Os dados recentemente divulgados pela Prova Nacional Docente trazem elementos extremamente relevantes para o debate sobre a formação de professores no Brasil e merecem análise cuidadosa, técnica e livre de simplificações ideológicas.
Os números indicam diferenças expressivas entre os cursos presenciais e os cursos na modalidade EaD. Enquanto os cursos presenciais apresentaram aproximadamente 73,78% dos participantes acima do nível básico e conceito médio ENADE de 3,11, os cursos EaD registraram 46,82% acima do básico e conceito médio de 2,04.
À primeira vista, os resultados podem sugerir uma superioridade inequívoca do modelo presencial. Contudo, uma análise mais profunda mostra que o problema brasileiro é muito mais amplo e estrutural do que uma simples oposição entre presencial e educação a distância.
O dado talvez mais preocupante seja justamente o desempenho apenas moderado da própria formação presencial.
Um conceito médio de 3,11 está longe de representar excelência acadêmica robusta em padrões internacionais de formação docente. Em outras palavras, mesmo o sistema presencial brasileiro — que teoricamente possui maior interação humana, maior prática supervisionada e maior controle pedagógico — ainda apresenta resultados que revelam fragilidades importantes.
Isso sugere que o Brasil enfrenta uma crise estrutural da carreira docente.
Nas últimas décadas, a profissão de professor perdeu atratividade social, econômica e simbólica. Em muitos casos:
- os melhores alunos do ensino médio deixaram de escolher licenciaturas;
- há elevada evasão nos cursos de formação docente;
- muitos estudantes ingressam nas licenciaturas não por vocação, mas por acessibilidade financeira ou ausência de alternativas;
- os salários permanecem frequentemente incompatíveis com a complexidade da profissão;
- aumentaram a sobrecarga burocrática, o desgaste emocional e os problemas relacionados à violência escolar.
Esse cenário produz um ciclo extremamente preocupante:
menor atratividade → menor seletividade → maior heterogeneidade formativa → pior desempenho → menor prestígio social da profissão.
Os dados da Prova Nacional Docente parecem refletir exatamente esse fenômeno.
Ao mesmo tempo, é fundamental evitar interpretações simplistas que demonizem automaticamente a educação a distância. O problema central parece estar menos na tecnologia em si e mais na qualidade efetiva dos modelos educacionais implementados.
A experiência brasileira e internacional demonstra que modelos EaD de alta qualidade podem produzir excelentes resultados quando estruturados com:
- forte acompanhamento tutorial;
- polos presenciais consistentes;
- prática supervisionada real;
- uso intensivo de dados educacionais;
- integração pedagógica sofisticada;
- apoio personalizado ao estudante;
- tecnologias educacionais modernas, incluindo inteligência artificial.
Experiências como:
- UNIVESP;
- Universidade Aberta do Brasil (UAB);
- Open University do Reino Unido;
- programas híbridos desenvolvidos por universidades públicas de excelência;
demonstram que qualidade e educação digital podem coexistir.
A própria experiência USP/UNIVESP já antecipava elementos extremamente modernos:
videoaulas integradas a laboratórios reais, tutoria contínua, acompanhamento acadêmico sistemático e uso intensivo de tecnologia educacional articulada à prática presencial.
O IVEPESP entende que os dados atuais devem servir como alerta nacional para a necessidade de reconstrução estratégica da formação docente brasileira.
O debate não pode ser reduzido a “presencial versus EaD”. O verdadeiro desafio é construir um sistema de formação de professores:
- academicamente rigoroso;
- tecnologicamente avançado;
- socialmente valorizado;
- baseado em evidências;
- articulado com a prática pedagógica real;
- compatível com os desafios da inteligência artificial e da nova economia do conhecimento.
A crise da formação docente brasileira não será resolvida apenas proibindo tecnologias ou restringindo modalidades educacionais. Será necessário enfrentar temas mais profundos:
- valorização efetiva da carreira;
- atualização das Diretrizes Curriculares Nacionais;
- fortalecimento da prática supervisionada;
- avaliação contínua baseada em dados;
- integração entre universidades, escolas e sistemas públicos;
- uso inteligente de IA para acompanhamento pedagógico individualizado;
- melhoria da formação científica e pedagógica dos futuros professores.
Os países com melhores sistemas educacionais do mundo possuem algo em comum:
transformaram a carreira docente em uma profissão altamente valorizada, seletiva e prestigiada.
O Brasil precisará decidir se deseja seguir esse caminho ou continuar convivendo com indicadores que revelam uma crise silenciosa, porém crescente, na formação de seus educadores.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
IVEPESP
Perfil Acadêmico
[email protected]
