A divulgação dos rankings internacionais de universidades costuma gerar debates sobre a posição das instituições brasileiras em comparação com as principais universidades do mundo. No ranking 2026 da Times Higher Education (THE), a Universidade de São Paulo (USP) permanece como a universidade mais bem colocada da América Latina, ocupando a faixa entre as posições 201 e 250 do mundo.

Embora esse resultado represente uma conquista significativa para uma instituição pública localizada em um país em desenvolvimento, ele também evidencia a distância que ainda separa o Brasil das universidades que compõem a elite acadêmica global, como Oxford, MIT, Cambridge, Harvard e Stanford.

A presente nota analisa os fatores que explicam essa diferença e discute quais estratégias seriam necessárias para que a USP possa, nas próximas décadas, aproximar-se do seleto grupo das vinte melhores universidades do mundo.


A USP já é uma universidade de classe mundial

Antes de discutir o que falta para alcançar o Top 20, é importante reconhecer um fato frequentemente ignorado.

A USP já pode ser considerada uma universidade de classe mundial.

Ela responde por parcela significativa da produção científica brasileira, forma milhares de mestres, doutores e profissionais altamente qualificados e lidera praticamente todos os rankings latino-americanos relevantes.

Em diversas áreas do conhecimento, pesquisadores da USP competem em igualdade de condições com grupos internacionais de excelência.

O desafio, portanto, não é construir uma universidade de qualidade, mas elevar sua influência científica global para um novo patamar.


O que os rankings realmente medem?

Ao contrário do senso comum, rankings internacionais não avaliam apenas ensino.

Os principais indicadores utilizados pela Times Higher Education incluem:

  • Impacto da pesquisa científica;
  • Número de citações recebidas;
  • Reputação acadêmica internacional;
  • Internacionalização de alunos e docentes;
  • Captação de recursos para pesquisa;
  • Transferência de tecnologia e inovação;
  • Relação universidade-empresa;
  • Formação de talentos globais.

Em outras palavras, os rankings medem não apenas a qualidade interna de uma universidade, mas sua capacidade de influenciar o mundo.


O principal desafio: impacto científico

A USP publica um volume impressionante de artigos científicos.

Entretanto, as universidades que ocupam o Top 20 mundial se destacam por outro fator: produzem pesquisas que moldam agendas científicas globais.

O diferencial não está apenas na quantidade de publicações, mas na capacidade de gerar descobertas altamente citadas e reconhecidas internacionalmente.

Universidades como MIT, Stanford e Oxford concentram alguns dos pesquisadores mais influentes do planeta, muitos deles responsáveis por avanços que redefinem áreas inteiras do conhecimento.

Para aproximar-se desse grupo, a USP precisará ampliar significativamente sua presença entre os artigos que figuram no grupo dos mais citados do mundo.


Internacionalização: um gargalo histórico

Outro aspecto decisivo é a internacionalização.

Nas universidades líderes mundiais é comum encontrar:

  • Elevada participação de docentes estrangeiros;
  • Grande número de estudantes internacionais;
  • Programas ministrados integralmente em inglês;
  • Redes permanentes de pesquisa global.

Embora a USP tenha avançado nessa direção, sua inserção internacional ainda é modesta quando comparada às universidades que lideram os rankings.

A atração sistemática de talentos internacionais deve tornar-se prioridade estratégica.


Financiamento e fundos patrimoniais

Poucas pessoas percebem a dimensão dos recursos disponíveis para as universidades mais prestigiadas do mundo.

Harvard, Stanford e MIT administram fundos patrimoniais de dezenas de bilhões de dólares.

Esses recursos financiam:

  • Bolsas;
  • Infraestrutura;
  • Laboratórios;
  • Contratação de talentos;
  • Projetos estratégicos de longo prazo.

A USP possui orçamento robusto para padrões latino-americanos, mas ainda depende essencialmente de recursos públicos.

A criação e ampliação de fundos patrimoniais (endowments) pode representar um caminho importante para aumentar sua competitividade internacional.


Inovação e empreendedorismo

As universidades que lideram os rankings globais não são apenas centros de ensino e pesquisa.

Elas funcionam como motores de inovação.

MIT e Stanford ajudaram a criar ecossistemas que deram origem a milhares de empresas inovadoras, muitas delas responsáveis por transformações tecnológicas globais.

A USP possui enorme potencial nessa área.

A expansão de parques tecnológicos, incubadoras, startups acadêmicas e programas de transferência tecnológica pode fortalecer significativamente sua relevância internacional.


Inteligência Artificial: uma oportunidade histórica

A revolução da Inteligência Artificial cria uma oportunidade rara para países emergentes.

A próxima geração de liderança científica mundial poderá ser definida por áreas como:

  • Inteligência Artificial;
  • Computação Quântica;
  • Biotecnologia;
  • Saúde Digital;
  • Novos Materiais;
  • Energia Sustentável;
  • Robótica Avançada.

A USP possui massa crítica para liderar iniciativas nacionais nesses campos.

Entretanto, será necessário combinar investimentos, governança, internacionalização e forte articulação com o setor produtivo.


O exemplo da China

Talvez o exemplo mais relevante seja o da China.

Há pouco mais de duas décadas, universidades chinesas raramente figuravam entre as líderes globais.

Hoje, instituições como Tsinghua University e Peking University disputam posições entre as melhores do mundo.

Esse avanço foi resultado de:

  • Planejamento de longo prazo;
  • Investimentos massivos em pesquisa;
  • Internacionalização agressiva;
  • Atração de talentos globais;
  • Forte alinhamento entre universidades, governo e indústria.

A experiência chinesa demonstra que ascensões rápidas são possíveis quando existe visão estratégica nacional.


Uma agenda para a USP e para o Brasil

Para que a USP possa aspirar ao Top 20 mundial nas próximas décadas, algumas ações parecem fundamentais:

  1. Expandir programas internacionais em inglês;
  2. Atrair pesquisadores estrangeiros de excelência;
  3. Ampliar a produção científica de alto impacto;
  4. Fortalecer fundos patrimoniais e novas fontes de financiamento;
  5. Intensificar a interação universidade-empresa;
  6. Liderar agendas estratégicas em Inteligência Artificial e tecnologias emergentes;
  7. Atrair mais estudantes internacionais;
  8. Consolidar centros de pesquisa interdisciplinares de classe mundial.

A discussão sobre rankings universitários não deve ser encarada como uma competição de vaidades institucionais.

Universidades de excelência geram conhecimento, inovação, capital humano e desenvolvimento econômico.

A USP já representa um patrimônio estratégico do Brasil e da América Latina.

Contudo, alcançar o grupo das vinte melhores universidades do mundo exigirá muito mais do que recursos financeiros. Será necessário construir uma estratégia nacional de longo prazo para ciência, tecnologia, inovação e formação de talentos.

O verdadeiro objetivo não deve ser apenas melhorar posições em rankings internacionais.

O objetivo deve ser ampliar a capacidade da universidade de contribuir para o futuro do Brasil.

Uma USP entre as vinte melhores universidades do mundo seria, antes de tudo, um sinal de que o país conseguiu transformar conhecimento em desenvolvimento.

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
[email protected]

Comentário do colega Prof. Dr. Ricardo Galvão ex presidente do CNPq e atual deputado federal : Gostaria de acrescentar uma observação ao documento do Helio Dias. Um grande entrave para ampliação de nossa colaboração internacional e da interação com o setor produtivo não acadêmico é o engessamento do sistema de concurso público voltado somente para contratação de docentes interessados em fazer carreira permanente na universidade em tempo integral e dedicação exclusiva. Não temos posições para períodos limitados, tanto para professores estrangeiros como para especialistas, mesmo não doutores, do setor produtivo. Fiz meu pós doutoramento boa Holanda, contratado em um laboratório do Governo. Neste laboratório, existiam posições no quadro que podiam ser ocupadas somente por pesquisadores estrangeiros, por período limitado. Não era bolsa e sim contratação por período de até dois anos. Esse sistema estimulou fortemente a visibilidade internacional do laboratório. Em muitas universidades públicas europeias, como o Royal Institute de Estocolmo, existem posições no quadro que so podem ser ocupadas por especialistas do setor produtivo, não acadêmico, por tempo limitado. Isso não somente fortalece a interação universidade-empresa, como abre enormes oportunidades de emprego para os formandos. A ASML, líder mundial na produção de micro chips, tem um acordo com a Universidade de Eidenhoven para contratação de doutorandos que venham a desenvolver suas teses em problemas de interesse da empresa. Sem iniciativas como essas, nossas universidade nunca atingirão o topo da classificação mundial. Excelente ensino e excelente pesquisa a acadêmica não bastam .