Durante muito tempo, atividade física e desenvolvimento intelectual foram tratados quase como dimensões independentes da vida humana. De um lado, o exercício associado à saúde cardiovascular, ao controle do peso e à manutenção da capacidade funcional. De outro, leitura, estudo e atividades intelectuais como instrumentos para preservar e desenvolver as capacidades cognitivas.
A ciência contemporânea mostra que essa separação é artificial.
Um amplo estudo publicado no Psychological Bulletin, periódico da American Psychological Association, reforça de maneira particularmente consistente a relação entre movimento corporal e funcionamento cognitivo.
O trabalho, intitulado Effects of Acute Exercise on Cognitive Function: A Meta-Review of 30 Systematic Reviews With Meta-Analyses, foi realizado por Yu-Kai Chang, Fei-Fei Ren, Ruei-Hong Li, Jing-Yi Ai, Shih-Chun Kao e Jennifer L. Etnier.
Trata-se de uma meta-revisão, isto é, uma pesquisa que reúne e analisa resultados provenientes de meta-análises já publicadas. Foram consideradas 30 revisões sistemáticas com meta-análises, correspondentes a 383 estudos únicos e 18.347 participantes.
Uma sessão de exercício já pode fazer diferença
Um dos aspectos mais interessantes da pesquisa está justamente na expressão “acute exercise” — exercício agudo.
Os pesquisadores não estavam examinando apenas os conhecidos benefícios decorrentes de meses ou anos de prática regular de atividade física. O objetivo era investigar o que acontece com a cognição em associação a uma sessão de exercício físico.
Os resultados indicaram um efeito positivo estatisticamente significativo sobre o desempenho cognitivo, com tamanho de efeito global pequeno a moderado — diferença média padronizada de 0,33, com intervalo de confiança de 95% entre 0,24 e 0,42.
Isso merece atenção.
Não significa que uma caminhada, uma corrida ou alguns minutos de exercício transformarão instantaneamente nossa capacidade intelectual. A ciência não autoriza tal conclusão.
Significa, porém, que existe evidência acumulada de que o funcionamento cognitivo pode ser favorecido mesmo após uma única sessão de atividade física.
Atenção e funções executivas entre os principais benefícios
Os pesquisadores encontraram efeitos positivos em diferentes dimensões da cognição.
Os resultados médios observados foram:
- atenção: 0,37;
- funções executivas: 0,36;
- memória: 0,23;
- processamento de informações: 0,20.
Os maiores efeitos específicos apareceram, portanto, justamente em atenção e funções executivas.
As funções executivas são especialmente importantes porque estão relacionadas à capacidade de planejar, controlar impulsos, alternar estratégias, resolver problemas, tomar decisões e manter o foco diante de distrações.
São capacidades fundamentais para a aprendizagem, para o trabalho e para inúmeras atividades da vida cotidiana.
O momento posterior ao exercício parece especialmente importante
Outro resultado relevante foi o momento em que as funções cognitivas foram avaliadas.
O tempo da avaliação mostrou-se um moderador significativo dos resultados, e os maiores benefícios foram encontrados quando o desempenho cognitivo foi medido após o término do exercício.
Esse achado levanta uma questão interessante para instituições educacionais e ambientes de trabalho:
será que estamos utilizando adequadamente a atividade física como instrumento de preparação para atividades que exigem concentração e desempenho cognitivo?
É uma pergunta que merece ser investigada.
Não se trata de transformar exercício físico em medicamento nem de prescrever uma fórmula universal. Mas talvez devamos abandonar definitivamente a ideia de que movimentar-se representa simplesmente uma interrupção do trabalho intelectual.
Em determinadas circunstâncias, movimentar-se pode contribuir para preparar o cérebro para trabalhar melhor.
Uma relação que atravessa diferentes idades
Outro resultado chama a atenção.
Características como idade e condição cognitiva dos participantes não modificaram significativamente o efeito positivo geral. Da mesma forma, intensidade, tipo e duração do exercício não apareceram como moderadores significativos desse benefício na análise realizada.
Isso não significa que qualquer exercício seja igualmente indicado para qualquer pessoa.
Condições clínicas, idade, capacidade funcional e limitações individuais continuam exigindo atenção e, quando necessário, orientação profissional.
A conclusão científica é mais específica: dentro do conjunto de estudos analisados, os benefícios cognitivos agudos mostraram-se relativamente generalizáveis entre diferentes populações e modalidades de exercício.
É uma diferença importante entre aquilo que os dados demonstram e aquilo que poderíamos indevidamente extrapolar.
Uma reflexão necessária para a educação
Para o IVEPESP, esses resultados apresentam uma dimensão particularmente interessante.
A organização tradicional da escola frequentemente separou a atividade intelectual da atividade corporal. Há a hora de “aprender” e a hora de “fazer educação física”, como se o cérebro deixasse de participar quando o corpo entra em movimento.
A neurociência e a psicologia contemporâneas vêm tornando essa divisão cada vez menos sustentável.
Se atividade física pode favorecer atenção, funções executivas, memória e processamento de informações, precisamos refletir sobre a própria organização do tempo escolar.
Intervalos ativos, atividades físicas adequadamente distribuídas ao longo da jornada e maior valorização da Educação Física podem deixar de ser vistos apenas como elementos relacionados à saúde ou ao lazer e passar também a integrar uma visão mais abrangente das condições que favorecem a aprendizagem.
Isso se torna ainda mais relevante diante da crescente presença de telas na vida de crianças e adolescentes.
Uma escola tecnologicamente avançada não deve ser uma escola fisicamente imóvel.
Também há implicações para o envelhecimento
A discussão não se limita à infância e à juventude.
Em sociedades que envelhecem rapidamente — como ocorre no Brasil — preservar autonomia funcional e capacidade cognitiva tornou-se uma das grandes questões de saúde pública do século XXI.
Os resultados dessa meta-revisão somam-se a um corpo crescente de evidências que reforça a necessidade de enxergarmos atividade física não apenas sob a perspectiva muscular ou cardiovascular.
Cérebro e corpo pertencem ao mesmo organismo.
Políticas de envelhecimento saudável, portanto, precisam considerar cada vez mais a atividade física como parte de uma estratégia integrada de manutenção da saúde e da funcionalidade ao longo da vida.
Movimento em uma sociedade cada vez mais sedentária
Há ainda uma contradição contemporânea que merece reflexão.
Nunca tivemos tantas ferramentas para ampliar nossas capacidades intelectuais. Computadores, smartphones e, mais recentemente, sistemas de Inteligência Artificial permitem realizar tarefas cognitivas em escala extraordinária.
Ao mesmo tempo, essas tecnologias podem reduzir drasticamente a necessidade de movimento.
Podemos trabalhar, estudar, realizar reuniões, fazer compras, conversar com outras pessoas e acessar entretenimento permanecendo horas diante de uma tela.
A transformação digital não deve, portanto, produzir uma sociedade intelectualmente conectada, porém fisicamente imóvel.
Talvez um dos desafios da era da Inteligência Artificial seja justamente reaprender algo elementar:
para cuidar da mente, também precisamos movimentar o corpo.
O que a pesquisa não permite concluir
É igualmente importante evitar interpretações exageradas.
O estudo não demonstra que exercício substitua sono adequado, alimentação equilibrada, tratamento médico, educação de qualidade ou estimulação intelectual.
Também não significa que quanto mais intenso o exercício, maior será necessariamente o desempenho cognitivo.
E os efeitos encontrados, embora consistentes, foram em média pequenos a moderados.
A grande força do trabalho está em outro aspecto: ao reunir resultados de dezenas de meta-análises e centenas de estudos, ele oferece evidência robusta de que atividade física e cognição estão relacionadas inclusive em escala temporal muito curta.
Essa constatação é suficientemente importante por si mesma.
Conclusão
A mensagem que emerge desse conjunto de evidências é ao mesmo tempo científica e simples:
movimentar o corpo também pode beneficiar a mente.
Uma única sessão de exercício pode produzir efeitos positivos mensuráveis sobre funções cognitivas, especialmente atenção e funções executivas. Quando considerada juntamente com os benefícios cardiovasculares, metabólicos, musculoesqueléticos e psicológicos já amplamente conhecidos da atividade física, essa evidência reforça a necessidade de combatermos o sedentarismo em todas as etapas da vida.
Para a educação, significa repensar a falsa oposição entre movimento e aprendizagem.
Para o mundo do trabalho, significa reconhecer que pequenas interrupções destinadas à atividade física talvez não representem perda de produtividade, mas possam contribuir para recuperá-la.
Para uma sociedade que envelhece, significa incorporar o movimento às estratégias de preservação da autonomia e da qualidade de vida.
E, para todos nós, talvez fique uma mensagem ainda mais simples:
quando movimentamos o corpo, o cérebro não fica parado.
Referência científica
CHANG, Yu-Kai; REN, Fei-Fei; LI, Ruei-Hong; AI, Jing-Yi; KAO, Shih-Chun; ETNIER, Jennifer L. Effects of Acute Exercise on Cognitive Function: A Meta-Review of 30 Systematic Reviews With Meta-Analyses. Psychological Bulletin, v. 151, n. 2, p. 240–259, 2025. DOI: 10.1037/bul0000460.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP – Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo