A publicação recente de Wagner et al. (2026), no Journal of Information Technology, sugere que a Inteligência Artificial Generativa (GenAI) poderá provocar uma das maiores transformações metodológicas da história da ciência moderna, comparável ao surgimento dos periódicos científicos, das bases bibliográficas digitais e dos softwares estatísticos.
Os autores demonstram que modelos como ChatGPT, Gemini, Claude, Consensus e Elicit já apresentam capacidade para auxiliar pesquisadores em praticamente todas as etapas das revisões sistemáticas e revisões de literatura, desde a formulação do problema científico até a síntese final das evidências.
Para a pesquisa brasileira e para os programas de pós-graduação, essa transformação representa simultaneamente uma oportunidade extraordinária e um desafio institucional de grandes proporções.
O problema: a explosão da literatura científica
A produção científica mundial cresce atualmente em ritmo superior à capacidade humana de acompanhamento.
Esse fenômeno produz consequências importantes:
- aumento do risco de perda de evidências relevantes;
- duplicação desnecessária de pesquisas;
- dificuldade crescente de atualização científica;
- elevação dos custos de produção do conhecimento;
- limitação da capacidade de síntese interdisciplinar.
Paradoxalmente, a Inteligência Artificial Generativa surge como parte da solução para um problema que ela própria tende a acelerar.
O que a Inteligência Artificial Generativa já consegue fazer
Segundo Wagner et al. (2026), os modelos atuais já conseguem auxiliar pesquisadores em cinco grandes áreas:
Formulação de problemas científicos
- identificação de lacunas;
- busca de revisões anteriores;
- definição de conceitos;
- avaliação da maturidade dos campos.
Busca bibliográfica
- construção automática de estratégias booleanas;
- identificação de sinônimos;
- tradução multilíngue;
- busca semântica avançada.
Triagem de estudos
- priorização de artigos;
- classificação preliminar;
- apoio a revisões rápidas;
- redução de vieses linguísticos.
Extração de dados
- recuperação de tabelas;
- extração de medidas estatísticas;
- identificação de definições;
- estruturação de bases para meta-análises.
Síntese e análise
- elaboração de sínteses narrativas;
- geração de código estatístico;
- construção de visualizações;
- apoio ao desenvolvimento teórico.
O futuro do método PRISMA
Os autores sugerem que as metodologias clássicas de revisão sistemática deverão evoluir para incorporar novas dimensões:
Transparência algorítmica
Os pesquisadores precisarão registrar:
- qual modelo de IA utilizaram;
- qual versão foi empregada;
- quais prompts foram utilizados;
- quais validações humanas foram realizadas.
Reprodutibilidade computacional
Será necessário documentar:
- fluxos computacionais;
- parâmetros de execução;
- bases consultadas;
- intervenções humanas.
Auditoria metodológica
Novos indicadores deverão avaliar:
- precisão dos modelos;
- taxa de alucinações;
- concordância humano-IA;
- confiabilidade dos resultados.
Quatro cenários para o futuro das revisões científicas
O estudo propõe quatro cenários possíveis.
1. Obsolescência parcial
Alguns tipos de revisão poderão tornar-se amplamente automatizados:
- revisões descritivas;
- estudos bibliométricos;
- mapeamentos sistemáticos.
2. Amplificação da capacidade humana
Grande parte da produção científica deverá evoluir para modelos híbridos homem-máquina.
3. Permanência da inteligência humana
Revisões críticas, teóricas e interpretativas continuarão exigindo forte participação humana.
4. Novas formas de ciência
A GenAI poderá permitir:
- revisões interdisciplinares massivas;
- sínteses permanentes;
- integração automática de conhecimento;
- novas formas de construção teórica.
Os riscos
Os autores alertam para riscos relevantes:
- referências inexistentes;
- alucinações factuais;
- perda da leitura crítica;
- redução da autonomia intelectual;
- baixa explicabilidade;
- comprometimento da reprodutibilidade científica.
Por essa razão, defendem que a IA generativa seja utilizada como instrumento de ampliação da inteligência humana e não como sua substituição.
Implicações para a pós-graduação brasileira
A formação de mestres e doutores deverá incorporar novas competências, incluindo:
- engenharia de prompts científicos;
- revisões sistemáticas assistidas por IA;
- ciência aberta e reprodutibilidade;
- inteligência artificial explicável;
- auditoria de algoritmos;
- validação metodológica de modelos generativos.
É provável que, na próxima década, a metodologia científica assistida por Inteligência Artificial torne-se componente obrigatório da formação avançada em pesquisa.
Conclusão
A questão científica mais importante já não é mais:
“Devemos utilizar Inteligência Artificial Generativa na pesquisa?”
A pergunta que emerge agora é:
“Como utilizar Inteligência Artificial Generativa preservando rigor científico, transparência, reprodutibilidade e pensamento crítico?”
A resposta a essa pergunta provavelmente definirá a próxima grande etapa da evolução metodológica da ciência.
Referência
Wagner, G.; Prester, J.; Mousavi, R.; Lukyanenko, R.; Paré, G. (2026). Generative Artificial Intelligence for Literature Reviews. Journal of Information Technology. DOI: 10.1177/02683962261425675.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
Helio Henrique Villela Dias
Engenheiro de Computação • Cientista de Dados
IVEPESP / Lello Lab / UNIFESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-henrique-villela-dias/