A eliminação da Seleção Brasileira para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 provocou, naturalmente, frustração entre milhões de brasileiros. Mas, mais do que discutir a atuação de jogadores ou treinadores, esse resultado oferece uma oportunidade para refletirmos sobre uma questão muito mais profunda: por que um país reconhecido mundialmente por produzir talentos excepcionais encontra cada vez mais dificuldades para transformá-los em resultados sustentáveis?
Essa pergunta não diz respeito apenas ao futebol.
Ela também se aplica à educação, à ciência, à inovação tecnológica, à administração pública e, em última análise, ao próprio processo de desenvolvimento nacional.
O futebol tornou-se apenas a manifestação mais visível de um fenômeno institucional muito mais amplo.
A história da Seleção Brasileira em três fases
A trajetória da Seleção Brasileira nas Copas do Mundo revela três períodos bastante distintos.
1. A era da construção institucional (1958–1970)
Entre 1958 e 1970, o Brasil conquistou três títulos mundiais.
Foi um período em que o extraordinário talento dos jogadores encontrou uma estrutura organizacional relativamente eficiente para a época.
Sob a liderança de João Havelange na antiga CBD, houve avanços importantes:
- maior profissionalização da preparação física;
- planejamento mais consistente;
- melhor organização logística;
- fortalecimento da comissão técnica;
- integração crescente entre clubes e seleção.
O resultado foi histórico:
- Campeão em 1958;
- Bicampeão em 1962;
- Tricampeão em 1970.
O talento brasileiro florescia porque encontrava uma organização capaz de potencializá-lo.
2. A fase da transição (1974–2002)
Após 1970, o cenário internacional mudou profundamente.
O futebol europeu tornou-se mais científico, mais organizado e mais profissional.
Mesmo assim, o Brasil continuou produzindo algumas das maiores gerações de jogadores da história.
As seleções de 1982, 1986, 1994, 1998 e 2002 demonstram isso.
Entretanto, nesse período começaram a surgir sinais de desgaste institucional:
- maior interferência política;
- planejamento menos consistente;
- dependência crescente de talentos individuais.
Ainda assim, a enorme qualidade técnica do futebol brasileiro permitiu a conquista de dois títulos mundiais (1994 e 2002).
Foi o período em que o Brasil ainda conseguia vencer apesar de suas fragilidades institucionais.
3. O declínio relativo (2006–2026)
A partir de 2006 surge um novo cenário.
O Brasil continua produzindo jogadores extraordinários.
Mas deixa de produzir seleções capazes de dominar o futebol mundial.
Seis Copas consecutivas sem título representam muito mais do que uma sequência de eliminações.
Representam uma mudança estrutural na competitividade internacional.
A questão central deixou de ser:
“Temos bons jogadores?”
A resposta continua sendo sim.
A verdadeira pergunta passou a ser:
“Estamos conseguindo transformar talento em desempenho coletivo?”
A governança da CBF
Nos últimos vinte anos, a CBF viveu sucessivas crises institucionais.
Mudanças frequentes de comando.
Judicializações.
Conflitos políticos.
Acusações de corrupção.
Ausência de continuidade administrativa.
Naturalmente, nenhuma dessas questões explica isoladamente o desempenho da Seleção.
Mas organizações complexas dificilmente alcançam excelência quando convivem permanentemente com instabilidade institucional.
A consequência é previsível:
- projetos interrompidos;
- excesso de decisões de curto prazo;
- baixa capacidade de inovação;
- perda de continuidade.
Marrocos e Cabo Verde: o novo futebol mundial
Os exemplos mais interessantes talvez não sejam França ou Alemanha.
São Marrocos e Cabo Verde.
Marrocos
A campanha marroquina na Copa do Mundo de 2026 confirmou que o desempenho histórico alcançado em 2022 não foi obra do acaso.
O país consolidou-se entre as seleções mais competitivas do mundo graças a um projeto iniciado muitos anos antes.
Investimentos em:
- formação de atletas;
- capacitação de treinadores;
- ciência do esporte;
- infraestrutura;
- integração da diáspora;
- governança profissional.
Transformaram uma seleção tradicionalmente intermediária em protagonista internacional.
Não foi uma geração excepcional.
Foi uma estratégia nacional.
Cabo Verde
O caso cabo-verdiano talvez seja ainda mais impressionante.
Com menos de um milhão de habitantes, o país conseguiu disputar a Copa do Mundo em alto nível e alcançar o mata-mata da edição de 2026.
Não possui os recursos do Brasil.
Não possui centenas de clubes profissionais.
Não possui um campeonato nacional comparável ao brasileiro.
Mas possui algo extremamente valioso:
uma estratégia clara.
Sua federação soube integrar atletas formados na Europa, fortalecer a identidade nacional da equipe e estruturar um projeto esportivo consistente.
A lição da Noruega
Após a eliminação brasileira, uma mensagem circulou nas redes sociais:
“Quem diria que ganharíamos da Noruega no esqui alpino e perderíamos para eles no futebol?”
A frase é divertida.
Mas contém uma enorme lição.
A Noruega não passou a produzir jogadores mais talentosos do que o Brasil.
Ela construiu instituições esportivas melhores.
Investiu durante décadas em:
- formação;
- ciência do esporte;
- clubes;
- treinadores;
- análise de desempenho;
- planejamento.
O futebol moderno tornou-se uma disputa entre sistemas.
Talento ou instituições?
Durante boa parte do século XX, o Brasil podia vencer graças ao enorme diferencial de talento.
Hoje isso já não basta.
O restante do mundo aprendeu a organizar seus talentos.
O diferencial competitivo mudou.
Antes era:
quem tinha os melhores jogadores.
Hoje é:
quem possui o melhor sistema para desenvolver jogadores.
Como ensina uma máxima da administração esportiva:
O talento ganha partidas. As instituições ganham campeonatos.
Ou ainda:
Um craque pode decidir um jogo. Uma boa instituição decide décadas.
Muito além do futebol
Talvez a maior contribuição desta reflexão seja perceber que esse fenômeno não é exclusivo do esporte.
Na ciência ocorre exatamente o mesmo.
O Brasil forma pesquisadores extraordinários.
Nossos cientistas ocupam posições de destaque em universidades e centros de pesquisa de todo o mundo.
Entretanto, convivemos com:
- financiamento instável;
- excesso de burocracia;
- descontinuidade das políticas públicas;
- baixa integração entre universidades e empresas;
- dificuldades para transformar pesquisa em inovação.
O problema não é falta de inteligência.
É dificuldade de transformar inteligência em resultado.
Na educação observamos fenômeno semelhante.
O país possui excelentes professores, pesquisadores e gestores.
Mas, sem continuidade administrativa, planejamento de longo prazo, avaliação consistente e políticas públicas baseadas em evidências, os resultados permanecem abaixo do potencial nacional.
O mesmo ocorre na inovação tecnológica, na administração pública e em diversos setores estratégicos.
O Brasil produz talentos em abundância.
O desafio histórico sempre foi outro:
transformar talento em capacidade institucional.
A verdadeira lição
Durante décadas, acreditamos que bastava revelar grandes jogadores.
Hoje sabemos que isso não é suficiente.
As grandes potências esportivas do século XXI venceram porque aprenderam algo fundamental:
instituições bem organizadas potencializam talentos.
O mesmo vale para universidades.
Para centros de pesquisa.
Para escolas.
Para empresas.
Para governos.
O futebol apenas tornou visível um problema estrutural do desenvolvimento brasileiro.
Conclusão
A eliminação da Seleção Brasileira não deve ser interpretada apenas como um fracasso esportivo.
Ela representa um convite à reflexão sobre um desafio muito maior.
O Brasil continua sendo uma potência mundial na formação de talentos.
Talvez nunca tenha deixado de ser.
Mas o século XXI demonstra que talento, isoladamente, já não garante liderança.
O futuro pertence às nações capazes de construir instituições eficientes, profissionais, transparentes e comprometidas com projetos de longo prazo.
A grande pergunta que o futebol nos deixa não é quem será o próximo treinador da Seleção.
É outra.
Como construir instituições capazes de transformar o extraordinário talento brasileiro em resultados sustentáveis?
Essa talvez seja uma das questões mais importantes para o futuro do esporte.
E, certamente, uma das mais importantes para o futuro do Brasil.
Síntese
O Brasil não sofre de escassez de talentos. Sofre, há décadas, da dificuldade de transformar talento em desempenho institucional. Essa é a verdadeira lição que o futebol oferece à ciência, à educação, à inovação e ao desenvolvimento nacional.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP – Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo