A expansão das apostas esportivas e dos jogos de azar online transformou o jogo em uma questão que ultrapassa os limites do entretenimento. Trata-se também de tema de saúde pública, educação financeira, proteção do consumidor, desigualdade social e política econômica.

Em entrevista publicada pelo jornal português PÚBLICO em 27 de agosto de 2026, o economista Jorge Bravo chama atenção para a dimensão alcançada pelos jogos de fortuna e azar em Portugal. O debate ganhou repercussão nas redes sociais pela interpretação de que loterias e jogos não representam simplesmente “renda disponível para gastar”, podendo refletir também vulnerabilidade econômica e expectativa de enriquecimento rápido. A entrevista está efetivamente publicada na edição de hoje do PÚBLICO. (Público)

O exemplo português é especialmente relevante para o Brasil, onde as chamadas bets alcançaram dimensão econômica e social inédita. Em 2025, primeiro ano completo do mercado regulado, a receita bruta das apostas — Gross Gaming Revenue (GGR), correspondente à diferença entre apostas e prêmios pagos — foi de aproximadamente R$ 37 bilhões, segundo o Ministério da Fazenda. (Serviços e Informações do Brasil)

O IVEPESP entende que a questão não deve ser abordada por meio da simples dicotomia entre proibir ou liberar. O desafio é construir uma política pública baseada em evidências, capaz de preservar a liberdade individual sem ignorar os riscos associados à dependência, ao endividamento, à publicidade intensiva e à exposição de populações economicamente vulneráveis.


1. O alerta que vem de Portugal

A entrevista de Jorge Bravo ao PÚBLICO recoloca uma questão conhecida da economia dos jogos: qual é a relação entre renda, vulnerabilidade e disposição para apostar?

Dados do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos de Portugal — SRIJ — mostram que o jogo online assumiu grande dimensão no país. Em 2025, o volume de apostas online ultrapassou € 23 bilhões, cerca de € 63 milhões por dia. Aproximadamente € 21 bilhões corresponderam aos jogos de fortuna ou azar e € 2 bilhões às apostas esportivas. (SRIJ)

Há, entretanto, uma distinção técnica indispensável.

Volume apostado não significa dinheiro perdido.

O próprio SRIJ define a receita bruta dos operadores como a diferença entre o total apostado e os prêmios pagos. Em 2025, enquanto o volume movimentado foi superior a € 23 bilhões, a receita bruta das empresas ficou próxima de € 1,2 bilhão. Parte considerável do dinheiro recebido em prêmio volta a ser apostada e, por isso, aparece novamente no volume total. (SRIJ)

Assim, a referência a aproximadamente € 2.700 movimentados por adulto, presente no debate português, não deve ser interpretada como se cada adulto português tivesse perdido € 2.700.

Essa diferenciação é igualmente fundamental na discussão brasileira. Misturar depósitos, apostas, prêmios e perdas líquidas pode produzir números impressionantes, porém inadequados para políticas públicas.


2. Afinal, os mais pobres jogam mais?

A resposta científica exige cautela.

Não existe base suficiente para transformar a frase “quanto mais pobre, mais joga” em uma regra universal aplicável a todas as sociedades e a todas as modalidades de jogo.

A literatura científica, entretanto, mostra de maneira consistente algo ligeiramente diferente e talvez mais importante:

os gastos e, sobretudo, os danos provocados pelo jogo podem ter caráter regressivo, atingindo proporcionalmente com maior intensidade as pessoas de menor renda e outros grupos socioeconomicamente vulneráveis.

Estudos clássicos sobre loterias encontraram comportamento regressivo, isto é, famílias de menor renda destinando parcela proporcionalmente maior de seus recursos aos jogos. Pesquisa publicada no Journal of Public Economics mostrou ainda que, após a introdução de loterias, famílias do estrato inferior de renda apresentaram redução de gastos não relacionados ao jogo, inclusive em alimentação, aluguel e outras despesas domésticas. (Sage Journals)

Uma revisão sistemática de 59 estudos encontrou diferenças consistentes nos danos relacionados ao jogo conforme renda, nível educacional e condição socioeconômica, indicando a existência de verdadeira desigualdade social nos danos associados ao jogo. (PubMed)

Há uma nuance importante no caso das apostas online. Revisão sistemática publicada no Journal of Gambling Studies mostrou que usuários de jogos online em geral podem inclusive apresentar renda e escolaridade mais elevadas do que jogadores exclusivamente presenciais. Entretanto, quando se compara o jogador online sem problemas com aquele que apresenta comportamento problemático, menor renda, desemprego e menor posição ocupacional aparecem associados ao grupo mais vulnerável. (Springer)

Portanto, o problema não deve ser formulado como uma caricatura segundo a qual “apenas pobres apostam”. Pessoas de todas as faixas de renda jogam.

A questão distributiva é outra:

R$ 500 perdidos por uma família com renda mensal de R$ 2.000 têm consequências completamente diferentes de R$ 500 perdidos por uma família com renda de R$ 20.000.


3. A aposta como promessa de mobilidade econômica

Há também uma dimensão comportamental.

Para uma pessoa de alta renda, apostar pode representar essencialmente uma forma de entretenimento.

Para alguém submetido a restrições econômicas severas, a possibilidade de obter rapidamente uma quantia elevada pode adquirir significado diferente: a aposta passa a ser percebida como uma possível saída para uma situação financeira difícil.

É justamente nesse ponto que o fenômeno pode assumir caráter regressivo.

Não porque todas as pessoas pobres apostem mais, mas porque a expectativa de uma recompensa extraordinária pode tornar-se particularmente atraente quando as possibilidades convencionais de mobilidade econômica parecem limitadas.

Estudos internacionais já encontraram, por exemplo, aumento de receitas de loterias imediatamente após pagamentos de benefícios sociais, sugerindo relação entre restrição de liquidez e comportamento de aposta. (Taylor & Francis Online)

Pesquisa publicada em 2026 no Journal of Financial Economics, utilizando dados de transações financeiras e a expansão das apostas esportivas online, encontrou efeitos sobre poupança, investimentos e administração de dívidas, concentrados sobretudo entre apostadores frequentes e famílias com pouca poupança. (ScienceDirect)


4. As bets apresentam riscos adicionais

A comparação com a loteria tradicional é útil, mas insuficiente.

As plataformas digitais introduziram características inexistentes, ou muito menos intensas, nas loterias tradicionais:

  • disponibilidade 24 horas por dia e sete dias por semana;
  • acesso imediato pelo celular;
  • apostas sucessivas em poucos segundos;
  • possibilidade de reaplicar imediatamente valores recebidos;
  • grande variedade de jogos;
  • bônus e estímulos promocionais;
  • publicidade personalizada;
  • associação permanente com eventos esportivos;
  • presença de celebridades, clubes e influenciadores digitais;
  • uso intensivo de dados para conhecer o comportamento do usuário.

A Organização Mundial da Saúde alerta que a digitalização e a comercialização estão acelerando a normalização do jogo. Segundo a OMS, o jogo pode contribuir para problemas de saúde mental, dificuldades financeiras e pobreza ao deslocar recursos originalmente destinados a bens e serviços essenciais. A entidade considera pobreza e outras situações de desvantagem social fatores que elevam o risco de danos. (Organização Mundial da Saúde)

A Comissão sobre Jogos da The Lancet Public Health também concluiu que os danos do jogo são mais abrangentes do que o diagnóstico clínico de ludopatia e recomendou que o fenômeno seja tratado como questão de saúde pública, e não apenas como responsabilidade individual do apostador. (ScienceDirect)


5. O tamanho do problema brasileiro

O Brasil oferece atualmente um dos maiores experimentos mundiais de expansão e regulamentação das apostas online.

Segundo o Ministério da Fazenda, o mercado regulado registrou em 2025 aproximadamente R$ 37 bilhões de GGR, ou seja, valores efetivamente retidos pelas empresas depois do pagamento dos prêmios. Cerca de R$ 4,5 bilhões foram destinados a políticas públicas e aproximadamente R$ 9,95 bilhões foram arrecadados em tributos federais. (Serviços e Informações do Brasil)

Dados divulgados a partir do sistema regulatório indicam ainda que cerca de 25,2 milhões de brasileiros fizeram apostas no mercado legal durante 2025. (Meio e Mensagem)

A dimensão social do problema fica ainda mais evidente pelas medidas adotadas recentemente pelo próprio Estado brasileiro.

Em agosto de 2026, o Ministério da Fazenda informou que aproximadamente 3 milhões de beneficiários do Bolsa Família e do BPC já tiveram acesso bloqueado às plataformas em cumprimento a decisão do Supremo Tribunal Federal. Pessoas abrangidas por determinados programas de renegociação de dívidas e pelo Fies também passaram a sofrer restrições de acesso. (Serviços e Informações do Brasil)

Na mesma data, o governo informava mais de 1,2 milhão de pedidos de autoexclusão. Em cerca de 36% dos casos, a justificativa registrada era perda de controle sobre o jogo associada à saúde mental. (Serviços e Informações do Brasil)

Esses números sugerem que a discussão deixou definitivamente de ser apenas tributária ou empresarial.


6. O Brasil avançou, mas o marco regulatório deve continuar evoluindo

É importante reconhecer que houve avanços recentes.

Desde julho de 2026, a publicidade das apostas deve exibir mensagens explícitas como “Apostar pode causar dependência”, “Apostar faz você perder dinheiro” e “Aposta não é investimento”. Também foram ampliadas as restrições à comunicação dirigida a menores de idade. (Serviços e Informações do Brasil)

O país implantou ainda mecanismo centralizado de autoexclusão, bloqueios de determinados grupos vulneráveis e instrumentos de acompanhamento do mercado.

Na área de saúde, o SUS começou em agosto de 2026 a oferecer capacidade de até 100 mil teleatendimentos mensais destinados a pessoas com problemas de saúde mental relacionados às apostas e seus familiares. (Serviços e Informações do Brasil)

São iniciativas relevantes, mas a velocidade de transformação do mercado digital exige monitoramento e aperfeiçoamento permanentes.


7. Recomendações do IVEPESP

O IVEPESP propõe que o debate brasileiro sobre as bets avance em dez direções prioritárias.

1. Criar um Observatório Nacional Independente sobre Apostas e seus Impactos.
Universidades, centros de pesquisa, órgãos públicos e entidades da sociedade civil deveriam acompanhar continuamente endividamento, saúde mental, perfil socioeconômico, consumo, publicidade, juventude e comportamento digital.

2. Publicar regularmente dados por faixa de renda e perfil socioeconômico.
Conhecer apenas o número total de apostadores não é suficiente. É necessário saber quanto diferentes grupos sociais efetivamente perdem em relação à sua renda disponível, preservando-se rigorosamente a privacidade dos indivíduos.

3. Separar claramente os conceitos de depósito, volume apostado, prêmio e perda líquida.
A experiência portuguesa demonstra a importância dessa distinção. Políticas públicas devem ser formuladas a partir de indicadores transparentes e comparáveis.

4. Desenvolver mecanismos preventivos de limites de perdas e de depósitos.
A experiência internacional sugere que sistemas de pré-compromisso, nos quais o usuário estabelece limites previamente, podem ser instrumentos importantes de redução de danos. A OMS recomenda mecanismos desse tipo como parte das estratégias populacionais de prevenção. (Organização Mundial da Saúde)

5. Ampliar a proteção das populações economicamente vulneráveis.
A restrição já implantada para determinados beneficiários sociais constitui reconhecimento explícito de que recursos destinados à subsistência e à proteção social não devem ser desviados para apostas.

6. Reavaliar permanentemente publicidade, patrocínios e influência sobre crianças e jovens.
É necessário avaliar especialmente a associação entre apostas e futebol, a atuação de influenciadores e a exposição precoce de adolescentes a marcas de apostas.

7. Introduzir educação financeira e probabilística nas escolas.
Além de ensinar orçamento e juros, a educação financeira deveria explicar conceitos como probabilidade, valor esperado, aleatoriedade, risco e vieses cognitivos. É importante que jovens compreendam matematicamente por que aposta não é investimento.

8. Fortalecer a rede pública de prevenção e tratamento.
Dependência do jogo deve ser tratada como problema de saúde que pode exigir atendimento psicológico, psiquiátrico e acompanhamento familiar. O novo atendimento disponibilizado pelo SUS representa passo importante nessa direção.

9. Destinar parcela estável das receitas do setor à pesquisa independente, prevenção, educação e tratamento.
Quanto maior o mercado, maior deve ser também a capacidade pública de estudar e mitigar suas externalidades.

10. Combater simultaneamente o mercado ilegal.
Regulamentação rigorosa do mercado autorizado precisa ser acompanhada de repressão efetiva às plataformas clandestinas, que escapam das regras de proteção ao consumidor, tributação e monitoramento.


8. Educação financeira é necessária, mas não suficiente

É tentador atribuir integralmente o problema à falta de educação financeira do apostador.

Essa explicação é incompleta.

Uma pessoa pode conhecer perfeitamente as probabilidades envolvidas e, mesmo assim, desenvolver comportamento problemático. Produtos digitais são desenvolvidos para maximizar frequência de acesso, permanência e interação.

Consequentemente, uma política pública adequada deve combinar:

educação + informação + regulação + tecnologia de proteção + atendimento em saúde + pesquisa independente.

Transferir toda a responsabilidade ao indivíduo seria ignorar a própria arquitetura econômica e tecnológica do mercado.


9. Conclusão

A entrevista publicada pelo PÚBLICO em 27 de agosto de 2026 oferece ao Brasil uma oportunidade de refletir sobre uma questão que provavelmente ganhará importância crescente nos próximos anos.

O problema não está em afirmar que toda aposta é necessariamente patológica, nem em presumir que todos os apostadores pertencem às classes de menor renda.

A questão fundamental é outra.

Quando perdas associadas ao jogo atingem famílias economicamente vulneráveis, seus efeitos sobre alimentação, habitação, educação, endividamento e saúde podem ser proporcionalmente muito maiores.

Nesse sentido, loterias e apostas podem adquirir características economicamente regressivas.

As bets adicionam uma nova dimensão ao problema porque levam o jogo para dentro do celular, tornando possível apostar a qualquer hora, em qualquer lugar e repetidamente.

O Brasil optou pela regulamentação do setor. Essa opção cria simultaneamente uma responsabilidade: regular não pode significar apenas autorizar, tributar e arrecadar. Deve significar também medir, prevenir e proteger.

A experiência portuguesa, os estudos científicos internacionais e os primeiros dados brasileiros convergem para uma recomendação central:

a política de apostas deve ser avaliada não somente pela receita que gera para empresas e governos, mas também pelos custos econômicos, sociais, educacionais e de saúde que pode impor às famílias e à sociedade.

Esse equilíbrio entre liberdade individual, atividade econômica e proteção coletiva deve orientar a próxima etapa da regulamentação brasileira.

Referências selecionadas

  • PÚBLICO. Entrevista com Jorge Bravo, publicada em 27 de agosto de 2026. (Público)
  • Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos – SRIJ, Portugal. Dados da atividade de jogo online em 2025. (SRIJ)
  • Ministério da Fazenda – Brasil. Relatório de Gestão Integrado 2025 e dados da Secretaria de Prêmios e Apostas. (Serviços e Informações do Brasil)
  • Banco Central do Brasil. Análise técnica sobre o mercado de apostas online e o perfil dos apostadores. (Banco Central do Brasil)
  • World Health Organization. Gambling, 2024. (Organização Mundial da Saúde)
  • Wardle H. et al. The Lancet Public Health Commission on gambling. The Lancet Public Health, 2024. (ScienceDirect)
  • Raybould JN, Larkin M, Tunney RJ. Is there a health inequality in gambling related harms? A systematic review. BMC Public Health, 2021. (PubMed)
  • Ghelfi M. et al. Online Gambling: A Systematic Review of Risk and Protective Factors in the Adult Population. Journal of Gambling Studies, 2024. (Springer)

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
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