A transformação digital vem alterando profundamente a forma como as pessoas trabalham, estudam, se comunicam, realizam pagamentos, acessam serviços públicos e cuidam da própria saúde. Em poucos anos, atividades que antes podiam ser realizadas presencialmente migraram para aplicativos, portais eletrônicos, sistemas de autenticação digital e plataformas online.
Embora essas mudanças tenham trazido ganhos significativos de eficiência, elas também revelaram uma realidade preocupante: milhões de idosos enfrentam dificuldades crescentes para acompanhar a velocidade das transformações tecnológicas.
Vários vídeos disponíveis na mídia ilustram de forma simples e didática uma situação que se repete diariamente em todo o país. Um idoso tenta seguir instruções para utilizar a câmera de um celular, enquanto enfrenta dificuldades aparentemente triviais para os mais jovens. O que para alguns parece apenas uma limitação individual representa, na verdade, um fenômeno social de grandes proporções: a exclusão digital da população idosa.
O envelhecimento da população brasileira
O Brasil atravessa uma das mais rápidas transições demográficas do mundo. Segundo o IBGE, a população com mais de 60 anos cresce em ritmo acelerado e deverá representar aproximadamente um terço da população brasileira nas próximas décadas.
Esse fenômeno traz desafios importantes para os sistemas de saúde, previdência, assistência social e educação continuada. Entretanto, um aspecto frequentemente negligenciado é a necessidade de garantir que essa parcela crescente da população permaneça plenamente integrada à sociedade digital.
Hoje, marcar uma consulta médica, acessar benefícios governamentais, realizar operações bancárias, agendar exames, pagar contas, renovar documentos ou simplesmente conversar com familiares frequentemente exige algum grau de competência digital.
Quando essas competências não estão presentes, cria-se uma nova forma de desigualdade social.
A exclusão digital como nova forma de exclusão social
No passado, a exclusão social estava frequentemente associada ao acesso à educação formal, à renda ou à infraestrutura básica. No século XXI, a capacidade de interagir com sistemas digitais tornou-se um requisito essencial para o exercício pleno da cidadania.
Um idoso que não consegue utilizar um aplicativo bancário pode tornar-se dependente de terceiros para administrar suas finanças.
Um paciente que não consegue acessar uma plataforma de telemedicina pode perder oportunidades de acompanhamento médico.
Um aposentado que não compreende mecanismos de autenticação digital pode encontrar dificuldades para acessar benefícios aos quais tem direito.
Mais grave ainda é o risco crescente de golpes digitais. Criminosos exploram justamente a insegurança tecnológica de usuários menos familiarizados com aplicativos, mensagens instantâneas e sistemas de autenticação.
Assim, a exclusão digital não representa apenas uma limitação operacional. Ela pode comprometer autonomia, segurança, independência financeira e qualidade de vida.
Um relato pessoal: quando a tecnologia se torna uma barreira
Recentemente vivi uma situação que ilustra bem os desafios enfrentados por muitos idosos na sociedade digital.
Ao renovar meu certificado digital, deparei-me com um processo inteiramente online, baseado em mecanismos de reconhecimento facial e autenticação biométrica. A princípio, parecia uma tarefa simples. No entanto, após inúmeras tentativas utilizando meu computador, o sistema não conseguia validar minha identidade.
Somente depois de diversas tentativas e da mudança para um telefone celular foi possível concluir a etapa de reconhecimento facial.
A experiência trouxe uma reflexão importante. Tenho 73 anos, formação científica, décadas de atuação universitária e familiaridade com tecnologias. Ainda assim, encontrei dificuldades consideráveis para concluir um procedimento que hoje é requisito para o exercício de diversas atividades profissionais e pessoais.
Existe ainda outro aspecto pouco discutido. Com o avanço da idade, muitas pessoas apresentam desgaste natural das impressões digitais. Em meu caso, as digitais praticamente deixaram de ser reconhecidas pelos sistemas biométricos utilizados por bancos e outras instituições. Como consequência, precisei recorrer a métodos alternativos de autenticação baseados em senhas.
O problema não está apenas na tecnologia em si, mas na suposição implícita de que todos os cidadãos possuem as mesmas capacidades físicas, cognitivas e tecnológicas para interagir com sistemas digitais cada vez mais complexos.
À medida que governos, bancos, empresas e serviços públicos migram para ambientes digitais, torna-se fundamental garantir que os mecanismos de autenticação sejam inclusivos e ofereçam alternativas adequadas para pessoas idosas ou com limitações físicas.
Uma sociedade verdadeiramente digital não pode deixar para trás justamente aqueles que ajudaram a construí-la.
O paradoxo da inovação
Existe um paradoxo importante no avanço tecnológico contemporâneo.
As tecnologias digitais foram criadas para facilitar a vida das pessoas. Entretanto, quando desenvolvidas sem considerar as limitações cognitivas, motoras e perceptivas associadas ao envelhecimento, acabam produzindo o efeito oposto.
Interfaces excessivamente complexas, letras pequenas, excesso de informações na tela, linguagem técnica e procedimentos de autenticação confusos tornam-se barreiras reais para muitos usuários idosos.
Esse problema não decorre da incapacidade dos idosos, mas de uma visão de desenvolvimento tecnológico frequentemente centrada em usuários jovens e altamente familiarizados com recursos digitais.
Uma sociedade verdadeiramente inclusiva deve desenvolver tecnologias que se adaptem às pessoas, e não exigir que todas as pessoas se adaptem às tecnologias.
Inteligência Artificial: problema ou solução?
Curiosamente, a mesma Inteligência Artificial que transforma o mundo do trabalho e da educação pode também contribuir para reduzir barreiras enfrentadas pelos idosos.
Assistentes virtuais capazes de compreender linguagem natural podem substituir menus complexos por conversas simples.
Sistemas de reconhecimento de voz podem eliminar a necessidade de digitação.
Interfaces adaptativas podem identificar dificuldades de uso e simplificar automaticamente a experiência do usuário.
Ferramentas de IA podem oferecer suporte em tempo real para navegação em aplicativos, preenchimento de formulários e acesso a serviços públicos.
No entanto, para que isso ocorra, será necessário incorporar princípios de acessibilidade e inclusão desde a concepção dessas tecnologias.
A IA deve ser desenvolvida para ampliar a autonomia humana, e não para aprofundar desigualdades existentes.
Educação ao longo da vida
O desafio da inclusão digital dos idosos não será resolvido apenas por meio da tecnologia.
Também será necessário ampliar programas de educação continuada voltados para a terceira idade.
Universidades, institutos de pesquisa, escolas técnicas, organizações da sociedade civil e governos podem desempenhar papel fundamental na oferta de cursos, oficinas e programas de capacitação digital.
Mais do que ensinar o uso de dispositivos, esses programas devem fortalecer a confiança dos participantes para interagir com um ambiente tecnológico em constante transformação.
Aprender a utilizar tecnologias digitais deixou de ser uma atividade associada apenas à juventude. Tornou-se uma competência necessária ao longo de toda a vida.
Uma agenda para o Brasil
O IVEPESP entende que a inclusão digital da população idosa deve tornar-se uma prioridade nacional. Algumas ações merecem atenção especial:
- Desenvolvimento de interfaces digitais mais simples e acessíveis;
- Criação de múltiplos métodos de autenticação para além da biometria;
- Ampliação de programas de alfabetização digital para idosos;
- Capacitação específica em segurança digital e prevenção de golpes;
- Uso da Inteligência Artificial para suporte assistido aos usuários;
- Certificação de acessibilidade digital para aplicativos públicos e privados;
- Incentivo à pesquisa sobre envelhecimento e interação homem-máquina;
- Inclusão da temática da longevidade digital nas políticas públicas de transformação digital.
Considerações finais
O envelhecimento da população brasileira exige uma nova abordagem para o desenvolvimento tecnológico e para as políticas públicas de inclusão.
Não basta disponibilizar serviços digitais. É necessário garantir que todos os cidadãos sejam capazes de utilizá-los com segurança, autonomia e dignidade.
A situação analisada e discutida neste artigo retrata uma situação aparentemente simples, mas revela um desafio estratégico para o futuro do país. À medida que avançamos rumo a uma sociedade cada vez mais digitalizada, a inclusão dos idosos não pode ser vista como uma questão secundária.
O desafio da inclusão digital dos idosos não é um problema do futuro. Ele já está presente nos bancos, nos serviços públicos, nos sistemas de saúde, nos mecanismos de identificação digital e em praticamente todas as atividades cotidianas.
A transformação digital somente será verdadeiramente bem-sucedida se vier acompanhada de uma transformação equivalente em acessibilidade, usabilidade e respeito às limitações naturais do envelhecimento.
Tecnologia que exclui não representa progresso.
Progresso verdadeiro é aquele que amplia oportunidades para todos.
Prof. Dr. Helio Dias,
Presidente do IVEPESP,
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/,
e-mail: [email protected]