Recebi com especial satisfação o livro Dos Venenos aos Remédios – trinta anos de resiliência, empreendedorismo & inovação, de autoria de Ana Sílvia Sartori Barraviera Seabra Ferreira, Benedito Barraviera, Leandro Rocha, Letícia Araújo da Cunha e Rui Seabra Ferreira Jr.
A obra registra a trajetória do Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos da Universidade Estadual Paulista – CEVAP-Unesp, sediado em Botucatu, e reúne aproximadamente uma centena de depoimentos sobre mais de três décadas de pesquisa, desafios institucionais, descobertas, inovação e construção científica. (Agência Fapesp)
Na dedicatória que gentilmente recebi dos autores encontra-se uma mensagem que, de certa maneira, sintetiza o espírito de toda a obra:
“Hélio Dias, que esta obra sirva de incentivo para que alcance sucesso, com muita resiliência, empreendedorismo e inovação!”
São precisamente essas três palavras — resiliência, empreendedorismo e inovação — que ajudam a compreender por que a experiência retratada neste livro merece ser conhecida não apenas pela comunidade científica, mas também por gestores públicos, empresários, estudantes, professores e por todos aqueles interessados no futuro da ciência brasileira.
Da pesquisa científica à solução para a sociedade
O título Dos Venenos aos Remédios traduz, de forma particularmente feliz, uma das dimensões mais fascinantes da ciência: substâncias produzidas pela natureza que inicialmente representam perigo podem, quando investigadas pelo conhecimento científico, revelar moléculas e mecanismos capazes de contribuir para novas alternativas terapêuticas.
O CEVAP nasceu em 1993 e desenvolveu ao longo das décadas uma atuação voltada justamente à investigação de venenos, toxinas e seus componentes, com crescente orientação para a ciência translacional — aquela que procura reduzir a distância entre a descoberta realizada no laboratório e sua aplicação concreta em benefício das pessoas. (Agência Fapesp)
Essa talvez seja uma das maiores virtudes do livro. Ele mostra que produzir conhecimento é indispensável, mas que existe uma segunda etapa igualmente desafiadora: transformar conhecimento em inovação.
Entre as iniciativas apresentadas na trajetória do CEVAP estão o desenvolvimento do Selante Heterólogo de Fibrina, estudado para aplicações como o tratamento de úlceras venosas crônicas, e do Soro Antiapílico, desenvolvido especificamente para envenenamentos provocados por abelhas africanizadas. A obra acompanha os processos científicos, institucionais e tecnológicos envolvidos nesses projetos. (Agência Fapesp)
Não estamos, portanto, apenas diante da história de um centro acadêmico. Estamos diante de uma experiência de transformação da pesquisa em potencial benefício social.
A ciência translacional como desafio brasileiro
O Brasil possui universidades de reconhecida qualidade, pesquisadores altamente qualificados e produção científica significativa. Entretanto, historicamente encontramos dificuldades em atravessar a chamada distância entre a geração do conhecimento e sua transformação em produtos, processos, tecnologias e políticas capazes de chegar efetivamente à sociedade.
É justamente nessa fronteira que a experiência relatada em Dos Venenos aos Remédios ganha especial significado.
Desenvolver um produto de natureza biomédica exige muito mais do que uma boa ideia científica. São necessários anos de pesquisa, financiamento contínuo, formação de equipes multidisciplinares, infraestrutura, propriedade intelectual, estudos pré-clínicos e clínicos, regulamentação, capacidade produtiva e articulação entre universidades, agências de financiamento, poder público e setor produtivo.
Por isso, a história do CEVAP também é uma história de persistência institucional.
A palavra resiliência, presente no subtítulo do livro e na dedicatória que recebi, não está ali por acaso.
Pesquisa científica de impacto é construída ao longo de muitos anos. Nem todos os experimentos produzem os resultados esperados. Projetos precisam ser reformulados. Recursos nem sempre chegam no momento necessário. Mudam administrações, políticas de financiamento e prioridades governamentais.
Continuar produzindo ciência em ambientes dessa natureza exige perseverança.
Empreender também faz parte da ciência
Há ainda outra contribuição importante da obra: mostrar que empreendedorismo e ciência não são conceitos antagônicos.
Durante muito tempo predominou em determinados ambientes acadêmicos a percepção de que caberia à universidade exclusivamente gerar conhecimento, enquanto a transformação desse conhecimento em produtos pertenceria a outras organizações.
O século XXI vem demonstrando que essa separação é cada vez menos sustentável.
As grandes universidades internacionais estruturaram ecossistemas nos quais convivem pesquisa básica, pesquisa aplicada, startups, propriedade intelectual, transferência de tecnologia, fundos de investimento, empresas e políticas públicas de inovação.
A universidade não perde sua missão acadêmica ao estimular inovação. Ao contrário: amplia sua capacidade de transformar conhecimento em benefício social.
A experiência apresentada no livro demonstra justamente a possibilidade de desenvolver essa cultura dentro de uma universidade pública brasileira.
A Fábrica-Escola de Biofármacos
Um dos símbolos mais importantes dessa trajetória é a criação da Fábrica-Escola de Biofármacos da Unesp.
Segundo a Agência FAPESP, a instalação busca acelerar o desenvolvimento de biomedicamentos no país e ampliar a participação da universidade no Complexo Econômico-Industrial da Saúde. (Agência Fapesp)
Essa iniciativa possui importância que ultrapassa os limites da própria universidade.
A pandemia de Covid-19 mostrou de maneira dramática que capacidade científica e capacidade produtiva são componentes fundamentais da soberania de uma nação. Países excessivamente dependentes de medicamentos, princípios ativos, equipamentos médicos ou tecnologias desenvolvidas no exterior tornam-se vulneráveis quando cadeias internacionais de suprimentos são interrompidas.
Transformar conhecimento produzido no Brasil em capacidade tecnológica e produtiva nacional, portanto, não é apenas uma questão econômica.
É também uma questão de segurança sanitária e soberania científica e tecnológica.
Uma obra sobre pessoas
Há ainda um aspecto que merece ser ressaltado.
Ciência não é construída apenas por prédios, laboratórios ou equipamentos. Ela é construída por pessoas.
Ao reunir depoimentos de aproximadamente uma centena de colaboradores, o livro preserva algo que frequentemente se perde na documentação tradicional das instituições: a memória humana da construção científica. (AccFarma Brasil)
Pesquisadores, técnicos, estudantes, gestores e colaboradores constroem coletivamente instituições que muitas vezes ultrapassam suas próprias gerações.
Registrar essas histórias é também uma forma de valorizar aqueles que fizeram — e continuam fazendo — a ciência brasileira.
Uma mensagem especialmente importante aos jovens pesquisadores
Talvez uma das maiores contribuições de Dos Venenos aos Remédios seja dirigida aos jovens que começam sua trajetória na ciência.
A ciência contemporânea oferece possibilidades extraordinárias. Inteligência Artificial, biotecnologia, genômica, novos materiais, nanotecnologia, computação avançada e tantas outras áreas estão abrindo fronteiras que seriam inimagináveis poucas décadas atrás.
Mas tecnologia não elimina uma característica fundamental da atividade científica: a construção do conhecimento continua exigindo tempo, dedicação, colaboração e persistência.
Nesse sentido, a história do CEVAP transmite uma mensagem poderosa.
Grandes projetos científicos raramente surgem prontos. Eles começam com ideias, pequenas equipes, dificuldades, tentativas, erros e acertos. Crescem quando encontram pessoas capazes de combinar conhecimento científico com visão de futuro e determinação.
É dessa combinação que nasce a inovação.
O verdadeiro significado de valorizar a pesquisa
Para o IVEPESP – Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo, a experiência relatada neste livro possui significado particular.
Valorizar a pesquisa não significa apenas defender mais recursos para universidades e centros científicos — embora financiamento adequado seja absolutamente necessário.
Valorizar a pesquisa significa também construir condições para que o conhecimento avance:
da descoberta para a inovação;
da inovação para a tecnologia;
da tecnologia para a produção;
e da produção para a sociedade.
O sucesso de um sistema científico deve ser medido não somente pelo número de artigos publicados, mas também pela sua capacidade de formar pesquisadores, produzir conhecimento original, criar tecnologias, gerar inovação, apoiar políticas públicas e melhorar a vida das pessoas.
É exatamente essa discussão que a trajetória do CEVAP ajuda a iluminar.
Da descoberta ao impacto
Dos Venenos aos Remédios é, portanto, muito mais do que o registro comemorativo de três décadas de existência de um centro de pesquisa.
É um testemunho sobre como se constrói ciência no Brasil.
É uma narrativa sobre dificuldades e conquistas.
É uma demonstração de que universidades públicas podem produzir ciência de fronteira e desenvolver projetos capazes de ultrapassar os limites dos laboratórios e chegar à sociedade.
E é, sobretudo, uma defesa da persistência.
A dedicatória que recebi dos autores termina desejando “muita resiliência, empreendedorismo e inovação”.
Devolvo essas palavras aos próprios autores e a todos aqueles que construíram o CEVAP ao longo dessas décadas.
Resiliência para enfrentar os obstáculos.
Empreendedorismo para transformar ideias em projetos.
Inovação para transformar conhecimento em soluções.
A história apresentada em Dos Venenos aos Remédios demonstra que, quando esses três elementos se encontram com ciência de qualidade, universidades fortes e pessoas comprometidas, o conhecimento pode realizar sua missão mais nobre:
transformar descobertas em benefícios concretos para a sociedade.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo – IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/