Durante décadas, grande parte das políticas educacionais ocidentais privilegiou o desenvolvimento de habilidades gerais de leitura e pensamento crítico, frequentemente em detrimento da construção sistemática de conhecimentos pelos estudantes. Entretanto, avanços recentes na ciência cognitiva, na psicologia educacional e na pesquisa sobre alfabetização vêm demonstrando que o conhecimento prévio constitui um dos principais determinantes da compreensão leitora.

Esta nota técnica discute a crescente valorização das abordagens curriculares centradas no conhecimento, inspirada nas reflexões de Daniel T. Willingham e E.D. Hirsch, e analisa suas implicações para o contexto educacional brasileiro, particularmente para a alfabetização, a educação básica e a formação docente.


1. Uma mudança silenciosa na educação internacional

Durante boa parte das últimas décadas, consolidou-se em diversos sistemas educacionais a ideia de que a escola deveria priorizar o desenvolvimento de competências amplas e transferíveis, tais como:

  • identificar ideias principais;
  • realizar inferências;
  • desenvolver pensamento crítico;
  • resolver problemas;
  • aprender a aprender;
  • pesquisar informações.

Nessa perspectiva, o acúmulo sistemático de conhecimentos passou a ser frequentemente considerado secundário. A crença predominante era de que, na era digital, a informação estaria sempre disponível e, portanto, memorizar fatos e conteúdos seria menos importante.

Contudo, pesquisas acumuladas nas últimas décadas vêm demonstrando uma realidade bastante distinta: não existe compreensão sem conhecimento prévio.

A capacidade de interpretar um texto depende fortemente daquilo que o leitor já sabe sobre o assunto tratado. Quanto maior o repertório cultural, científico e histórico do estudante, maior sua capacidade de compreender, inferir, relacionar e criticar informações.

Essa mudança de entendimento levou a uma verdadeira revalorização do conhecimento nos sistemas educacionais mais avançados.


2. O que a ciência cognitiva descobriu

Pesquisadores como E.D. Hirsch e Daniel T. Willingham demonstraram que a compreensão leitora depende da interação entre três fatores principais:

a) Decodificação

O estudante precisa dominar a leitura das palavras.

b) Vocabulário

Precisa compreender o significado dos termos utilizados.

c) Conhecimento prévio

Precisa possuir referências conceituais sobre o tema abordado.

Sem esse terceiro componente, mesmo leitores tecnicamente fluentes apresentam grande dificuldade de compreensão.

Um estudante pode ler perfeitamente um texto sobre:

  • mudanças climáticas;
  • Revolução Industrial;
  • genética;
  • inteligência artificial;
  • democracia ateniense;

mas, se desconhecer minimamente esses temas, sua compreensão será necessariamente limitada.

A memória, portanto, não é um obstáculo ao pensamento crítico; ela é sua condição necessária.


3. O retorno do currículo baseado em conhecimento

Como consequência dessa acumulação de evidências, observa-se internacionalmente uma importante mudança curricular.

Atualmente, grande parte dos programas educacionais mais bem avaliados passou a defender explicitamente:

  • construção intencional do conhecimento;
  • sequenciamento curricular rigoroso;
  • ampliação do repertório cultural;
  • ensino explícito;
  • fortalecimento da memória de longo prazo;
  • integração entre alfabetização e conhecimento disciplinar.

Essa mudança é particularmente visível:

  • nos Estados Unidos;
  • no Reino Unido;
  • em Singapura;
  • em diversas províncias canadenses;
  • em sistemas educacionais asiáticos de alto desempenho.

A própria expressão “knowledge-rich curriculum” tornou-se uma das principais referências da atual política educacional internacional.


4. O caso brasileiro: uma reflexão necessária

No Brasil, desde a década de 1990, observou-se forte influência das pedagogias centradas em competências e habilidades.

Embora essas abordagens tenham trazido contribuições importantes, produziram também efeitos colaterais relevantes:

  • redução da centralidade dos conteúdos;
  • fragmentação curricular;
  • enfraquecimento da memória escolar;
  • diminuição da exigência cognitiva;
  • dificuldades crescentes de compreensão leitora.

Os resultados das avaliações nacionais e internacionais sugerem que essa estratégia produziu ganhos inferiores aos esperados.

O desempenho brasileiro no PISA continua apresentando desafios importantes justamente em leitura, matemática e ciências — áreas fortemente dependentes da acumulação progressiva de conhecimentos.


5. A falsa oposição entre conhecimento e competências

Um dos equívocos mais persistentes do debate educacional contemporâneo foi apresentar uma falsa dicotomia:

conhecimento versus competências.

Na realidade, as evidências científicas sugerem exatamente o contrário:

competências sofisticadas dependem de conhecimentos robustos.

Não existe:

  • pensamento crítico sem conhecimento;
  • criatividade sem repertório;
  • resolução de problemas sem domínio conceitual;
  • interpretação sem memória;
  • inovação sem acumulação prévia de saber.

As competências não substituem o conhecimento; elas emergem a partir dele.


6. O desafio brasileiro para a próxima década

Se o Brasil desejar elevar significativamente seus indicadores educacionais, algumas direções estratégicas merecem consideração:

Alfabetização

  • fortalecimento da ciência da leitura;
  • ensino explícito da linguagem;
  • ampliação do vocabulário.

Currículo

  • maior densidade de conhecimentos essenciais;
  • sequenciamento curricular mais estruturado;
  • definição clara de conteúdos fundamentais.

Formação docente

  • aprofundamento da psicologia cognitiva;
  • ciência da aprendizagem;
  • ciência da leitura.

Avaliação

  • mensuração não apenas de competências gerais, mas também da construção efetiva de conhecimento.

Política pública

  • reconhecimento de que equidade educacional depende também da democratização do acesso ao conhecimento acumulado pela humanidade.

7. Uma possível agenda para o IVEPESP

A revalorização do conhecimento oferece uma oportunidade importante para o debate educacional brasileiro.

Algumas linhas de investigação que poderiam ser desenvolvidas incluem:

  • análise comparativa internacional de currículos centrados no conhecimento;
  • estudos sobre repertório cultural e desempenho escolar;
  • relação entre conhecimento prévio e alfabetização;
  • impactos das políticas curriculares por competências;
  • comparação entre escolas seletivas e não seletivas;
  • construção de indicadores nacionais de densidade curricular;
  • utilização de inteligência artificial para personalização baseada em repertório prévio.

Considerações finais

A principal lição da ciência cognitiva contemporânea talvez seja simultaneamente simples e revolucionária:

não aprendemos a pensar para depois adquirir conhecimento; adquirimos conhecimento para poder pensar.

A valorização do conhecimento não representa um retorno nostálgico ao passado, mas sim uma aproximação crescente entre educação, ciência cognitiva e evidências empíricas.

Num contexto de inteligência artificial, abundância informacional e rápidas transformações tecnológicas, o conhecimento humano torna-se ainda mais importante, pois continua sendo o principal instrumento para compreender, interpretar, criticar e transformar a realidade.

Talvez uma das tarefas centrais da educação brasileira nas próximas décadas seja justamente recuperar uma verdade que a ciência contemporânea vem reafirmando de forma crescente:

o conhecimento não é um acessório da aprendizagem; ele é sua própria infraestrutura.

Referência

WILLINGHAM, Daniel T.; HIRSCH, E.D. O conhecimento como chave para a leitura. Iniciativa Educação – Teresa e Alexandre Soares dos Santos, Portugal, 22 jun. 2026. Disponível em: iniciativaeducacao.org. Acesso em: jul. 2026.

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/