Os dados mais recentes do ENEM 2024 evidenciam um diagnóstico preocupante e, ao mesmo tempo, sofisticado: a desigualdade na aprendizagem matemática no Brasil não é homogênea — ela varia significativamente por habilidade.

A análise detalhada por habilidades revela dois fenômenos distintos e igualmente graves.
1. Desigualdade extrema em habilidades específicas
A habilidade H26 — argumentação com gráficos e tabelas — apresenta o maior nível de desigualdade regional observado.
- Regiões Sul e Sudeste: próximas de 60% de acerto
- Região Norte: em torno de 35%
👉 Trata-se de uma diferença de quase 25 pontos percentuais dentro da mesma competência cognitiva.
Esse dado revela que o Brasil não apenas possui desigualdades educacionais, mas que estas se manifestam em conteúdos específicos, indicando diferenças profundas na qualidade da formação oferecida.
2. Falhas estruturais nacionais (independentes da região)
Por outro lado, habilidades como:
- H11 — escalas
- H22 — argumentação algébrica/geométrica
apresentam taxas de acerto inferiores a 20% em todas as regiões.
👉 Nesse caso, não se trata de desigualdade regional.
👉 Trata-se de um colapso nacional na aprendizagem dessas competências.
Ou seja, o país enfrenta simultaneamente:
- desigualdades regionais profundas (problema distributivo)
- e déficits estruturais generalizados (problema sistêmico)
3. O vazio crítico da pesquisa aplicada no Brasil
Apesar da riqueza dos dados disponíveis, há uma lacuna grave na produção acadêmica nacional.
A literatura brasileira em educação matemática:
- privilegia indicadores agregados de proficiência
- raramente analisa habilidades específicas por território
Consequentemente, perguntas essenciais permanecem sem resposta:
- Por que determinados estados apresentam baixo desempenho em álgebra, mas não em geometria?
- Quais conteúdos estão sistematicamente ausentes na formação de estudantes da Região Norte?
- Como variam os déficits de aprendizagem dentro das redes estaduais e municipais?
👉 Sem esse nível de granularidade, a política pública educacional opera no escuro.
4. Políticas públicas “cegas” e ineficiência sistêmica
A ausência de diagnósticos por habilidade e território gera um problema estrutural:
O Brasil mede desempenho, mas não entende aprendizagem.
Investir apenas em rankings gerais (estaduais ou municipais):
- não identifica o problema real
- não orienta intervenções pedagógicas eficazes
- não melhora a formação docente de forma direcionada
É equivalente a:
tratar um paciente sem saber qual órgão está comprometido.
5. Caminho propositivo: da mensuração à intervenção inteligente
O país já possui:
- bases de dados robustas (como os microdados do ENEM)
- capacidade técnica instalada (universidades, ICTs e centros de pesquisa)
O desafio agora é transformar dados em política educacional de precisão.
O IVEPESP propõe:
🔹 1. Criação de estudos nacionais por habilidade e território
Mapeamento detalhado de desempenho em matemática por:
- habilidade
- estado
- rede de ensino
🔹 2. Integração com formação docente
Direcionamento de:
- programas de capacitação
- materiais didáticos
- metodologias pedagógicas
com foco nas habilidades críticas locais.
🔹 3. Uso intensivo de ciência de dados e IA
Aplicação de:
- análise de microdados educacionais
- modelos preditivos
- sistemas de recomendação pedagógica
para orientar decisões em tempo real.
🔹 4. Política educacional baseada em evidência granular
Substituição de abordagens genéricas por:
- intervenções específicas
- metas por competência
- avaliação contínua de impacto
6. Conclusão
Os dados do ENEM 2024 deixam claro:
O problema da educação matemática no Brasil não é único — é múltiplo, localizado e tecnicamente identificável.
Persistir em políticas genéricas significa:
- desperdiçar recursos
- manter desigualdades
- comprometer a formação de capital humano
Por outro lado, avançar para uma abordagem baseada em evidência detalhada representa uma oportunidade histórica de:
- elevar a qualidade da educação
- reduzir desigualdades regionais
- aumentar a produtividade e competitividade do país
📌 Síntese Executiva
- A desigualdade educacional varia por habilidade
- Algumas competências apresentam gap regional extremo
- Outras revelam fracasso nacional generalizado
- Falta pesquisa aplicada com granularidade suficiente
- Políticas públicas atuais operam com baixa precisão
- O Brasil precisa migrar para um modelo de educação orientada por dados
✍️ Autores
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
e-mail: [email protected]
Helio Henrique Villela Dias
Engenheiro de Computação | Cientista de Dados (Lello Lab)
Doutorando em Ciência da Computação (UNIFESP – ICT)
https://ivepesp.org.br/membro/helio-henrique-villela-dias/