Os dados que motivam esta análise foram organizados e divulgados pelo Prof. Dr. Jesús P. Mena-Chalco, docente da Universidade Federal do ABC — UFABC, pesquisador reconhecido nacionalmente por seus estudos quantitativos sobre produção científica, Currículos Lattes e evolução do sistema brasileiro de ciência e pós-graduação.

A série histórica apresentada, relativa aos registros em Currículos Lattes de pessoas associadas à pós-graduação, especialmente em bancas de mestrado e doutorado, oferece um retrato relevante da trajetória recente do Sistema Nacional de Pós-Graduação brasileiro.

Entre 2001 e 2019, o país experimentou uma expansão extraordinária. O número anual de registros passou de 51.811, em 2001, para 215.424, em 2019, representando crescimento superior a 300% em menos de duas décadas. Esse movimento refletiu a consolidação da CAPES, a ampliação dos programas de pós-graduação, a expansão das universidades públicas e privadas e o fortalecimento da formação científica avançada no Brasil.

O ano de 2019 representou o ponto máximo da série histórica. Entretanto, a partir de 2020, observa-se uma queda significativa. Em 2024, o total de registros foi de 157.967, sendo 97.926 em bancas de mestrado e 60.041 em bancas de doutorado. Isso representa uma redução de aproximadamente 27% em relação ao pico de 2019.

Embora a pandemia da COVID-19 tenha contribuído para a queda inicial, a permanência do patamar inferior nos anos seguintes indica que o fenômeno não pode ser explicado apenas por fatores conjunturais. Há sinais consistentes de uma dificuldade estrutural mais ampla, relacionada à atratividade, ao financiamento, à empregabilidade e ao próprio modelo de expansão da pós-graduação brasileira.

Essa interpretação é reforçada por estudos recentes do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos — CGEE, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada — IPEA e por informações da própria CAPES.

O estudo Brasil: Mestres e Doutores 2024, do CGEE, mostra que o país titulou, entre 1996 e 2021, mais de 1 milhão de mestres e mais de 319 mil doutores. Trata-se de uma conquista institucional expressiva. No entanto, a economia brasileira não foi capaz de absorver, na mesma proporção, esse contingente altamente qualificado.

Um dos dados mais relevantes é a forte concentração dos doutores no próprio setor educacional. Parte expressiva dos doutores brasileiros continua vinculada ao ensino superior e à pesquisa acadêmica, enquanto sua presença no setor produtivo, especialmente na indústria, permanece limitada. Estudos do IPEA indicam que a participação de doutores no setor privado brasileiro ainda é reduzida, com presença particularmente baixa na indústria de transformação.

Esse dado revela uma contradição estratégica: o Brasil forma mestres e doutores, mas ainda não estruturou uma economia suficientemente intensiva em conhecimento para aproveitar plenamente esse capital humano.

Outro aspecto crítico é a sobrequalificação. Estudos do IPEA apontam a existência de doutores atuando em ocupações que não exigem sua formação avançada, fenômeno conhecido como sobre-educação. Isso produz perdas individuais e coletivas: reduz o retorno econômico da formação, diminui a atratividade da carreira científica e representa subutilização de investimento público em capital humano altamente qualificado.

Também é necessário destacar a questão das bolsas. As bolsas de mestrado e doutorado permaneceram por cerca de uma década sem reajuste, entre 2013 e 2023. O reajuste posterior foi importante, mas não recompôs integralmente as perdas acumuladas no período. Em um sistema que ainda depende fortemente da dedicação integral de estudantes, bolsas insuficientes comprometem a permanência, a produtividade e a própria decisão de ingresso na pós-graduação.

A queda mais acentuada nos registros de mestrado é particularmente preocupante. O mestrado é a principal porta de entrada para a formação científica avançada. Quando essa etapa perde atratividade, todo o fluxo futuro de formação de doutores, pesquisadores, docentes e quadros técnicos altamente qualificados fica comprometido.

Portanto, os dados sugerem que o Brasil pode estar diante de uma inflexão histórica. O modelo que funcionou entre os anos 1990 e 2019, baseado na expansão quantitativa dos programas e da formação de mestres e doutores, parece ter atingido seus limites. A pergunta estratégica deixa de ser apenas “quantos mestres e doutores formar” e passa a ser “para que projeto nacional estamos formando mestres e doutores”.

Nesse contexto, o IVEPESP entende que uma agenda nacional de revitalização da pós-graduação brasileira deve contemplar:

  1. recomposição permanente e atualização periódica das bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado;
  2. fortalecimento da inserção de mestres e doutores no setor produtivo, especialmente em empresas de base tecnológica, indústria, saúde, energia, educação, agronegócio, defesa e inteligência artificial;
  3. ampliação dos programas de doutorado profissional, doutorado industrial e formação orientada a missões nacionais estratégicas;
  4. criação de incentivos fiscais e regulatórios para empresas que contratem mestres e doutores em atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação;
  5. fortalecimento da cooperação universidade-empresa, com mecanismos de avaliação que reconheçam impacto tecnológico, social, econômico e institucional;
  6. revisão dos critérios de avaliação da pós-graduação, incorporando indicadores de empregabilidade qualificada, inovação, internacionalização e impacto público;
  7. ampliação da internacionalização, com redes de pesquisa, dupla titulação, atração de talentos e cooperação científica em áreas estratégicas;
  8. políticas de retenção de jovens pesquisadores no Brasil, evitando a perda de talentos para países com sistemas científicos mais estruturados;
  9. valorização da carreira docente e científica, sem a qual a pós-graduação perde sua base humana essencial.

A trajetória da pós-graduação brasileira é uma das maiores conquistas institucionais do país nas últimas décadas. Ela formou quadros, consolidou universidades, estruturou grupos de pesquisa e permitiu ao Brasil ocupar posição relevante na produção científica internacional.

Entretanto, os dados recentes indicam que a próxima etapa exigirá mais do que expansão. Exigirá reconfiguração estratégica.

O desafio da próxima década será transformar a pós-graduação brasileira em eixo estruturante de um novo projeto nacional de desenvolvimento, capaz de articular ciência, educação, inovação, indústria, soberania tecnológica e inclusão social.

Sem isso, o Brasil corre o risco de formar talentos que não consegue absorver, financiar trajetórias que não consegue sustentar e desperdiçar uma das maiores reservas de inteligência científica do país.

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
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