Em 27 de agosto de 2026, no encontro online Ciranda do Ser, promovido pela B’nai B’rith São Paulo, será realizada a palestra “A Inteligência Artificial na Terceira Idade – autonomia, aprendizagem, segurança e qualidade de vida”. O encontro parte de uma questão que se tornará cada vez mais importante para o Brasil: como fazer com que os avanços da inteligência artificial também contribuam para uma sociedade que envelhece?
A discussão sobre inteligência artificial costuma se concentrar na produtividade das empresas, no mercado de trabalho, nas universidades e nos avanços científicos. Existe, entretanto, outra dimensão igualmente relevante: o potencial dessas tecnologias para ampliar a autonomia, a participação social e a qualidade de vida das pessoas idosas.
O Brasil já possui aproximadamente 36 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, correspondendo a cerca de 17% da população. Ao mesmo tempo, a presença digital desse grupo vem crescendo rapidamente: em 2025, 74,5% das pessoas idosas utilizaram a internet, uma elevação de 4,4 pontos percentuais em apenas um ano.
Portanto, a questão deixou de ser simplesmente proporcionar acesso à internet.
O novo desafio é transformar conectividade em autonomia, segurança, aprendizagem e participação social.
A tecnologia deve servir às pessoas
Um dos princípios que orientam essa reflexão é que a tecnologia deve servir às pessoas — e não o contrário.
Muitas dificuldades atribuídas à idade são, na realidade, consequência de sistemas pouco intuitivos, linguagem excessivamente técnica ou ferramentas que não foram concebidas levando em consideração diferentes perfis de usuários.
Por isso, qualquer estratégia de inclusão digital voltada à terceira idade deve respeitar o ritmo de aprendizagem, utilizar linguagem simples, preservar as escolhas individuais e evitar qualquer forma de infantilização.
A inteligência artificial generativa traz uma característica particularmente importante nesse contexto: ela permite uma interação por meio da linguagem natural.
O usuário pode simplesmente conversar, fazer perguntas, solicitar que uma explicação seja repetida, pedir exemplos ou solicitar que determinado assunto seja apresentado de maneira mais simples.
Uma maneira acessível de explicar essas tecnologias é imaginá-las como um assistente capaz de analisar grande quantidade de informações e organizar respostas em linguagem natural. É igualmente importante compreender seus limites: a inteligência artificial não é uma pessoa, não possui consciência e pode cometer erros.
Aprender fazendo
A inclusão digital tende a ser mais eficaz quando parte de necessidades concretas.
Uma pessoa pode utilizar a inteligência artificial para aprender sobre determinado assunto, escrever uma mensagem, preparar uma viagem, traduzir uma frase, encontrar uma receita utilizando os alimentos disponíveis em casa ou receber instruções passo a passo para ajustar alguma função do telefone celular.
Essas aplicações parecem simples, mas podem representar ganhos significativos de independência.
A inteligência artificial também pode contribuir para algo de grande valor humano: ajudar a organizar histórias, lembranças e memórias pessoais para filhos, netos e futuras gerações.
Entretanto, é indispensável desenvolver simultaneamente uma cultura de uso crítico.
Sistemas de IA podem inventar informações, confundir nomes e datas, responder com excessiva confiança e reproduzir distorções existentes nos dados utilizados em seu desenvolvimento. A regra, portanto, deve ser clara:
quanto mais importante a decisão, maior a necessidade de verificar a informação.
Saúde: compreender melhor sem substituir o médico
A saúde é um campo em que a inteligência artificial pode oferecer benefícios importantes à população idosa.
Ela pode auxiliar na compreensão de termos presentes em exames, organizar perguntas antes de uma consulta, ajudar o paciente a descrever seus sintomas com mais clareza ou traduzir uma orientação médica para linguagem mais acessível.
Entretanto, devem existir limites claros.
A IA não deve ser utilizada para substituir diagnóstico médico, alterar medicamentos, modificar doses ou horários, interpretar exames isoladamente ou adiar a busca por atendimento diante de sintomas potencialmente graves.
A tecnologia pode contribuir para que o paciente esteja mais preparado para conversar com o profissional de saúde, mas a decisão deve permanecer com as pessoas envolvidas e com os profissionais habilitados.
Segurança digital passa a ser parte da educação
Existe também uma dimensão preocupante do avanço tecnológico.
As mesmas ferramentas capazes de produzir textos, imagens, vídeos e vozes podem ser utilizadas para aperfeiçoar fraudes.
Vozes clonadas, vídeos falsificados, mensagens extremamente convincentes e situações artificiais de urgência emocional ampliam o risco para toda a sociedade e exigem especial atenção quando pensamos em grupos potencialmente mais vulneráveis.
Diante de uma comunicação suspeita, uma orientação simples pode ser lembrada pela palavra PARE: parar antes de agir, analisar a situação, reconfirmar a informação utilizando outro meio de comunicação e evitar fornecer dados pessoais, senhas, códigos ou informações bancárias.
Também é necessário criar uma nova cultura de proteção da privacidade. Senhas, códigos recebidos por SMS, dados bancários, documentos completos e informações pessoais sensíveis não devem ser fornecidos indiscriminadamente a sistemas digitais.
Uma agenda para a inclusão da terceira idade na era da inteligência artificial
A partir dessas reflexões, o IVEPESP propõe cinco linhas de ação que poderiam orientar iniciativas públicas, privadas, acadêmicas e da sociedade civil:
- Criar programas específicos de alfabetização em inteligência artificial para pessoas idosas. A formação deve partir de situações concretas do cotidiano — comunicação, saúde, serviços públicos, bancos, viagens, lazer e aprendizagem — e não de explicações excessivamente técnicas.
- Incorporar acessibilidade e desenho inclusivo às ferramentas de IA. Empresas e instituições públicas devem desenvolver interfaces com letras ajustáveis, comandos por voz, linguagem clara, etapas reduzidas e alternativas de atendimento humano. A adaptação deve ser feita pela tecnologia ao usuário, e não exigir que o usuário se adapte integralmente à tecnologia.
- Transformar segurança digital em componente permanente da educação para a longevidade. Programas para idosos devem ensinar identificação de golpes, clonagem de voz, vídeos sintéticos, mensagens fraudulentas, proteção de senhas e confirmação de identidade. Famílias também podem adotar procedimentos simples de segurança, inclusive palavras ou perguntas previamente combinadas para situações envolvendo pedidos emergenciais de dinheiro.
- Desenvolver orientação específica para o uso responsável da IA em saúde. A inteligência artificial pode melhorar a compreensão e a preparação do paciente, mas é fundamental ensinar claramente a diferença entre obter informação e receber diagnóstico ou tratamento. Profissionais e instituições de saúde também podem participar dessa alfabetização.
- Estimular programas intergeracionais de aprendizagem tecnológica. Universidades, escolas, organizações da sociedade civil, centros de convivência e comunidades podem aproximar jovens e idosos em programas de aprendizagem mútua. Os mais jovens podem apoiar a familiarização tecnológica, enquanto pessoas mais experientes compartilham conhecimento, memória, julgamento e experiência de vida.
Essas iniciativas podem contribuir para que a inteligência artificial se transforme em instrumento de inclusão e autonomia, em vez de criar uma nova camada de desigualdade.
Longevidade também significa continuar aprendendo
Uma sociedade que vive mais tempo precisa repensar o conceito de educação.
A aprendizagem não termina ao concluir a escola ou a universidade. Em uma realidade caracterizada por rápidas transformações científicas e tecnológicas, educação ao longo da vida passa a ser condição para o exercício pleno da cidadania.
A população idosa não pode ser colocada apenas na posição de receptora de assistência tecnológica. Deve participar ativamente da transformação digital.
Há um enorme patrimônio de conhecimento, experiência profissional, memória social e capacidade de julgamento acumulado ao longo da vida. A inteligência artificial pode ampliar o acesso à informação, mas não substitui esse patrimônio humano.
A palestra sintetiza essa ideia em cinco princípios: começar pequeno, conversar naturalmente com a tecnologia, verificar aquilo que é importante, proteger os dados pessoais e manter sempre o ser humano no centro das decisões.
A mensagem final talvez seja também a mais importante:
“A experiência de vida continua insubstituível.”
A máquina pode reunir informações. Nós atribuímos sentido, exercemos julgamento, cultivamos afetos e tomamos decisões.
O melhor futuro será construído não por uma competição entre seres humanos e máquinas, mas por pessoas capazes de utilizar essas novas tecnologias com conhecimento, prudência, solidariedade e humanidade.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
Av. Paulista, nº 1636, Conjunto 4, 15º Pavimento
Cerqueira César – São Paulo/SP
CEP 01310-200
Telefone: (11) 99699-4434
E-mail: [email protected]
- Palestra: A Inteligência Artificial na Terceira Idade
- Data: 27 de agosto de 2026 (quinta-feira)
- Horário: 14h30
- Formato: Online e gratuito
- Inscrição: seconheser.bnai-brith.org.br
- Informações / WhatsApp: (11) 93953-9541
- Palestrante: Prof. Dr. Helio Dias
Para participar, basta acessar seconheser.bnai-brith.org.br e preencher o cadastro para o evento.