A recente manifestação dos estudantes contemplados pelo Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE/CAPES) traz à tona uma questão que ultrapassa interesses individuais e alcança um tema central para o futuro do Brasil: a capacidade do país de formar recursos humanos altamente qualificados em um ambiente científico cada vez mais internacionalizado.

O Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior representa uma das mais importantes iniciativas de internacionalização da pós-graduação brasileira. Ao permitir que doutorandos realizem parte de suas pesquisas em universidades de excelência no exterior, o programa fortalece redes científicas, amplia a inserção internacional da ciência nacional e contribui para a formação de lideranças acadêmicas, tecnológicas e empresariais.

Em carta encaminhada ao Governo Federal, ao Congresso Nacional, à CAPES, à comunidade científica e às entidades representativas da pesquisa brasileira, os bolsistas contemplados pelo Edital CAPES nº 17/2025 relatam dificuldades crescentes para viabilizar sua permanência no exterior. Entre os problemas destacados estão a defasagem dos valores das bolsas, os custos de deslocamento internacional, despesas com vistos, seguros, traduções e as exigências financeiras impostas por universidades estrangeiras.

Segundo os estudantes, a bolsa mensal de US$ 1.300 mostra-se insuficiente para assegurar condições adequadas de permanência em grande parte das cidades universitárias do mundo. Os próprios bolsistas observam que os valores atualmente praticados remontam, em essência, às referências estabelecidas há mais de quinze anos, período em que ocorreram profundas transformações econômicas, aumento do custo de vida global e valorização de diversas moedas frente ao real.

O problema não se limita à manutenção mensal. Custos relacionados à emissão de vistos, passagens aéreas, seguros obrigatórios, autenticações documentais e deslocamentos para consulados frequentemente precisam ser cobertos pelos próprios estudantes. Em alguns casos, universidades estrangeiras exigem comprovação financeira superior ao valor efetivamente disponibilizado pela bolsa, criando uma situação paradoxal: o pesquisador é selecionado por mérito acadêmico, mas encontra dificuldades para comprovar condições financeiras suficientes para ingressar no país de destino.

Como o Brasil se Compara Internacionalmente?

A discussão sobre o financiamento dos estágios doutorais no exterior não pode ser analisada apenas sob a ótica do orçamento nacional. É necessário observar como os principais países que investem em ciência, tecnologia e inovação apoiam a mobilidade internacional de seus pesquisadores.

Nos Estados Unidos, programas vinculados à Fundação Fulbright e às principais universidades adotam valores de manutenção ajustados ao custo de vida de cada cidade ou região. Bolsistas em localidades de alto custo recebem apoio financeiro significativamente superior ao destinado a cidades menores.

Na Alemanha, o Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD), uma das maiores organizações de mobilidade acadêmica do mundo, revisa periodicamente seus valores de manutenção e oferece auxílios complementares para instalação, seguro-saúde e despesas específicas de mobilidade.

No Reino Unido, programas financiados por universidades e agências de pesquisa incorporam reajustes periódicos e complementos vinculados ao custo regional de vida, especialmente em grandes centros urbanos.

Na França, diversos programas governamentais e europeus incluem subsídios para moradia, seguro e adaptação, reduzindo barreiras econômicas à mobilidade acadêmica.

A União Europeia, por meio das ações Marie Skłodowska-Curie, consideradas referência mundial em mobilidade científica, utiliza um modelo composto por auxílio de manutenção, subsídio de mobilidade e complementos específicos, ajustados conforme o país de destino.

No Canadá e na Austrália, mecanismos periódicos de atualização procuram preservar o poder de compra dos pesquisadores diante da inflação e das oscilações econômicas.

Mesmo no Brasil, a comparação entre agências de fomento revela diferenças importantes. A Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE), da FAPESP, apresenta valores mais alinhados às condições atuais de permanência em diversos países, sendo frequentemente utilizada como referência pelos próprios pesquisadores.

Esses exemplos demonstram que as principais nações científicas do mundo tratam a mobilidade internacional como investimento estratégico em capital humano. O objetivo não é proporcionar privilégios, mas assegurar que estudantes selecionados por mérito possam dedicar-se integralmente às suas atividades acadêmicas sem que limitações financeiras comprometam sua formação.

Capital Humano, Competitividade e Soberania Científica

O IVEPESP entende que a questão deve ser analisada sob uma perspectiva estratégica. O Brasil investe anualmente bilhões de reais em educação superior, pesquisa e inovação. Permitir que jovens pesquisadores tenham acesso aos melhores laboratórios, universidades e centros de excelência do mundo não representa uma despesa assistencial, mas um investimento em conhecimento, produtividade e soberania nacional.

Países que hoje lideram a produção científica mundial compreenderam que a circulação internacional de pesquisadores é um dos mecanismos mais eficientes para absorção de conhecimento, transferência tecnológica e formação de redes globais de colaboração.

A internacionalização também desempenha papel fundamental na formação de lideranças acadêmicas, empresariais e governamentais capazes de atuar em ambientes altamente competitivos e tecnologicamente avançados.

As Propostas dos Bolsistas

O IVEPESP considera legítimas e tecnicamente fundamentadas as propostas apresentadas pelos bolsistas, entre elas:

  • Reajuste dos valores mensais das bolsas;
  • Revisão dos adicionais de localidade;
  • Atualização dos auxílios de deslocamento internacional;
  • Criação de reserva técnica para despesas obrigatórias de mobilidade;
  • Adequação dos valores para países que exigem comprovação financeira mínima;
  • Instituição de mecanismos permanentes de atualização dos benefícios;
  • Criação de canais institucionais de diálogo entre CAPES, comunidade científica e representantes dos bolsistas.

Uma Política de Estado para o Futuro

O Plano Nacional de Pós-Graduação 2025-2029 e a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI) 2024-2034 estabelecem metas ambiciosas para a internacionalização da ciência brasileira. Entretanto, metas estratégicas precisam estar acompanhadas das condições materiais necessárias para sua concretização.

Uma política de internacionalização verdadeiramente republicana não pode depender da capacidade individual de cada estudante complementar sua bolsa com recursos próprios. Tal dependência tende a restringir oportunidades justamente para aqueles que mais poderiam se beneficiar delas.

O Brasil enfrenta enormes desafios para elevar sua produtividade, sua capacidade de inovação e sua inserção nas cadeias globais de conhecimento. Investir na formação internacional de pesquisadores não é um gasto: é uma das formas mais eficientes de construir o capital humano necessário para enfrentar esses desafios.

O IVEPESP considera oportuno que CAPES, MEC, MCTI, Congresso Nacional, comunidade científica e representantes dos pós-graduandos estabeleçam um diálogo construtivo para revisar as condições do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior, preservando sua sustentabilidade financeira e ampliando sua efetividade como instrumento estratégico de desenvolvimento nacional.

Em um mundo cada vez mais baseado no conhecimento, a capacidade de formar e conectar pesquisadores aos melhores centros científicos do planeta será um dos fatores decisivos para o futuro do Brasil.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
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