A designação da professora Denise Pires de Carvalho para a Vice-Diretoria-Geral para Ciências da UNESCO representa um marco para a ciência brasileira. Segundo comunicado oficial do governo brasileiro, ela se torna a primeira brasileira a ocupar uma Vice-Diretoria-Geral da UNESCO desde a criação da Organização, em 1945.

A nomeação foi anunciada pelo Diretor-Geral da UNESCO, Khaled El-Enany, em 28 de setembro de 2026. Denise Pires de Carvalho reúne uma longa trajetória acadêmica e de gestão científica, incluindo a Reitoria da UFRJ, a Secretaria de Educação Superior do MEC e a Presidência da CAPES.

A relevância da designação ultrapassa, porém, o reconhecimento individual de uma cientista brasileira.

A área de Ciências da UNESCO passou por uma reorganização importante. Atualmente, o Sciences Sector reúne mais de 700 profissionais, atuando na sede em Paris e por meio de 53 escritórios de campo, institutos, centros e redes internacionais. Sua estrutura central compreende as divisões de Ciências Ecológicas e da Terra; Ética, Pesquisa e Tecnologia; Ciências da Água; Políticas Sociais e Inclusão, além da coordenação de redução de riscos de desastres. UNESCO

Isso significa que a Vice-Diretoria-Geral para Ciências participa de uma agenda internacional muito mais ampla do que a pesquisa científica em sentido tradicional.

Entre suas áreas estão ciência, tecnologia e inovação; ciências básicas e engenharia; educação STEM; ciência aberta; biodiversidade e geociências; recursos hídricos; mudanças climáticas; redução de riscos de desastres; ética da ciência e da tecnologia; inteligência artificial e tecnologias emergentes; políticas sociais e inclusão; e diplomacia científica.

Inteligência Artificial: uma responsabilidade especialmente estratégica

Um dos pontos que merecem maior destaque é a governança ética da inteligência artificial.

A UNESCO desenvolveu a Readiness Assessment Methodology — RAM, instrumento destinado a avaliar a preparação dos países para desenvolver e governar sistemas de IA de forma ética e responsável. O Brasil já concluiu essa avaliação, e seu perfil nacional está disponível no Observatório Global de Ética e Governança da IA da UNESCO. UNESCO

Isso significa que o país já dispõe de um diagnóstico internacionalmente estruturado sobre suas capacidades institucionais, regulatórias, científicas, educacionais e tecnológicas relacionadas à IA.

A presença de uma cientista brasileira na alta direção da UNESCO ocorre justamente quando a comunidade internacional procura transformar princípios éticos em mecanismos concretos de governança da inteligência artificial.

Não se trata de uma função honorária

A Vice-Diretoria-Geral é uma posição executiva internacional sediada em Paris. A sede da UNESCO exerce a liderança dos programas científicos globais e articula a atuação da Organização em diferentes continentes. UNESCO

Seu peso institucional deve ser medido não apenas pelos recursos financeiros envolvidos, mas principalmente pela capacidade da UNESCO de formular referências internacionais, mobilizar governos, universidades, instituições científicas e redes multilaterais.

Uma oportunidade para o Brasil

A designação de Denise Pires de Carvalho também oferece uma oportunidade para refletir sobre como o Brasil pode ampliar sua participação nos grandes programas internacionais de ciência, tecnologia e inovação.

Isso não significa expectativa de tratamento privilegiado. A UNESCO é uma organização multilateral e suas iniciativas obedecem a regras e procedimentos internacionais. O ponto central é outro: o Brasil pode conhecer melhor esses instrumentos, formular projetos consistentes e ampliar sua presença nas redes globais de ciência.

Nesse sentido, algumas iniciativas merecem atenção.

1. Transformar o diagnóstico brasileiro de IA em uma agenda de pesquisa e capacitação

O Brasil já concluiu a avaliação RAM da UNESCO. Um desdobramento possível seria aprofundar a participação de universidades e centros de pesquisa brasileiros em temas como avaliação de impactos de IA, explicabilidade, segurança, formação de professores e pesquisadores, governança de dados e utilização responsável da IA em educação, ciência e administração pública. UNESCO

2. Ampliar a presença brasileira em Cátedras UNESCO e redes UNITWIN

O Brasil já possui experiências relevantes. Entre elas estão a Cátedra UNESCO em Inteligência Artificial na Educação, na Universidade Federal de Alagoas; a Cátedra em Direito à Educação, na USP; iniciativas relacionadas a bioética, sustentabilidade, biodiversidade e cooperação Sul–Sul, entre outras. UNESCO

A expansão dessas redes poderia aproximar universidades brasileiras de instituições da América Latina, Europa, África e Ásia em áreas científicas estratégicas.

3. Criar uma rede brasileira de Ciência Aberta

A ciência aberta oferece uma oportunidade para integrar universidades, CAPES, CNPq, FAPs, bibliotecas, repositórios científicos e infraestrutura de dados.

Uma agenda brasileira poderia contemplar interoperabilidade de bases, compartilhamento responsável de dados, pesquisa reproduzível, acesso aberto e novos critérios de reconhecimento da produção científica.

4. Fortalecer educação STEM e formação científica

A formação em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática — STEM tornou-se estratégica diante da transformação digital e da expansão da inteligência artificial.

Uma iniciativa nacional articulada às redes internacionais da UNESCO poderia aproximar educação básica, universidades e instituições de pesquisa, estimulando vocações científicas e ampliando a formação de professores em áreas científicas e tecnológicas.

5. Ampliar a diplomacia científica brasileira

Ciência e tecnologia passaram a ocupar posição central nas relações internacionais.

Mudanças climáticas, recursos hídricos, biodiversidade, energia, IA e tecnologias emergentes são desafios que ultrapassam as fronteiras nacionais. O Brasil pode ampliar sua participação em programas multilaterais de cooperação científica, especialmente nas relações com América Latina, África e Europa.

6. Aproximar pesquisa científica e políticas públicas

Outra frente relevante seria criar mecanismos permanentes para aproximar universidades, governos e sociedade.

O conhecimento científico produzido nas universidades e institutos de pesquisa precisa chegar mais rapidamente à formulação, implementação e avaliação de políticas públicas.

7. Aproximar universidades e setor produtivo

Também seria importante fortalecer a interface entre universidades, centros de pesquisa e empresas, estimulando a transformação de conhecimento científico em inovação.

Essa articulação pode envolver inteligência artificial, biotecnologia, novos materiais, energia, sustentabilidade e outras tecnologias de fronteira.

8. Aproveitar o CILAC 2026 como ponto de convergência

Há uma oportunidade muito próxima. O Fórum CILAC 2026 será realizado em Brasília de 24 a 26 de novembro de 2026, reunindo ministros, cientistas, autoridades, jovens e representantes de diferentes instituições da América Latina e Caribe para discutir políticas de ciência, tecnologia e inovação. UNESCO

O encontro pode constituir um espaço importante para aproximar universidades brasileiras, agências de fomento, instituições científicas, empresas e organismos internacionais.

Uma proposta de articulação nacional

Essas iniciativas sugerem a possibilidade de uma articulação mais ampla entre:

universidades + institutos de pesquisa + CAPES + CNPq + FAPs + empresas + organizações da sociedade civil + redes internacionais.

O objetivo seria construir uma agenda brasileira capaz de conectar Educação, Ciência e Inovação, evitando que essas áreas sejam tratadas isoladamente.

O Brasil possui universidades de qualidade, uma comunidade científica expressiva, agências consolidadas de apoio à pesquisa e um sistema de pós-graduação reconhecido internacionalmente. O desafio é transformar esse patrimônio em maior capacidade de inovação, cooperação internacional, formação científica e desenvolvimento econômico e social.

Do pioneirismo ao compromisso

A história científica da UNESCO começou em 1946, com o bioquímico e historiador da ciência britânico Joseph Needham, primeiro dirigente da área de Ciências Naturais da Organização. Oito décadas depois, uma brasileira chega à alta direção científica da UNESCO.

O simbolismo é importante, mas talvez seja ainda mais importante olhar para o futuro.

O mundo vive simultaneamente a revolução da inteligência artificial, a transição energética, as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade, desafios de segurança hídrica e uma competição internacional crescente por conhecimento científico e tecnológico.

Nenhum país será capaz de enfrentar isoladamente essas transformações.

A designação de Denise Pires de Carvalho representa, portanto, não apenas uma conquista pessoal e institucional, mas também uma oportunidade para reforçar uma mensagem que o IVEPESP considera fundamental:

Educação, Ciência e Inovação precisam ser tratadas como partes de uma mesma estratégia de desenvolvimento nacional.

A presença brasileira na alta direção científica da UNESCO pode contribuir para ampliar a participação do país nas redes internacionais de conhecimento e estimular uma reflexão sobre como transformar nossa capacidade científica em inovação, desenvolvimento econômico e melhoria das condições de vida da população.

O IVEPESP cumprimenta a professora Denise Pires de Carvalho por sua designação e deseja pleno êxito em sua nova missão internacional, que representa simultaneamente o reconhecimento de sua trajetória e uma conquista relevante para a ciência brasileira.

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
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