O IVEPESP – Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo considera absolutamente legítima a preocupação nacional com a qualidade da formação inicial de professores. Não existe educação de qualidade sem professores bem preparados, valorizados e acompanhados ao longo de sua trajetória profissional.
A docência é uma profissão profundamente relacional, baseada em interações humanas complexas, envolvendo dimensões cognitivas, emocionais, sociais e culturais que não podem ser reduzidas à mera transmissão de conteúdos por telas.
Entretanto, o debate brasileiro sobre formação docente frequentemente tem sido conduzido por uma falsa dicotomia entre “ensino presencial de qualidade” e “EAD de baixa qualidade”. Essa simplificação ignora experiências nacionais e internacionais exitosas e acaba desviando o foco do verdadeiro problema: a ausência histórica de políticas robustas de qualidade, supervisão acadêmica, prática pedagógica estruturada e avaliação consistente dos cursos de formação docente — independentemente da modalidade.
O problema central não é a modalidade. O problema é a qualidade do projeto pedagógico, da infraestrutura acadêmica e dos mecanismos de supervisão e avaliação.
A experiência paulista demonstra de forma concreta que qualidade acadêmica e educação a distância podem coexistir quando existe planejamento institucional, forte acompanhamento pedagógico e integração entre tecnologia, prática e interação humana.
A UNIVESP representa um exemplo relevante dessa possibilidade. Sua trajetória foi construída com apoio acadêmico das três universidades estaduais paulistas — Universidade de São Paulo, Universidade Estadual Paulista e Universidade Estadual de Campinas — constituindo um modelo colaborativo singular no cenário brasileiro.
Esse arranjo demonstra que autonomia universitária, responsabilidade fiscal, inovação tecnológica e excelência acadêmica podem coexistir de maneira altamente virtuosa quando há visão estratégica de longo prazo e compromisso público com a educação.
O modelo paulista consolidou um amplo ecossistema público de formação, pesquisa e educação tecnológica que inclui também o Centro Paula Souza, responsável pelas Escolas Técnicas Estaduais e Faculdades de Tecnologia do Estado de São Paulo, formando uma das experiências mais abrangentes e sofisticadas de educação pública da América Latina.
Fortalecer esse sistema integrado significa defender uma das maiores conquistas institucionais da educação brasileira: a capacidade de oferecer formação pública de qualidade para diferentes perfis de estudantes, utilizando modelos presenciais, híbridos, tecnológicos e digitais com forte supervisão acadêmica e compromisso com excelência.
Um exemplo emblemático foi o curso de Licenciatura em Ciências da USP desenvolvido em parceria com a UNIVESP. O projeto foi concebido a partir de uma arquitetura pedagógica sofisticada que integrava:
polos presenciais;
laboratórios reais da USP;
videoaulas;
materiais didáticos próprios;
fóruns e chats;
videoconferências;
acompanhamento tutorial contínuo;
intensa interação entre estudantes e docentes;
avaliação baseada em dados e indicadores educacionais.
O próprio material institucional do curso destacava que “a tecnologia por si só não garante a efetividade da aprendizagem”, enfatizando a necessidade de alinhamento entre tecnologia, estratégia pedagógica e qualidade acadêmica.
Outro aspecto central era o entendimento de que o estudante da modalidade a distância deveria possuir acesso efetivo à infraestrutura universitária. O curso utilizava laboratórios já existentes da USP e garantia ao aluno da EAD condição acadêmica equivalente à dos estudantes presenciais.
A experiência também antecipava conceitos extremamente atuais da educação apoiada por Inteligência Artificial e Ciência de Dados, incluindo:
monitoramento contínuo do processo de aprendizagem;
análise de desempenho dos estudantes;
acompanhamento do tempo de resposta de tutores;
avaliação da qualidade das interações pedagógicas;
geração de indicadores educacionais para melhoria contínua do curso.
Nos últimos anos, a Inteligência Artificial vem transformando profundamente os modelos de educação a distância em diversas partes do mundo, inclusive na formação de professores. A discussão contemporânea já não se limita mais à simples transmissão de conteúdos online, mas avança para sistemas educacionais inteligentes, personalizados e fortemente apoiados por análise de dados e acompanhamento contínuo da aprendizagem.
Hoje, com os avanços da Inteligência Artificial Generativa, tais possibilidades tornam-se ainda mais amplas, permitindo:
personalização da aprendizagem;
identificação precoce de dificuldades;
apoio automatizado ao estudante;
ampliação da acessibilidade;
simulações e laboratórios virtuais;
sistemas inteligentes de tutoria;
suporte à formação prática supervisionada.
Universidades e sistemas educacionais de referência internacional têm utilizado Inteligência Artificial para:
personalização de trilhas de aprendizagem;
acompanhamento individualizado do desenvolvimento pedagógico;
tutoria inteligente em larga escala;
análise contínua de desempenho;
recomendação automática de conteúdos complementares;
apoio à produção de planos de aula e materiais pedagógicos;
desenvolvimento de competências digitais e analíticas dos futuros professores.
Experiências internacionais como a da The Open University, além de iniciativas na Finlândia, Singapura, Coreia do Sul e Estados Unidos, reforçam a mesma conclusão: a qualidade da formação docente não depende exclusivamente da modalidade presencial ou a distância, mas da qualidade do projeto pedagógico, da infraestrutura institucional, da supervisão acadêmica e da capacidade de integração entre tecnologia, prática e interação humana.
Nesse contexto, a Inteligência Artificial não substitui o professor formador nem elimina a necessidade das práticas presenciais supervisionadas. Pelo contrário: ela pode fortalecer o processo formativo, permitindo que o tempo presencial seja utilizado de maneira mais qualificada, focada em práticas pedagógicas, interação humana, resolução de problemas reais e desenvolvimento socioemocional.
O IVEPESP entende que uma política moderna de formação docente deve combinar:
sólida formação teórica;
forte presença de práticas supervisionadas;
residência pedagógica contínua;
modelos híbridos de aprendizagem;
uso intensivo de tecnologias educacionais;
acompanhamento tutorial efetivo;
integração com escolas reais;
avaliação permanente de desempenho;
análise inteligente de dados;
desenvolvimento de competências socioemocionais e relacionais;
preparação para atuação em ambientes educacionais presenciais, híbridos e digitais.
O debate nacional, portanto, não deve ser reduzido a uma oposição simplista entre “presencial” e “EAD”, mas sim concentrar-se na construção de modelos híbridos de alta qualidade, fortemente avaliados, supervisionados e apoiados por evidências científicas.
Defender qualidade na formação docente não pode significar negar as possibilidades tecnológicas do século XXI.
O Brasil possui enormes desigualdades regionais e dificuldades históricas para levar formação superior de qualidade ao interior do país. Em muitas regiões, a educação a distância representa não um problema, mas a única possibilidade concreta de acesso à formação universitária.
Ao invés de demonizar a EAD, o país deveria concentrar esforços em:
estabelecer critérios rigorosos de qualidade;
exigir maior carga prática supervisionada;
fortalecer polos presenciais;
implantar sistemas modernos de avaliação;
utilizar inteligência artificial e análise de dados para acompanhamento da aprendizagem;
diferenciar instituições sérias de operações meramente comerciais;
criar mecanismos contínuos de acreditação e supervisão.
A transformação tecnológica já alterou profundamente a sociedade, o mercado de trabalho e a própria escola. Formar professores para um mundo analógico que já não existe seria um grave erro estratégico.
O futuro da educação brasileira não será construído pela negação da tecnologia, mas pela combinação inteligente entre presença humana, prática pedagógica, ciência da aprendizagem, inteligência artificial e inovação educacional.em e inovação educacional.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
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