Um alerta que merece atenção

Um estudo divulgado pelo Climate Impact Lab, com pesquisadores ligados à University of Chicago e à University of California, Berkeley, apresenta uma projeção que merece atenção das autoridades brasileiras.

O relatório 451,000 at Risk: Where Action Can Save Lives During the Super El Niño estima que o atual Super El Niño poderá produzir aproximadamente 451 mil mortes adicionais associadas ao calor no mundo entre junho de 2026 e fevereiro de 2027, em comparação com um ano normal.

Considerando apenas os seis meses entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027, são projetadas 239 mil ± 11 mil mortes adicionais no mundo.

Para o Brasil, a estimativa é particularmente relevante: 13,3 mil mortes adicionais associadas às temperaturas elevadas nesse período. Entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027, estariam concentradas aproximadamente 8 mil dessas mortes adicionais.

As projeções não devem ser interpretadas como números inevitáveis, mas como estimativas produzidas a partir de modelos meteorológicos e epidemiológicos — e, portanto, como um alerta que permite agir antecipadamente.

O que significa falar em 13,3 mil “mortes associadas ao calor”?

Este ponto é fundamental para a correta interpretação do estudo.

As 13,3 mil mortes adicionais estimadas para o Brasil não significam necessariamente que 13,3 mil pessoas morrerão de insolação ou terão “calor” registrado como causa do óbito.

O estudo trabalha com o conceito epidemiológico de mortalidade excedente associada à temperatura.

Os pesquisadores estimam quantas mortes ocorreriam sob as temperaturas previstas para o período e comparam esse resultado com a mortalidade esperada nos mesmos meses de um ano considerado normal. No estudo atual, a referência utilizada é a média correspondente ao período 1996–2025.

A metodologia aplica relações estatísticas entre temperatura e mortalidade desenvolvidas para 24.378 regiões do mundo, considerando diferenças de clima local, vulnerabilidade e capacidade de adaptação.

Como o calor pode provocar aumento da mortalidade?

Quando o organismo humano é submetido a temperaturas muito elevadas — especialmente quando acompanhadas de alta umidade — torna-se mais difícil eliminar o calor produzido pelo próprio corpo.

A tentativa de manter a temperatura corporal aumenta a transpiração, provoca perda de líquidos e eletrólitos e eleva a sobrecarga sobre o sistema cardiovascular e os rins.

Em situações extremas podem ocorrer exaustão térmica e golpe de calor, este último uma emergência médica potencialmente fatal.

Entretanto, uma parcela importante da mortalidade relacionada ao calor ocorre indiretamente, pelo agravamento de doenças já existentes.

Entre as condições que podem ser agravadas encontram-se:

  • doenças cardiovasculares;
  • doenças respiratórias;
  • doenças renais;
  • diabetes e outras doenças metabólicas;
  • determinadas condições neurológicas e de saúde mental.

A Organização Mundial da Saúde destaca que internações e mortes desencadeadas pelo calor extremo podem ocorrer no próprio dia da exposição ou nos dias imediatamente seguintes.

Assim, uma pessoa idosa com doença cardiovascular que sofra uma descompensação durante uma onda de calor e venha a falecer provavelmente terá uma doença cardiovascular registrada como causa de morte.

Epidemiologicamente, porém, esse óbito pode integrar o excesso de mortalidade associado às temperaturas elevadas.

Por isso, o IVEPESP considera cientificamente mais apropriado utilizar a expressão:

“13,3 mil mortes adicionais associadas às temperaturas elevadas projetadas para o Brasil”

em vez da formulação simplificada “13,3 mil mortes pelo calor”.

Essa distinção é fundamental tanto para a comunicação pública quanto para a posterior avaliação da projeção.

Onde poderá estar o maior impacto no Brasil?

As informações disponíveis sobre a distribuição regional apontam concentração importante do impacto nas regiões Norte e Nordeste.

Entre os estados para os quais foram divulgadas estimativas destacam-se aproximadamente:

Pará — 2.300 mortes adicionais
Maranhão — 1.300
Amazonas — 1.200
Bahia — 1.200

Somados, esses quatro estados representariam aproximadamente 6 mil mortes adicionais, ou cerca de 45% da projeção nacional.

Esses números também mostram que o tamanho da população, isoladamente, não explica a mortalidade projetada. Amazonas e Bahia, por exemplo, apresentam populações muito diferentes, mas aparecem com números absolutos semelhantes na projeção.

A vulnerabilidade depende de vários fatores: intensidade e duração da exposição térmica, clima local, idade da população, condições de saúde, renda, moradia, infraestrutura urbana, acesso a ambientes refrigerados e capacidade de resposta dos serviços de saúde.

O alerta é consistente com o aumento das ondas de calor observado no Brasil

O estudo internacional merece ser analisado também à luz das evidências produzidas no próprio país.

Em maio de 2026, o Cemaden/MCTI divulgou Nota Técnica mostrando aumento contínuo da frequência das ondas de calor no Brasil nas últimas quatro décadas.

Segundo o Cemaden, esses eventos vêm se intensificando em todos os estados desde o início dos anos 2000, com crescimento recente particularmente importante nas regiões Norte e Nordeste.

O fenômeno, portanto, não é apenas uma projeção de um modelo internacional. O Brasil já vem registrando mudanças importantes na frequência dos episódios de calor extremo.

Quem são os mais vulneráveis?

Os efeitos do calor não atingem toda a população da mesma maneira.

Entre os grupos que merecem atenção especial estão:

idosos; crianças pequenas; pessoas com doenças crônicas; trabalhadores expostos ao sol e ao calor; pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica; populações com menor acesso a ambientes climatizados; pessoas que vivem sozinhas ou possuem mobilidade reduzida.

Isso significa que uma política pública eficiente não deve simplesmente emitir um alerta genérico para toda a população.

É necessário identificar quem está em maior risco, onde essas pessoas estão e como alcançá-las rapidamente.

O Brasil tem tempo para agir

Talvez esse seja o aspecto mais importante do estudo.

Diferentemente de uma análise realizada depois de uma tragédia, estamos diante de uma projeção feita antes do período de maior impacto esperado.

O Climate Impact Lab estima que aproximadamente 8 mil das 13,3 mil mortes adicionais projetadas para o Brasil ocorreriam entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.

Portanto, existe uma janela de oportunidade para prevenção.

Entre as medidas apontadas pelo próprio Climate Impact Lab encontram-se:

sistemas de alerta de calor; comunicação dirigida às populações vulneráveis; centros ou ambientes públicos de resfriamento; pontos de hidratação; proteção aos trabalhadores expostos ao calor; ampliação temporária da capacidade dos serviços de saúde.

São intervenções relativamente simples quando comparadas ao potencial impacto sanitário.

Uma proposta: Observatório Brasileiro Calor–Saúde 2026/2027

O IVEPESP considera que o Brasil poderia aproveitar esta situação para desenvolver uma experiência nacional de prevenção e avaliação baseada em evidências.

Propomos a organização de um Observatório Brasileiro Calor–Saúde 2026/2027, não necessariamente como uma nova instituição, mas como uma articulação das estruturas e bases de dados já existentes.

Poderiam participar, entre outros:

Ministério da Saúde/SUS, Cemaden, INMET, Fiocruz, universidades, institutos de pesquisa e secretarias estaduais e municipais de saúde.

O acompanhamento deveria integrar pelo menos cinco dimensões:

temperatura e ondas de calor → internações hospitalares → mortalidade → características da população vulnerável → localização geográfica.

A integração dessas informações permitiria identificar rapidamente municípios e regiões nos quais episódios de calor extremo estejam sendo acompanhados por aumento anormal das internações ou da mortalidade.

Como verificar posteriormente se a previsão estava correta?

Há aqui também uma oportunidade científica importante.

Não bastará verificar quantos atestados de óbito mencionaram “calor”, “insolação” ou “golpe de calor”.

Para testar adequadamente a projeção de 13,3 mil mortes adicionais, será necessário comparar:

mortalidade observada × mortalidade esperada × temperatura efetivamente observada × localização × faixa etária × causas específicas de morte.

Será especialmente importante acompanhar a mortalidade cardiovascular, respiratória, renal e outras condições conhecidamente sensíveis ao calor.

Também será necessário considerar possíveis fatores de confusão e efeitos defasados da temperatura sobre a mortalidade.

Em março de 2027, portanto, poderemos formular perguntas objetivas:

Quantas mortes adicionais efetivamente ocorreram?

Em quais estados e municípios?

Em quais faixas etárias?

Quais causas de morte aumentaram durante os episódios de calor?

Qual foi a relação temporal entre temperatura e mortalidade?

E, principalmente:

onde foram adotadas medidas preventivas, houve redução da mortalidade esperada?

Uma oportunidade para transformar previsão em prevenção

O relatório do Climate Impact Lab não deve ser interpretado como uma sentença de que exatamente 13,3 mil brasileiros morrerão.

Trata-se de uma projeção probabilística baseada em relações estatísticas entre temperatura e mortalidade e em previsões meteorológicas sazonais.

A própria instituição informa que a metodologia completa utilizada nessa projeção sazonal será detalhada posteriormente em publicação científica submetida à revisão por pares.

Essa limitação precisa ser explicitada.

Mas incerteza científica não significa ausência de risco.

O estudo oferece algo particularmente valioso para políticas públicas: antecedência.

Em setembro de 2026 temos uma previsão mensurável.

Nos meses seguintes teremos temperaturas, internações e mortalidade efetivamente observadas.

Podemos, portanto, agir e simultaneamente avaliar.

Conclusão

A projeção de 13,3 mil mortes adicionais associadas às temperaturas elevadas no Brasil entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027 merece atenção, mas precisa ser interpretada corretamente.

Não significa que 13,3 mil pessoas necessariamente morrerão diretamente de insolação ou golpe de calor.

Significa que, segundo o modelo utilizado, as temperaturas extraordinariamente elevadas previstas poderão provocar um excesso de mortalidade, inclusive por agravamento de doenças cardiovasculares, respiratórias, renais, metabólicas e outras condições.

A questão mais relevante, portanto, não é discutir hoje se ocorrerão exatamente 13.300, 10 mil ou 15 mil mortes.

A pergunta que deveria orientar a ação pública é:

Quantas dessas mortes poderão ser evitadas se o Brasil agir antecipadamente?

O verdadeiro indicador de sucesso não será chegar a março de 2027 e constatar que a previsão de 13,3 mil mortes estava correta.

O sucesso será verificar que ela não se concretizou — em parte porque medidas preventivas foram adotadas a tempo.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
Av. Paulista, nº 1636, Conjunto 4, 15º Pavimento
Cerqueira César – São Paulo/SP
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