O desafio brasileiro de transformar capital humano em produtividade, inovação e bons empregos
Nota do IVEPESP inspirada no artigo “To fix education, fix the economy first”, de John Burn-Murdoch, publicado pelo Financial Times em agosto de 2026
Há uma ideia profundamente enraizada no debate sobre desenvolvimento: quanto mais um país investir em educação, maior será sua produtividade, melhores serão os empregos e mais elevados serão os salários de sua população.
A afirmação contém uma parcela importante de verdade. Nenhuma sociedade contemporânea conseguiu alcançar níveis elevados e sustentáveis de desenvolvimento econômico e social sem uma população bem educada, universidades qualificadas, produção científica e capacidade tecnológica.
Mas a relação entre educação e desenvolvimento talvez seja mais complexa do que frequentemente admitimos.
Em recente artigo publicado pelo Financial Times, o jornalista e analista de dados John Burn-Murdoch propõe uma provocação particularmente relevante: muitos problemas que costumamos atribuir à educação podem, na realidade, ser manifestações de problemas mais profundos da economia. Seu argumento central é que educação cria potencial, mas somente uma economia produtiva, inovadora e dinâmica consegue transformar esse potencial em empregos qualificados, produtividade e melhores salários. (Financial Times)
A reflexão merece atenção no Brasil.
Nosso problema, entretanto, é ainda mais complexo. O país enfrenta simultaneamente déficits educacionais importantes e uma estrutura econômica que nem sempre é capaz de utilizar plenamente o capital humano que consegue formar.
Essa combinação talvez seja uma das principais explicações para uma das grandes dificuldades brasileiras: crescemos, formamos profissionais, ampliamos universidades e produzimos ciência, mas continuamos enfrentando enormes obstáculos para transformar conhecimento em produtividade e prosperidade.
A educação não perdeu seu valor
Periodicamente aparece no Brasil a ideia de que teríamos expandido demasiadamente o ensino superior, produzido diplomas em excesso ou formado profissionais para os quais não haveria espaço no mercado de trabalho.
Os dados sugerem cautela diante dessa interpretação.
Segundo a OCDE, o ensino superior continua produzindo um retorno econômico extremamente elevado no Brasil. Trabalhadores de 25 a 64 anos com formação superior recebem, em média, 148% mais do que aqueles cuja maior escolaridade é o ensino médio. Na média da OCDE, essa diferença é de aproximadamente 54%. (OECD)
Portanto, seria equivocado concluir que o diploma perdeu importância.
Ao contrário: a elevada diferença de rendimentos demonstra que o mercado de trabalho brasileiro ainda premia fortemente a educação superior.
Mas esse mesmo dado revela outro problema.
Quando o retorno relativo da educação é muito elevado em uma sociedade de salários médios relativamente baixos, temos uma forte evidência de desigualdade de oportunidades e de escassez relativa de trabalhadores altamente qualificados.
Assim, o problema brasileiro não parece ser simplesmente termos “diplomados demais”.
A questão mais importante é outra:
que economia estamos construindo para aproveitar o conhecimento daqueles que formamos?
Educação cria potencial. Produtividade transforma potencial em prosperidade
Aqui está talvez a principal contribuição da reflexão de Burn-Murdoch para o Brasil.
Uma pessoa pode estudar durante quinze ou vinte anos, concluir uma graduação, um mestrado ou um doutorado e desenvolver competências sofisticadas. Mas sua capacidade de transformar esse conhecimento em produtividade depende também do ambiente econômico em que trabalha.
Imagine-se um engenheiro altamente qualificado.
Se ele trabalha em uma empresa tecnologicamente avançada, utilizando automação, inteligência artificial, equipamentos modernos, sistemas sofisticados de gestão e realizando pesquisa e desenvolvimento, seu potencial poderá ser amplificado.
Mas o mesmo engenheiro, inserido em uma empresa pouco capitalizada, tecnologicamente defasada e com baixa capacidade de inovação, dificilmente conseguirá transformar toda sua formação em produtividade.
O conhecimento está na pessoa. A produtividade nasce da interação entre a pessoa, a tecnologia, o capital, a organização e o ambiente econômico.
É justamente nesse ponto que surge uma das grandes vulnerabilidades brasileiras.
Estudo recente do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da FGV IBRE, mostra que, entre 1996 e 2024, a produtividade agregada do trabalho no Brasil cresceu em média apenas 0,8% ao ano. O desempenho varia significativamente entre setores, sendo a agropecuária um dos segmentos que mais se destacaram no avanço da produtividade. (FGV IBRE)
Uma economia que aumenta muito lentamente a produtividade encontra dificuldades para sustentar, no longo prazo, aumentos expressivos dos salários reais.
Por isso, educação e produtividade precisam ser discutidas conjuntamente.
Emprego não é suficiente: precisamos discutir a qualidade do emprego
O mercado de trabalho brasileiro apresentou nos últimos anos indicadores quantitativos favoráveis.
Em 2025, a taxa anual de desemprego ficou em 5,6%, segundo o IBGE. Entretanto, naquele mesmo ano, 38,1% da população ocupada encontrava-se na informalidade. (Agência de Notícias IBGE)
Esses dois números, quando observados conjuntamente, ajudam a compreender o desafio.
Não basta perguntar:
quantos empregos o Brasil está criando?
Precisamos perguntar também:
que empregos estamos criando?
Uma economia pode apresentar baixo desemprego e simultaneamente possuir parcela expressiva de sua população em ocupações de baixa produtividade, baixa intensidade tecnológica, reduzido capital por trabalhador e poucas oportunidades de progressão profissional.
Para um país que pretende competir na economia do conhecimento, essa diferença é fundamental.
O objetivo das políticas públicas não deveria ser apenas maximizar a quantidade de postos de trabalho, mas aumentar progressivamente a presença de empregos produtivos, tecnológicos, formais e capazes de remunerar melhor o conhecimento.
O paradoxo brasileiro da educação profissional
Essa discussão torna-se especialmente relevante quando analisamos a educação profissional e tecnológica.
Há décadas o Brasil discute como ampliar o prestígio do ensino técnico.
Frequentemente buscamos a solução exclusivamente dentro do sistema educacional: novos currículos, novas nomenclaturas, reorganização dos cursos, campanhas de valorização e alterações institucionais.
Tudo isso pode ser importante.
Mas talvez estejamos olhando apenas metade do problema.
Segundo a OCDE, o Brasil apresentou crescimento significativo das matrículas na educação profissional, mas apenas cerca de 14% dos estudantes do ensino médio estavam matriculados nessa modalidade em 2023, proporção ainda bastante inferior à média dos países da organização. (OECD)
Precisamos ampliar essa participação.
Entretanto, o prestígio da educação profissional não será determinado somente dentro das escolas.
Ele será definido também nas fábricas, empresas, laboratórios e serviços onde esses profissionais trabalharão posteriormente.
Um jovem de 16 ou 17 anos observa racionalmente o mercado de trabalho.
Ele compara salários, perspectivas de carreira, estabilidade, reconhecimento social e oportunidades futuras.
Portanto:
o prestígio de um diploma técnico depende também do emprego que esse diploma permite alcançar.
Uma política moderna de educação profissional precisa, por isso, caminhar conjuntamente com uma política de desenvolvimento produtivo, industrial, científico e tecnológico.
O Brasil tem, porém, um problema que os países desenvolvidos não podem ignorar por nós
Há um limite importante para a aplicação direta da tese do Financial Times ao Brasil.
Não podemos atribuir nossos problemas apenas à economia.
Ainda temos um enorme desafio educacional.
No PISA 2022, os estudantes brasileiros obtiveram 379 pontos em matemática, 410 em leitura e 403 em ciências, enquanto as médias da OCDE foram, respectivamente, 472, 476 e 485 pontos. (GPS Education OECD)
O dado mais preocupante talvez esteja em matemática: apenas 27% dos estudantes brasileiros alcançaram ao menos o nível 2 de proficiência, considerado pela OCDE uma referência básica de capacidade para utilizar conhecimentos matemáticos em situações relativamente simples. Na média da OCDE, foram 69%. (OECD)
Portanto, diferentemente de algumas economias desenvolvidas discutidas por Burn-Murdoch, o Brasil ainda precisa aumentar significativamente a própria quantidade e qualidade do capital humano.
Não podemos dizer simplesmente:
“consertem a economia e a educação se resolverá”.
Tampouco devemos continuar acreditando que:
“basta melhorar a educação e todos os demais problemas econômicos serão solucionados”.
As duas afirmações são incompletas.
O verdadeiro círculo virtuoso do desenvolvimento
A experiência internacional sugere que desenvolvimento não resulta de uma sequência linear simples.
Não funciona necessariamente assim:
Educação → automaticamente → desenvolvimento.
O processo é mais complexo.
Podemos representá-lo como um círculo virtuoso:
Educação → Capital humano → Ciência e tecnologia → Inovação → Produtividade → Melhores empresas → Empregos qualificados → Melhores salários → Maior retorno da educação → Mais investimento em educação.
Quando esse sistema funciona, seus componentes se reforçam mutuamente.
Mas existe também um círculo vicioso:
Educação insuficiente → Baixa produtividade → Baixos salários → Empresas pouco sofisticadas → Pouca demanda por trabalhadores altamente qualificados → Menor incentivo à qualificação → Baixo crescimento econômico.
Romper esse ciclo exige abandonar políticas públicas organizadas em compartimentos estanques.
Educação não pode ser responsabilidade exclusiva do Ministério da Educação.
Produtividade não pode ser tratada apenas pelo Ministério da Fazenda.
Inovação não pode permanecer restrita ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Indústria não pode ser discutida isoladamente das universidades.
São componentes diferentes de uma mesma estratégia nacional de desenvolvimento.
Uma agenda brasileira para educação e produtividade
A reflexão internacional permite apontar alguns princípios para uma estratégia brasileira.
1. Melhorar radicalmente a educação básica.
Nenhuma estratégia de produtividade será sustentável se grande parcela dos jovens chegar à vida adulta sem competências adequadas de leitura, matemática, ciências e resolução de problemas.
2. Ampliar fortemente a educação profissional e tecnológica.
O ensino técnico precisa deixar de ser considerado uma alternativa educacional secundária e tornar-se uma das principais portas de entrada para profissões tecnológicas e industriais.
3. Aproximar instituições de ensino e empresas.
Escolas técnicas, universidades, institutos de pesquisa e setor produtivo precisam desenvolver mecanismos muito mais intensos de cooperação em formação profissional, pesquisa, desenvolvimento e inovação.
4. Aumentar a inovação dentro das empresas.
Não basta produzir conhecimento nas universidades. É necessário aumentar a capacidade das empresas de absorver, desenvolver e transformar conhecimento científico em novos produtos, serviços e processos.
5. Aumentar o capital por trabalhador.
Máquinas modernas, software, inteligência artificial, automação, infraestrutura e sistemas avançados de gestão multiplicam a capacidade produtiva das pessoas.
6. Estimular empresas intensivas em conhecimento.
Uma economia do século XXI precisa aumentar sua participação em setores de maior intensidade tecnológica e maior valor agregado.
7. Criar empregos compatíveis com a qualificação que o país deseja produzir.
Não podemos incentivar milhões de jovens a estudar mais e simultaneamente oferecer uma estrutura econômica incapaz de aproveitar adequadamente sua formação.
8. Colocar a produtividade no centro da política econômica.
O crescimento sustentável dos salários e do padrão de vida depende, em última análise, da capacidade de produzir mais valor com os recursos disponíveis.
Nem educação sem economia, nem economia sem educação
Talvez a maior contribuição da provocação do Financial Times seja nos obrigar a reconsiderar a pergunta que fazemos.
Em vez de perguntar apenas:
“Como a educação pode melhorar a economia?”
precisamos também perguntar:
“Que tipo de economia precisamos construir para valorizar a educação que oferecemos?”
No caso brasileiro, a resposta exige reconhecer simultaneamente duas realidades.
Ainda precisamos formar muito mais e formar melhor.
Mas também precisamos construir uma economia capaz de aproveitar muito melhor aqueles que formamos.
Portugal pode olhar para seus jovens altamente qualificados emigrando para economias mais produtivas e concluir que está formando capital humano para a prosperidade de outros países.
A realidade brasileira é diferente e talvez ainda mais preocupante:
O Brasil ainda forma menos capital humano do que necessita e, ao mesmo tempo, desperdiça parte do potencial daqueles que consegue formar.
Superar esse paradoxo exige que educação, ciência, inovação, indústria e política econômica deixem de ser tratadas como agendas independentes.
São partes de um mesmo projeto.
Conclusão
A educação cria possibilidades extraordinárias.
Ela aumenta a liberdade individual, amplia a capacidade de compreender o mundo, fortalece a democracia, promove mobilidade social e cria conhecimento.
Mas desenvolvimento econômico exige algo adicional.
É preciso transformar conhecimento em inovação.
Inovação em produtividade.
Produtividade em melhores empregos.
E melhores empregos em prosperidade social.
Por isso, talvez a principal lição para o Brasil seja simples:
A educação cria potencial. A ciência e a inovação ampliam sua capacidade. Mas é uma economia produtiva e dinâmica que transforma esse potencial em oportunidades, melhores salários e desenvolvimento.
Não se trata, portanto, de escolher entre investir na educação ou modernizar a economia.
Essa é uma falsa escolha.
A reforma econômica não substitui a educação. A educação não substitui a reforma econômica.
O verdadeiro desafio brasileiro consiste em conectá-las.
Porque a prosperidade do século XXI será construída pelos países que conseguirem fazer com que escolas formem pessoas, universidades produzam conhecimento, empresas transformem conhecimento em inovação e a economia converta inovação em qualidade de vida para toda a sociedade.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo – IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
Referências principais
- BURN-MURDOCH, John. To fix education, fix the economy first. Financial Times, agosto de 2026. (Financial Times)
- OECD. Education at a Glance 2025 – Brazil. Paris: OECD, 2025. (OECD)
- OECD. PISA 2022 Results – Country Note: Brazil. Paris: OECD. (OECD)
- IBGE. PNAD Contínua: em 2025, taxa anual de desocupação foi de 5,6% e taxa de subutilização foi de 14,5%. Janeiro de 2026. (Agência de Notícias IBGE)
- FGV IBRE. Observatório da Produtividade Regis Bonelli. Estudos sobre produtividade do trabalho no Brasil. (FGV IBRE)