O Ranking de Depositantes Residentes de Patentes de Invenção de 2025, divulgado pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial – INPI, oferece uma oportunidade para uma reflexão que vai muito além de saber quem patenteia mais no Brasil.
A Stellantis aparece na primeira posição, com 225 depósitos, seguida pela Petrobras, com 172. O dado que imediatamente chama a atenção, entretanto, é a forte presença das universidades públicas: UFMG, com 94; UFCG, com 84; Unicamp, com 73; USP, com 65; UFRPE, com 62; e diversas outras instituições públicas entre os maiores depositantes do país.
O resultado demonstra a capacidade da universidade brasileira de produzir conhecimento e gerar propriedade intelectual.
Mas provoca uma pergunta ainda mais importante:
O que acontece depois da patente?
Esta talvez seja uma das questões centrais para o futuro da política brasileira de educação, ciência, tecnologia e inovação.
PATENTE NÃO É SINÔNIMO DE INOVAÇÃO
Uma patente é um indicador importante da capacidade inventiva de uma instituição, mas não significa necessariamente que determinada tecnologia tenha se transformado em produto, processo, aumento de produtividade ou benefício econômico e social.
Entre a invenção e o mercado existe uma longa cadeia:
PESQUISA → INVENÇÃO → PATENTE → PROTÓTIPO → DESENVOLVIMENTO → PRODUÇÃO → MERCADO
Nas universidades existe ainda uma etapa fundamental:
TRANSFERÊNCIA DA TECNOLOGIA PARA QUEM POSSA UTILIZÁ-LA.
É justamente aí que a comparação entre universidades e empresas se torna particularmente interessante.
AS UNIVERSIDADES: UMA EXTRAORDINÁRIA CAPACIDADE DE GERAR CONHECIMENTO
O ranking do INPI evidencia a importância das universidades públicas brasileiras na produção de propriedade intelectual.
Isso deve ser reconhecido como um ativo nacional.
Mas uma universidade não é uma fábrica. Sua função não é produzir automóveis, medicamentos, equipamentos ou máquinas em escala comercial.
Por isso, para que uma patente universitária alcance a sociedade, normalmente é necessário que uma empresa licencie a tecnologia, que uma startup seja criada ou que alguma forma de parceria permita continuar o desenvolvimento até sua aplicação.
A Unicamp oferece um exemplo particularmente interessante.
Em 2025, sua Agência de Inovação assinou 38 novos contratos de transferência de tecnologia, incluindo licenciamento de patentes, programas de computador, know-how e transferência de materiais. A Universidade alcançou 254 acordos ativos de transferência, que geraram aproximadamente R$ 1,28 milhão em royalties e outros retornos financeiros naquele ano.
Isso demonstra que é possível acompanhar não apenas a geração da patente, mas também seu percurso posterior.
E sugere que o Brasil deveria começar a medir sistematicamente essa trajetória.
E O QUE ACONTECE NAS EMPRESAS QUE MAIS PATENTEIAM?
Quando examinamos algumas das empresas e organizações empresariais que aparecem entre os maiores depositantes, encontramos modelos diferentes — e extremamente instrutivos.
STELLANTIS — ENGENHARIA, PATENTE, PRODUTO E MERCADO
A Stellantis liderou o ranking brasileiro pelo segundo ano consecutivo, passando de 185 depósitos em 2024 para 225 em 2025, crescimento de 21,6%.
Mais importante do que o número isolado é a estrutura existente por trás dele.
No Brasil, a empresa possui mais de 3 mil engenheiros, designers e técnicos e mais de 60 laboratórios dedicados ao desenvolvimento tecnológico.
Um exemplo concreto é a tecnologia Bio-Hybrid, desenvolvida no Brasil, que combina eletrificação e motores flex e já foi incorporada a veículos produzidos pela companhia. A empresa prevê investimentos de R$ 32 bilhões entre 2025 e 2030 na América do Sul, incluindo novos produtos, powertrains e tecnologias de descarbonização.
Nesse caso, o caminho é relativamente direto:
P&D → PATENTE → ENGENHARIA → PRODUTO → FÁBRICA → MERCADO.
A empresa que produz a invenção é também capaz de transformá-la em atividade econômica.
PETROBRAS — O MODELO DE UM GRANDE CENTRO EMPRESARIAL DE P&D
A Petrobras apresenta outro modelo.
Seu Cenpes constitui uma grande infraestrutura dedicada à pesquisa, desenvolvimento e inovação. Ao final de 2025, possuía 1.234 empregados, dos quais 87% estavam dedicados exclusivamente a P&D, além de 116 laboratórios e mais de 4.600 equipamentos.
A Petrobras trabalha ainda em parceria com universidades, instituições de pesquisa nacionais e estrangeiras, fornecedores, startups e outras empresas.
Portanto, encontramos aqui outra cadeia:
UNIVERSIDADES + ICTs + CENPES + EMPRESAS → P&D → TECNOLOGIA → OPERAÇÕES DA PETROBRAS.
É um modelo no qual a grande empresa funciona também como articuladora de um amplo ecossistema científico e tecnológico.
BOSCH — QUANDO RECURSOS PRIVADOS E POLÍTICAS PÚBLICAS SE ENCONTRAM
O caso da Bosch acrescenta uma dimensão especialmente importante.
A empresa captou R$ 470 milhões da Finep e R$ 51 milhões do BNDES em crédito subsidiado, além de subvenções econômicas da Finep, para iniciativas de pesquisa, desenvolvimento e inovação até 2027 nas áreas de mobilidade, indústria 4.0 e agricultura inteligente.
Esses instrumentos contribuíram também para a implantação no Brasil de um Centro de Competência Global da Bosch em pesquisa, desenvolvimento e manufatura de tecnologias para o agronegócio.
Esse caso mostra algo essencial.
A inovação empresarial não precisa resultar apenas do investimento privado isolado.
Pode resultar de:
INVESTIMENTO EMPRESARIAL + POLÍTICA PÚBLICA + FINANCIAMENTO + PESQUISADORES + P&D → TECNOLOGIA E COMPETITIVIDADE.
O objetivo da política pública, portanto, deve ser utilizar seus instrumentos para induzir investimentos adicionais, capacidades tecnológicas e atividades de maior valor agregado no país.
RANDON — UMA PONTE INSTITUCIONAL ENTRE PESQUISA E INDÚSTRIA
O Instituto Hercílio Randon apresenta outro modelo interessante.
Trata-se de uma instituição privada sem fins lucrativos mantida pela Randoncorp e concebida para fortalecer a inovação e conectar empresas a entidades científicas, universidades, startups, poder público e outros atores do ecossistema.
A Randoncorp mantém centros de P&D, laboratórios e profissionais especializados, e utiliza o Instituto como mecanismo para identificar oportunidades tecnológicas e acelerar sua incorporação às empresas.
Nesse caso temos:
EMPRESA → INSTITUTO DE PESQUISA → UNIVERSIDADES/STARTUPS → TECNOLOGIA → EMPRESA → MERCADO.
É um modelo que merece atenção porque cria institucionalmente a ponte que muitas vezes falta entre produção científica e produção industrial.
EMBRAER — TALVEZ O EXEMPLO HISTÓRICO MAIS DIDÁTICO
A história da Embraer é particularmente relevante porque demonstra que a cadeia da inovação pode começar muito antes da criação da própria empresa.
Na década de 1940, o Brasil iniciou a construção de uma estratégia aeronáutica baseada na criação do Centro Técnico de Aeronáutica – CTA e do Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA, com forte ênfase na formação de engenheiros e no desenvolvimento tecnológico.
Posteriormente, o projeto IPD-6504 deu origem ao Bandeirante. A necessidade de transformar aquela capacidade científica e de engenharia em produção industrial levou, em 1969, à criação da Embraer.
A sequência merece ser observada:
FORMAÇÃO DE ENGENHEIROS → PESQUISA → ENGENHARIA → AVIÃO → EMPRESA → PRODUÇÃO → EXPORTAÇÃO.
Mais de meio século depois, essa cultura permanece.
Em 2025, a Embraer possuía 25.037 empregados consolidados, dos quais 3.553 trabalhavam em pesquisa e desenvolvimento. Ao final daquele ano, considerando patentes de utilidade e desenho, havia apresentado 987 pedidos de patente e obtido 820 concessões; a Eve acrescentava outros 35 pedidos e 24 concessões.
A empresa informa investir aproximadamente 5% de seu faturamento em pesquisa, desenvolvimento, inovação e melhoria de instalações industriais, além de manter cinco centros de pesquisa e parcerias com universidades, governos, empresas, aceleradoras e startups.
O caso Embraer contém uma importante lição para o Brasil:
a empresa tecnológica não surgiu antes do conhecimento.
Primeiro vieram formação de pessoas, ciência, laboratórios e engenharia.
Depois veio a indústria.
CINCO MODELOS, UMA CARACTERÍSTICA COMUM
Stellantis, Petrobras, Bosch, Randon e Embraer são organizações muito diferentes.
Não faria sentido simplesmente classificá-las por número de patentes ou tentar identificar qual modelo seria “melhor”.
Mas existe uma característica comum:
todas possuem mecanismos capazes de levar o conhecimento para além da patente.
Na Stellantis, a tecnologia chega ao automóvel.
Na Petrobras, chega às operações de energia.
Na Bosch, integra produtos, processos e competências tecnológicas globais.
Na Randon, o Instituto funciona como ponte entre pesquisa e indústria.
Na Embraer, engenharia e propriedade intelectual chegam a aeronaves comercializadas internacionalmente.
É justamente esse percurso que precisa ser ampliado no Brasil.
UNIVERSIDADE E EMPRESA NÃO SÃO MUNDOS SEPARADOS
Talvez esta seja a principal conclusão desta análise.
O debate brasileiro frequentemente coloca de um lado a universidade e, de outro, a empresa.
Os casos examinados mostram uma realidade diferente.
Os ecossistemas mais sofisticados funcionam aproximadamente assim:
UNIVERSIDADE + ICT + EMPRESA + GOVERNO + FINANCIAMENTO + CAPITAL HUMANO + PROPRIEDADE INTELECTUAL + MERCADO.
A universidade produz conhecimento e pessoas qualificadas.
A empresa identifica problemas, investe, desenvolve e escala tecnologias.
Institutos tecnológicos aproximam esses dois ambientes.
Finep, BNDES, EMBRAPII, FAPs e outros mecanismos podem compartilhar riscos e induzir investimentos.
E a propriedade intelectual ajuda a organizar e proteger os resultados dessa interação.
O BRASIL JÁ POSSUI INSTRUMENTOS IMPORTANTES
A Lei do Bem é atualmente o principal instrumento público de incentivo à PD&I empresarial.
No ano-base de 2024, 4.252 empresas utilizaram seus benefícios, declarando R$ 51,59 bilhões em investimentos em P&D, distribuídos em 14.877 projetos, com renúncia fiscal estimada em R$ 11,98 bilhões.
Mas existe um dado que merece atenção: a utilização desses instrumentos cresce fortemente com o porte empresarial. Pesquisa divulgada pelo MCTI mostrou que a Lei do Bem foi utilizada por 48,6% das empresas industriais inovadoras com mais de 500 empregados, mas por apenas 16,6% daquelas entre 100 e 249 empregados.
Isso sugere uma questão estratégica:
como levar o sistema de inovação para muito mais empresas brasileiras, especialmente pequenas e médias empresas?
DA PATENTE AO PIB
O IVEPESP propõe que a discussão brasileira sobre inovação avance para uma nova etapa.
Precisamos continuar medindo artigos científicos, pesquisadores, depósitos de patentes e investimentos em P&D.
Mas precisamos também medir o que acontece depois.
Propomos acompanhar a seguinte cadeia:
EDUCAÇÃO
↓
CIÊNCIA
↓
PESQUISA E DESENVOLVIMENTO
↓
PATENTE
↓
TRANSFERÊNCIA TECNOLÓGICA
↓
EMPRESA
↓
PRODUTO OU PROCESSO
↓
MERCADO
↓
PRODUTIVIDADE, EXPORTAÇÕES E EMPREGOS QUALIFICADOS
↓
PIB
Esse poderia ser chamado de Indicador “Da Patente ao PIB”.
Não seria simplesmente mais um ranking.
Seu objetivo seria medir a capacidade brasileira de transformar conhecimento em desenvolvimento econômico e social.
O QUE PRECISAMOS MEDIR
Uma agenda nacional dessa natureza poderia acompanhar, entre outros, os seguintes indicadores:
1. Capital humano: número de pesquisadores, engenheiros, mestres e doutores empregados pelas empresas.
2. Investimento: recursos privados e públicos destinados a P&D.
3. Cooperação: projetos realizados entre empresas, universidades e ICTs.
4. Propriedade intelectual: patentes depositadas e concedidas no Brasil e no exterior.
5. Transferência: tecnologias universitárias efetivamente licenciadas.
6. Desenvolvimento: tecnologias que alcançam protótipos e escala industrial.
7. Mercado: novos produtos e processos efetivamente introduzidos.
8. Resultado econômico: faturamento associado às inovações.
9. Internacionalização: exportações de produtos e tecnologias de maior intensidade tecnológica.
10. Impacto: produtividade, empregos qualificados e geração de renda.
UMA PERGUNTA PARA O BRASIL
Depois de examinar o ranking do INPI, talvez a pergunta mais importante não seja:
“Quem patenteia mais?”
Nem mesmo:
“Universidades ou empresas inovam mais?”
A pergunta deveria ser:
Por que o Brasil não possui muito mais empresas capazes de transformar ciência e tecnologia em produtos competitivos mundialmente?
Temos universidades produzindo conhecimento.
Temos pesquisadores qualificados.
Temos empresas demonstrando que é possível inovar no Brasil.
Temos casos como Petrobras e Embraer.
Temos multinacionais realizando P&D sofisticado no país, como Stellantis e Bosch.
Temos experiências interessantes de integração, como o Instituto Hercílio Randon.
Temos instrumentos como Finep, BNDES, EMBRAPII, Lei do Bem, FAPESP e demais Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa.
O desafio é fazer com que esses elementos deixem de constituir ilhas de excelência e passem a formar um sistema de inovação mais amplo, conectado e capaz de atingir milhares de empresas.
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E INOVAÇÃO: UMA ÚNICA POLÍTICA DE DESENVOLVIMENTO
O caso da Embraer talvez sintetize a principal mensagem desta nota.
Antes da empresa houve educação.
Antes da produção industrial houve formação de engenheiros.
Antes do produto houve ciência, pesquisa e desenvolvimento tecnológico.
Depois vieram a empresa, a fábrica, o mercado internacional e a geração de riqueza.
É difícil encontrar demonstração mais clara de que educação, ciência e inovação não deveriam ser tratadas como políticas independentes.
Elas constituem etapas de uma mesma estratégia nacional de desenvolvimento.
O Brasil não precisa escolher entre financiar universidades ou estimular empresas.
Precisa fortalecer as duas e, sobretudo, construir pontes muito mais eficientes entre elas.
O verdadeiro desafio não termina quando uma patente é depositada.
É justamente ali que começa a segunda metade da inovação.
O Brasil precisa aprender a percorrer sistematicamente o caminho:
**DA EDUCAÇÃO À CIÊNCIA.
DA CIÊNCIA À PATENTE.
DA PATENTE AO PRODUTO.
DO PRODUTO AO MERCADO.
E DO CONHECIMENTO AO PIB.**
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
Av. Paulista, nº 1636, Conjunto 4, 15º Pavimento
Cerqueira César – São Paulo/SP
CEP 01310-200
E-mail: [email protected]
Fonte principal: Instituto Nacional da Propriedade Industrial – Ranking de Depositantes Residentes de Patentes de Invenção – 2025.