O Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP) considera importante ampliar o debate sobre os efeitos das greves em universidades públicas, especialmente nas instituições intensivas em pesquisa, como a Universidade de São Paulo (USP).

Tradicionalmente, as discussões sobre paralisações concentram-se na suspensão das aulas de graduação e nos prejuízos imediatos aos estudantes. Entretanto, existe uma dimensão menos visível, mas igualmente relevante, que merece atenção: os impactos sobre a pesquisa científica, a pós-graduação, a extensão universitária e a inovação.

Em universidades de pesquisa, o calendário acadêmico é organizado de forma a equilibrar múltiplas funções institucionais. Os períodos de recesso acadêmico, especialmente os meses de julho, janeiro e fevereiro, não representam apenas férias. São momentos fundamentais para o desenvolvimento de atividades científicas e acadêmicas que sustentam a missão da universidade.

É durante esses períodos que muitos docentes realizam:

• Elaboração e submissão de projetos de pesquisa;

• Redação de artigos científicos;

• Orientação intensiva de mestrandos e doutorandos;

• Participação em congressos nacionais e internacionais;

• Estágios de pesquisa e colaborações internacionais;

• Organização de eventos científicos;

• Desenvolvimento de atividades de extensão;

• Planejamento acadêmico dos semestres subsequentes.

Quando uma greve se prolonga por várias semanas, a reposição das aulas frequentemente invade esses períodos originalmente destinados à pesquisa e à extensão.

Em consequência, ocorre um fenômeno raramente contabilizado nos debates públicos: a transferência da carga de trabalho docente para os períodos tradicionalmente utilizados para produção científica.

Essa situação pode gerar diversos efeitos indiretos:

• Redução do tempo disponível para pesquisa;

• Atrasos na publicação de artigos científicos;

• Menor participação em congressos e eventos acadêmicos;

• Dificuldades no cumprimento de cronogramas de projetos financiados;

• Redução do tempo de orientação de pós-graduação;

• Comprometimento de atividades de extensão junto à sociedade;

• Perda de oportunidades de cooperação internacional.

O impacto é ainda mais significativo em instituições como a Universidade de São Paulo.

A USP não é apenas a maior universidade brasileira. Ela responde historicamente por uma parcela expressiva da produção científica nacional, frequentemente estimada em cerca de um quarto de toda a produção científica brasileira indexada em bases internacionais. Além disso, concentra milhares de projetos de pesquisa em andamento, centenas de laboratórios e uma ampla rede de colaboração nacional e internacional.

Isso significa que os efeitos de uma paralisação prolongada não se restringem aos estudantes diretamente envolvidos. Quando atividades de pesquisa são adiadas, projetos sofrem atrasos, artigos deixam de ser submetidos, orientações são postergadas e cooperações internacionais são interrompidas ou reduzidas.

O custo real de uma greve em uma universidade de pesquisa não pode ser medido apenas pelo número de aulas perdidas.

Existe também um custo científico, tecnológico e social que raramente aparece nas estatísticas oficiais.

Uma semana de atraso na formação de um estudante pode ser recuperada por meio de reposições. Já a perda de uma oportunidade de submissão de projeto, de participação em um congresso internacional, de realização de um experimento com janela temporal específica ou de uma colaboração científica pode gerar consequências que se estendem por anos.

Além disso, merece destaque um aspecto frequentemente ignorado nos debates públicos: uma parcela significativa das atividades de pesquisa desenvolvidas nas universidades públicas brasileiras é financiada por recursos públicos provenientes de agências de fomento como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Os cronogramas desses projetos são estabelecidos contratualmente e incluem metas, entregas, relatórios técnicos, publicações e prestação de contas. Em muitos casos, os períodos de julho, janeiro e fevereiro são utilizados justamente para o cumprimento dessas atividades, uma vez que a redução das demandas de ensino permite maior dedicação à pesquisa.

Quando a reposição de aulas ocupa esses períodos, o impacto da greve ultrapassa a esfera do ensino e passa a afetar diretamente a execução de projetos financiados com recursos públicos. Em outras palavras, a paralisação deixa de produzir efeitos apenas sobre o calendário acadêmico e passa a influenciar também a capacidade do sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação de gerar conhecimento, formar recursos humanos qualificados e produzir soluções para a sociedade.

Essa reflexão não decorre apenas de uma análise teórica ou institucional.

Como docente do Instituto de Física da Universidade de São Paulo durante mais de quarenta anos, atuando em atividades de ensino, pesquisa, orientação de alunos de graduação e pós-graduação, administração acadêmica e participação em projetos científicos nacionais e internacionais, tive a oportunidade de acompanhar inúmeras paralisações e seus desdobramentos ao longo das últimas décadas.

A experiência demonstra que os prejuízos mais visíveis costumam ser aqueles associados à suspensão das aulas e às alterações do calendário acadêmico. Entretanto, os impactos mais profundos frequentemente ocorrem em áreas menos perceptíveis para a sociedade, como a pesquisa científica, a formação de mestres e doutores, a execução de projetos financiados por agências de fomento e a manutenção de colaborações nacionais e internacionais.

Em diversas ocasiões, observei períodos de reposição de aulas ocuparem justamente os meses tradicionalmente destinados à produção científica. Embora a reposição acadêmica seja necessária e desejável para minimizar prejuízos aos estudantes, ela inevitavelmente reduz o tempo disponível para atividades de pesquisa, elaboração de projetos, redação de artigos, orientação de pós-graduandos, participação em congressos científicos e desenvolvimento de atividades de extensão universitária.

Particularmente em universidades de pesquisa como a USP, os períodos de julho, janeiro e fevereiro desempenham papel estratégico para o avanço da produção científica. É nesses momentos que muitos docentes conseguem dedicar-se integralmente a atividades que, durante o semestre letivo regular, convivem com intensas demandas de ensino e gestão acadêmica.

Por essa razão, considero que a avaliação dos impactos de uma greve universitária deve ir além do número de dias de paralisação ou de aulas posteriormente repostas. Em universidades intensivas em pesquisa, os efeitos indiretos sobre a geração de conhecimento, a formação de recursos humanos altamente qualificados e a capacidade de inovação podem ser significativos e merecem ser incorporados ao debate institucional de forma transparente e baseada em evidências.

Após mais de quatro décadas de atuação acadêmica na Universidade de São Paulo, estou convencido de que a prevenção e a resolução antecipada dos conflitos institucionais produzem benefícios muito maiores para estudantes, docentes, pesquisadores e para a própria sociedade do que soluções construídas apenas após a paralisação das atividades.

O IVEPESP entende que o debate sobre greves universitárias deve considerar não apenas os impactos sobre o ensino de graduação, mas também seus reflexos sobre a pesquisa, a pós-graduação, a extensão e a inovação.

Da mesma forma, considera oportuno discutir mecanismos institucionais permanentes de prevenção e mediação de conflitos, capazes de ampliar o diálogo entre estudantes, docentes, servidores técnico-administrativos e dirigentes universitários antes que divergências legítimas evoluam para paralisações prolongadas.

Nesse contexto, merece reflexão a adoção de mecanismos modernos de consulta eletrônica institucional, ampliação dos espaços permanentes de negociação e criação de indicadores que permitam monitorar os custos acadêmicos, científicos e financeiros decorrentes de paralisações.

Universidades de classe mundial são construídas sobre quatro pilares indissociáveis: ensino, pesquisa, extensão e inovação. Quando um desses pilares é afetado, os reflexos inevitavelmente alcançam os demais.

O desafio das universidades brasileiras não é apenas garantir a retomada das aulas após uma greve, mas preservar a continuidade de sua missão acadêmica e científica em todas as suas dimensões.

A experiência recente da USP oferece uma oportunidade valiosa para que a comunidade universitária reflita não apenas sobre as causas dos conflitos, mas também sobre os mecanismos institucionais necessários para reduzir sua recorrência e minimizar seus impactos.

Prof. Dr. Helio Dias

Professor Aposentado do Instituto de Física da USP

Presidente do IVEPESP

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