Recentemente, durante o evento promovido pelo IVEPESP na Fatec São Caetano do Sul para discussão do livro “Capital Humano: o ativo estratégico que o Brasil não pode desperdiçar”, fomos convidados a refletir sobre um tema que raramente recebe a atenção necessária: o destino dos jovens de altas habilidades após sua trajetória escolar.

A discussão surgiu a partir do relato de um jovem oriundo da escola pública que, graças ao seu desempenho excepcional em olimpíadas acadêmicas, conquistou uma bolsa de estudos em uma instituição de excelência. Posteriormente, ingressou em primeiro lugar na Faculdade de Direito da USP, foi aprovado precocemente no exame da OAB e construiu uma trajetória acadêmica e profissional exemplar.

Entretanto, ao ingressar no mundo do trabalho, passou a enfrentar dificuldades inesperadas. Sua formalidade, seu rigor ético, sua dedicação aos estudos e sua forma diferenciada de pensar passaram a ser vistos por alguns colegas não como qualidades, mas como motivos de estranhamento e até de chacota.

O caso nos leva a uma reflexão fundamental: será que estamos preparados para acolher talentos excepcionais?

O debate sobre altas habilidades costuma concentrar-se na identificação precoce e no enriquecimento curricular. Esses aspectos são importantes, mas insuficientes. A verdadeira inclusão ocorre quando a sociedade é capaz de reconhecer que pessoas altamente talentosas podem apresentar formas diferentes de aprender, interagir e compreender o mundo.

Muitos indivíduos com altas habilidades demonstram características amplamente descritas na literatura científica: elevado senso de justiça, perfeccionismo, pensamento analítico, grande capacidade de concentração, curiosidade intelectual intensa e menor tolerância a incoerências. Em ambientes adequados, essas características favorecem a inovação, a liderança e a produção de conhecimento. Em ambientes pouco receptivos à diversidade cognitiva, podem gerar isolamento, frustração e sofrimento psicológico.

O desafio não está apenas na adaptação desses jovens ao mundo real. Está também na capacidade das instituições de reconhecer o valor da diversidade intelectual.

Uma sociedade que celebra medalhistas de olimpíadas, aprovados em vestibulares concorridos e profissionais de alto desempenho não pode ignorar que muitos desses indivíduos continuarão apresentando características diferenciadas ao longo de toda a vida adulta.

É legítimo que esses profissionais desenvolvam competências socioemocionais e aprendam a navegar em ambientes complexos. Mas também é legítimo questionar ambientes organizacionais que ridicularizam a excelência, a ética ou o compromisso com a qualidade.

O caso relatado ilustra uma contradição brasileira: investimos na identificação e na formação de talentos, mas frequentemente falhamos em criar condições para que esses talentos floresçam plenamente após sua formação.

Essa reflexão é particularmente relevante porque o debate educacional brasileiro costuma concentrar-se, de forma legítima, nos estudantes com dificuldades de aprendizagem, defasagens educacionais ou necessidades específicas de apoio. Contudo, uma política educacional verdadeiramente inclusiva deve contemplar também os estudantes com altas habilidades e superdotação.

A legislação brasileira reconhece esse público como integrante da Educação Especial, mas, na prática, poucos sistemas de ensino possuem programas estruturados para identificação, acompanhamento e desenvolvimento desses estudantes. Muitos passam despercebidos ao longo da vida escolar. Outros, quando identificados, recebem atenção insuficiente para desenvolver plenamente seu potencial.

Além disso, o debate internacional tem mostrado que uma parcela significativa desses estudantes está inserida no universo mais amplo da neurodiversidade. Muitos apresentam características associadas ao Transtorno do Espectro Autista (TEA nível 1), Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), dislexia ou outras condições neurodesenvolvimentais. Em diversos casos ocorre o fenômeno conhecido como “dupla excepcionalidade”, quando altas habilidades coexistem com desafios específicos de aprendizagem ou interação social.

Esses estudantes frequentemente enfrentam uma situação paradoxal. Por um lado, apresentam desempenho intelectual muito acima da média em determinadas áreas. Por outro, podem encontrar dificuldades de adaptação a ambientes escolares ou profissionais que valorizam excessivamente a padronização de comportamentos, estilos de comunicação e formas de relacionamento.

A consequência é que muitos talentos acabam sendo subaproveitados, mal compreendidos ou até mesmo rotulados de maneira inadequada. Características como profundidade intelectual, foco intenso, honestidade extrema, formalidade ou forte senso de justiça podem ser interpretadas equivocadamente como problemas de relacionamento, quando muitas vezes representam apenas formas distintas de funcionamento cognitivo.

O resultado é preocupante. O país perde oportunidades de formar pesquisadores, professores, empreendedores, gestores públicos, engenheiros, médicos, juristas e lideranças capazes de contribuir significativamente para o desenvolvimento nacional.

Em um mundo cada vez mais baseado em conhecimento, ciência, tecnologia e inovação, desperdiçar talentos é um luxo que o Brasil não pode se permitir.

A experiência internacional mostra que países que alcançaram elevados níveis de desenvolvimento econômico e tecnológico investem simultaneamente na inclusão dos estudantes com dificuldades e na promoção daqueles com elevado potencial acadêmico, científico, artístico ou tecnológico. Não se trata de privilegiar alguns em detrimento de outros. Trata-se de reconhecer que uma sociedade moderna precisa criar oportunidades para que cada indivíduo desenvolva plenamente suas capacidades.

O IVEPESP entende que chegou o momento de ampliar esse debate no Brasil. Precisamos discutir mecanismos mais eficazes de identificação de altas habilidades, programas de enriquecimento curricular, aceleração acadêmica quando apropriada, mentorias, olimpíadas científicas, iniciação científica precoce e políticas de acompanhamento desses estudantes ao longo de sua trajetória educacional e profissional.

Também é necessário promover ambientes educacionais e profissionais mais preparados para lidar com a diversidade cognitiva. A inclusão não deve ser entendida apenas como o acolhimento das dificuldades, mas também como o reconhecimento e o desenvolvimento dos potenciais humanos excepcionais.

O Brasil enfrenta enormes desafios de produtividade, inovação e competitividade. Não podemos desperdiçar pessoas que dedicaram anos ao estudo, ao aperfeiçoamento profissional e à construção de trajetórias baseadas no mérito.

A valorização do capital humano exige mais do que formar talentos. Exige criar ambientes capazes de acolhê-los, respeitá-los e permitir que contribuam para o desenvolvimento do país.

Talvez a pergunta mais importante não seja se esses jovens precisam se adaptar à sociedade.

Talvez devamos perguntar se a sociedade brasileira está preparada para aproveitar todo o potencial de seus melhores talentos.

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/