A primeira nota do IVEPESP sobre o tema “Da Patente ao PIB” destacou uma questão central para o desenvolvimento brasileiro: precisamos acompanhar o que acontece com o conhecimento depois de sua produção e com a tecnologia depois de sua proteção.

O Ranking de Depositantes Residentes de Patentes de Invenção de 2025, publicado pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial — INPI, oferece um ponto de partida. Entre as instituições selecionadas para esta análise, aparecem Stellantis, com 225 depósitos; Petrobras, com 172; UFMG, com 94; UFCG, com 84; Unicamp, com 73; USP, com 65; Instituto Hercílio Randon, com 53; Bosch, com 42; e Embraer, com 34. Esses números se referem ao recorte específico do ranking brasileiro, e não ao conjunto mundial de patentes de cada organização.

São informações relevantes sobre capacidade inventiva e utilização do sistema de propriedade industrial. Entretanto, não demonstram, isoladamente, quais tecnologias chegaram ao mercado, foram incorporadas a processos produtivos ou produziram benefícios para a sociedade.

O próximo passo é conectar essas etapas.

Quanto do conhecimento produzido se transforma em tecnologia utilizada? Quanto dessa utilização contribui para produtividade, empregos qualificados, exportações e desenvolvimento social?

Esta segunda nota apresenta uma proposta de mensuração e seu primeiro instrumento de trabalho: a planilha piloto IVEPESP — Da Patente ao PIB.

1. O que significa “Da Patente ao PIB”

A expressão sintetiza um percurso mais amplo:

Educação → Ciência → Pesquisa e desenvolvimento → Tecnologia → Aplicação → Desenvolvimento econômico e social.

A patente é um possível marco intermediário. Muitas inovações utilizam software, segredo industrial, know-how ou outras formas de proteção. Outras chegam à sociedade sem propriedade intelectual formalmente registrada.

Também existem pesquisas de grande valor científico e social cujas aplicações levam muitos anos para aparecer.

Por isso, o painel deve acompanhar tecnologias patenteadas e não patenteadas, respeitando os diferentes tempos da pesquisa e as distintas formas de utilização do conhecimento.

Seu objetivo é compreender a transformação do conhecimento em resultados verificáveis.

2. Um painel de indicadores como primeira etapa

O IVEPESP propõe começar com um Painel da Patente ao PIB, organizado por dimensões e acompanhado de definições, fontes e limitações.

A criação imediata de um índice único poderia ocultar diferenças importantes. Uma universidade, uma empresa e um instituto tecnológico possuem missões, recursos e formas de atuação distintas.

Uma universidade forma pessoas, produz conhecimento e pode transferir tecnologias. Uma empresa desenvolve, incorpora e comercializa soluções. Uma instituição de pesquisa aplicada pode conectar esses ambientes.

O painel permitirá observar cada função e identificar os pontos em que o percurso avança ou encontra obstáculos.

Após a construção de séries históricas e a validação dos dados, será possível avaliar a conveniência de desenvolver um Índice de Conversão da Inovação.

3. As dimensões que precisamos acompanhar

A proposta organiza a coleta em nove dimensões complementares.

DimensãoO que acompanhar
Capital humanoPessoal dedicado a P&D e presença de mestres e doutores nessas atividades.
InvestimentoDispêndios anuais em P&D, subvenções, crédito público desembolsado e benefícios fiscais utilizados.
CooperaçãoProjetos com empresas e instituições científicas e recursos empresariais recebidos em parceria.
Propriedade intelectualDepósitos de patentes, concessões e carteira de tecnologias disponíveis para transferência.
Transferência tecnológicaContratos, tecnologias efetivamente transferidas e receitas de royalties e outros retornos.
AplicaçãoTecnologias comercializadas ou utilizadas em processos, operações e serviços.
EmpreendedorismoEmpresas originadas de pesquisa acadêmica e sua evolução.
Resultado econômicoReceita de produtos inovadores, exportações e empregos qualificados associados às tecnologias.
Impacto socialResultados documentados em saúde, educação, meio ambiente e serviços públicos.

Essas dimensões devem ser examinadas conjuntamente. A quantidade de patentes informa uma parte do percurso; a transferência e a aplicação ajudam a compreender suas etapas posteriores.

4. Capital humano: a base da inovação

O início da cadeia está nas pessoas.

A coleta deverá identificar pesquisadores e profissionais dedicados a P&D, suas qualificações e o tempo efetivamente destinado a essas atividades.

É necessário distinguir número de pessoas de dedicação equivalente a tempo integral, frequentemente denominada FTE. Dez profissionais que dedicam metade de sua jornada à pesquisa representam dez pessoas e cinco equivalentes de tempo integral.

Essa distinção permitirá comparações mais consistentes.

A formação de engenheiros, pesquisadores, mestres e doutores também precisa ser considerada na interpretação dos resultados. As capacidades tecnológicas são construídas ao longo do tempo, por meio da educação, da pesquisa e da experiência profissional.

5. Investimento: separar recursos de naturezas diferentes

O painel deverá registrar quanto foi efetivamente gasto em P&D no ano e como esse esforço foi financiado.

Para isso, é indispensável separar:

  • recursos próprios;
  • apoio público não reembolsável;
  • crédito público desembolsado;
  • benefícios fiscais utilizados;
  • recursos recebidos em projetos cooperativos.

Um contrato de financiamento plurianual não equivale ao gasto executado em determinado ano. Também não se deve somar indiscriminadamente crédito, subvenção e investimento quando esses valores financiam a mesma atividade.

O caso da Bosch ilustra essa necessidade: a empresa informou a captação de R$ 470 milhões da Finep e R$ 51 milhões do BNDES em crédito para iniciativas de PD&I até 2027. Esses valores descrevem financiamento contratado e precisam ser distinguidos dos desembolsos e gastos anuais.

A relação entre recursos privados e apoio público poderá ser acompanhada. Entretanto, afirmar quanto investimento adicional foi provocado por uma política exige uma avaliação específica, com comparação ao que provavelmente ocorreria sem aquele apoio.

6. Cooperação: acompanhar as conexões

A capacidade de inovação depende também da interação entre universidades, empresas e instituições de pesquisa.

O painel deverá identificar projetos cooperativos, parceiros, recursos envolvidos e resultados tecnológicos.

Cada projeto precisa ter um identificador próprio, com datas de início e término. Isso permitirá distinguir projetos ativos de novos acordos assinados e evitar a contagem repetida de iniciativas.

Patentes em cotitularidade podem fornecer informações sobre colaboração, mas não substituem o levantamento dos projetos. Nem toda parceria gera patente, e uma mesma parceria pode produzir vários pedidos.

7. Transferência: contar contratos e tecnologias separadamente

Contratos de transferência são importantes, mas seu número não equivale necessariamente ao número de tecnologias transferidas.

Um contrato pode abranger várias tecnologias. Uma mesma tecnologia pode ser licenciada a diferentes empresas.

A Unicamp oferece um exemplo dessa distinção. Em 2025, a instituição informou 38 novos contratos de transferência envolvendo 36 tecnologias e um total de 254 acordos ativos. São três medidas diferentes: fluxo de contratos, tecnologias envolvidas e estoque de acordos.

O painel deverá registrar essas informações separadamente, incluindo modalidades de transferência, empresas envolvidas, datas e retornos financeiros.

Royalties também precisam ser interpretados com cuidado. Eles representam uma receita da instituição titular da tecnologia, mas não expressam todo o valor econômico ou social produzido por sua utilização.

8. Como calcular taxas de transferência e utilização

Uma taxa de transferência precisa relacionar conjuntos comparáveis.

Dividir contratos assinados em um ano por patentes depositadas naquele mesmo ano pode produzir um resultado enganoso. As tecnologias licenciadas podem ter sido desenvolvidas e protegidas muito antes.

Para o piloto, propõe-se identificar um conjunto de tecnologias disponíveis para transferência no início do período — a coorte de tecnologias elegíveis.

A partir desse conjunto, será possível acompanhar:

Taxa de transferência: parcela das tecnologias elegíveis que tiveram sua primeira transferência durante o período.

Taxa de utilização: parcela das tecnologias elegíveis que apresentaram uso comercial, operacional ou social documentado até o final do período.

O denominador e os numeradores deverão utilizar os mesmos identificadores de tecnologia. Famílias de patentes e direitos relacionados precisam ser agrupados para evitar que uma mesma solução seja contada várias vezes.

Sem essas informações, as taxas permanecerão sem cálculo.

9. Aplicação: verificar o que chegou ao uso

A assinatura de um contrato não encerra o desenvolvimento tecnológico.

Uma tecnologia pode precisar de testes, certificações, adaptações, investimento produtivo e validação comercial antes de entrar em uso.

Por isso, a coleta deverá procurar evidências de:

  • produtos disponibilizados;
  • processos implementados;
  • tecnologias incorporadas às operações;
  • soluções utilizadas em serviços públicos;
  • aplicações sociais documentadas.

Essa etapa ajudará a identificar onde o percurso se interrompe e quais condições permitiram seu avanço.

10. Empreendedorismo, receita, exportações e empregos

O painel deverá acompanhar empresas originadas de pesquisa acadêmica, distinguindo-as de empresas fundadas por ex-alunos sem vínculo demonstrado com tecnologias da instituição.

A criação de empresas poderá ser complementada pelo acompanhamento de sobrevivência, crescimento, faturamento e empregos.

Nas empresas, será importante identificar receitas e exportações de produtos inovadores com critérios explícitos sobre o período de lançamento e o alcance das melhorias.

Também deverão ser registrados empregos qualificados associados às atividades tecnológicas.

Essas informações mostram resultados observados. A atribuição de crescimento ou criação de empregos a uma tecnologia específica exige evidência adicional.

11. Receita não equivale a contribuição ao PIB

O título “Da Patente ao PIB” representa uma agenda de desenvolvimento. Ele não autoriza tratar faturamento como contribuição direta ao produto interno bruto.

Receita de vendas e valor adicionado são medidas diferentes. Estimar contribuição ao PIB exige considerar insumos, efeitos líquidos e possíveis duplicações ao longo da cadeia produtiva.

Nesta fase, o painel trabalhará com resultados econômicos documentados e relações observáveis entre esforço tecnológico e aplicação.

Avaliações de impacto econômico e causal poderão constituir uma etapa posterior.

12. A planilha piloto do IVEPESP

Como primeiro instrumento de implementação, o IVEPESP preparou uma planilha para nove instituições:

UFMG, UFCG, Unicamp, USP, Stellantis, Petrobras, Embraer, Bosch e Instituto Hercílio Randon.

O arquivo contém:

  • Painel: situação da coleta por instituição e campos para as taxas de transferência e utilização.
  • Base de dados: 20 indicadores centrais por instituição, com valores inicialmente verificados, fontes, períodos e ressalvas.
  • Indicadores: definições operacionais e regras de comparabilidade.
  • Coleta: 27 pedidos organizados em três grupos de informações para cada instituição.

A base também reúne informações de contexto que não podem ser utilizadas diretamente nos indicadores centrais por terem unidades, períodos ou alcances diferentes.

Os pedidos estão preparados para orientar a coleta. Seu envio e a obtenção das respostas constituem etapas seguintes do trabalho.

Anexo técnico:

13. Como interpretar o preenchimento inicial

A planilha distingue cinco situações:

SituaçãoSignificado
VerificadoDado central confirmado na fonte indicada.
A apurarInformação que precisa ser extraída ou conferida em fonte institucional.
SolicitarInformação prevista para coleta padronizada junto à instituição.
Não aplicávelIndicador fora do recorte definido para aquele grupo.
ContextoInformação pública útil, mas com definição ou alcance diferente do indicador central.

Um campo vazio significa que o dado ainda não foi obtido. Não significa zero.

O percentual de cobertura apresentado no painel mede o avanço do preenchimento. Não mede desempenho inovador.

A base também registra divergências que exigem conciliação. A Unicamp informa 77 pedidos no relato institucional, enquanto o ranking do INPI registra 73 depósitos. A Petrobras informa 184 pedidos nacionais em seu relatório, enquanto o ranking registra 172. As diferenças devem ser investigadas considerando modalidades, pagamentos, períodos e critérios de contagem.

14. Fontes públicas e coleta institucional

O trabalho poderá utilizar dados do INPI, IBGE, MCTI, CAPES, CNPq, Finep, BNDES, EMBRAPII, fundações de amparo à pesquisa, universidades, ICTs e relatórios empresariais.

Essas fontes oferecem informações complementares.

A PINTEC Semestral, por exemplo, constitui uma referência para o comportamento inovador das empresas industriais com 100 ou mais pessoas ocupadas. Seu recorte precisa ser respeitado: ela não representa integralmente pequenas empresas, serviços ou todas as organizações do piloto.

Dados agregados poderão apoiar comparações setoriais. Informações sobre tecnologias, contratos e resultados de cada instituição exigirão coleta própria e validação.

15. Do piloto a um observatório

A proposta poderá evoluir para o Observatório IVEPESP — Da Patente ao PIB, com atualização anual e documentação pública dos indicadores.

O desenvolvimento deverá ocorrer por etapas: complementar fontes públicas, solicitar informações, conciliar conceitos, validar respostas e construir séries históricas.

As comparações deverão respeitar missão institucional, setor, porte e abrangência geográfica.

O Observatório poderá identificar práticas de transferência bem-sucedidas, obstáculos ao desenvolvimento e necessidades de apoio público. Poderá também mostrar como ampliar a participação de pequenas e médias empresas no sistema de inovação.

16. Da inovação ao desenvolvimento social

O PIB não abrange todos os benefícios da ciência e da tecnologia.

Uma inovação pode melhorar a aprendizagem, reduzir mortalidade, preservar recursos naturais, diminuir consumo de energia ou ampliar a qualidade dos serviços públicos.

Esses resultados precisam de indicadores próprios, com unidades, públicos beneficiados e evidências.

O painel deverá reconhecer tanto o valor econômico quanto o valor social do conhecimento.

A educação, a ciência e a inovação devem contribuir para uma sociedade mais produtiva, mais saudável, mais sustentável e com maiores oportunidades.

Uma proposta do IVEPESP

O Brasil dispõe de importantes informações sobre produção científica, formação de pesquisadores, investimentos em P&D e propriedade intelectual.

A proposta do IVEPESP é conectar essas informações ao desenvolvimento das tecnologias e à sua utilização.

A planilha piloto constitui um primeiro instrumento desse trabalho. Sua continuidade dependerá da colaboração de universidades, empresas, instituições de pesquisa e órgãos de fomento.

Precisamos compreender quanto conhecimento chega à aplicação, quais condições favorecem esse percurso e onde estão os obstáculos.

O Brasil produz conhecimento. O desafio é ampliar sua capacidade de transformar esse conhecimento em desenvolvimento econômico e social.

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
Av. Paulista, nº 1636, Conjunto 4, 15º Pavimento
Cerqueira César – São Paulo/SP
CEP 01310-200
E-mail: [email protected]

Referências principais: INPI — Rankings de Depositantes 2025; IBGE — PINTEC Semestral; Unicamp — indicadores de inovação referentes a 2025; Petrobras — Relatório da Administração 2025; Bosch — comunicação institucional sobre financiamento de PD&I. As fontes específicas e ressalvas de cada dado constam da planilha anexa.