1. Os incêndios na UFPE: um alerta para a ciência brasileira
Os recentes incêndios registrados nas instalações da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), especialmente o ocorrido em 7 de outubro de 2026, representam um episódio lamentável e profundamente preocupante para a ciência, a pesquisa e a educação superior brasileiras.
Em um curto intervalo de tempo, a universidade enfrentou três ocorrências de incêndio que, embora não tenham provocado vítimas, causaram danos significativos à infraestrutura científica. Segundo informações divulgadas pela Reitoria da UFPE, os prejuízos materiais foram preliminarmente estimados em aproximadamente R$ 100 milhões.
Laboratórios, equipamentos, materiais e atividades de pesquisa desenvolvidas ao longo de muitos anos foram comprometidos.
Entretanto, as perdas ultrapassam os danos materiais e financeiros. Cada laboratório representa investimentos públicos, conhecimento acumulado, experimentos científicos, formação de pesquisadores e oportunidades de desenvolvimento tecnológico.
Equipamentos podem ser substituídos e instalações reconstruídas, mas experimentos interrompidos, materiais científicos insubstituíveis e anos de dedicação à pesquisa nem sempre podem ser recuperados.
As circunstâncias e causas dos incêndios precisam ser esclarecidas mediante investigações técnicas, independentes e transparentes, sem antecipação de responsabilidades.
O episódio evidencia uma questão que merece atenção nacional: o Brasil investe na construção de laboratórios e na aquisição de equipamentos científicos, mas precisa assegurar, com a mesma prioridade, sua manutenção, segurança e preservação.
O Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo (IVEPESP) considera que esses acontecimentos devem estimular uma agenda nacional de prevenção e proteção do patrimônio científico brasileiro.
2. O incêndio do Museu Nacional: uma tragédia que o Brasil não pode esquecer
Os recentes acontecimentos na UFPE remetem a uma das maiores tragédias da história científica e cultural brasileira: o incêndio do Museu Nacional, ocorrido em 2 de setembro de 2018, no Rio de Janeiro.
Vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Museu Nacional, fundado em 1818, reunia aproximadamente 20 milhões de itens, incluindo importantes coleções de história natural, arqueologia, antropologia, paleontologia e documentação histórica.
O incêndio destruiu grande parte desse patrimônio, comprometendo coleções científicas, documentos, materiais de pesquisa e registros acumulados ao longo de dois séculos.
A tragédia revelou a vulnerabilidade de instituições responsáveis pela preservação de acervos científicos e culturais de valor inestimável.
O episódio demonstrou também que os prejuízos decorrentes de acidentes dessa natureza ultrapassam os custos de reconstrução de edifícios e reposição de equipamentos. Parte do conhecimento e dos materiais perdidos não pode ser recuperada, independentemente dos recursos financeiros posteriormente disponibilizados.
Oito anos depois, os incêndios registrados na UFPE recolocam a proteção do patrimônio científico brasileiro no centro das preocupações nacionais.
Embora as causas e circunstâncias desses acontecimentos sejam distintas e devam ser analisadas individualmente, ambos evidenciam a importância de políticas permanentes de prevenção, manutenção, segurança e preservação.
O Brasil não pode continuar assistindo à destruição de patrimônios científicos construídos ao longo de décadas ou séculos sem transformar essas experiências em políticas públicas efetivas de prevenção.
3. Onze propostas para proteger o patrimônio científico brasileiro
Diante desses acontecimentos, o IVEPESP apresenta onze propostas que poderão orientar uma política nacional de proteção da infraestrutura científica, incluindo laboratórios, museus universitários, coleções e centros de pesquisa.
1. Instituir um Programa Nacional de Segurança da Infraestrutura Científica
Criar, sob coordenação do Ministério da Educação (MEC) e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), um programa permanente de prevenção de incêndios, acidentes e perdas patrimoniais.
O programa deverá estabelecer diretrizes nacionais de segurança, manutenção preventiva e preservação do patrimônio científico, respeitando as competências dos órgãos reguladores e das instituições responsáveis.
2. Realizar auditorias periódicas das condições de segurança
Promover avaliações técnicas das instalações elétricas, sistemas de detecção e combate a incêndios, armazenamento de substâncias perigosas, equipamentos de alta potência, sistemas de ventilação, rotas de evacuação e condições estruturais dos edifícios.
As auditorias deverão priorizar instalações de maior risco e edificações antigas, inclusive aquelas que abrigam acervos científicos insubstituíveis.
3. Assegurar financiamento permanente para manutenção preventiva
Estabelecer recursos orçamentários específicos para manutenção e modernização da infraestrutura científica.
A manutenção não pode continuar sendo tratada como despesa secundária diante dos investimentos em novos edifícios e equipamentos.
Os projetos de implantação de laboratórios deverão contemplar, desde sua concepção, os custos de manutenção, operação e segurança ao longo de sua vida útil.
4. Implantar sistemas inteligentes de monitoramento e alerta precoce
Estimular a utilização de sensores e tecnologias de monitoramento para detectar fumaça, variações anormais de temperatura, falhas elétricas e vazamentos de gases.
Ferramentas de inteligência artificial poderão contribuir para identificar padrões de risco e apoiar decisões preventivas, sempre como complemento aos sistemas certificados de segurança.
5. Estabelecer planos de contingência e continuidade científica
Cada instituição deverá manter planos de emergência e procedimentos para assegurar a continuidade das atividades acadêmicas e científicas após acidentes.
Esses planos deverão prever a proteção de materiais críticos, a transferência temporária de experimentos e o apoio a estudantes, pesquisadores e técnicos afetados.
6. Proteger dados, coleções e resultados científicos
Implantar políticas institucionais de preservação digital, armazenamento redundante, cópias de segurança externas e procedimentos periódicos de recuperação de informações.
Também deverão ser adotadas medidas específicas para proteger coleções científicas, documentos históricos, amostras biológicas e materiais cuja perda possa ser irreversível.
7. Promover capacitação permanente em segurança laboratorial
Estabelecer programas periódicos de treinamento para professores, pesquisadores, técnicos e estudantes.
A formação deverá incluir prevenção de incêndios, manipulação de substâncias perigosas, procedimentos de emergência e proteção de acervos científicos.
8. Criar mecanismos emergenciais de recuperação da infraestrutura científica
Articular MEC, MCTI, FINEP, CNPq, CAPES e fundações estaduais de amparo à pesquisa para estabelecer instrumentos que permitam recuperar rapidamente laboratórios e instalações atingidos por acidentes, conforme suas competências legais.
Esses mecanismos deverão considerar também a continuidade dos projetos e a situação dos estudantes e pesquisadores afetados.
9. Organizar uma rede nacional de compartilhamento de laboratórios
Criar instrumentos de cooperação entre universidades e institutos de pesquisa para permitir a utilização temporária de equipamentos e instalações por pesquisadores cujos laboratórios tenham sido atingidos por acidentes.
A iniciativa poderá aproveitar as redes de laboratórios multiusuários já existentes.
10. Assegurar transparência, investigação e aprendizado institucional
Estabelecer procedimentos padronizados para registro e investigação de acidentes, identificação de causas e acompanhamento da implementação de medidas corretivas.
Os resultados deverão contribuir para aperfeiçoar continuamente os protocolos de segurança e prevenir a repetição de ocorrências semelhantes.
11. Criar o Índice Nacional de Segurança da Infraestrutura Científica (INSIC)
O IVEPESP propõe a criação de um instrumento nacional de avaliação periódica das condições de segurança dos laboratórios, museus universitários, coleções científicas e instituições de pesquisa.
O índice deverá permitir identificar vulnerabilidades, estabelecer prioridades de investimento, acompanhar medidas preventivas e estimular uma cultura institucional de segurança.
4. O Índice Nacional de Segurança da Infraestrutura Científica — INSIC
O INSIC constitui uma proposta do IVEPESP para transformar a prevenção de acidentes em uma política pública permanente, baseada em indicadores objetivos e verificáveis.
Sua metodologia deverá considerar as diferenças entre laboratórios, instalações experimentais, museus universitários e instituições responsáveis pela preservação de acervos científicos.
Propõe-se inicialmente a avaliação dos seguintes indicadores:
| Indicador | Critério de avaliação |
|---|---|
| Avaliação de riscos | Percentual de instalações com avaliação de risco atualizada |
| Manutenção preventiva | Percentual de instalações com manutenção em dia |
| Proteção contra incêndios | Adequação dos sistemas de detecção, alarme e proteção |
| Capacitação | Percentual de profissionais e estudantes com treinamento atualizado |
| Planos de contingência | Existência, atualização e testes dos procedimentos de emergência |
| Preservação de dados e acervos | Sistemas de backup e medidas de proteção de materiais científicos |
| Histórico de incidentes | Ocorrências registradas e medidas corretivas implementadas |
| Investimentos preventivos | Recursos destinados à manutenção e segurança em relação às necessidades identificadas |
Poderá ser estudada a adoção de uma escala de avaliação de 0 a 100 pontos, com critérios diferenciados conforme o nível de risco e a natureza das atividades desenvolvidas.
A metodologia deverá ser validada por especialistas, evitando comparações inadequadas entre instituições com características distintas.
O INSIC não deverá substituir as fiscalizações legalmente previstas nem constituir instrumento meramente punitivo. Sua finalidade será orientar políticas públicas, apoiar a gestão institucional e promover investimentos preventivos.
A divulgação dos resultados deverá conciliar transparência com a proteção de informações sensíveis sobre instalações científicas.
5. Projeto-piloto no Estado de São Paulo
O IVEPESP propõe iniciar o desenvolvimento e a validação do INSIC por meio de um projeto-piloto envolvendo universidades e instituições de pesquisa paulistas.
A iniciativa poderá contar, mediante adesão e articulação institucional, com a participação da USP, UNESP, UNICAMP, UNIFESP, UFABC, IPT, FAPESP e outras instituições interessadas.
O projeto deverá contemplar quatro etapas:
- Diagnóstico inicial: seleção de laboratórios, museus universitários e instalações científicas com diferentes perfis de risco.
- Desenvolvimento metodológico: definição dos indicadores, pesos, critérios de classificação e procedimentos de verificação.
- Aplicação experimental: identificação de vulnerabilidades, avaliação dos sistemas de segurança e proposição de medidas preventivas.
- Validação e expansão: análise dos resultados, aperfeiçoamento da metodologia e apresentação de proposta de implantação nacional.
A iniciativa poderá também explorar o uso de inteligência artificial para análise de dados de manutenção, identificação de padrões de risco e apoio à tomada de decisões.
O projeto-piloto permitirá avaliar a viabilidade técnica e operacional do INSIC antes de sua eventual expansão para outras regiões do País.
6. Agenda nacional de implementação
Para transformar as propostas em medidas concretas, o IVEPESP sugere a adoção de um cronograma inicial, a ser discutido entre os órgãos públicos e as instituições participantes.
| Prazo proposto | Ações prioritárias |
|---|---|
| 30 dias | Constituição de grupo interinstitucional e definição das medidas emergenciais de recuperação da UFPE |
| 90 dias | Identificação das instalações científicas prioritárias e definição dos critérios de avaliação de riscos |
| 180 dias | Apresentação do Programa Nacional de Segurança e da metodologia preliminar do INSIC |
| 12 meses | Implantação do projeto-piloto paulista e início das auditorias e ações de capacitação |
| 24 meses | Avaliação dos resultados, aperfeiçoamento dos indicadores e proposta de expansão nacional |
A implementação deverá ser acompanhada por relatórios periódicos, permitindo verificar os resultados alcançados, as dificuldades encontradas e os investimentos necessários.
7. Governança e financiamento
A proteção do patrimônio científico brasileiro exige uma atuação articulada entre o Governo Federal, os governos estaduais, as universidades, os institutos de pesquisa, as agências de fomento e as entidades representativas da comunidade científica.
O MEC e o MCTI poderão exercer papel central na coordenação das diretrizes nacionais.
A FINEP poderá contribuir com instrumentos de apoio à modernização da infraestrutura científica, enquanto o CNPq, a CAPES e as fundações estaduais de amparo à pesquisa poderão participar de iniciativas compatíveis com suas respectivas competências.
As universidades e instituições de pesquisa deverão assumir responsabilidades na implementação dos programas de manutenção, segurança e contingência, com apoio de profissionais especializados e dos órgãos de fiscalização competentes.
O financiamento deverá contemplar três dimensões complementares: a recuperação de instalações danificadas, a modernização dos sistemas de proteção e a manutenção preventiva permanente.
É fundamental evitar que a preservação do patrimônio científico dependa exclusivamente de recursos emergenciais liberados após acidentes.
8. Quanto custa não prevenir?
A estimativa preliminar de aproximadamente R$ 100 milhões em prejuízos materiais decorrentes do incêndio de 7 de outubro na UFPE evidencia a dimensão econômica que acidentes dessa natureza podem alcançar.
Entretanto, os custos reais ultrapassam os valores dos equipamentos e das instalações destruídas.
Segundo informações divulgadas pela Reitoria, o incêndio comprometeu pesquisas desenvolvidas ao longo de aproximadamente 20 anos e afetou cerca de 80 dissertações e teses.
Devem ser considerados também os experimentos interrompidos, a perda de materiais científicos, a paralisação de projetos e os impactos sobre a formação de pesquisadores.
A tragédia do Museu Nacional, em 2018, demonstrou que determinadas perdas não podem ser plenamente reparadas, independentemente dos recursos financeiros posteriormente mobilizados. Apesar da recuperação de parte das coleções, documentos, livros e materiais científicos foram definitivamente perdidos
Esses episódios reforçam a necessidade de incorporar a prevenção de riscos ao planejamento dos investimentos científicos.
Embora não seja possível afirmar que todas essas perdas poderiam ter sido evitadas, é indispensável reconhecer que políticas de manutenção, monitoramento e segurança podem reduzir a probabilidade de acidentes e limitar suas consequências.
A manutenção preventiva deve ser reconhecida como parte integrante do financiamento da ciência brasileira, e não como uma despesa secundária.
O custo da prevenção precisa ser avaliado diante do valor econômico, científico, histórico e social do patrimônio que se pretende preservar.
9. Considerações finais
Os incêndios ocorridos na Universidade Federal de Pernambuco representam um alerta que não pode ser ignorado pela sociedade brasileira.
A recuperação das instalações atingidas deve constituir uma prioridade imediata, acompanhada de medidas que assegurem a continuidade das pesquisas e a proteção dos estudantes, pesquisadores e técnicos afetados.
Entretanto, a resposta institucional precisa ultrapassar a reconstrução dos laboratórios.
A experiência brasileira demonstra que a preservação do patrimônio científico exige políticas permanentes, capazes de antecipar riscos, orientar investimentos e assegurar condições adequadas de segurança.
O incêndio do Museu Nacional, em 2018, permanece como um dos episódios mais dolorosos da história da ciência e da cultura brasileiras. Oito anos depois, os acontecimentos na UFPE reforçam a urgência de transformar essas experiências em aprendizado institucional.
As onze propostas apresentadas pelo IVEPESP, especialmente a criação do Índice Nacional de Segurança da Infraestrutura Científica (INSIC), procuram contribuir para essa agenda.
O Instituto propõe que o MEC e o MCTI promovam uma reunião nacional, com a participação de universidades, instituições de pesquisa, agências de fomento e entidades científicas, para discutir a implantação de um Programa Nacional de Segurança da Infraestrutura Científica.
O IVEPESP coloca-se à disposição para colaborar no desenvolvimento da metodologia do INSIC e na articulação de um projeto-piloto no Estado de São Paulo.
É necessário que o País avance de uma cultura predominantemente reativa, baseada na recuperação após acidentes, para uma cultura de prevenção, manutenção e proteção permanente do patrimônio científico.
A ciência brasileira não pode depender apenas de investimentos para construir novos laboratórios e adquirir equipamentos. Precisa assegurar que o conhecimento, as instalações e os acervos construídos ao longo de gerações sejam preservados para o futuro.
Proteger os laboratórios é proteger o conhecimento. Preservar o conhecimento é proteger o futuro do Brasil.
Prof. Dr. Hélio Dias Presidente do IVEPESP Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo Av. Paulista, nº 1636, Conjunto 4, 15º Pavimento Cerqueira César – São Paulo/SP CEP 01310-200 E-mail: [email protected]