A publicação Pesquisa e Gestão de Ciência: Realidades e Inovação nas Políticas, de Vladimiro Miranda, traz uma contribuição relevante para um tema frequentemente negligenciado nos debates sobre ciência, tecnologia e inovação no Brasil: a necessidade de profissionalização da gestão científica e de sua transformação em uma política pública estratégica. O presente documento analisa as principais contribuições da obra e discute sua possível aplicação ao sistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação (CT&I), argumentando que o desafio nacional não reside apenas no volume de recursos investidos, mas sobretudo na capacidade institucional de planejar, executar, avaliar e governar sistemas complexos de produção de conhecimento.


1. Introdução

Ao longo das últimas décadas, o Brasil consolidou uma infraestrutura científica significativa, composta por universidades públicas, institutos de pesquisa, agências de fomento e centros tecnológicos. O país figura entre os quinze maiores produtores mundiais de artigos científicos, forma milhares de mestres e doutores anualmente e desenvolveu sistemas robustos de avaliação acadêmica.

Entretanto, permanece uma questão fundamental:

Por que um sistema científico relativamente grande produz impactos econômicos, tecnológicos e sociais inferiores aos observados em países com investimentos semelhantes?

A resposta proposta por Vladimiro Miranda é simultaneamente simples e provocativa:

A ciência contemporânea tornou-se um sistema de elevada complexidade e, portanto, exige gestão profissional especializada.

Segundo essa perspectiva, excelência científica e excelência gerencial são dimensões inseparáveis.


2. A gestão da ciência como disciplina estratégica

Tradicionalmente, o sistema acadêmico brasileiro foi estruturado sob a premissa de que bons pesquisadores naturalmente se tornam bons gestores.

A experiência internacional demonstra, entretanto, que a gestão da ciência constitui um campo profissional próprio, envolvendo competências como:

  • planejamento estratégico;
  • governança institucional;
  • gestão financeira;
  • avaliação de impacto;
  • captação de recursos;
  • gestão de propriedade intelectual;
  • internacionalização;
  • diplomacia científica;
  • gestão de riscos;
  • inteligência estratégica.

Nesse contexto, pesquisadores, reitores e dirigentes científicos tornam-se gestores de ecossistemas complexos de produção de conhecimento.


3. O paradoxo brasileiro da ciência

O Brasil apresenta um fenômeno particularmente interessante:

IndicadorSituação Brasileira
Produção científicaElevada
Formação de doutoresElevada
Investimento público acumuladoSignificativo
Patentes e inovaçãoModerados
Transferência tecnológicaLimitada
Inserção industrialInsuficiente
InternacionalizaçãoRestrita

Esse descompasso sugere que o principal problema brasileiro pode não ser exclusivamente a escassez de recursos, mas também a ausência de mecanismos eficientes de coordenação, gestão e avaliação.


4. O desafio da governança científica

A obra de Vladimiro Miranda enfatiza que sistemas científicos modernos necessitam de estruturas permanentes de governança capazes de responder a questões como:

  • Quais áreas estratégicas devem ser priorizadas?
  • Como medir impacto científico e social?
  • Como integrar universidade, governo e setor produtivo?
  • Como internacionalizar a pesquisa?
  • Como transformar conhecimento em inovação?
  • Como utilizar inteligência artificial na gestão científica?

No Brasil, essas decisões frequentemente são fragmentadas entre:

  • ministérios;
  • secretarias estaduais;
  • agências de fomento;
  • universidades;
  • institutos federais;
  • fundações estaduais;
  • empresas públicas.

Essa fragmentação reduz a capacidade de coordenação estratégica nacional.


5. A experiência internacional

Países que lideram os indicadores globais de ciência e inovação apresentam algumas características comuns:

Estados Unidos

  • forte integração universidade-empresa;
  • gestão profissional de centros de pesquisa;
  • elevada autonomia institucional.

Alemanha

  • institutos especializados (Fraunhofer, Max Planck, Helmholtz);
  • planejamento científico de longo prazo;
  • avaliação sistemática de resultados.

Coreia do Sul

  • forte coordenação estatal;
  • integração entre ciência e política industrial;
  • metas nacionais claramente definidas.

China

  • planejamento estratégico centralizado;
  • grandes investimentos orientados por missão;
  • governança baseada em métricas e resultados.

6. O caso brasileiro: onde estão os gargalos?

A reflexão proposta pelo livro permite identificar alguns gargalos históricos brasileiros:

a) Burocracia excessiva

Pesquisadores frequentemente dedicam mais tempo à gestão administrativa do que à própria pesquisa.

b) Ausência de carreira de gestor científico

O país praticamente não possui formação estruturada para:

  • gestores de pesquisa;
  • administradores científicos;
  • especialistas em políticas de ciência;
  • gestores de inovação.

c) Baixa integração institucional

Persistem barreiras entre:

  • universidades;
  • empresas;
  • governo;
  • institutos de pesquisa;
  • sistemas estaduais.

d) Avaliação excessivamente baseada em produção acadêmica

O sistema privilegia:

  • artigos;
  • fator de impacto;
  • produtividade individual,

em detrimento de:

  • impacto econômico;
  • inovação;
  • transferência tecnológica;
  • políticas públicas.

7. Inteligência artificial e gestão científica

Um aspecto particularmente relevante para o futuro da gestão da ciência é a incorporação da inteligência artificial.

A IA poderá transformar:

Planejamento científico

  • identificação de áreas emergentes;
  • prospecção tecnológica;
  • análise de tendências.

Avaliação

  • análise bibliométrica automatizada;
  • detecção de impacto;
  • avaliação multicritério.

Gestão

  • automação administrativa;
  • apoio à decisão;
  • gestão orçamentária.

Formulação de políticas

  • simulação de cenários;
  • avaliação ex ante;
  • monitoramento em tempo real.

A gestão científica poderá tornar-se uma atividade fortemente apoiada por sistemas inteligentes.


8. Uma agenda para o Brasil

Inspirados nas reflexões de Vladimiro Miranda, algumas prioridades estratégicas podem ser propostas:

1. Criar programas nacionais de formação em gestão da ciência.

2. Estruturar carreiras especializadas em gestão científica.

3. Implantar sistemas nacionais de inteligência estratégica em CT&I.

4. Desenvolver métricas multidimensionais de impacto.

5. Fortalecer a integração universidade-empresa-governo.

6. Incorporar inteligência artificial aos sistemas de gestão científica.

7. Criar observatórios permanentes de políticas públicas de ciência e tecnologia.

8. Desenvolver sistemas de avaliação orientados a missões nacionais.


9. Possíveis contribuições do IVEPESP

A agenda proposta dialoga diretamente com iniciativas atualmente desenvolvidas pelo IVEPESP, tais como:

  • Observatório do Ensino Superior;
  • estudos sobre governança universitária;
  • avaliação baseada em evidências;
  • inteligência artificial aplicada à gestão;
  • políticas de inovação;
  • gestão da pesquisa acadêmica;
  • internacionalização científica;
  • formação de lideranças educacionais.

O IVEPESP poderá contribuir para a construção de uma agenda nacional de profissionalização da gestão da ciência no Brasil.


Considerações finais

A principal contribuição da obra de Vladimiro Miranda talvez seja explicitar uma questão frequentemente negligenciada:

O problema central da ciência contemporânea não é apenas produzir conhecimento, mas construir instituições capazes de gerir conhecimento de forma eficiente, estratégica e sustentável.

O Brasil possui capital humano, infraestrutura científica e capacidade institucional suficientes para ocupar posição de destaque internacional. O desafio reside em desenvolver mecanismos de governança, gestão e coordenação compatíveis com a complexidade dos sistemas científicos do século XXI.

A ciência brasileira talvez não precise apenas de mais recursos.

Ela pode precisar, sobretudo, de melhor gestão.

Autor: Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP – Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/