A recente apresentação do Prof. Gerd Kortemeyer, realizada na Universidade de Viena em maio de 2026, intitulada “Assessment, Feedback, Competence: Rethinking Higher Education Teaching in the Age of Generative AI”, traz uma das reflexões mais profundas e relevantes já produzidas sobre os impactos da Inteligência Artificial Generativa no ensino superior contemporâneo.

O conteúdo apresentado pela ETH Zürich possui enorme relevância para universidades brasileiras, centros universitários, institutos federais, FATECs, ETECs e formuladores de políticas públicas educacionais, sobretudo porque abandona visões simplistas — tanto tecnofóbicas quanto tecnoutópicas — e enfrenta diretamente uma questão central do nosso tempo:

Como avaliar, ensinar e formar competências humanas em um mundo onde as respostas passaram a ser praticamente gratuitas?


O fim do “acertar a resposta” como indicador de aprendizagem

Um dos pontos mais impactantes da apresentação é a constatação de que os modernos modelos multimodais de IA já conseguem resolver mais de 90% dos problemas típicos oferecidos em disciplinas introdutórias de STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics).

Segundo Kortemeyer, basta fotografar um exercício e solicitar ao sistema: “solve this”. O paradigma tradicional da avaliação entra então em colapso.

Historicamente, cursos de Física, Engenharia, Matemática e outras áreas utilizaram a obtenção da resposta correta como um “proxy” da aprendizagem. Entretanto, conforme destacado na apresentação, o verdadeiro aprendizado ocorria muitas vezes de maneira implícita:

  • no esforço cognitivo;
  • na tentativa e erro;
  • na modelagem;
  • na argumentação;
  • na discussão entre colegas;
  • na capacidade de pensar como um cientista.

A IA rompe exatamente esse elo.

Hoje, obter a resposta correta não significa mais necessariamente que houve compreensão profunda do fenômeno estudado.


O desaparecimento do “currículo oculto”

A apresentação enfatiza um aspecto extremamente sofisticado da aprendizagem humana: o chamado hidden curriculum (“currículo oculto”).

Em cursos tradicionais de Física, por exemplo, os estudantes aprendiam não apenas Leis de Kirchhoff, Termodinâmica ou Mecânica Quântica, mas também:

  • resiliência intelectual;
  • persistência;
  • raciocínio estruturado;
  • tolerância à frustração;
  • capacidade de abstração;
  • pensamento científico.

Grande parte disso ocorria nas interações sociais:

  • grupos de estudo;
  • discussões com colegas;
  • monitorias;
  • diálogos com professores;
  • sessões longas de resolução de problemas.

Com a IA assumindo o papel de “parceiro de conversa”, existe o risco de desaparecimento desse ecossistema cognitivo e social da aprendizagem universitária.


A falsa promessa de que a IA automaticamente melhora a educação

A ETH Zürich adota uma postura extremamente cautelosa e cientificamente rigorosa.

A apresentação afirma explicitamente que:

“Atualmente não existe comprovação de que estudantes aprendam melhor com IA.”

Mais grave ainda: há evidências crescentes de riscos de:

  • excesso de confiança;
  • superficialidade cognitiva;
  • dependência tecnológica;
  • aprendizado raso;
  • substituição da compreensão pela simples geração automática de respostas.

Essa observação possui enorme importância no contexto brasileiro, onde frequentemente se vende a IA como solução automática para todos os problemas educacionais.

O IVEPESP considera fundamental que o debate nacional abandone discursos simplistas e avance para uma visão baseada em evidências científicas robustas.


A volta da avaliação centrada no processo

Talvez o ponto mais revolucionário da proposta apresentada pela ETH Zürich seja a mudança do foco da avaliação.

Se “as respostas ficaram baratas”, então o valor passa a estar no processo de construção da solução.

A apresentação propõe avaliações centradas em:

  • modelagem;
  • raciocínio;
  • derivação;
  • validação;
  • argumentação;
  • reconstrução do pensamento;
  • resolução aberta de problemas;
  • competências de problem-solving.

Curiosamente, isso representa uma espécie de “retorno ao passado”, com valorização novamente de:

  • provas manuscritas;
  • resolução em papel;
  • demonstrações abertas;
  • etapas intermediárias do raciocínio.

A IA paradoxalmente força a educação superior a recuperar dimensões profundamente humanas da aprendizagem.


O Projeto Ethel: uma das iniciativas mais avançadas do mundo

A ETH Zürich desenvolveu o Projeto Ethel, uma plataforma institucional de IA voltada especificamente ao ensino superior.

O projeto apresenta características extremamente relevantes:

  • acesso universal dos estudantes a modelos avançados;
  • soberania dos dados;
  • independência de fornecedores;
  • integração com materiais das disciplinas;
  • chatbots contextualizados;
  • feedback automático;
  • suporte à correção de avaliações;
  • uso de múltiplos modelos simultaneamente.

Um dado particularmente impressionante é o custo operacional:

  • aproximadamente CHF 1,25 por aluno/mês utilizando GPT-5.4.

Isso desmonta parcialmente a narrativa de que sistemas institucionais de IA necessariamente seriam inviáveis economicamente.


IA não como substituta do professor, mas como amplificadora pedagógica

A posição oficial do reitorado da ETH Zürich é extremamente clara:

“Não utilizar IA como substituta de pessoas, mas como ferramenta.”

Essa talvez seja uma das formulações mais importantes do debate contemporâneo.

A proposta não é automatizar completamente a educação, mas utilizar IA para ampliar metodologias pedagógicas comprovadamente eficazes.

O foco desloca-se então para:

  • feedback em larga escala;
  • personalização;
  • tutoria;
  • aprendizagem ativa;
  • colaboração;
  • avaliação processual;
  • acompanhamento contínuo.

Correção automatizada de provas manuscritas: um divisor de águas

Um dos aspectos mais disruptivos da apresentação refere-se à utilização de IA para correção de provas abertas manuscritas.

No estudo apresentado:

  • 252 estudantes;
  • 3041 páginas manuscritas;
  • 85 itens de rubrica avaliativa.

O sistema utilizou:

  • modelos multimodais;
  • rubricas estruturadas;
  • teoria de resposta ao item (IRT);
  • estatística bayesiana;
  • validação humana.

O mais relevante talvez seja a arquitetura “human-in-the-loop”:

  • a IA realiza a correção inicial;
  • o estudante visualiza os critérios;
  • pode solicitar veto;
  • itens vetados são corrigidos por humanos.

Isso demonstra que a IA pode reduzir dramaticamente a carga operacional da avaliação sem eliminar a supervisão humana.


Um alerta importante para o ensino superior brasileiro

O Brasil ainda debate IA educacional muitas vezes em níveis extremamente superficiais:

  • proibir ou liberar;
  • detectar plágio;
  • regulamentar uso em trabalhos;
  • impedir “cola”.

Enquanto isso, instituições líderes mundiais já estão:

  • redesenhando modelos de avaliação;
  • reconstruindo currículos;
  • reformulando exames;
  • desenvolvendo plataformas próprias;
  • criando ecossistemas institucionais soberanos de IA.

O risco para o Brasil é enorme:

não apenas perder competitividade tecnológica, mas manter modelos pedagógicos completamente incompatíveis com a nova realidade cognitiva global.


A redescoberta da aprendizagem humana

Talvez a conclusão mais sofisticada da apresentação seja paradoxal:

quanto mais avançada a IA se torna, mais importantes ficam as dimensões humanas da educação.

A ETH Zürich defende explicitamente:

  • retorno à comunidade universitária presencial;
  • aprendizagem entre pares;
  • interação humana;
  • cultura acadêmica;
  • desenvolvimento de resiliência;
  • espaço seguro para errar e aprender;
  • fortalecimento do campus como ambiente social de aprendizagem.

A IA, nesse contexto, não elimina a universidade.

Ela obriga a universidade a redescobrir sua essência.


Considerações finais do IVEPESP

O IVEPESP considera que o material apresentado pela ETH Zürich representa um marco estratégico no debate mundial sobre Inteligência Artificial e Ensino Superior.

A experiência demonstra que:

  1. A IA tornará obsoletos muitos modelos tradicionais de avaliação;
  2. O foco precisará migrar da resposta para o processo;
  3. Competências cognitivas profundas tornar-se-ão ainda mais importantes;
  4. A aprendizagem social e colaborativa ganhará novo protagonismo;
  5. Sistemas híbridos “IA + supervisão humana” tendem a dominar a avaliação universitária;
  6. Instituições que não se adaptarem rapidamente poderão perder relevância acadêmica global.

O Brasil precisa urgentemente ampliar esse debate em:

  • universidades;
  • agências reguladoras;
  • CAPES;
  • CNPq;
  • INEP;
  • Conselhos de Educação;
  • sistemas estaduais;
  • instituições privadas;
  • redes técnicas e tecnológicas.

A Inteligência Artificial não representa apenas uma nova ferramenta tecnológica.

Ela redefine os próprios fundamentos epistemológicos da educação superior.


Autores

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
[email protected]

Prof. Dr. Gerd Kortemeyer
Rectorate and AI Center, ETH Zurich
[email protected]

Referência base:
Apresentação “Assessment, Feedback, Competence: Rethinking Higher Education Teaching in the Age of Generative AI”, Universidade de Viena, maio de 2026.