Um Projeto de País para as Próximas Gerações
O IVEPESP — Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo — tem procurado, desde sua criação, exercer sua atuação pública com independência, responsabilidade institucional, rigor técnico e permanente abertura ao diálogo.
Ao longo de sua trajetória, o Instituto tem se manifestado sobre temas relacionados à educação, à ciência, à tecnologia, à inovação, ao desenvolvimento econômico e às instituições brasileiras, sempre buscando preservar um princípio fundamental: o interesse público deve estar acima de disputas partidárias, ideológicas ou circunstanciais.
Quando nos pronunciamos, publicamos notas técnicas, participamos de debates ou dialogamos com autoridades, universidades, empresas, entidades científicas e organizações da sociedade civil, procuramos fazê-lo com base em dados, evidências, estudos, comparações nacionais e internacionais e fontes confiáveis.
Essa independência é parte essencial da identidade do IVEPESP.
Ela nos permite reconhecer avanços quando eles ocorrem, apontar problemas quando são identificados e apresentar propostas independentemente de quem esteja ocupando o governo federal, estadual ou municipal.
O Brasil enfrenta hoje desafios que não podem mais ser tratados apenas como questões de uma administração, de uma eleição ou de um determinado campo político.
São desafios estruturais.
E, por isso, exigem um projeto nacional de longo prazo.
O Brasil precisa voltar a pensar o futuro
Durante décadas, o país acumulou dificuldades que sucessivos governos, de diferentes orientações políticas, não conseguiram resolver de maneira definitiva.
Persistem desigualdades profundas.
A produtividade cresce lentamente.
A educação apresenta resultados muito aquém do necessário.
A indústria perdeu competitividade.
A ciência enfrenta dificuldades de financiamento e continuidade.
Empresas convivem com crédito caro, burocracia, insegurança jurídica e complexidade tributária.
Famílias enfrentam endividamento e custo de vida elevado.
O crime organizado amplia sua presença econômica e territorial.
E cresce, entre parcelas da população, a sensação de perda de confiança nas instituições e de falta de perspectiva em relação ao futuro.
Esses problemas não podem ser enfrentados isoladamente.
Educação, ciência, produtividade, competitividade, responsabilidade fiscal, segurança jurídica, inovação, desenvolvimento social e fortalecimento institucional fazem parte de um mesmo sistema.
É necessário voltar a pensar o Brasil de forma integrada.
Educação deve ser prioridade nacional
Nenhum país alcança desenvolvimento sustentável quando parcela significativa de suas crianças e jovens conclui a educação básica sem domínio adequado de leitura, matemática e ciências.
Os resultados das avaliações educacionais precisam deixar de ser tratados apenas como números ou rankings.
Eles devem orientar políticas públicas.
O desafio brasileiro não é apenas garantir que o estudante esteja na escola.
É assegurar que ele aprenda.
Por isso, é indispensável fortalecer a alfabetização, recuperar aprendizagens, reduzir desigualdades regionais, combater evasão e abandono escolar e construir mecanismos permanentes de avaliação da qualidade da educação.
Ao mesmo tempo, nenhuma política educacional será bem-sucedida sem a valorização da carreira docente.
Professores precisam ser bem formados, respeitados, valorizados e adequadamente remunerados.
A qualidade de um sistema educacional dificilmente será superior à qualidade das condições oferecidas aos seus professores.
Permanência escolar deve caminhar junto com aprendizagem
Programas destinados a estimular a permanência do jovem na escola podem produzir importantes benefícios sociais.
Mas a permanência, por si só, não basta.
Precisamos perguntar:
Quantos jovens concluirão a educação básica?
E, sobretudo:
Com que aprendizagem concluirão?
Uma sociedade não pode se satisfazer apenas com o aumento do número de diplomas.
É necessário assegurar que esses diplomas correspondam à aquisição efetiva de conhecimentos e competências.
Sem isso, será difícil transformar expansão educacional em produtividade, renda, mobilidade social e desenvolvimento.
Ciência, tecnologia e inovação devem ser políticas de Estado
O Brasil construiu, ao longo de décadas, um patrimônio científico relevante.
Universidades, institutos de pesquisa, FAPESP, CNPq, CAPES, FINEP, fundações estaduais e inúmeras outras instituições contribuíram para a formação de milhares de pesquisadores e para a consolidação de importantes áreas de conhecimento.
Esse patrimônio precisa ser preservado e ampliado.
Ciência não pode depender exclusivamente de ciclos políticos ou oscilações orçamentárias.
É necessário garantir continuidade, previsibilidade e estabilidade ao financiamento da pesquisa.
Pesquisa básica e aplicada são partes complementares do mesmo processo.
O conhecimento produzido nas universidades precisa continuar ampliando as fronteiras da ciência, mas também precisamos aumentar nossa capacidade de transformar esse conhecimento em tecnologias, produtos, serviços, empresas e soluções para a sociedade.
A internacionalização da ciência brasileira precisa ser fortalecida
Nenhuma ciência moderna se desenvolve isoladamente.
Pesquisadores brasileiros precisam participar das melhores redes científicas internacionais.
Estudantes e jovens pesquisadores devem ter oportunidades para frequentar centros de excelência no exterior, estabelecer colaborações e trazer para o país conhecimento, experiência e novas redes de cooperação.
A circulação internacional de pesquisadores não deve ser confundida com perda de talentos.
O problema surge quando jovens altamente qualificados deixam o Brasil não por opção acadêmica temporária, mas porque não encontram aqui oportunidades para desenvolver suas potencialidades.
Um país que investe durante anos na formação de seus jovens e depois não consegue lhes oferecer perspectivas está transferindo conhecimento, talento e investimento para outras economias.
Precisamos criar condições para que nossos jovens queiram construir seu futuro no Brasil
Talvez um dos sinais mais preocupantes do momento atual seja ouvir jovens brasileiros bem preparados afirmarem que seu maior sonho é deixar o país.
A mobilidade internacional é positiva e faz parte da formação contemporânea.
Mas ela deve representar intercâmbio, e não fuga de oportunidades.
Precisamos criar um ambiente em que estudar, pesquisar, empreender, trabalhar e constituir família no Brasil volte a representar confiança no futuro.
Esse deve ser um dos grandes objetivos de qualquer projeto nacional.
Educação, ciência e economia precisam caminhar juntas
Formar mais engenheiros, cientistas, tecnólogos e profissionais altamente qualificados é indispensável.
Mas não basta.
É necessário que a economia brasileira seja capaz de absorver esse conhecimento.
Quando profissionais altamente qualificados trabalham muito abaixo de sua formação, temos um sinal de desalinhamento entre o sistema educacional e a estrutura produtiva.
O Brasil precisa aproximar:
universidades, institutos de pesquisa, empresas, governo e sociedade.
Essa aproximação é essencial para transformar conhecimento em inovação, produtividade e empregos qualificados.
O Brasil precisa recuperar sua competitividade
A indústria brasileira perdeu participação e competitividade ao longo de décadas.
Nossas empresas enfrentam juros elevados, infraestrutura cara, complexidade tributária, burocracia, dificuldades de financiamento e insegurança jurídica.
Ao mesmo tempo, produtos importados avançam rapidamente no mercado interno.
A competição internacional é desejável.
Mas ela precisa ocorrer em condições minimamente equilibradas.
Quando uma fábrica brasileira fecha ou deixa de investir, não perdemos apenas produção.
Perdemos empregos.
Perdemos fornecedores.
Perdemos conhecimento acumulado.
Perdemos capacidade tecnológica.
Perdemos investimentos futuros.
E perdemos oportunidades de inovação.
O mesmo cuidado precisa ser estendido aos diferentes setores produtivos, inclusive a segmentos do agronegócio que enfrentam dificuldades financeiras, margens comprimidas e elevado endividamento.
O Brasil precisa estimular quem produz, investe e empreende
Pequenas, médias e grandes empresas são essenciais para geração de emprego, renda e inovação.
Empreender no Brasil ainda é excessivamente difícil.
O país precisa reduzir barreiras burocráticas, ampliar o acesso ao crédito produtivo, simplificar o sistema tributário, melhorar a infraestrutura e fortalecer a segurança jurídica.
Não existe desenvolvimento sustentável sem investimento privado.
E não existe investimento duradouro sem confiança.
Produtividade precisa voltar ao centro da estratégia nacional
Nenhum país se torna desenvolvido apenas ampliando consumo, explorando recursos naturais ou aumentando impostos.
É necessário produzir mais valor com os recursos disponíveis.
Produtividade depende de educação, inovação, infraestrutura, tecnologia, formação profissional, gestão, ambiente de negócios e segurança jurídica.
O crescimento da produtividade deveria ser uma das principais metas nacionais.
Sem ela, será difícil aumentar salários de maneira sustentável, melhorar a competitividade das empresas e financiar políticas sociais de longo prazo.
Responsabilidade fiscal é condição para políticas públicas duradouras
O Estado precisa ter capacidade financeira para cumprir suas responsabilidades.
Déficits persistentes, aumento da dívida e crescimento do custo dos juros reduzem os recursos disponíveis para educação, saúde, infraestrutura, segurança, ciência e inovação.
Responsabilidade fiscal não deve ser entendida como oposição às políticas sociais.
Ao contrário.
Ela é uma das condições para sua sustentabilidade.
Gastar melhor deve ser tão importante quanto arrecadar.
Programas públicos precisam ser avaliados permanentemente.
Políticas que produzem bons resultados devem ser preservadas e fortalecidas.
Políticas ineficientes precisam ser corrigidas.
O fortalecimento das instituições é indispensável
Nenhuma sociedade democrática funciona adequadamente sem confiança institucional.
Executivo, Legislativo, Judiciário e demais órgãos de Estado precisam preservar sua credibilidade, independência, transparência e respeito perante a sociedade.
Instituições fortes não são instituições imunes à crítica.
São aquelas capazes de prestar contas, conviver com divergências, corrigir erros e manter sua legitimidade.
O equilíbrio entre os Poderes, o respeito às regras e a segurança jurídica são patrimônios de toda a sociedade.
O avanço do crime organizado exige resposta nacional
O fortalecimento das organizações criminosas representa uma ameaça à segurança pública, à economia e às próprias instituições.
O crime organizado não atua apenas no tráfico de drogas.
Ele ocupa territórios, movimenta grandes volumes financeiros, infiltra-se em atividades econômicas e compromete oportunidades para milhares de jovens.
Seu enfrentamento precisa combinar inteligência, investigação, segurança pública, educação, inclusão produtiva e presença efetiva do Estado.
Nenhum projeto de desenvolvimento prosperará onde a população convive permanentemente com medo e insegurança.
O mundo tornou-se mais competitivo e protecionista
A ordem econômica internacional está passando por profundas transformações.
Grandes economias voltaram a adotar políticas industriais, subsídios, tarifas, restrições comerciais e estratégias de proteção de setores considerados essenciais.
Tecnologias estratégicas tornaram-se parte central das disputas internacionais.
O Brasil precisa compreender essa nova realidade.
Precisamos defender nossos interesses com pragmatismo, competência e planejamento.
Não devemos nos fechar ao mundo.
Mas também não podemos abrir mão de nossas capacidades produtivas, científicas e tecnológicas.
Inteligência artificial e novas tecnologias devem integrar uma estratégia nacional
A inteligência artificial está modificando rapidamente a educação, a ciência, a indústria, os serviços e o mercado de trabalho.
O Brasil não pode se limitar a consumir tecnologias desenvolvidas por outros países.
Precisamos formar profissionais, desenvolver modelos, criar empresas, ampliar infraestrutura computacional e participar da construção das tecnologias que moldarão as próximas décadas.
A mesma atenção deve ser dedicada a áreas como biotecnologia, saúde, novos materiais, energia, tecnologias climáticas, computação avançada e tecnologias quânticas.
O país precisa superar a polarização permanente
O Brasil desperdiça enorme energia em disputas políticas intermináveis.
Famílias e amigos se dividem.
Debates públicos se tornam hostis.
Redes sociais amplificam conflitos.
E questões fundamentais permanecem sem solução.
Precisamos voltar a discutir aquilo que realmente definirá nosso futuro:
Que educação queremos oferecer às nossas crianças?
Que oportunidades queremos criar para nossos jovens?
Que ciência queremos produzir?
Que setores industriais desejamos desenvolver?
Que tecnologias queremos dominar?
Como aumentaremos nossa produtividade?
Como tornaremos nossas contas públicas sustentáveis?
Como fortaleceremos nossas instituições?
Que Brasil queremos deixar para as próximas gerações?
Essas perguntas são maiores do que qualquer eleição.
O Brasil tem condições de construir um futuro melhor
O reconhecimento dos problemas brasileiros não deve levar ao pessimismo.
O país possui enormes ativos.
Temos universidades de excelência.
Institutos de pesquisa consolidados.
Pesquisadores reconhecidos internacionalmente.
Empresários inovadores.
Trabalhadores qualificados.
Agricultura competitiva.
Recursos naturais estratégicos.
Biodiversidade.
Uma matriz energética diferenciada.
Um grande mercado consumidor.
E enorme capacidade de realização.
O que frequentemente nos falta é planejamento de longo prazo, continuidade, coordenação e clareza de prioridades.
10 compromissos para o Brasil 2035
Diante desse cenário, o IVEPESP propõe que o debate nacional seja orientado por dez compromissos fundamentais:
1. Educação básica com aprendizagem efetiva
Garantir alfabetização, domínio de leitura, matemática e ciências e recuperação contínua das defasagens de aprendizagem.
2. Valorização permanente da carreira docente
Transformar a profissão de professor em uma carreira atraente, respeitada e compatível com sua importância social.
3. Permanência escolar associada à qualidade
Combater evasão e abandono sem perder de vista que concluir a escola precisa significar aprender.
4. Fortalecimento da educação profissional, tecnológica e superior
Ampliar a formação conectada às transformações científicas, tecnológicas e produtivas.
5. Ciência, tecnologia e inovação como políticas de Estado
Garantir financiamento previsível e continuidade ao sistema científico nacional.
6. Integração entre universidades, institutos de pesquisa, empresas e sociedade
Transformar conhecimento em inovação, produtividade, competitividade e qualidade de vida.
7. Recuperação da competitividade da economia brasileira
Reduzir o Custo Brasil e fortalecer a capacidade industrial, tecnológica e produtiva.
8. Estímulo ao empreendedorismo, investimento e produtividade
Criar um ambiente favorável para quem produz, investe, empreende e gera empregos.
9. Responsabilidade fiscal e qualidade do gasto público
Garantir condições econômicas para políticas públicas sustentáveis e duradouras.
10. Fortalecimento das instituições e reconstrução da confiança no futuro
Preservar democracia, segurança jurídica, transparência e oportunidades para as próximas gerações.
Um compromisso acima das disputas políticas
Esses compromissos não pertencem à esquerda, à direita ou ao centro.
Pertencem a qualquer sociedade que queira construir desenvolvimento sustentável.
O IVEPESP continuará dialogando com governos de diferentes orientações, universidades, institutos de pesquisa, empresas, parlamentos, organizações científicas e entidades da sociedade civil.
Continuará reconhecendo boas políticas quando elas existirem.
Continuará apontando problemas quando eles precisarem ser enfrentados.
E continuará apresentando propostas baseadas em conhecimento, evidências e responsabilidade.
Nossa posição institucional é clara:
não queremos participar da polarização.
Queremos contribuir para a construção de soluções.
O Brasil precisa voltar a discutir resultados, e não apenas ideologias.
Precisamos reconstruir a confiança de que vale a pena estudar, pesquisar, produzir, investir, empreender, trabalhar e criar nossos filhos neste país.
Precisamos oferecer aos nossos jovens motivos para acreditar que podem desenvolver aqui todo o seu potencial.
Mais do que discutir apenas quem governará o Brasil nos próximos anos, precisamos começar a construir o país que desejamos para as próximas gerações.
O futuro do Brasil precisa ser maior do que uma eleição.
IVEPESP — Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
Diretoria do IVEPESP