Fonte: Censo da Educação Superior 2024 — INEP. Valores arredondados quando necessário.


3. Painel visual — escala versus densidade acadêmica

O gráfico abaixo reúne três dimensões simultaneamente:

  • eixo horizontal: número de matrículas de graduação;
  • eixo vertical: percentual de professores doutores;
  • tamanho das bolhas: número de docentes por 1.000 graduandos.

A leitura visual é imediata

UNIP e UNINOVE aparecem muito à direita, refletindo sua enorme escala de matrículas, mas com menor proporção de doutores e menor intensidade docente.

PUC-SP, FEI, Insper, Mauá e Mackenzie deslocam-se para a parte superior do gráfico, indicando maior concentração de professores doutores.

A PUC-SP também apresenta uma das maiores bolhas, resultado de sua elevada quantidade de docentes em relação ao número de graduandos.

O gráfico não representa um ranking de qualidade. Ele mostra que tamanho e densidade acadêmica constituem dimensões diferentes.


4. O contraste é expressivo

Somente UNIP e UNINOVE reúnem mais de 423 mil matrículas de graduação.

No outro extremo, FEI, Mauá e Insper, somadas, possuem menos de 10 mil matrículas de graduação.

Entretanto, quando passamos da escala para a estrutura acadêmica, o quadro muda significativamente.

A proporção de professores doutores é aproximadamente:

PUC-SP — 81,2%

Insper — 80,0%

FEI — 78,0%

Mackenzie — 75,3%

Mauá — 65,2%

UNINOVE — 44,6%

UNIP — 39,3%

Não se trata de estabelecer uma classificação de qualidade a partir de um único indicador.

O dado mostra algo diferente:

escala de atendimento e densidade de capital acadêmico são dimensões distintas.


5. A relação aluno/professor revela outra diferença estrutural

O contraste torna-se ainda mais evidente quando analisamos quantos estudantes de graduação existem para cada professor.

Na PUC-SP, são aproximadamente:

9 alunos por docente.

Na Mauá:

13 alunos por docente.

Na FEI:

16 alunos por docente.

No Insper:

17 alunos por docente.

No Mackenzie:

22 alunos por docente.

Na UNIP:

76 alunos por docente.

Na UNINOVE:

109 alunos por docente.

Isso não significa automaticamente que uma determinada relação seja melhor ou pior.

Educação presencial, cursos tecnológicos, áreas laboratoriais, ensino a distância e diferentes organizações pedagógicas apresentam necessidades docentes distintas.

Mas a dimensão da diferença demonstra que estamos diante de modelos institucionais bastante diferentes.


6. Um exemplo especialmente revelador: UNIP e Mauá

A comparação permite visualizar o problema.

A UNIP possui aproximadamente:

260 mil alunos de graduação.

A Mauá:

2,35 mil.

Assim, a UNIP possui cerca de 111 vezes mais estudantes.

Entretanto, em número de docentes:

UNIP — 3.417

Mauá — 178

A relação cai para aproximadamente 19 vezes.

Ou seja:

a diferença de escala estudantil é quase seis vezes maior que a diferença no número de professores.

É exatamente esse tipo de fenômeno que o conceito de densidade acadêmica procura captar.


7. O caso da PUC-SP

A PUC-SP apresenta uma configuração muito diferente das grandes universidades privadas de massa.

Com pouco mais de 10 mil matrículas de graduação no Censo 2024, registra:

1.122 docentes;

aproximadamente 81% de doutores;

cerca de 9 alunos por professor.

A instituição também possui uma estrutura extensa de programas de mestrado e doutorado.

Isso caracteriza uma universidade de alta densidade acadêmica, na qual a pós-graduação e a pesquisa ocupam espaço proporcionalmente importante.


8. Mackenzie

O Mackenzie representa outro modelo relevante.

Com aproximadamente 25,8 mil matrículas de graduação, possui:

1.188 docentes;

cerca de 75% de doutores;

aproximadamente 22 alunos por docente.

A instituição combina uma escala significativamente maior que PUC-SP, FEI, Mauá e Insper com uma estrutura consolidada de pós-graduação e pesquisa.

No relatório institucional referente a 2025, o Mackenzie registra mais de mil estudantes em programas de pós-graduação stricto sensu.

Utilizando provisoriamente essa ordem de grandeza, a instituição apresenta aproximadamente 40 a 45 estudantes de mestrado e doutorado para cada mil graduandos.


9. FEI: pequena escala, elevada densidade tecnológica

A FEI constitui talvez um dos melhores exemplos de por que número de matrículas não pode ser o único indicador de relevância.

A instituição possui apenas 3.239 matrículas de graduação, mas conta com:

209 professores;

163 doutores;

aproximadamente 78% do corpo docente com doutorado.

Além disso, sua pesquisa está fortemente concentrada em áreas relacionadas à indústria:

  • engenharia elétrica;
  • inteligência artificial;
  • automação e robótica;
  • nanoeletrônica;
  • engenharia mecânica;
  • materiais;
  • engenharia química;
  • produção;
  • mobilidade e energia.

Portanto, uma instituição pequena em número absoluto de estudantes pode exercer contribuição tecnológica proporcionalmente muito significativa.


10. Instituto Mauá de Tecnologia: o problema dos indicadores tradicionais

A Mauá apresenta uma particularidade ainda mais interessante.

Possui:

2.353 matrículas de graduação;

178 docentes;

aproximadamente 65% de doutores.

Praticamente todo o restante do corpo docente possui formação de mestrado.

Além da atividade acadêmica convencional, a instituição mantém um Centro de Pesquisas com forte relação com empresas e projetos tecnológicos.

Isso evidencia uma limitação importante dos rankings baseados apenas em artigos científicos.

Parte da contribuição tecnológica de instituições como a Mauá pode ocorrer por meio de:

  • projetos de desenvolvimento;
  • testes laboratoriais;
  • criação de protótipos;
  • prestação de serviços tecnológicos;
  • desenvolvimento conjunto com empresas;
  • propriedade intelectual;
  • transferência de tecnologia.

Essa produção precisa ser incorporada ao IDAT.


11. Insper: elevada concentração acadêmica em pequena escala

O Insper possui 3.887 matrículas de graduação e 225 docentes.

Destes, aproximadamente 180 são doutores, o que corresponde a:

80% do corpo docente.

A instituição possui, portanto, uma elevada concentração de professores doutores para sua dimensão.

Seu perfil está fortemente ligado a:

  • Economia;
  • Administração;
  • Políticas Públicas;
  • Direito;
  • Ciência da Computação;
  • Engenharia;
  • pesquisa aplicada.

O Insper representa um modelo de instituição pequena em escala, mas com elevada concentração de capital acadêmico.


12. UNIP: grande escala com núcleos de pesquisa

Os dados também mostram que seria incorreto definir a UNIP simplesmente como instituição de ensino de massa.

Sua escala é excepcional:

260.362 matrículas de graduação no Censo 2024.

Entretanto, a Universidade também mantém programas de pós-graduação reconhecidos pela CAPES, grupos de pesquisa e atividades científicas.

A pergunta relevante para o IDAT não é, portanto:

“A UNIP faz pesquisa?”

A resposta evidentemente é sim.

A questão é:

qual é a densidade dessa atividade científica em relação a uma estrutura que atende mais de 260 mil graduandos?

Esse é exatamente o tipo de relação que o novo indicador pretende medir.


13. UNINOVE: um caso particularmente interessante

A UNINOVE apresenta outra combinação relevante.

São aproximadamente:

162.714 matrículas de graduação;

1.498 docentes;

aproximadamente 45% de professores doutores.

Ao mesmo tempo, a instituição possui uma estrutura expressiva de programas de pós-graduação stricto sensu.

Há inclusive programas avaliados em patamares elevados pela CAPES.

A UNINOVE constitui, portanto, um importante caso para investigar se uma instituição de grande escala consegue simultaneamente desenvolver núcleos de pesquisa de elevada qualidade.

Esse aspecto deverá aparecer de maneira clara na dimensão de pós-graduação e produção científica do IDAT.


14. Segunda dimensão do IDAT: pós-graduação

Propomos o indicador:

Densidade de Pós-Graduação — DPG

DPG = estudantes de mestrado e doutorado ÷ estudantes de graduação × 1.000

Ele mostra quantos estudantes de pós-graduação stricto sensu existem para cada mil graduandos.

Esse indicador pode revelar diferenças muito maiores do que a simples proporção de professores doutores.

Uma universidade pode possuir grande número absoluto de pós-graduandos e, ainda assim, apresentar baixa densidade em razão de uma graduação extremamente numerosa.

Outra instituição, com menor número absoluto, pode apresentar concentração proporcional muito elevada.

A consolidação definitiva dessa dimensão deverá utilizar dados da Plataforma Sucupira/CAPES para o mesmo ano-base.


15. Terceira dimensão: produção científica

O IVEPESP propõe o indicador:

Densidade de Produção Científica — DPC

DPC = publicações científicas indexadas ÷ número de estudantes × 1.000

A primeira janela proposta é:

2021–2025

Para que a comparação seja metodologicamente válida, deve ser utilizada uma única base bibliométrica.

A proposta inicial é utilizar:

Scopus

com os mesmos critérios para todas as instituições.

Poderiam ser medidos:

  • número de artigos;
  • reviews;
  • trabalhos completos em congressos, quando pertinentes;
  • citações;
  • colaboração internacional;
  • índice de impacto normalizado por área.

A comparação não deve misturar Scopus, Web of Science, Google Scholar ou informações fornecidas pelas próprias universidades.


16. Quarta dimensão: tecnologia e inovação

Apenas artigos científicos não são suficientes para avaliar uma instituição tecnológica.

Propomos, portanto, uma dimensão específica:

IDAT-T — Densidade Tecnológica

Entre os indicadores possíveis:

  • patentes depositadas e concedidas;
  • softwares registrados;
  • contratos de P&D;
  • projetos desenvolvidos com empresas;
  • recursos captados para inovação;
  • participação em projetos FAPESP;
  • projetos FINEP;
  • projetos EMBRAPII;
  • transferência de tecnologia;
  • startups e spin-offs;
  • laboratórios multiusuários;
  • prestação de serviços tecnológicos.

Essa dimensão será particularmente importante para instituições como FEI e Mauá.


17. Estrutura proposta para o IDAT

DimensãoIndicador principal
IDAT-1 — Capital acadêmico% de professores doutores
IDAT-2 — Intensidade docentedocentes por 1.000 estudantes
IDAT-3 — Pós-graduaçãomestrandos+doutorandos por 1.000 graduandos
IDAT-4 — Ciênciapublicações indexadas por 1.000 estudantes
IDAT-5 — Tecnologiaprojetos, patentes e P&D normalizados pela escala

Posteriormente poderá ser acrescentada uma sexta dimensão:

Internacionalização

medindo colaboração científica internacional, alunos estrangeiros, intercâmbio, dupla diplomação, professores visitantes e projetos internacionais.


18. O IDAT-Piloto — Dimensão Docente

InstituiçãoDoutoresDocentes por 1.000 graduandos
PUC-SP81,2%109,7
Insper80,0%57,9
FEI78,0%64,5
Mackenzie75,3%46,1
Mauá65,2%75,6
UNINOVE44,6%9,2
UNIP39,3%13,1

Este quadro não pretende ordenar instituições por qualidade.

Ele mostra diferentes densidades de capital acadêmico.


19. Uma observação fundamental

As duas maiores instituições analisadas, UNIP e UNINOVE, possuem juntas aproximadamente:

423 mil matrículas de graduação.

Em contraste, FEI, Mauá e Insper, somadas, possuem menos de:

10 mil matrículas.

Entretanto, essas instituições menores apresentam proporções de professores doutores próximas ou superiores a:

65% a 80%.

A diferença demonstra com clareza que:

escala e densidade acadêmica são dimensões distintas do ensino superior.


20. O desafio estratégico

O Brasil ampliou enormemente o acesso ao ensino superior nas últimas décadas.

Agora é necessário perguntar se essa ampliação também produziu crescimento proporcional de pesquisadores, mestres e doutores, laboratórios, publicações científicas, patentes, inovação e interação universidade–empresa.

Se a resposta for negativa ou insuficiente, surge uma agenda estratégica para o País.


21. Próxima etapa do IVEPESP

O IVEPESP propõe a construção do:

Painel de Densidade Acadêmica e Tecnológica do Ensino Superior Privado Paulista

A primeira edição incluirá:

UNIP
UNINOVE
Mackenzie
PUC-SP
FEI
Instituto Mauá de Tecnologia
Insper

As principais fontes deverão ser INEP, CAPES, CNPq, Scopus, Web of Science, INPI, FAPESP, FINEP e relatórios institucionais.


Conclusão

A primeira análise padronizada pelo Censo da Educação Superior 2024 demonstra que o tamanho das instituições privadas paulistas varia enormemente.

Também varia a concentração de professores doutores e docentes em relação ao número de estudantes.

O painel visual torna essa diferença particularmente evidente.

À direita estão as instituições de enorme escala. No alto estão aquelas com maior proporção de professores doutores. O tamanho das bolhas mostra a intensidade docente.

As três características não caminham necessariamente juntas.

Por isso, uma instituição com centenas de milhares de alunos e outra com três mil estudantes podem ambas desempenhar papéis importantes — mas não necessariamente o mesmo papel.

O ensino superior brasileiro precisa simultaneamente de:

acesso, qualidade, pesquisa, tecnologia, inovação e interação com a sociedade e com o setor produtivo.

A questão que o IVEPESP propõe para o debate nacional é:

Quantos dos milhões de estudantes matriculados no ensino superior brasileiro estão inseridos em ambientes efetivamente conectados à produção de ciência, tecnologia e inovação?

Essa questão pode ser respondida com dados.

E o Índice de Densidade Acadêmica e Tecnológica — IDAT poderá ser uma ferramenta para começar a respondê-la.

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
Av. Paulista, nº 1636, Conjunto 4, 15º Pavimento
Cerqueira César – São Paulo/SP
CEP 01310-200
E-mail: [email protected]