O Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP) entende que, após uma greve prolongada em uma instituição da dimensão da Universidade de São Paulo, o principal desafio deixa de ser apenas “quem tem razão” e passa a ser como reconstruir a normalidade institucional sem produzir humilhações políticas, ressentimentos permanentes ou ruptura entre os diferentes setores da comunidade universitária.

Greves longas tendem a criar um ambiente de radicalização progressiva. Com o passar das semanas, o conflito frequentemente deixa de girar apenas em torno das reivindicações originais e passa a envolver:

  • identidade política;
  • disputas simbólicas;
  • pressão pública;
  • necessidade de demonstração de força;
  • receio de perda de legitimidade perante suas próprias bases.

Nesse estágio, a busca de “vitória total” normalmente produz apenas desgaste coletivo.

O IVEPESP considera que grandes universidades de pesquisa exigem soluções institucionais sofisticadas, nas quais todos os lados possam preservar sua legitimidade e retornar ao funcionamento normal sem a sensação pública de derrota.

Nesse contexto, alguns mecanismos historicamente utilizados em crises universitárias internacionais podem ser úteis.


1. Construção de uma saída negociada baseada em ganhos parciais recíprocos

O encerramento sustentável de uma greve normalmente ocorre quando:

  • trabalhadores conseguem demonstrar que suas demandas foram ouvidas;
  • gestão consegue preservar governabilidade e sustentabilidade institucional;
  • estudantes conseguem recuperar previsibilidade acadêmica;
  • sociedade percebe responsabilidade institucional.

Isso exige abandonar a lógica binária de:

  • “capitulação”,
  • “rendição”,
  • “vitória política”.

A solução frequentemente passa por:

  • acordos graduais;
  • compromissos futuros;
  • implementação em etapas;
  • criação de grupos permanentes de acompanhamento.

2. Criar uma “ponte institucional” para a saída

Em conflitos prolongados, muitas vezes os atores já não conseguem recuar diretamente sem desgaste político.

Por isso, torna-se importante criar um mecanismo intermediário, como:

  • comissão independente;
  • grupo de trabalho paritário;
  • mediação externa;
  • pacto institucional temporário.

Esse instrumento funciona como uma “ponte” que permite:

  • suspender a greve;
  • retomar atividades;
  • manter negociações em andamento;
  • reduzir percepção de derrota.

Na prática, isso permite que todos afirmem:

“O diálogo avançou e o processo continuará institucionalmente.”


3. Separar o encerramento da greve da solução completa de todos os problemas

Um erro comum em crises prolongadas é tentar resolver estruturalmente todos os temas antes do retorno das atividades.

Universidades são sistemas extremamente complexos:

  • orçamento;
  • carreira;
  • permanência;
  • infraestrutura;
  • assistência estudantil;
  • saúde mental;
  • digitalização;
  • inteligência artificial;
  • expansão;
  • governança.

Muitos desses temas exigem anos para amadurecimento institucional.

O mais racional costuma ser:

  • encerrar a paralisação;
  • estabelecer cronograma verificável;
  • criar metas e mesas permanentes;
  • monitorar implementação.

4. Preservar a dignidade política de todos os envolvidos

O IVEPESP considera esse talvez o ponto mais importante.

Em ambientes altamente politizados, nenhuma liderança consegue sustentar publicamente um acordo percebido como humilhação.

Por isso, soluções inteligentes normalmente evitam:

  • linguagem de imposição;
  • retórica de derrota;
  • punições amplas;
  • triunfalismo público;
  • discursos de revanche.

Grandes universidades precisam continuar funcionando após o conflito. As pessoas continuarão convivendo institucionalmente por décadas.


5. Produzir um pacto público de reconstrução da universidade

Uma saída madura poderia incluir um documento conjunto envolvendo:

  • Reitoria;
  • representantes estudantis;
  • servidores;
  • docentes.

Com alguns princípios comuns:

  • defesa da universidade pública;
  • compromisso com excelência acadêmica;
  • proteção da pesquisa;
  • preservação da permanência estudantil;
  • sustentabilidade financeira;
  • melhoria do diálogo institucional.

Esse tipo de pacto ajuda a deslocar o foco:
do conflito → para a reconstrução institucional.


6. Recuperação acadêmica responsável

O encerramento da greve precisa vir acompanhado de um plano tecnicamente sólido para:

  • reposição de aulas;
  • recuperação de atividades práticas;
  • proteção aos formandos;
  • reorganização do calendário;
  • preservação da qualidade acadêmica.

A simples aceleração artificial do semestre pode produzir novos problemas:

  • evasão;
  • queda de desempenho;
  • sobrecarga mental;
  • prejuízo pedagógico.

Reflexão final

A Universidade de São Paulo é uma instituição centenária construída por múltiplas gerações de estudantes, servidores, pesquisadores e docentes.

Nenhuma crise conjuntural deveria produzir rupturas permanentes dentro de uma universidade que possui importância estratégica para:

  • ciência;
  • tecnologia;
  • saúde;
  • inovação;
  • desenvolvimento econômico;
  • formação de lideranças;
  • soberania nacional.

O verdadeiro êxito não será “quem venceu” a greve.

O verdadeiro êxito será a capacidade de a universidade sair dela:

  • funcionando;
  • respeitada;
  • academicamente preservada;
  • institucionalmente mais madura;
  • e preparada para enfrentar os desafios científicos, tecnológicos e sociais do século XXI.

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
IVEPESP
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