Estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) revela que pesquisadores mais experientes podem produzir descobertas revolucionárias com menor frequência, mas suas contribuições inovadoras apresentam maior probabilidade de permanecer relevantes ao longo do tempo.
1. Uma descoberta que desafia ideias tradicionais
Durante muito tempo, predominou a percepção de que as grandes descobertas científicas seriam realizadas principalmente por pesquisadores jovens, enquanto os mais experientes tenderiam a desenvolver trabalhos de natureza incremental, aperfeiçoando conhecimentos já estabelecidos.
Um novo estudo publicado em 19 de outubro de 2026 na prestigiosa revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) apresenta uma perspectiva mais complexa e particularmente relevante para as políticas científicas e universitárias.
O artigo, intitulado Scientists disrupt less but more persistently with career aging, de Nan Deng, Liying Yang, Shlomo Havlin e An Zeng, demonstra que a frequência das descobertas disruptivas diminui ao longo da carreira científica, mas a probabilidade de que essas descobertas tenham efeitos duradouros aumenta.
Em outras palavras, pesquisadores experientes podem revolucionar determinado campo com menor frequência, mas, quando o fazem, suas contribuições tendem a apresentar maior persistência científica.
Essa conclusão questiona a ideia de que envelhecimento profissional representa necessariamente perda de capacidade inovadora.
2. A dimensão e os resultados da pesquisa
O estudo examinou uma base bibliográfica de grandes proporções, utilizando o banco de dados SciSciNet.

Os pesquisadores introduziram o conceito de disrupção persistente, que diferencia uma descoberta que altera temporariamente uma área daquela que inaugura uma transformação científica duradoura.
Probabilidade de publicação de um artigo com disrupção persistente ao longo da carreira

Probabilidades estimadas por artigo, conforme a Figura 1B da publicação. O aumento é superior ao dobro, embora o fenômeno continue relativamente raro.
Esse resultado é especialmente significativo porque mostra que a trajetória científica não deve ser avaliada exclusivamente pela frequência de descobertas originais, mas também pela capacidade de produzir conhecimentos que resistem ao tempo.
3. Por que a experiência faz diferença?
Segundo os autores, a experiência acumulada contribui para o desenvolvimento de descobertas mais persistentes.
Ao longo da carreira, um pesquisador adquire conhecimento aprofundado, desenvolve capacidade de identificar problemas fundamentais, compreende as limitações de teorias anteriores e estabelece redes de colaboração.
Além disso, a reputação científica e o acesso a recursos institucionais podem facilitar a disseminação e o reconhecimento de novas ideias.
O estudo demonstra que, mesmo quando pesquisadores apresentam níveis semelhantes de disrupção científica, os trabalhos daqueles mais experientes tendem a receber maior número de citações, atenção pública e apoio financeiro.
É importante observar, entretanto, que os próprios autores reconhecem que as relações identificadas são estatísticas e não demonstram causalidade direta. Portanto, não se pode concluir que a idade, isoladamente, produza pesquisas melhores.
O elemento central parece ser a combinação entre experiência acumulada, qualidade científica e condições institucionais.
4. O exemplo dos vencedores do Prêmio Nobel
Um dos resultados mais interessantes envolve o estudo das trajetórias de 362 laureados com o Prêmio Nobel.
Os autores observaram que o pico da distribuição do primeiro artigo altamente disruptivo ocorre aproximadamente seis anos antes do pico correspondente aos trabalhos posteriormente reconhecidos pelo Nobel.
Essa diferença sugere que a capacidade de produzir ideias originais pode surgir relativamente cedo, mas a maturação necessária para transformar essas ideias em contribuições científicas de reconhecimento excepcional pode exigir anos adicionais.
Portanto, juventude e experiência não devem ser consideradas características concorrentes, mas etapas complementares do desenvolvimento científico.
5. Uma advertência importante: os resultados variam entre áreas
O estudo também mostra que o comportamento não é uniforme entre as disciplinas.
Em áreas como Física, Medicina, Biologia, Química e Sociologia, a probabilidade de produzir trabalhos de disrupção persistente tende a crescer nas etapas mais avançadas da carreira.
Entretanto, em Ciência da Computação e Matemática, os pesquisadores identificaram uma trajetória distinta, com diminuição desse indicador ao longo do tempo.
Essa diferença demonstra que políticas científicas não devem adotar um modelo único de avaliação para todas as áreas do conhecimento.
Os ritmos de descoberta, a natureza dos problemas, os padrões de publicação e as formas de reconhecimento são diferentes.
6. O que essa descoberta representa para as universidades brasileiras?
Para o IVEPESP, os resultados oferecem uma oportunidade de reflexão sobre a maneira como o Brasil organiza suas carreiras acadêmicas e aproveita o conhecimento de pesquisadores experientes.
A valorização da juventude científica é indispensável. Novos pesquisadores devem receber oportunidades de formação, bolsas, infraestrutura, financiamento e condições para desenvolver projetos originais.
Entretanto, essa prioridade não pode significar a desvalorização de cientistas que acumulam décadas de experiência e contribuições relevantes.
Nas universidades brasileiras, professores aposentados, docentes seniores e pesquisadores experientes frequentemente continuam participando de orientações, publicações, projetos e atividades institucionais.
Apesar disso, sua participação pode encontrar limitações administrativas, financeiras e institucionais.
O Brasil precisa compreender que a aposentadoria funcional não representa necessariamente o encerramento da capacidade de contribuição científica.
O estudo reforça a importância de políticas que permitam preservar e transmitir o conhecimento acumulado, especialmente em instituições públicas de pesquisa e ensino superior.
7. Propostas do IVEPESP
À luz das evidências apresentadas, o IVEPESP propõe a discussão de cinco iniciativas para o sistema brasileiro de ciência, tecnologia e ensino superior.
1. Valorização dos pesquisadores seniores: fortalecer mecanismos institucionais para sua participação em projetos, grupos de pesquisa, orientação acadêmica e colaboração científica, respeitando as normas aplicáveis às diferentes categorias funcionais.
2. Programas intergeracionais de pesquisa: estimular projetos conjuntos entre pesquisadores em início de carreira e cientistas experientes, favorecendo a combinação de criatividade, conhecimento acumulado e novas tecnologias.
3. Avaliação científica mais abrangente: ampliar os critérios utilizados por universidades e agências de fomento, considerando não apenas quantidade de publicações, citações e indicadores de impacto imediato, mas também originalidade, continuidade e relevância duradoura das contribuições.
4. Financiamento baseado na qualidade dos projetos: incentivar que editais científicos considerem a competência das equipes e a relevância das propostas, sem pressupor que determinada faixa etária seja necessariamente mais inovadora.
5. Preservação da memória científica brasileira: desenvolver mecanismos de registro, transmissão e aproveitamento do conhecimento de pesquisadores que contribuíram para a formação de instituições, laboratórios, programas de pós-graduação e áreas estratégicas.
Essas propostas constituem desdobramentos institucionais do IVEPESP. Não foram diretamente testadas pelo estudo da PNAS e exigiriam avaliação própria de viabilidade e impacto.
8. Considerações finais
A principal contribuição dessa pesquisa é demonstrar que a inovação científica possui diferentes dimensões.
A originalidade de uma descoberta é importante, mas sua capacidade de transformar permanentemente o conhecimento científico pode ser igualmente relevante.
A experiência acumulada não substitui a criatividade dos jovens pesquisadores. Da mesma maneira, a juventude não elimina o valor da maturidade intelectual e científica.
O desenvolvimento da ciência depende da integração entre gerações, da liberdade acadêmica, da qualidade das instituições e da continuidade do financiamento à pesquisa.
A ciência avança quando novas ideias encontram a experiência necessária para transformá-las em conhecimento duradouro.
Para o IVEPESP, reconhecer essa complementaridade é essencial para que o Brasil aproveite plenamente seu capital humano científico.
A valorização da experiência não representa olhar apenas para o passado, mas reconhecer um patrimônio intelectual que pode contribuir decisivamente para o futuro.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
Av. Paulista, nº 1636, Conjunto 4, 15º Pavimento
Cerqueira César – São Paulo/SP
CEP 01310-200
E-mail: [email protected]
São Paulo, 21 de outubro de 2026.
Referência científica
Deng, N.; Yang, L.; Havlin, S.; Zeng, A. (2026). Scientists disrupt less but more persistently with career aging. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), 123(43), e2626763123.
Consultar artigo científico original.
Observação metodológica: o estudo utiliza indicadores bibliométricos, sujeitos a limitações entre disciplinas, períodos e padrões de citação. As associações identificadas não devem ser interpretadas como demonstrações de que o envelhecimento, por si só, aumenta a qualidade científica.