Resumo executivo

Circula nas redes sociais uma mensagem segundo a qual a Suíça teria proibido a mamografia, após supostamente reconhecer que o exame seria uma “fraude médica”, responsável por falsos diagnósticos, disseminação de tumores, câncer provocado pela radiação e tratamentos desnecessários.

A afirmação central é falsa.

A Suíça não proibiu a mamografia. A origem provável dessa narrativa está em uma manifestação de 2014 do Swiss Medical Board, que questionou a relação entre benefícios, danos e custos dos programas populacionais de rastreamento e recomendou que novos programas não fossem implantados naquele momento, que os existentes fossem reavaliados e que as mulheres recebessem informações mais claras sobre benefícios e riscos.

Não se tratou de proibição do exame.

A realidade suíça atual demonstra isso de maneira ainda mais clara. Em 2026, cantões suíços continuam implantando programas organizados de rastreamento mamográfico e sociedades médicas do país chegaram a propor a discussão sobre início do rastreamento em idades mais precoces.

Isso não significa, entretanto, que a mamografia seja um exame isento de limitações.

A literatura científica documenta questões importantes relacionadas ao rastreamento, como resultados falso-positivos, falso-negativos, ansiedade, investigações adicionais, biópsias, sobrediagnóstico, sobretratamento e exposição à radiação ionizante.

A posição cientificamente adequada, portanto, não é transformar a mamografia em uma tecnologia infalível, nem classificá-la como uma “fraude”.

A questão central é determinar:

para quem, em que idade, com que periodicidade e em quais condições o benefício do rastreamento supera seus potenciais danos.


1. O que aconteceu realmente na Suíça?

Em 2014, Nikola Biller-Andorno e Peter Jüni publicaram no New England Journal of Medicine o artigo “Abolishing Mammography Screening Programs? A View from the Swiss Medical Board”.

O Swiss Medical Board questionou alguns programas sistemáticos de rastreamento diante das evidências existentes naquele momento.

Entre suas recomendações estavam a não introdução de novos programas sistemáticos, a avaliação continuada dos programas existentes e a melhoria das informações oferecidas às mulheres sobre benefícios e riscos do rastreamento.

A distinção é fundamental:

questionar a relação benefício-risco de um programa populacional de rastreamento não equivale a proibir a mamografia.

Em 2026, programas de rastreamento continuam funcionando e sendo implantados na Suíça.

Portanto, a afirmação de que “a Suíça proibiu a mamografia” deve ser considerada falsa.


2. De onde vem a afirmação de “60% de falsos positivos”?

Neste ponto ocorre um fenômeno frequente na desinformação científica: um dado verdadeiro é retirado do contexto e recebe uma interpretação incorreta.

Um importante estudo de Hubbard e colaboradores, publicado no Annals of Internal Medicine, estimou que, após dez anos de mamografia anual iniciada aos 40 anos, a probabilidade acumulada de uma mulher receber pelo menos uma convocação decorrente de resultado falso-positivo poderia alcançar aproximadamente 61%.

Quando o rastreamento era bienal, essa probabilidade era substancialmente menor.

Isso não significa, entretanto, que:

“60% dos diagnósticos de câncer estejam errados.”

Um resultado falso-positivo significa que o exame detectou uma alteração inicialmente considerada suspeita, levando a nova avaliação, mas que posteriormente se demonstrou não ser câncer.

Não significa que uma mulher com resultado falso-positivo seja automaticamente submetida a quimioterapia, radioterapia ou mastectomia.

Resultados suspeitos passam por investigação complementar e, quando necessária, confirmação anatomopatológica por biópsia.


3. Falso-positivo e sobrediagnóstico são fenômenos diferentes

Essa distinção é particularmente importante.

Falso-positivo: o exame sugere inicialmente uma anormalidade, mas a investigação posterior demonstra que não existe câncer.

Sobrediagnóstico: existe realmente uma lesão que atende aos critérios diagnósticos de câncer ou carcinoma in situ, mas que, caso não tivesse sido detectada, possivelmente nunca causaria sintomas ou ameaçaria a vida daquela paciente.

O sobrediagnóstico é um problema reconhecido na literatura científica sobre rastreamento de câncer.

Uma vez encontrado um tumor, nem sempre é possível determinar com segurança, para aquela paciente individualmente, se a lesão permaneceria indolente ou se evoluiria para doença clinicamente relevante.

Por consequência, parte das pacientes sobrediagnosticadas pode receber tratamento que, retrospectivamente, poderia não ter sido necessário.

Surge assim o conceito de sobretratamento.

Esse problema deve ser estudado e comunicado de forma transparente.

Reconhecê-lo, entretanto, não significa concluir que a maioria dos tumores identificados pela mamografia seja fictícia ou que o rastreamento constitua uma fraude.


4. A mamografia utiliza radiação. Qual é o risco?

A mamografia utiliza raios X e, portanto, envolve radiação ionizante.

Do ponto de vista biológico, nenhuma exposição desse tipo deve ser tratada como absolutamente desprovida de risco.

Estudos de modelagem estimaram a possibilidade de ocorrência de cânceres induzidos pela radiação ao longo de décadas de rastreamento.

Um estudo de Miglioretti e colaboradores estimou, em determinado cenário de rastreamento anual dos 40 aos 74 anos, aproximadamente 125 cânceres de mama induzidos por radiação e 16 mortes relacionadas a esses cânceres para cada 100 mil mulheres rastreadas.

Entretanto, o mesmo modelo estimou aproximadamente 968 mortes por câncer de mama evitadas em decorrência da detecção precoce.

Esses números exemplificam como deve funcionar a medicina baseada em evidências.

A questão adequada não é simplesmente:

“O exame possui algum risco?”

A pergunta fundamental é:

“Qual é a magnitude dos benefícios em comparação com a magnitude dos possíveis danos?”

Esse balanço é justamente o fundamento das recomendações de rastreamento.


5. A compressão mamográfica pode disseminar um tumor?

Outra afirmação presente em mensagens nas redes sociais é a de que a compressão da mama durante a mamografia poderia provocar disseminação de células cancerosas e metástases.

Não existem evidências clínicas consistentes que sustentem essa conclusão.

Estudos avaliaram inclusive a presença de células tumorais circulantes antes e depois da compressão mamográfica em pacientes com suspeita de câncer de mama, sem demonstração de aumento significativo da liberação dessas células para a circulação associado ao procedimento.

Portanto, a afirmação de que a mamografia comprovadamente “espalha o câncer” não encontra respaldo nas evidências clínicas disponíveis.


6. A mamografia reduz a mortalidade?

Essa é uma das questões centrais da discussão.

As recomendações internacionais não são absolutamente idênticas.

Diferentes países e organizações utilizam metodologias distintas e podem atribuir pesos diferentes aos benefícios, aos falsos positivos, ao sobrediagnóstico, à idade de início e à periodicidade dos exames.

Em 2024, a U.S. Preventive Services Task Force – USPSTF, após revisão sistemática das evidências e modelagem de benefícios e danos, passou a recomendar mamografia bienal para mulheres entre 40 e 74 anos.

A própria USPSTF reconhece como possíveis consequências do rastreamento:

  • falsos positivos;
  • investigações adicionais;
  • biópsias;
  • sobrediagnóstico;
  • sobretratamento;
  • ansiedade;
  • e exposição à radiação.

Apesar disso, concluiu existir benefício líquido moderado do rastreamento mamográfico na população estudada.

Reconhecer riscos, portanto, não significa necessariamente abandonar o rastreamento.


7. A situação brasileira

O Brasil também vem atualizando sua política de detecção precoce do câncer de mama.

O Ministério da Saúde passou, em 2025, a considerar como população prioritária para o rastreamento organizado mulheres entre 50 e 74 anos, com mamografia a cada dois anos.

Mulheres de outras faixas etárias podem necessitar de avaliação individual dependendo de sintomas, antecedentes pessoais, história familiar e outros fatores de risco.

É igualmente importante diferenciar duas situações:

Rastreamento

Realizado em mulheres assintomáticas com o objetivo de identificar precocemente alterações ainda não percebidas clinicamente.

Investigação diagnóstica

Realizada quando existem sinais, sintomas ou alterações previamente identificadas.

Mulheres com nódulos, retrações, alterações cutâneas, secreções mamilares suspeitas ou outros sintomas não devem aguardar a idade estabelecida para o rastreamento populacional. Necessitam de avaliação médica apropriada.


8. Ultrassonografia, ressonância magnética e exame clínico substituem a mamografia?

Não existem evidências que sustentem a substituição universal da mamografia por exame clínico, ultrassonografia ou ressonância magnética para rastreamento da população geral.

Cada método possui indicações específicas.

A ressonância magnética apresenta elevada sensibilidade e tem papel muito importante, por exemplo, no acompanhamento de determinadas mulheres de alto risco.

A ultrassonografia é ferramenta complementar importante em diversas situações clínicas.

A tomossíntese mamária representa importante evolução tecnológica e vem sendo progressivamente incorporada aos programas de diagnóstico e rastreamento.

Nenhuma dessas tecnologias, entretanto, deve ser apresentada isoladamente como substituta universal da mamografia.

A estratégia adequada depende do risco individual, da idade, da densidade mamária, da história clínica e das recomendações médicas aplicáveis.


9. O papel crescente da inteligência artificial

Outro aspecto que merece atenção é o rápido desenvolvimento da inteligência artificial aplicada à interpretação de imagens médicas.

Sistemas de IA podem auxiliar radiologistas na identificação e classificação de alterações mamárias e potencialmente contribuir para:

  • aumentar a sensibilidade diagnóstica;
  • melhorar a especificidade;
  • reduzir determinados falsos positivos;
  • otimizar a leitura dos exames;
  • priorizar casos suspeitos;
  • e aumentar a eficiência dos programas de rastreamento.

A tecnologia, contudo, deve ser submetida a avaliações rigorosas.

O objetivo não deve ser simplesmente detectar maior quantidade de alterações, mas demonstrar que a tecnologia melhora desfechos clínicos relevantes sem ampliar desnecessariamente o sobrediagnóstico.


10. O perigo de transformar controvérsias científicas em teorias conspiratórias

Este episódio demonstra um padrão frequente na desinformação em saúde.

As mensagens mais convincentes muitas vezes não são inteiramente falsas.

Elas podem reunir:

  1. um fato verdadeiro;
  2. uma publicação científica legítima;
  3. um número real;
  4. a retirada desse número de seu contexto;
  5. uma extrapolação não autorizada pelas evidências;
  6. e uma narrativa emocional ou conspiratória.

Há realmente falsos positivos.

Há sobrediagnóstico.

Há possibilidade de sobretratamento.

Existe exposição à radiação.

Há divergências sobre idade de início e término do rastreamento.

Há diferenças entre recomendações internacionais.

Esses elementos constituem questões científicas legítimas.

Nada disso, entretanto, demonstra que a mamografia tenha sido desenvolvida para “criar pacientes”, que exista uma conspiração internacional para gerar tratamentos desnecessários ou que a Suíça tenha descoberto uma suposta fraude e proibido o exame.


11. Síntese das principais afirmações

AfirmaçãoAvaliação científica
“A Suíça proibiu a mamografia”Falsa
O Swiss Medical Board questionou programas de rastreamento em 2014Verdadeira
Existem programas de rastreamento mamográfico atualmente na SuíçaVerdadeira
Falsos positivos são relativamente frequentes ao longo de várias rodadas de rastreamentoVerdadeira
“60% dos diagnósticos de câncer estão errados”Falsa interpretação
Sobrediagnóstico existeVerdadeira
Sobrediagnóstico pode resultar em sobretratamentoVerdadeira
A mamografia utiliza radiação ionizanteVerdadeira
O risco relacionado à radiação é absolutamente zeroNão
As evidências mostram que a radiação da mamografia causa mais mortes do que o rastreamento evitaNão
A compressão mamográfica comprovadamente espalha tumoresSem respaldo científico convincente
Ultrassom ou ressonância substituem universalmente a mamografiaNão
A mamografia pode reduzir mortalidade por câncer de mama em populações adequadamente selecionadasSim
Existe discussão científica legítima sobre idade e periodicidade do rastreamentoSim

12. Recomendações

Diante das evidências disponíveis, propomos:

1. Combater a desinformação sem esconder as limitações dos métodos diagnósticos

Informações falsas precisam ser corrigidas, mas riscos reais como falso-positivo, sobrediagnóstico e sobretratamento também devem ser apresentados com transparência.

2. Fortalecer a decisão informada

As mulheres devem receber informações compreensíveis sobre benefícios e riscos do rastreamento.

3. Priorizar programas organizados e de qualidade

Mais importante do que simplesmente aumentar o número de mamografias é assegurar qualidade em todo o processo:

  • equipamentos adequados;
  • controle de qualidade;
  • profissionais qualificados;
  • interpretação especializada;
  • comparação com exames anteriores;
  • investigação rápida das alterações;
  • confirmação diagnóstica adequada;
  • e acesso oportuno ao tratamento.

4. Diferenciar rastreamento de diagnóstico

Programas de rastreamento destinam-se a mulheres assintomáticas.

Sintomas ou alterações clínicas exigem investigação médica independentemente da faixa etária definida para rastreamento populacional.

5. Avançar para estratégias baseadas em risco individual

História familiar, predisposição genética, densidade mamária, antecedentes pessoais e outros fatores poderão permitir programas mais individualizados.

6. Investir em métodos capazes de diferenciar tumores agressivos de lesões indolentes

Reduzir o sobrediagnóstico dependerá cada vez mais da capacidade de identificar biologicamente quais tumores apresentam maior probabilidade de progressão.

7. Avaliar rigorosamente novas tecnologias

Tomossíntese, inteligência artificial, ultrassonografia automatizada, ressonância magnética abreviada e outros métodos devem ser avaliados considerando:

  • redução da mortalidade;
  • redução de câncer avançado;
  • falsos positivos;
  • falso-negativos;
  • sobrediagnóstico;
  • qualidade de vida;
  • custo-efetividade;
  • e equidade de acesso.

8. Fortalecer a educação científica e a comunicação em saúde

Universidades, hospitais, sociedades médicas, institutos de pesquisa, órgãos públicos e meios de comunicação precisam desenvolver mecanismos ágeis para avaliar e esclarecer informações médicas que viralizam nas redes sociais.


13. Conclusão

A alegação de que “a Suíça proibiu a mamografia” é falsa.

A controvérsia que lhe deu origem decorre de uma avaliação realizada pelo Swiss Medical Board em 2014 sobre os benefícios e riscos dos programas sistemáticos de rastreamento.

A própria realidade suíça posterior demonstra que não houve proibição nacional da mamografia.

Isso não significa que o exame seja perfeito.

Mamografias podem produzir falsos positivos, levar a investigações adicionais e estão associadas ao problema real do sobrediagnóstico. Também utilizam radiação ionizante, ainda que em doses relativamente baixas.

A existência desses riscos, entretanto, não autoriza concluir que a mamografia seja uma fraude.

A medicina baseada em evidências exige análise de benefícios, riscos e alternativas, considerando a população estudada e a qualidade das evidências disponíveis.

A resposta adequada à desinformação não é substituir uma afirmação absoluta por outra.

É reconhecer que:

a mamografia pode contribuir para reduzir a mortalidade por câncer de mama, mas deve ser utilizada de maneira racional, com qualidade técnica, na população apropriada, na periodicidade adequada e com informação transparente sobre seus benefícios e limitações.

Defender a ciência significa também reconhecer suas incertezas.

E defender a população significa permitir que decisões em saúde sejam tomadas com evidências, transparência, inovação responsável e informação de qualidade — e não pelo medo ou pela desinformação.


Referências selecionadas

  1. Biller-Andorno N, Jüni P. Abolishing Mammography Screening Programs? A View from the Swiss Medical Board. New England Journal of Medicine. 2014;370:1965-1967.
  2. US Preventive Services Task Force. Screening for Breast Cancer: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. JAMA. 2024;331(22):1918-1930.
  3. Hubbard RA, Kerlikowske K, Flowers CI, et al. Cumulative probability of false-positive recall or biopsy recommendation after 10 years of screening mammography: a cohort study. Annals of Internal Medicine. 2011;155(8):481-492.
  4. Ho TQH, Bissell MCS, Kerlikowske K, et al. Cumulative Probability of False-Positive Results After 10 Years of Screening With Digital Breast Tomosynthesis vs Digital Mammography. JAMA Network Open. 2022;5(3):e222440.
  5. Bleyer A, Welch HG. Effect of Three Decades of Screening Mammography on Breast-Cancer Incidence. New England Journal of Medicine. 2012;367:1998-2005.
  6. Miglioretti DL, Lange J, van den Broek JJ, et al. Radiation-Induced Breast Cancer Incidence and Mortality From Digital Mammography Screening: A Modeling Study. Annals of Internal Medicine. 2016;164(4):205-214.
  7. Förnvik D, Andersson I, Dustler M, et al. Estudo sobre células tumorais circulantes antes e após compressão mamográfica. 2013.
  8. Instituto Nacional de Câncer – INCA / Ministério da Saúde. Diretrizes para detecção precoce e rastreamento do câncer de mama.
  9. Sociedades Suíças de Radiologia, Ginecologia e Obstetrícia e Senologia. Recomendações sobre rastreamento do câncer de mama. 2026.

Autores

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
Av. Paulista, nº 1636, Conjunto 4, 15º Pavimento
Cerqueira César – São Paulo/SP
CEP 01310-200
Telefone: (11) 99699-4434
E-mail: [email protected]

Prof. Dr. Giovanni Guido Cerri
Presidente dos Conselhos dos Institutos de Radiologia (InRad) e de Inovação (InovaHC), do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – HC-FMUSP
E-mail: [email protected]