O Brasil atravessa uma crise silenciosa, porém estratégica, na formação de engenheiros. Não se trata de um problema setorial, restrito às instituições de ensino superior ou ao debate educacional. Trata-se de uma ameaça direta à capacidade nacional de produzir inovação, ampliar produtividade, sustentar competitividade industrial e preservar qualquer projeto sério de desenvolvimento soberano.

Os sinais dessa crise são inequívocos. A queda expressiva nas matrículas, a evasão em larga escala, a baixa empregabilidade dos egressos e a crescente desconexão entre formação universitária e realidade produtiva revelam que o modelo vigente perdeu aderência ao país real. Em vez de formar quadros para transformar a economia, passou a reproduzir trajetórias longas, caras e frequentemente incapazes de entregar valor profissional consistente. O resultado é grave: o Brasil desperdiça talento, frustra vocações e enfraquece sua base técnica exatamente no momento em que mais precisaria fortalecê-la.

A crise não é apenas pedagógica. É institucional.

O debate sobre a engenharia no Brasil costuma ser conduzido como se estivéssemos diante de um problema metodológico ou curricular isolado. Não estamos. O que se consolidou foi um bloqueio institucional mais profundo: o país aprovou uma mudança de paradigma, mas não construiu, no tempo devido, os mecanismos de avaliação e indução capazes de torná-la efetiva.

A Resolução CNE/CES nº 2, de 24 de abril de 2019, instituiu novas Diretrizes Curriculares Nacionais para Engenharia, orientadas por competências, integração entre teoria e prática, aproximação com o ambiente profissional e maior autonomia institucional para reorganização dos percursos formativos. Em 2020, no contexto da pandemia, o próprio CNE aprovou a prorrogação do prazo de implantação das novas DCNs.

Ainda assim, mesmo considerando a extensão extraordinária do prazo, a implantação deveria ter se consolidado em 2022. Isso não ocorreu. O problema central foi a permanência, por tempo excessivo, de instrumentos avaliativos ancorados na lógica anterior. Sem avaliação coerente com a nova diretriz, a mudança regulatória perdeu força indutora. Em outras palavras: o país aprovou a reforma, mas manteve os incentivos do modelo antigo.

Esse descompasso ajudou a produzir um efeito perverso. Muitas instituições, sobretudo no setor privado, mas também no setor público, não realizaram transformações curriculares profundas porque o sistema regulatório ainda não punia a inércia nem premiava a antecipação. A transição, em grande parte dos casos, tornou-se formal, declaratória e burocrática, quando deveria ter sido estrutural, prática e pedagógica.

O atraso custou anos ao país

Quando uma diretriz inovadora é aprovada, mas a engrenagem avaliativa continua presa ao passado, o país não apenas adia uma reforma: ele amplia seu atraso histórico. Foi exatamente isso que ocorreu. O INEP iniciou apenas posteriormente a revisão mais ampla de instrumentos, incluindo novas etapas de consulta pública em 2025, evidenciando que o processo de atualização avaliativa se prolongou muito além do razoável.

O dano é concreto. O Brasil perdeu tempo precioso em um período no qual outras economias aprofundaram a integração entre formação técnica, STEM, inovação aplicada e política industrial. Aqui, ao contrário, manteve-se por anos um ambiente em que cursos podiam preservar estruturas fragmentadas, estágios meramente protocolares, baixa densidade prática e reduzida conexão com problemas reais sem sofrer pressão regulatória proporcional.

Esse atraso não é neutro. Ele se converte em evasão, baixa atratividade, diplomas com menor valor percebido, escassez de profissionais em áreas críticas e aumento da dependência tecnológica do país. É o tipo de omissão institucional que corrói o futuro sem produzir manchete imediata.

A engenharia precisa voltar a ter sentido para o estudante e para o país

A superação dessa crise exige romper com a arquitetura pedagógica que expulsa o estudante nos primeiros anos. A fragmentação do ciclo básico, dissociada de contexto profissional, continua sendo um dos principais motores do desengajamento. A lógica do “primeiro sofrer, depois aplicar” tornou-se incompatível com o perfil dos estudantes, com a velocidade das transformações tecnológicas e com as exigências contemporâneas do mundo do trabalho.

O caminho é outro: vivência prática desde o início da graduação, integração com ambientes produtivos reais, aprendizagem baseada em problemas, projetos interdisciplinares, uso inteligente de tecnologias digitais e reconfiguração do papel docente para além da transmissão linear de conteúdo. Não se trata de rebaixar a exigência acadêmica. Trata-se, ao contrário, de devolver sentido, densidade e consequência ao aprendizado.

Agenda propositiva do IVEPESP

À luz desse diagnóstico, o IVEPESP reafirma uma agenda institucional recente, integrada e orientada a resultados:

1. Alinhamento imediato entre regulação, avaliação e currículo, para impedir que novas reformas sejam neutralizadas por instrumentos herdados do modelo anterior.

2. Reestruturação curricular efetiva dos cursos de engenharia, com base em competências, prática precoce, interdisciplinaridade e aproximação contínua com o setor produtivo.

3. Integração sistêmica entre educação, ciência, inovação e indústria, com protagonismo de universidades, empresas e ICTs em projetos reais de desenvolvimento.

4. Inserção estruturada de inteligência artificial, ciência de dados e tecnologias emergentes na formação em engenharia, não como adereço, mas como linguagem central da nova economia.

5. Revisão dos incentivos públicos à inovação, inclusive com aperfeiçoamento de mecanismos como a Lei do Bem, para ampliar projetos cooperativos entre academia e setor produtivo.

6. Governança orientada por evidências, com métricas de retenção, empregabilidade, densidade prática, engajamento industrial e aderência regulatória.

Conclusão

O problema da engenharia brasileira não é falta de norma. Também não é falta de diagnóstico. O problema foi, e em parte ainda é, a incapacidade de converter diretriz em consequência institucional concreta.

O país não pode mais aceitar reformas cuja implementação real seja adiada pela lentidão da máquina avaliativa, pela acomodação institucional ou pela preservação de incentivos ultrapassados. Cada ano perdido nesse processo aprofunda o hiato entre o Brasil e as nações que compreenderam que conhecimento técnico, engenharia forte e inovação aplicada não são temas periféricos: são a base material do desenvolvimento.

A engenharia brasileira precisa deixar de ser tratada como um setor em adaptação burocrática e voltar a ser reconhecida como uma infraestrutura estratégica de Estado.

Persistir no modelo atual é administrar a decadência.
Antecipar a transformação é reconstruir a capacidade nacional de futuro.


Nota: Esta análise foi baseada em palestra recente do Prof. Dr. Luiz Roberto Liza Curi à Academia Nacional de Engenharia, cujas reflexões, especialmente sobre o descompasso entre a implantação das DCNs e a atualização dos instrumentos de avaliação, foram decisivas para o amadurecimento desta posição institucional.

Assinaturas

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
e-mail: [email protected]

Prof. Dr. Luiz Roberto Liza Curi
Sociólogo e Doutor em Economia pela UNICAMP
Ex-Presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE)
Membro da Academia Nacional de Engenharia
e-mail: [email protected]