As lições dos incêndios no Canadá, em Portugal e no Brasil para o clima, a saúde pública e a gestão territorial

Os incêndios florestais que vêm atingindo diferentes regiões do mundo em 2026 colocam diante da sociedade uma questão que não pode mais ser tratada apenas como problema de bombeiros, florestas ou defesa civil.

Canadá, Portugal e Brasil apresentam realidades ambientais profundamente diferentes. Possuem climas distintos, vegetações distintas, padrões diferentes de ocupação do território e também diferentes causas predominantes de ignição do fogo.

Entretanto, os três países ajudam a compreender um fenômeno de alcance global: a interação entre mudança climática, condições meteorológicas extremas, disponibilidade de combustível vegetal, ação humana, gestão territorial e capacidade de prevenção está tornando os grandes incêndios um desafio crescente também para a saúde pública.

E há um elemento particularmente simbólico dessa transformação: a fumaça não reconhece fronteiras.

Ela pode viajar centenas ou milhares de quilômetros, atingindo pessoas que jamais estiveram próximas das chamas.

O incêndio, portanto, pode começar localmente, mas suas consequências ambientais e sanitárias não são necessariamente locais.

Canadá: o fogo nas grandes florestas boreais

No Canadá, o fogo sempre fez parte da dinâmica natural das florestas boreais. Raios respondem por aproximadamente metade das ignições e estão associados à maior parte da área queimada, principalmente porque muitos desses incêndios ocorrem em regiões remotas. O próprio governo canadense registra que milhares de incêndios atingem o país a cada ano e que grandes incêndios, embora representem pequena parcela das ocorrências, respondem por quase toda a área florestal queimada.

A temporada de 2026 começou relativamente mais moderada que as de 2023 e 2025. Em 10 de junho, o governo canadense contabilizava 1.747 incêndios e cerca de 166 mil hectares queimados. Entretanto, a situação se agravou rapidamente durante julho. Em 6 de agosto, mais de 3 milhões de hectares já haviam sido atingidos pelo fogo, e aproximadamente 94% da área queimada até então havia se acumulado em apenas cinco semanas, entre o final de junho e o final de julho.

Esse rápido crescimento ajuda a compreender por que seria simplificador atribuir o fenômeno apenas a deficiências de “manejo florestal”.

É claro que manejo, planejamento, redução de combustível em áreas prioritárias, sistemas de alerta e capacidade de combate são fundamentais.

Mas grandes extensões da floresta canadense encontram-se em áreas remotas nas quais a intervenção humana intensiva não é física nem economicamente comparável ao manejo de uma floresta próxima de centros urbanos.

Além disso, a ciência climática acrescenta outro componente importante.

Uma análise divulgada pela World Weather Attribution em agosto de 2026 concluiu que a mudança climática induzida pela atividade humana aumentou significativamente a probabilidade das condições meteorológicas extremas favoráveis aos incêndios observadas em Ontario e no Northwest Territories. Combinando observações e modelos climáticos, o aumento estimado da probabilidade foi de aproximadamente duas vezes para algumas das principais métricas analisadas, chegando a valores superiores conforme a região e a duração considerada.

É igualmente importante registrar o que o estudo não concluiu.

Os pesquisadores não encontraram evidência suficientemente robusta para atribuir à mudança climática a condição de seca acumulada nos 24 meses anteriores aos incêndios. Essa cautela é essencial porque mostra como a ciência deve ser utilizada: não para transformar todo evento extremo automaticamente em consequência direta do aquecimento global, mas para identificar como um clima mais quente modifica a probabilidade e a intensidade das condições favoráveis ao fogo.

A formulação cientificamente mais adequada, portanto, é esta:

a mudança climática não necessariamente inicia o incêndio, mas pode criar condições muito mais favoráveis para que uma ignição se transforme em um incêndio de grandes proporções.

Portugal: clima, território e a importância da prevenção

Portugal apresenta uma realidade muito diferente.

Ao contrário das imensas áreas boreais canadenses, grande parte das regiões portuguesas sujeitas ao fogo está inserida em paisagens profundamente transformadas pela ocupação humana.

Abandono rural, envelhecimento populacional, redução da atividade agrícola tradicional, continuidade da vegetação combustível, características da propriedade rural e expansão da interface entre áreas habitadas e vegetação são componentes importantes do risco de incêndios.

A experiência portuguesa demonstra de maneira particularmente clara que mudança climática e gestão territorial não devem ser tratadas como explicações concorrentes.

Ambas importam.

A tragédia de 2017 levou Portugal a promover uma ampla revisão de suas políticas. O país estruturou o Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais e criou a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais — AGIF, procurando integrar prevenção, preparação, combate, proteção das comunidades e recuperação pós-incêndio. Uma avaliação da OCDE publicada em abril de 2026 reconheceu avanços institucionais importantes desde 2017, ao mesmo tempo em que apontou a necessidade de continuar fortalecendo a coordenação, a prevenção e a gestão territorial.

Os resultados mostram que políticas públicas fazem diferença.

Segundo a AGIF, em 2025 Portugal registrou 8.252 incêndios rurais, terceiro menor valor desde 2001 e cerca de 65% inferior ao observado no período anterior às reformas, entre 2001 e 2017. Mesmo enfrentando condições meteorológicas severas, a área ardida média no período posterior a 2017 permaneceu significativamente inferior ao período anterior à reforma.

Isso demonstra algo fundamental: adaptação funciona.

Mas não significa que o risco desapareceu.

Portugal em 2026: a ameaça permanece

Em 2026, os incêndios voltaram a preocupar o país.

Dados provisórios do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas indicavam que, até 31 de julho, Portugal havia registrado 5.755 incêndios rurais e aproximadamente 53.731 hectares de área ardida.

Em julho, regiões como Braga, Aveiro e Viseu apresentaram intensa atividade de fogo. O serviço europeu Copernicus detectou plumas contendo material particulado, inclusive PM2,5, e imagens do satélite Sentinel-3 registraram, em 3 de julho, a fumaça dos incêndios portugueses avançando sobre o Oceano Atlântico.

O episódio ajuda a visualizar uma dimensão muitas vezes negligenciada dos incêndios:

não é apenas a área atingida pelas chamas que determina o impacto sobre a sociedade.

A atmosfera transporta seus efeitos.

A experiência recente da Península Ibérica também fornece forte evidência da influência climática. Uma análise das condições extremas associadas aos incêndios de Espanha e Portugal em 2025 estimou que o conjunto de condições meteorológicas favoráveis a incêndios severos — calor, secura e outros fatores incorporados ao índice utilizado — tornou-se aproximadamente 40 vezes mais provável no clima atual do que em um mundo cerca de 1,3°C mais frio, com intensidade estimada cerca de 30% maior.

É importante interpretar esse resultado corretamente.

Ele não significa que “a mudança climática provocou cada incêndio”.

Significa que o ambiente meteorológico no qual uma ignição ocorre está se tornando mais perigoso.

É uma diferença conceitual decisiva.

Brasil: um terceiro modelo de risco

O Brasil completa essa comparação porque apresenta uma realidade diferente tanto do Canadá quanto de Portugal.

Aqui convivem seis grandes biomas, extensas áreas agrícolas, florestas tropicais, savanas, áreas úmidas, centros urbanos e enormes zonas de transição entre atividades econômicas e vegetação natural.

O fogo possui funções ecológicas diferentes em cada bioma e, sobretudo, sua utilização e suas consequências não podem ser analisadas de forma uniforme.

Na Amazônia, por exemplo, a floresta úmida não é naturalmente adaptada a incêndios recorrentes de grande intensidade. No Cerrado, o fogo faz parte da dinâmica ecológica de muitos ecossistemas, embora frequência, intensidade e época inadequadas possam produzir impactos severos. No Pantanal, secas extremas combinadas à grande disponibilidade de biomassa podem criar condições para incêndios de dimensões excepcionais.

No Brasil, o componente humano assume relevância particular.

Em junho de 2026, o novo produto “Eventos de Fogo”, do Programa Queimadas do INPE, identificou 14.693 eventos, dos quais 70% foram classificados como queimadas ou atividades antrópicas, 18% como possíveis inícios de incêndio e 12% como incêndios. Embora estes últimos correspondessem à menor parcela das ocorrências classificadas, concentraram cerca de 44% da área queimada estimada pelo produto naquele mês.

Esse dado ajuda a mostrar por que a discussão brasileira não pode ser reduzida ao clima.

Uso do solo, atividades agropecuárias, desmatamento, práticas de manejo do fogo, fiscalização e comportamento humano precisam fazer parte da análise.

Ao mesmo tempo, também seria incorreto ignorar o componente climático.

Em estudo sobre os grandes incêndios ocorridos no Pantanal em 2024, pesquisadores da World Weather Attribution estimaram que as condições quentes, secas e ventosas favoráveis aos incêndios haviam se tornado substancialmente mais severas em decorrência da mudança climática.

Novamente encontramos a mesma interação:

a ignição pode ser humana, enquanto as condições que determinam se o fogo será controlável ou catastrófico dependem também do clima, da vegetação e do território.

O Brasil em 2026

Os dados mais recentes disponíveis reforçam a necessidade de acompanhamento.

Entre 1º de janeiro e 11 de agosto de 2026, o satélite de referência AQUA utilizado pelo Programa Queimadas do INPE havia detectado 24.465 focos de fogo no Brasil.

Esses números devem ser interpretados cuidadosamente. “Foco detectado por satélite” não equivale necessariamente a um incêndio individual nem representa diretamente a área queimada. Um grande incêndio pode produzir múltiplos focos detectados, e diferentes indicadores são necessários para avaliar adequadamente extensão, duração e intensidade do fogo. O próprio INPE disponibiliza separadamente informações sobre focos, eventos de fogo, área queimada e risco meteorológico.

Em junho, por exemplo, foram registrados 5.209 focos pelo satélite de referência, valor 27% abaixo da média histórica do mês entre 2010 e 2024. Naquele mês, o Cerrado concentrou 57,8% dos focos, seguido pela Amazônia, com 26,2%. O INPE alertava, entretanto, que o país entrava justamente no período em que a temporada de fogo tende a se intensificar em muitas regiões.

Portanto, os números de 2026 permanecem parciais e exigem acompanhamento ao longo dos próximos meses.

O elo entre os três países: a fumaça

Quando passamos das causas dos incêndios para suas consequências, Canadá, Portugal e Brasil começam a se aproximar.

O fogo produz uma complexa mistura de gases e partículas.

Entre os componentes de maior preocupação para a saúde está o PM2,5 — ou MP2,5 — material particulado com diâmetro igual ou inferior a 2,5 micrômetros.

Esse ponto merece uma correção importante em relação a alguns textos que circulam sobre o assunto: o número “2,5” refere-se ao diâmetro das partículas, e não a uma concentração de 2,5 microgramas por metro cúbico.

Devido ao tamanho extremamente reduzido, essas partículas podem penetrar profundamente no sistema respiratório. O Ministério da Saúde brasileiro associa a exposição prolongada a altas concentrações de PM2,5 ao agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares e ao aumento da procura por atendimento e hospitalizações. Crianças, idosos e pessoas com condições preexistentes merecem atenção especial.

Assim, um incêndio ocorrido a centenas ou milhares de quilômetros pode tornar-se um problema sanitário para populações que jamais viram as chamas.

No Canadá, a fumaça dos incêndios de 2026 alcançou extensas regiões dos Estados Unidos e produziu alertas de qualidade do ar para milhões de pessoas.

Em Portugal, o Copernicus registrou PM2,5 proveniente dos incêndios e fumaça sendo transportada para o Atlântico.

No Brasil, o próprio Ministério da Saúde passou, em 2026, a divulgar informes semanais combinando focos de calor, qualidade do ar e população potencialmente exposta, como parte das políticas de adaptação do setor saúde às mudanças climáticas.

Temos, portanto, uma nova perspectiva:

combater incêndios é também uma política de saúde pública.

Três países, três realidades

A comparação permite resumir algumas diferenças essenciais.

Canadá: grandes extensões boreais, muitas áreas remotas, participação expressiva de raios nas ignições e limitações físicas evidentes para a supressão de todos os incêndios.

Portugal: forte interface entre população e território rural, abandono e envelhecimento de determinadas áreas rurais, continuidade de combustível vegetal e grande importância de políticas permanentes de gestão da paisagem e prevenção.

Brasil: diversidade de biomas, elevada presença de atividades humanas relacionadas ao uso do fogo, mudanças no uso da terra e grande heterogeneidade climática e territorial.

As diferenças são enormes.

Mas há algo comum aos três casos:

quando temperaturas elevadas, baixa umidade, vegetação seca e condições meteorológicas adversas coincidem, o fogo torna-se mais difícil de controlar.

É precisamente aí que mudança climática e gestão territorial se encontram.

O falso dilema: clima ou gestão?

Talvez uma das principais lições dos acontecimentos recentes seja a necessidade de superar uma polarização pouco produtiva.

De um lado, alguns procuram atribuir praticamente todo grande incêndio à mudança climática.

De outro, há quem tente explicar os mesmos eventos exclusivamente por falta de manejo florestal, negligência governamental ou ação humana.

As duas simplificações podem estar erradas.

Um incêndio resulta da interação de diversos componentes:

  • possibilidade de ignição;
  • quantidade e condição do combustível vegetal;
  • temperatura;
  • umidade;
  • vento;
  • topografia;
  • características da vegetação;
  • uso e ocupação do solo;
  • capacidade de detecção;
  • velocidade de resposta;
  • infraestrutura disponível;
  • políticas preventivas.

A mudança climática atua sobre diversos desses componentes, principalmente alterando temperatura, disponibilidade de umidade e frequência de condições meteorológicas favoráveis a incêndios extremos. A gestão pública e privada atua sobre outros, como combustível, ocupação territorial, prevenção, fiscalização e capacidade de resposta.

Não há razão científica para escolher uma explicação e excluir a outra.

De apagar incêndios para administrar riscos

Portugal oferece, nesse sentido, uma experiência particularmente interessante.

Após os acontecimentos de 2017, o país procurou substituir progressivamente um modelo excessivamente concentrado na resposta ao incêndio por uma abordagem de gestão integrada do risco, cobrindo planejamento, prevenção, preparação, supressão, socorro e recuperação. A OCDE considera que essa reforma melhorou as condições institucionais, regulatórias e de financiamento da política portuguesa, ainda que permaneçam desafios de implementação.

Essa mudança de paradigma também é relevante para o Brasil.

O objetivo não pode ser simplesmente possuir mais aviões ou mais brigadistas quando o incêndio já alcançou grandes dimensões.

Naturalmente, capacidade de combate continua indispensável.

Mas uma política moderna precisa atuar antes, durante e depois do fogo.

Isso significa integrar prevenção, pesquisa científica, monitoramento, educação, proteção civil, saúde pública e planejamento territorial.

Ciência e tecnologia precisam estar no centro

Há também uma enorme agenda para ciência, tecnologia e inovação.

O Brasil dispõe de uma infraestrutura altamente relevante no INPE. O Programa Queimadas reúne dados de satélites sobre focos de fogo, área queimada, eventos de fogo, meteorologia e risco, com atualizações que em alguns produtos chegam ao tempo quase real.

O Canadá opera sistemas semelhantes de monitoramento por satélite e modelagem, capazes de acompanhar focos ativos, estimar área queimada, comportamento do fogo, consumo de biomassa e emissões de fumaça.

Na Europa, o Copernicus acompanha incêndios, emissões atmosféricas e transporte das plumas de fumaça praticamente em escala continental e global.

A próxima etapa será integrar ainda mais esses sistemas com:

inteligência artificial e aprendizado de máquina, para identificação de padrões e previsão de risco;

sensoriamento remoto de alta resolução, para detectar rapidamente novas ignições;

modelagem meteorológica, para antecipar condições de propagação extrema;

sistemas de alerta, capazes de alcançar diretamente a população;

epidemiologia e ciência de dados, para relacionar fumaça, exposição e demanda dos serviços de saúde;

modelos de evacuação e defesa civil, para melhorar decisões em situações extremas.

Trata-se, portanto, de um campo no qual pesquisa científica pode literalmente salvar vidas.

O que poderíamos aprender para o Brasil?

A comparação internacional sugere pelo menos sete direções estratégicas.

1. Prevenção durante todo o ano.
Incêndios não podem ser tratados apenas durante a estação seca.

2. Gestão territorial.
É necessário identificar regiões vulneráveis, controlar combustíveis onde isso for ecologicamente adequado e proteger interfaces entre áreas urbanas, rurais e vegetação.

3. Monitoramento integrado.
Dados meteorológicos, satélites, inteligência artificial e informações locais precisam ser combinados em sistemas preditivos.

4. Proteção da saúde.
Qualidade do ar deve fazer parte dos planos de emergência relacionados ao fogo.

5. Educação e comunicação de risco.
A população precisa compreender tanto os riscos de iniciar incêndios quanto as medidas necessárias durante episódios de fumaça intensa.

6. Pesquisa científica.
Cada bioma brasileiro exige conhecimento próprio. Uma estratégia válida para o Cerrado pode ser inadequada para a Amazônia, o Pantanal ou a Mata Atlântica.

7. Mitigação e adaptação climática devem caminhar juntas.
Reduzir emissões diminui o agravamento futuro do risco; adaptar territórios e sistemas de saúde reduz os danos que já não podem ser totalmente evitados.

A saúde pública precisa entrar definitivamente nessa agenda

Talvez este seja um dos pontos mais importantes do debate contemporâneo.

Durante muito tempo, avaliamos incêndios principalmente por hectares queimados, casas destruídas, biodiversidade perdida ou custos de combate.

Todos esses indicadores permanecem essenciais.

Mas precisamos acrescentar outro:

quantas pessoas respiraram a fumaça?

O Ministério da Saúde brasileiro já recomenda, durante episódios de pior qualidade do ar, acompanhar alertas oficiais, reduzir atividades físicas ao ar livre, permanecer em ambientes protegidos e, quando necessário sair em condições de fumaça intensa, utilizar máscaras adequadas como N95, PFF2 ou P100.

É uma mudança significativa.

Significa reconhecer formalmente que um incêndio florestal pode transformar-se em uma emergência de saúde pública mesmo para populações localizadas longe do fogo.

Conclusão — quando o fogo atravessa fronteiras

Canadá, Portugal e Brasil contam três histórias diferentes.

No Canadá, incêndios naturais em imensas florestas boreais encontram condições meteorológicas que podem torná-los extremamente difíceis de controlar.

Em Portugal, décadas de experiência demonstram a importância da gestão territorial, da prevenção e da integração institucional — sem eliminar a crescente ameaça representada por calor e secura extremos.

No Brasil, ação humana, uso do solo, características próprias dos diferentes biomas e condições climáticas se combinam de maneira particularmente complexa.

Nenhum desses casos pode ser explicado por uma única variável.

Por isso, talvez a pergunta errada seja:

“Quem é o culpado pelo incêndio?”

A pergunta mais produtiva é:

“O que podemos fazer para que uma ignição tenha menor probabilidade de transformar-se em uma catástrofe ambiental e sanitária?”

A resposta passa por ciência.

Passa por gestão territorial.

Passa por prevenção.

Passa por educação.

Passa por tecnologia.

Passa por saúde pública.

E passa também pelo enfrentamento da mudança climática.

Os acontecimentos de 2026 tornam visível algo que provavelmente será cada vez mais importante nas próximas décadas:

o fogo começa em um lugar, mas seus efeitos podem ultrapassar florestas, cidades e fronteiras nacionais.

A fumaça canadense chegou aos Estados Unidos.

A fumaça portuguesa avançou sobre o Atlântico.

E o Brasil já incorporou oficialmente o monitoramento da exposição à fumaça às ações de vigilância em saúde.

Não estamos, portanto, diante apenas de uma questão florestal.

Estamos diante de uma agenda que reúne clima, meio ambiente, saúde, ciência, tecnologia, educação e políticas públicas.

E talvez essa seja a maior lição oferecida por Canadá, Portugal e Brasil:

em um mundo mais quente, aprender a conviver com o fogo sem permitir que ele se transforme em catástrofe será uma das grandes tarefas da ciência e da gestão pública no século XXI.

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP – Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo