O Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP) acompanha com atenção a profunda transformação em curso no ensino técnico brasileiro, especialmente no Estado de São Paulo, onde escolas técnicas e instituições como o Centro Paula Souza, o SENAI e diversas iniciativas regionais vêm desempenhando papel estratégico na construção de um novo paradigma de formação profissional.
As escolas técnicas paulistas nasceram em um contexto histórico marcado pela industrialização acelerada do pós-guerra. Naquele período, o Brasil precisava urgentemente formar profissionais capazes de operar máquinas, interpretar processos industriais e sustentar a expansão econômica nacional. O modelo educacional então concebido foi decisivo para a consolidação de polos industriais em regiões como ABC Paulista, Piracicaba, Limeira, Campinas, Sorocaba e São José dos Campos.
O SENAI, em especial, desempenhou papel absolutamente central nesse processo histórico. Sua estrutura articulada com o setor produtivo permitiu a formação rápida e altamente qualificada de profissionais para áreas estratégicas da indústria nacional, consolidando-se como uma das experiências mais exitosas de educação profissional do mundo em desenvolvimento. Ao aproximar permanentemente escola e indústria, o SENAI ajudou a construir não apenas trabalhadores especializados, mas também uma cultura industrial e tecnológica que marcou gerações.
Entretanto, o século XXI alterou profundamente a natureza do trabalho.
A automação avançada, a digitalização da economia, a inteligência artificial, a robótica, a internet das coisas e a análise massiva de dados transformaram radicalmente o perfil profissional demandado pela sociedade contemporânea.
O antigo “chão de fábrica”, baseado em tarefas repetitivas e segmentadas, cede lugar a ambientes inteligentes, conectados e altamente dinâmicos, nos quais a capacidade de aprender continuamente passa a ser mais importante do que a simples execução operacional.
Na economia industrial clássica, havia uma separação relativamente clara entre quem executava e quem pensava. Hoje, essa fronteira praticamente desapareceu.
O técnico contemporâneo precisa interpretar dados, compreender sistemas complexos, atuar colaborativamente, integrar múltiplos conhecimentos e resolver problemas inéditos em tempo real. O profissional moderno deixa de ser apenas operador de ferramentas para tornar-se agente ativo da inovação.
Nesse novo cenário, o IVEPESP entende que o maior desafio não está na capacidade das escolas, dos professores ou dos estudantes, mas no desenho institucional que ainda regula grande parte da educação brasileira.
Persistem estruturas curriculares excessivamente fragmentadas, separações artificiais entre teoria e prática, modelos avaliativos centrados apenas em métricas quantitativas e mecanismos regulatórios pouco flexíveis diante da velocidade das transformações tecnológicas.
O problema central não é humano. É estrutural.
Apesar dessas limitações, o que se observa em muitas ETECs, FATECs, unidades do SENAI e escolas técnicas regionais é um movimento silencioso, porém extremamente poderoso, de transformação educacional construída “na ponta”.
Professores vêm convertendo antigos laboratórios em ambientes de investigação aplicada. Metodologias baseadas em projetos (Project Based Learning – PBL) aproximam os estudantes de problemas reais da indústria, da sociedade e dos ecossistemas locais de inovação. Escolas deixam de ser apenas centros de treinamento operacional e tornam-se hubs regionais de criatividade, empreendedorismo e desenvolvimento tecnológico.
O SENAI novamente assume protagonismo nessa transição. Sua capacidade histórica de diálogo com o setor produtivo, aliada aos investimentos recentes em Indústria 4.0, inteligência artificial, manufatura avançada, automação e inovação aplicada, posiciona a instituição como um dos principais vetores da modernização tecnológica brasileira.
Da mesma forma, o modelo paulista de educação técnica demonstra que o Brasil possui experiências concretas capazes de sustentar um sistema educacional de padrão internacional, fortemente conectado às demandas contemporâneas do trabalho e da inovação.
Os resultados já começam a aparecer.
Egressos dessas instituições passam a ocupar posições estratégicas em empresas de tecnologia, centros de pesquisa, universidades, startups e ecossistemas de inovação. Muitos deixam de buscar apenas inserção no mercado tradicional para tornarem-se criadores de novos negócios, soluções e tecnologias.
Para o IVEPESP, a agenda das próximas décadas não pode limitar-se à expansão de vagas ou à aquisição de novos equipamentos. O verdadeiro desafio consiste em construir um novo design institucional para a educação técnica e profissional brasileira — mais flexível, interdisciplinar, conectado à inovação e compatível com a velocidade das transformações tecnológicas globais.
As escolas técnicas brasileiras já demonstram possuir competência, inteligência institucional e capital humano para liderar essa transformação.
O que ainda falta, muitas vezes, é coragem política para reformar estruturas concebidas para o século XX e permitir que o talento de nossos jovens alcance plenamente a excelência internacional.
Autores:
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
IVEPESP
Perfil institucional de Helio Dias
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Prof. Dr. Luiz Antonio Tozi
Diretor da Faculdade de Tecnologia de São José dos Campos
Ex-Secretário Executivo do Ministério da Educação
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