A trajetória da professora Vanderlan da Silva Bolzani ajuda a compreender, a partir de uma experiência concreta, alguns dos desafios mais importantes enfrentados hoje pela ciência e pela educação brasileiras: a permanência das mulheres nas carreiras científicas, a formação de novas gerações de pesquisadores e o impacto crescente das tecnologias digitais e da inteligência artificial sobre a aprendizagem. Esta nota foi baseada em entrevista recente que ela concedeu.

Professora titular do Instituto de Química da Unesp, pesquisadora 1A do CNPq e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, Vanderlan Bolzani construiu uma carreira de projeção internacional na química de produtos naturais. É também fellow da The World Academy of Sciences (TWAS). Sua trajetória acadêmica começou após abandonar o curso de Medicina para estudar Farmácia e dedicar-se posteriormente à Química Orgânica. (ABC – Academia Brasileira de Ciências)

Há um aspecto particularmente simbólico nessa história. Ao relembrar sua formação, Bolzani afirmou ter sido a primeira bolsista da FAPESP que não era de São Paulo. Vinda de João Pessoa, com poucos recursos e o objetivo de tornar-se cientista, realizou mestrado e doutorado em São Paulo e, posteriormente, pós-doutorado nos Estados Unidos com apoio da Fundação. Sua experiência demonstra o papel transformador que bolsas e políticas de fomento podem desempenhar quando identificam talento independentemente da origem social ou geográfica. (Agência Fapesp)

O paradoxo da participação feminina na ciência

Um dos pontos mais relevantes de seu depoimento é o chamado “afunilamento” da carreira científica feminina.

As mulheres têm presença expressiva na graduação, na pós-graduação e em diversas áreas da pesquisa brasileira. Entretanto, essa participação tende a diminuir à medida que se avança para posições de maior senioridade, bolsas de produtividade mais elevadas, direção de instituições, academias científicas e outros postos de liderança.

Esse fenômeno, muitas vezes denominado efeito tesoura, mostra que ampliar o ingresso das mulheres na universidade é necessário, mas não suficiente. É preciso compreender o que acontece ao longo da trajetória profissional.

Em determinadas áreas, a assimetria torna-se especialmente visível. Em discussão divulgada pela Academia Brasileira de Ciências em 2022, por exemplo, foi registrado que, nas ciências químicas, apenas 12% dos pesquisadores com bolsa de produtividade 1A do CNPq eram mulheres naquele momento. O dado é específico daquela área e daquele período, mas ilustra o problema apontado por Bolzani. (ABC – Academia Brasileira de Ciências)

As causas são múltiplas. Incluem fatores culturais, distribuição desigual das responsabilidades familiares, interrupções de carreira associadas à maternidade e ao cuidado, redes profissionais historicamente masculinas e dificuldades de acesso aos espaços de decisão.

Portanto, políticas para mulheres na ciência não deveriam se concentrar apenas em “atrair meninas para STEM”. Precisamos também perguntar:

Quantas permanecem? Quantas chegam às posições superiores da carreira? Quantas lideram grandes projetos, departamentos, universidades, empresas e instituições científicas?

Representatividade começa antes da universidade

Outro aspecto importante levantado por Vanderlan Bolzani é que as escolhas profissionais começam a ser moldadas muito antes do vestibular.

Brinquedos, expectativas familiares, exemplos apresentados às crianças, modelos profissionais e até a linguagem empregada por adultos podem contribuir para formar a percepção de que algumas atividades seriam “para meninos” e outras “para meninas”.

Estimular meninas a experimentar matemática, programação, química, física, robótica, construção e resolução de problemas não significa direcioná-las obrigatoriamente para determinadas profissões. Significa garantir que estereótipos não reduzam prematuramente o universo de escolhas disponíveis.

Nesse contexto, modelos femininos de excelência científica têm enorme importância.

O Prêmio Carolina Bori Ciência & Mulher, criado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em 2019, constitui um exemplo relevante. O prêmio homenageia Carolina Martuscelli Bori, primeira mulher a presidir a SBPC, e alterna edições dedicadas a cientistas consolidadas e a jovens estudantes. Em 2026, sua oitava edição está justamente voltada à categoria “Meninas na Ciência”, abrangendo estudantes do Ensino Médio e da Graduação. (Portal SBPCNet)

Dar visibilidade às cientistas não é apenas reconhecer o passado. É também oferecer referências para o futuro.

Tecnologia: o novo desafio educacional

Há, entretanto, um segundo eixo no depoimento de Vanderlan Bolzani que merece atenção especial: sua preocupação com a relação das novas gerações com leitura, escrita, tecnologia e inteligência artificial.

Aqui é importante evitar generalizações sobre os jovens. A transformação tecnológica não produziu simplesmente uma geração menos interessada em conhecimento. Produziu uma geração submetida a estímulos, formas de comunicação e mecanismos de obtenção de informação radicalmente diferentes daqueles experimentados pelas gerações anteriores.

O problema educacional central talvez seja outro:

como preservar concentração, leitura profunda, escrita, argumentação e pensamento crítico em um ambiente no qual respostas podem ser obtidas instantaneamente?

A inteligência artificial torna essa pergunta ainda mais urgente.

Ferramentas generativas podem ampliar extraordinariamente a capacidade humana de pesquisar, comparar informações, programar, produzir textos, traduzir, analisar dados e aprender. Mas podem produzir o efeito contrário quando utilizadas simplesmente para substituir o esforço intelectual.

Um estudante que solicita uma resposta à IA e a entrega sem lê-la não está utilizando inteligência artificial para aprender. Está terceirizando o processo cognitivo que a atividade educacional pretendia desenvolver.

Por isso, a questão já não deveria ser simplesmente:

“Devemos permitir IA na educação?”

A pergunta mais adequada é:

“Como utilizar IA sem deixar de desenvolver a inteligência humana?”

O princípio da complementaridade

O IVEPESP considera particularmente importante estabelecer um princípio educacional simples:

a inteligência artificial deve ampliar o raciocínio humano, e não substituí-lo.

Isso significa ensinar estudantes a questionar respostas produzidas por IA, verificar fontes, identificar erros, comparar argumentos, reescrever textos, explicar o raciocínio utilizado e assumir responsabilidade pelo resultado final.

Nesse novo contexto, ler e escrever tornam-se ainda mais importantes — e não menos.

Quanto mais sofisticadas forem as máquinas capazes de produzir linguagem, maior será a necessidade de pessoas capazes de distinguir um argumento consistente de uma afirmação apenas aparentemente convincente.

A experiência australiana

A preocupação internacional com crianças, adolescentes e ambientes digitais já começa a gerar políticas públicas.

A Austrália adotou uma das experiências mais acompanhadas mundialmente. Desde 10 de dezembro de 2025, determinadas plataformas de redes sociais devem tomar medidas razoáveis para impedir que menores de 16 anos mantenham contas nesses serviços. A política não corresponde a uma proibição geral de celulares ou da internet para menores de 16 anos; trata-se especificamente de restrições etárias aplicadas às plataformas abrangidas pela legislação. (eSafety Commissioner)

Independentemente da avaliação futura dessa experiência, sua existência demonstra que o debate internacional está mudando. A tecnologia deixou de ser analisada apenas a partir de suas oportunidades e passou também a ser discutida em termos de desenvolvimento cognitivo, saúde, segurança digital, educação e responsabilidade das próprias plataformas.

O Brasil deveria acompanhar cuidadosamente os resultados dessas políticas antes de simplesmente reproduzi-las, produzindo evidências próprias sobre o impacto da exposição digital e da inteligência artificial sobre crianças e adolescentes.

Da trajetória individual às políticas públicas

A história de Vanderlan Bolzani não deve ser interpretada apenas como uma narrativa de extraordinária perseverança pessoal.

Histórias de superação são inspiradoras, mas boas políticas públicas não podem depender de que cada pessoa precise ser excepcionalmente resistente para conseguir avançar.

A verdadeira função das instituições é reduzir barreiras desnecessárias para que talento, dedicação e capacidade possam florescer.

Isso implica apoiar a formação científica desde a educação básica, ampliar oportunidades para meninas, acompanhar a progressão feminina na carreira acadêmica, desenvolver mecanismos que reduzam desigualdades associadas à maternidade e às responsabilidades de cuidado, estimular mulheres em posições de liderança e ampliar a presença de cientistas na comunicação pública.

Implica também preparar uma geração que saiba utilizar as novas tecnologias sem se tornar intelectualmente dependente delas.

Ciência precisa fazer parte da cultura brasileira

Há ainda uma observação de Vanderlan Bolzani que merece ser ampliada: a ciência precisa ocupar maior espaço na cultura brasileira.

O Brasil possui cientistas internacionalmente reconhecidos, universidades que realizam pesquisas de excelência e um sistema de pós-graduação construído ao longo de décadas. Entretanto, grande parte dessa produção permanece distante da população.

Conhecemos atletas, artistas, influenciadores e personalidades da televisão. Quantos jovens brasileiros seriam capazes de citar cinco cientistas brasileiros contemporâneos?

Valorizar a ciência significa também contar suas histórias.

E histórias como a de Vanderlan Bolzani mostram que ciência não é uma atividade abstrata realizada apenas em laboratórios. Ciência envolve escolhas pessoais, oportunidades educacionais, financiamento público, persistência, capacidade de enfrentar dificuldades e, sobretudo, liberdade para fazer perguntas.

Uma agenda para o futuro

O depoimento de Vanderlan Bolzani reúne dois desafios que, à primeira vista, poderiam parecer independentes, mas estão profundamente relacionados.

Precisamos garantir que nenhuma menina deixe de desenvolver seu potencial científico por causa de seu gênero.

E precisamos garantir que nenhum jovem deixe de desenvolver seu potencial intelectual porque uma tecnologia passou a pensar, escrever ou responder em seu lugar.

O desafio comum é preservar e ampliar a autonomia humana.

Uma sociedade capaz de oferecer oportunidades equivalentes a homens e mulheres, reconhecer seus cientistas e ensinar seus jovens a utilizar criticamente a inteligência artificial estará melhor preparada para produzir conhecimento, inovação e desenvolvimento.

A trajetória de Vanderlan Bolzani demonstra o que pode acontecer quando talento encontra oportunidade.

A responsabilidade das políticas de educação, ciência e tecnologia é fazer com que essa combinação deixe de ser excepcional e passe a ser possível para milhões de brasileiros.

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
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