Resumo Executivo
Conversas recentes com empresários brasileiros revelam um movimento que merece atenção: empresas industriais estão avaliando ou efetivamente transferindo parte de suas atividades produtivas para o Paraguai.
O fenômeno não deveria ser interpretado simplesmente como busca por “mão de obra barata”.
Uma simulação desenvolvida pelo IVEPESP para o setor de confecções, tomando como referência uma produção de 100 mil camisetas por mês, indica que a vantagem paraguaia pode resultar da combinação de vários fatores:
- Regime de Maquila;
- tratamento tributário voltado à exportação;
- admissão temporária de matérias-primas, componentes e equipamentos;
- recuperação de IVA relacionada às operações maquiladoras;
- estrutura diferenciada de encargos trabalhistas;
- jornada semanal;
- energia;
- custos administrativos;
- proximidade geográfica com o Brasil;
- integração ao Mercosul.
A legislação atualmente vigente no Paraguai estabelece Tributo Único de Maquila de 1%, calculado sobre o maior valor entre o valor agregado no território paraguaio e o valor da fatura de exportação. O regime contempla ainda suspensão de tributos aduaneiros e outros benefícios específicos. (MIC)
No cenário-base desenvolvido pelo IVEPESP, chegou-se à seguinte estimativa:
| Indicador | Brasil | Paraguai |
|---|---|---|
| Produção mensal | 100.000 peças | 100.000 peças |
| Custo industrial estimado por camiseta | R$ 22,73 | R$ 20,92 |
| Custo mensal estimado | R$ 2,273 milhões | R$ 2,092 milhões |
| Mão de obra direta estimada | R$ 987,5 mil | R$ 917,9 mil |
| Materiais por camiseta | R$ 9,70 | R$ 8,73 |
| Energia por camiseta | R$ 0,26 | R$ 0,12 |
| Economia estimada por camiseta | — | R$ 1,81 |
| Economia estimada por mês | — | R$ 180,7 mil |
| Economia estimada por ano | — | R$ 2,17 milhões |
No cenário adotado, a diferença representa aproximadamente 7,9% do custo industrial comparável.
Esses valores são uma simulação, e não uma cotação comercial. Seu objetivo é identificar a ordem de grandeza e, sobretudo, decompor os fatores que podem levar um empresário a considerar economicamente racional produzir no Paraguai para continuar atendendo ao mercado brasileiro.
A questão principal, portanto, não deveria ser:
“Por que empresários brasileiros estão indo para o Paraguai?”
Deveria ser:
Por que se tornou economicamente racional atravessar a fronteira, produzir no Paraguai, transportar a mercadoria de volta e continuar vendendo ao consumidor brasileiro?
1. Por que utilizar o setor têxtil como exemplo?
A cadeia têxtil e de confecções é particularmente adequada para essa comparação.
Ela combina:
- utilização significativa de mão de obra;
- grande número de fornecedores;
- utilização de insumos nacionais e importados;
- diferentes níveis de intensidade energética;
- forte concorrência internacional;
- facilidade relativa de deslocamento geográfico de determinadas etapas produtivas.
Uma camiseta aparentemente simples pode envolver uma cadeia que inclui:
fibra → fio → tecido ou malha → tingimento → acabamento → corte → costura → embalagem → distribuição.
Consequentemente, pequenas diferenças em impostos, energia, encargos, matéria-prima, produtividade e logística podem se acumular até produzir diferenças relevantes no custo final.
2. O Paraguai desenvolveu uma política explícita de atração industrial
O Paraguai não está apenas oferecendo uma alíquota tributária menor.
O país estruturou uma política voltada à utilização de seu território como plataforma produtiva e exportadora.
O principal instrumento é o Regime de Maquila.
A Lei nº 7.547/2025 modernizou o regime anterior, e o Decreto nº 5.714/2026 regulamentou a nova legislação. Segundo o Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai, o objetivo declarado é promover desenvolvimento industrial, geração de emprego formal e exportações com valor agregado nacional. (MIC)
Entre os benefícios apresentados oficialmente estão:
- Tributo Único de Maquila de 1%;
- suspensão de tributos aduaneiros;
- determinadas exonerações tributárias;
- recuperação de IVA relacionada às operações abrangidas;
- possibilidade de acesso ao mercado do Mercosul com tarifa preferencial quando cumpridas as regras de origem. (MIC)
Além disso, o sistema passou a operar de forma eletrônica por meio da estrutura de comércio exterior paraguaia.
Não estamos, portanto, diante de uma vantagem ocasional.
Estamos diante de uma política industrial deliberada.
3. O crescimento da Maquila já aparece nos números
No primeiro semestre de 2026, as exportações das empresas enquadradas no regime paraguaio de Maquila superaram US$ 710 milhões.
O segmento de confecções e têxteis respondeu por 16% dessas exportações, sendo o segundo mais importante entre as manufaturas maquiladoras.
O mesmo segmento concentrava 8.363 trabalhadores. No conjunto das atividades, as empresas maquiladoras empregavam 36.052 pessoas. (MIC)
Nos primeiros cinco meses de 2026, 79% das exportações maquiladoras tiveram como destino países do Mercosul, sendo o Brasil o principal comprador dentro do bloco. (MIC)
Esse dado é essencial.
Parte da expansão industrial paraguaia está vinculada diretamente à demanda existente no mercado brasileiro.
4. Um exemplo concreto: produção no Paraguai para vender no Brasil
O caso da MC Confecciones Paraguay S.A. ajuda a transformar uma discussão abstrata em realidade industrial.
Segundo o Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai, a empresa é de origem brasileira, opera sob o regime de Maquila e produz para marcas brasileiras.
Em divulgação oficial, o governo paraguaio informou produção de aproximadamente 200 mil unidades mensais, destinadas diretamente ao mercado brasileiro. (MIC)
Em outra visita oficial, a unidade apareceu com capacidade de aproximadamente 6.500 a 7.000 peças por dia e quadro de cerca de 400 trabalhadores, tendo o Brasil como destino de sua produção exportada. (MIC)
Temos, portanto, uma cadeia extremamente reveladora:
capital e mercado brasileiros → fábrica no Paraguai → emprego industrial no Paraguai → produto novamente vendido no Brasil.
A marca pode continuar brasileira.
A administração pode permanecer no Brasil.
O centro de distribuição pode permanecer no Brasil.
O consumidor permanece no Brasil.
É a atividade industrial que atravessa a fronteira.
5. A primeira surpresa: o salário nominal não explica o fenômeno
Uma explicação recorrente para a migração de indústrias é que o Paraguai possuiria salários muito inferiores aos brasileiros.
Os números atuais mostram que a questão é mais complexa.
Desde 1º de julho de 2026, o salário mínimo paraguaio para atividades diversas passou para Gs. 3.044.000 mensais. (Ministério do Trabalho)
Dependendo da cotação cambial utilizada, esse valor convertido para reais pode ficar próximo ou mesmo acima de determinados pisos salariais brasileiros do setor de vestuário.
Portanto:
a decisão industrial não pode ser explicada simplesmente por diferenças de salário nominal.
É preciso calcular o custo empresarial total por hora efetivamente produzida.
6. Encargos, jornada e custo efetivo do trabalho
No Brasil, a contribuição previdenciária patronal geral corresponde a 20% sobre as remunerações, acrescida, conforme o risco da atividade, de contribuição de 1%, 2% ou 3%, além de outras incidências que dependem do enquadramento da empresa. (Serviços e Informações do Brasil)
Há ainda FGTS, férias, 13º salário, benefícios previstos em convenções coletivas e demais custos relacionados à contratação formal.
No Paraguai também existem direitos trabalhistas, contribuições sociais, aguinaldo, férias e outras obrigações.
Portanto, comparar apenas o salário mensal produz uma imagem incompleta.
Uma comparação adequada precisa considerar:
salário + encargos + benefícios + jornada + produtividade + absenteísmo + rotatividade + qualificação.
É esse conjunto que determina o custo efetivo por unidade produzida.
7. O grande diferencial pode estar nos insumos
Para uma indústria de confecções, matéria-prima e aviamentos representam parcela importante do custo.
A legislação da Maquila permite utilizar a figura da importação temporária para matérias-primas, insumos, partes e componentes empregados no programa.
O Ministério da Indústria e Comércio informa que matérias-primas e insumos podem permanecer inicialmente por 12 meses, prorrogáveis por mais 12, enquanto máquinas e equipamentos podem permanecer vinculados ao programa enquanto este estiver vigente. (MIC)
Isso é particularmente importante em uma cadeia na qual podem ser utilizados componentes provenientes da China, Índia e outros grandes centros produtores.
A pergunta empresarial relevante deixa de ser apenas:
“Quanto custa o trabalhador?”
e passa a incluir:
“Quanto custa colocar um dólar de tecido, fio, componente ou máquina dentro da fábrica?”
Pequenas diferenças nessa etapa podem ser decisivas quando multiplicadas por centenas de milhares ou milhões de peças.
8. O Mercosul integra essa estratégia
Produzir sob Maquila não significa automaticamente poder vender ao Brasil com tarifa zero.
Esse ponto precisa ser destacado.
Segundo o próprio Ministério da Indústria e Comércio paraguaio, para obter certificado de origem e exportar ao Mercosul com tratamento preferencial, o Paraguai está sujeito, em termos gerais, a requisito de 40% de valor agregado regional e até 60% de conteúdo extrazona, podendo haver regras específicas conforme o NCM do produto. (MIC)
Portanto, não é possível simplesmente:
importar uma camiseta pronta da Ásia → trocar a etiqueta → vender ao Brasil como produto originário do Paraguai.
O processo produtivo e a origem dos materiais precisam atender às regras aplicáveis.
Por isso, um projeto real deve ser analisado produto a produto considerando:
NCM + regra de origem + origem do tecido + origem dos componentes + transformação industrial realizada no Paraguai.
Essa é uma salvaguarda importante para a seriedade da discussão.
9. Energia: pequena na costura, importante na cadeia completa
A ANDE publica tarifa de 404,97 guaranis/kWh para determinada categoria de consumo industrial de baixa tensão. (Ande)
Numa operação simples de corte e costura, a energia não necessariamente será o principal fator competitivo.
Entretanto, seu peso aumenta quando a indústria incorpora:
fiação → tecelagem → malharia → tingimento → secagem → acabamento.
Portanto, quanto mais verticalizada e eletrointensiva for a planta, maior tende a ser a importância da comparação energética.
10. Simulação IVEPESP: 100 mil camisetas por mês
Para tornar o problema concreto, o IVEPESP construiu um modelo comparando duas operações hipotéticas destinadas ao mesmo mercado consumidor.
Modelo Brasil
A empresa realiza no Brasil:
produção, corte, costura, acabamento, aquisição de insumos, energia, mão de obra, administração fabril e distribuição.
Modelo Paraguai
A empresa mantém sua atividade comercial voltada ao mercado brasileiro, mas realiza no Paraguai:
produção, corte, costura, acabamento e aquisição de parte dos insumos.
Posteriormente, o produto é transportado ao Brasil.
A comparação termina no momento em que a mercadoria chega ao centro de distribuição brasileiro.
Tributação posterior de venda, margem comercial e varejo não foram incluídos, porque pertencem a uma etapa subsequente comum ao produto comercializado no Brasil.
11. Resultado do cenário-base
A simulação produziu:
Brasil
R$ 22,73 por camiseta
Paraguai
R$ 20,92 por camiseta
Diferença:
R$ 1,81 por peça.
Em uma produção de 100 mil camisetas mensais:
R$ 180,7 mil por mês
ou aproximadamente
R$ 2,17 milhões por ano.
A diferença corresponde a aproximadamente:
7,9% do custo industrial estimado.
Em mercados altamente competitivos, uma diferença próxima de 8% pode ser decisiva para a localização de uma fábrica.
12. De onde aparece essa diferença?
No cenário utilizado pelo IVEPESP, três componentes merecem destaque.
Trabalho
A simulação estimou:
Brasil: R$ 987,5 mil/mês
Paraguai: R$ 917,9 mil/mês
Diferença:
aproximadamente R$ 69,6 mil mensais.
O resultado decorre não de um salário paraguaio dramaticamente inferior, mas da combinação de jornada, encargos e produtividade adotada no modelo.
Energia
Na simulação:
Brasil: aproximadamente R$ 0,26 por camiseta
Paraguai: aproximadamente R$ 0,12 por camiseta.
O impacto é pequeno numa confecção simples, mas pode aumentar substancialmente numa cadeia têxtil verticalizada.
Materiais
O modelo utiliza custo-base de:
R$ 9,70 por camiseta.
Considerando uma vantagem líquida hipotética de 10% relacionada ao ambiente de aquisição/importação de insumos:
Paraguai: R$ 8,73 por peça.
Diferença:
R$ 0,97 por camiseta.
Em 100 mil unidades:
R$ 97 mil por mês.
O resultado mostra por que matérias-primas e componentes podem ser mais relevantes que o próprio salário na decisão de localização industrial.
13. Teste de sensibilidade
Como a hipótese relativa aos insumos é uma das mais incertas, realizamos uma análise de sensibilidade.
Mesmo retirando integralmente a vantagem de 10% considerada nos materiais:
Brasil: R$ 22,73
Paraguai: aproximadamente R$ 21,91.
A diferença permaneceria próxima de:
R$ 0,82 por camiseta
ou
R$ 981 mil por ano, na escala analisada.
Com diferentes hipóteses para os insumos:
| Vantagem líquida nos insumos | Custo PY por camiseta | Economia anual estimada |
|---|---|---|
| 0% | R$ 21,91 | R$ 0,98 milhão |
| 5% | R$ 21,42 | R$ 1,57 milhão |
| 10% | R$ 20,92 | R$ 2,17 milhões |
| 15% | R$ 20,43 | R$ 2,76 milhões |
| 20% | R$ 19,93 | R$ 3,36 milhões |
O objetivo não é afirmar que todas as empresas obterão essas economias.
É demonstrar como pequenas diferenças sistêmicas, multiplicadas por grandes volumes, podem modificar uma decisão de investimento.
14. O que acontece com o emprego?
Quando a fábrica atravessa a fronteira, o consumidor brasileiro não desaparece.
A demanda também não desaparece.
O que pode mudar é o local onde ocorre:
- contratação industrial;
- formação profissional;
- aprendizado produtivo;
- investimento fabril;
- desenvolvimento de fornecedores;
- arrecadação relacionada à atividade produtiva;
- incorporação de tecnologia.
Assim:
o Brasil pode manter o consumo e perder parte do valor agregado industrial associado a ele.
Esse é um aspecto que deve preocupar a política econômica.
15. Não se trata de criticar o Paraguai
O Paraguai está fazendo aquilo que países normalmente fazem quando buscam desenvolvimento:
atraindo capital, fábricas, tecnologia, exportações e empregos.
Sua política de Maquila é pública, institucionalizada e regulamentada.
O governo paraguaio apresenta expressamente o regime como instrumento de industrialização, emprego e exportação. (MIC)
Não há razão para condenar o Paraguai por procurar tornar seu território mais competitivo.
A pergunta relevante é o que o Brasil fará diante dessa competição.
16. Também não se trata de culpar o empresário brasileiro
Empresas operam em ambiente competitivo.
Um empresário que avalia instalar parte de sua produção no Paraguai está comparando:
custos + riscos + produtividade + logística + impostos + energia + burocracia + previsibilidade.
Se a diferença for suficientemente grande, a decisão de deslocar a produção pode tornar-se necessária até mesmo para preservar a própria empresa.
Criar uma interpretação moral da decisão empresarial não resolve o problema econômico.
17. Uma preocupação manifestada pelos próprios empresários
Durante a discussão desta Nota Técnica, surgiu uma preocupação relevante entre empresários brasileiros que estão realizando ou avaliando esse movimento.
O receio é que, ao ganhar visibilidade, a transferência de operações industriais para o Paraguai provoque como resposta brasileira novas dificuldades, barreiras ou controles voltados especificamente a reduzir a atratividade dessa alternativa, em vez de estimular mudanças no próprio ambiente de negócios brasileiro.
Essa preocupação merece ser considerada.
Não porque qualquer empresa deva receber imunidade contra fiscalização.
Empresas precisam cumprir rigorosamente:
- legislação tributária;
- legislação aduaneira;
- regras de origem;
- regras de preços de transferência;
- normas trabalhistas;
- requisitos de importação;
- demais obrigações legais aplicáveis.
A fiscalização legítima é necessária.
A questão é diferente:
o Brasil deveria responder à perda de competitividade criando obstáculos adicionais ou eliminando as causas que levam a fábrica a sair?
18. A resposta brasileira não deveria ser dificultar quem produz no Paraguai
Empresas que investem legalmente no Paraguai e cumprem as normas brasileiras e do Mercosul realizam uma atividade econômica legítima.
O próprio Brasil promulgou, em maio de 2026, o Acordo sobre Facilitação do Comércio do Mercosul, que entrou em vigor para o país em 9 de fevereiro.
O acordo estabelece princípios de redução de tempo e custos de conformidade, adoção de medidas menos restritivas ao comércio quando disponíveis e cooperação entre autoridades dos Estados Partes. (Presidência da República)
Naturalmente, isso não impede fiscalização, verificação de origem ou aplicação de instrumentos legítimos de defesa comercial quando houver fundamento jurídico.
Mas existe uma diferença fundamental entre:
fiscalizar o comércio
e
criar artificialmente obstáculos para compensar uma perda de competitividade doméstica.
A segunda alternativa não resolve o problema.
19. Uma barreira pode mudar a conta, mas não aumenta a competitividade
Suponhamos que uma medida nova aumente em R$ 2 o custo para trazer uma camiseta fabricada no Paraguai.
A decisão de determinado empresário pode mudar.
Mas o que ocorreu com a competitividade brasileira?
Nada.
A medida:
- não reduziu o preço da energia;
- não simplificou o sistema tributário;
- não reduziu o custo administrativo;
- não barateou o capital;
- não aumentou a produtividade;
- não melhorou a logística;
- não simplificou a importação de máquinas;
- não melhorou a formação profissional;
- não ampliou a inovação industrial.
Apenas tornou a alternativa externa mais cara.
Existe, portanto, uma diferença conceitual importante entre:
proteger a indústria brasileira
e
proteger os custos que tornaram a indústria brasileira menos competitiva.
São coisas diferentes.
20. A finalidade desta Nota não é incentivar empresas a deixar o Brasil
É importante deixar isso explicitamente registrado.
Esta Nota Técnica não pretende apresentar o Paraguai como recomendação de destino para empresas brasileiras.
Muito menos constitui manual tributário ou orientação de investimento.
Seu objetivo é utilizar um fenômeno econômico real como instrumento de diagnóstico.
Se empresários brasileiros estão chegando à conclusão de que podem produzir em outro país, transportar o produto de volta e ainda economizar, existe uma informação importante sendo enviada aos formuladores de políticas públicas.
Em vez de ocultar essa informação, precisamos estudá-la.
21. A melhor resposta ao Paraguai é tornar o Brasil mais competitivo
O Paraguai não precisa tornar-se menos eficiente para que o Brasil prospere.
O Brasil precisa tornar-se mais eficiente também.
Isso exige enfrentar componentes estruturais.
1. Custo tributário e administrativo
Não basta analisar alíquotas.
É necessário calcular também horas de trabalho administrativo, obrigações acessórias, contabilidade e insegurança interpretativa.
2. Importação de insumos produtivos
O Brasil deveria examinar de maneira diferente a importação de:
produto acabado
e
máquinas, componentes e matérias-primas destinados a gerar produção nacional.
3. Custo do emprego formal
A discussão deveria procurar reduzir o custo de contratação sem necessariamente retirar direitos dos trabalhadores.
4. Energia industrial
Um país com extensa base de geração elétrica renovável deveria buscar converter essa característica em vantagem industrial.
5. Logística e infraestrutura
Portos, ferrovias, rodovias, armazenagem e procedimentos de fronteira fazem parte do custo final.
6. Capital
Juros e financiamento podem determinar se uma nova fábrica é construída em um país ou em outro.
7. Produtividade
A resposta de longo prazo não é disputar quem paga salários menores.
É aumentar:
automação + educação técnica + digitalização + inteligência artificial + gestão + inovação.
22. O Paraguai descobriu que não precisa possuir o consumidor
Esse talvez seja um dos aspectos mais estratégicos do fenômeno.
O Paraguai tem população e mercado consumidor muito menores que os do Brasil.
Entretanto, não precisa criar um mercado com mais de 200 milhões de consumidores para ampliar sua indústria.
O Brasil já possui esse mercado.
O Paraguai precisa oferecer condições suficientemente competitivas para que a fábrica se instale em seu território.
Depois, parte da produção pode atender ao próprio mercado brasileiro.
Nesse modelo:
o Brasil fornece demanda
e
o Paraguai captura parte da produção.
Esse é um desafio de política industrial que merece atenção.
23. Da concorrência asiática à concorrência dentro do Mercosul
Durante décadas, o Brasil discutiu o avanço da indústria chinesa e de outros polos asiáticos.
A referência era:
Brasil × China.
Agora surge uma situação diferente:
Brasil × Paraguai.
O Paraguai possui características que tornam essa comparação particularmente importante:
- fronteira terrestre com o Brasil;
- participação no Mercosul;
- proximidade dos mercados do Sul e Sudeste;
- presença crescente de capital brasileiro;
- política explícita de atração industrial;
- possibilidade de integração de cadeias produtivas.
A competição industrial pode ocorrer não apenas a milhares de quilômetros.
Pode ocorrer do outro lado da fronteira.
24. O Brasil precisa medir esse fenômeno
Um problema adicional é a falta de informações sistematizadas.
Seria importante conhecer:
- quantas empresas brasileiras instalaram fábricas no Paraguai;
- quantas estão em processo de transferência;
- quais setores predominam;
- qual o valor dos investimentos;
- quantos empregos foram criados;
- quanto da produção retorna ao Brasil;
- quais foram os principais motivos da escolha;
- quais estados brasileiros estão perdendo os investimentos;
- quais custos apresentaram maior diferença.
Essas informações permitiriam substituir percepções isoladas por evidências.
25. Proposta: Observatório da Competitividade Industrial Brasil–Mercosul
O IVEPESP considera oportuna a criação de um:
OBSERVATÓRIO DA COMPETITIVIDADE INDUSTRIAL BRASIL–MERCOSUL
O objetivo seria comparar periodicamente:
Brasil × Paraguai × Argentina × Uruguai
utilizando produtos e cadeias produtivas concretas.
Entre os indicadores:
- custo do trabalhador por hora;
- encargos;
- produtividade;
- energia;
- gás;
- custo do capital;
- impostos;
- importação de máquinas;
- importação de matérias-primas;
- licenciamento;
- burocracia;
- logística;
- infraestrutura;
- formação profissional;
- inovação;
- segurança jurídica;
- tempo necessário para operar uma empresa.
Em vez de trabalhar apenas com índices macroeconômicos, o Observatório poderia responder perguntas simples e objetivas:
Quanto custa fabricar uma camiseta?
Quanto custa produzir uma peça plástica?
Quanto custa fabricar uma autopeça?
Quanto custa produzir um eletrodoméstico?
A comparação do custo de produtos concretos torna o debate sobre competitividade muito mais compreensível.
26. Conclusão
O exemplo do setor têxtil revela um fenômeno que merece atenção do Brasil.
Nossa simulação de uma produção de 100 mil camisetas mensais encontrou:
Brasil: R$ 22,73 por camiseta
contra
Paraguai: R$ 20,92 por camiseta.
A diferença estimada corresponde a:
R$ 1,81 por peça
ou aproximadamente
R$ 2,17 milhões por ano.
Mesmo retirando a vantagem hipotética considerada para insumos, o modelo continua produzindo diferença próxima de R$ 1 milhão por ano.
Não se pretende afirmar que esses valores sejam válidos para toda empresa.
Eles mostram, entretanto, como pequenas diferenças em diversos componentes podem se acumular e transformar uma decisão de localização industrial.
A existência de empresas que já produzem no Paraguai para atender diretamente ao mercado brasileiro demonstra que a questão não é apenas teórica. (MIC)
Diante disso, duas respostas são possíveis.
A primeira é tentar tornar mais difícil a alternativa paraguaia.
A segunda é compreender por que ela se tornou atraente e atacar as causas da diferença.
A segunda parece muito mais promissora.
Porque uma nova barreira pode alterar momentaneamente uma planilha empresarial.
Mas não torna uma economia mais produtiva.
O Paraguai está construindo sua estratégia de industrialização.
O desafio brasileiro é construir uma estratégia capaz de assegurar que empresários continuem encontrando razões econômicas para:
investir no Brasil, empregar no Brasil, inovar no Brasil e produzir no Brasil.
A questão que sintetiza todo o problema permanece:
Se o consumidor está no Brasil, por que a fábrica precisa estar no Paraguai?
E poderíamos acrescentar uma segunda:
Quando um empresário decide atravessar a fronteira, nossa primeira reação deve ser dificultar sua alternativa ou descobrir por que não conseguimos convencê-lo a permanecer?
Responder a essas duas perguntas deveria fazer parte de uma política moderna de desenvolvimento industrial.
Observação metodológica
Os cálculos apresentados nesta Nota Técnica possuem finalidade analítica e ilustrativa.
Salários, determinados encargos e características do Regime de Maquila foram baseados em referências oficiais. Valores de materiais, produtividade, consumo energético, custos administrativos, logística e vantagens líquidas de importação incluem hipóteses de modelagem.
Qualquer decisão empresarial efetiva requer análise individualizada considerando, entre outros fatores:
NCM, regras específicas de origem, localização da fábrica, composição dos insumos, regime tributário, estrutura societária, preços de transferência, logística, convenções coletivas, produtividade e condições comerciais negociadas.
A comparação apresentada não constitui recomendação de investimento, orientação tributária ou parecer jurídico.
Seu objetivo é contribuir para o debate sobre competitividade, política industrial, emprego e desenvolvimento econômico brasileiro.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo