O recente position paper “LLMs Can’t Jump”, publicado por Tom Zahavy, pesquisador do Google DeepMind, traz uma reflexão importante sobre os limites atuais da inteligência artificial generativa. Em um momento em que os grandes modelos de linguagem (LLMs) demonstram desempenho impressionante na resolução de problemas, programação, produção de textos e até demonstrações matemáticas, o artigo sustenta que ainda existe uma capacidade essencialmente humana que permanece fora do alcance dessas tecnologias: a formulação de hipóteses verdadeiramente originais.

O IVEPESP considera que essa discussão dialoga diretamente com diversas notas publicadas ao longo de 2026 sobre inteligência artificial, educação, produção científica e formação de pesquisadores. Em todas elas defendemos que a IA deve ser compreendida como uma poderosa ferramenta de ampliação das capacidades humanas, jamais como substituta do pensamento crítico, do julgamento científico ou da criatividade.

O “salto” de Einstein

Para fundamentar sua tese, Zahavy recupera uma reflexão de Albert Einstein em correspondência com Maurice Solovine. Segundo Einstein, a descoberta científica não ocorre apenas pela análise lógica dos dados, mas por um ciclo composto de três momentos: a observação da realidade, um salto intuitivo para formular novos princípios e, somente depois, a dedução matemática das consequências dessas novas ideias.

O autor argumenta que os atuais LLMs executam com enorme eficiência duas etapas desse processo. A primeira é a indução, aprendendo padrões estatísticos a partir de grandes volumes de dados. A segunda é a dedução, aplicando regras conhecidas para produzir respostas coerentes, resolver problemas e até construir demonstrações matemáticas.

Entretanto, falta-lhes justamente a terceira etapa: a abdução, conceito desenvolvido pelo filósofo Charles Sanders Peirce, que corresponde à formulação de hipóteses inéditas capazes de explicar fenômenos ainda não compreendidos.

Criatividade não é apenas reconhecer padrões

Uma das contribuições mais provocativas do artigo consiste em questionar uma hipótese bastante difundida na comunidade de inteligência artificial: a ideia de que basta aumentar o volume de dados, o poder computacional e o número de parâmetros para que a criatividade emerja naturalmente.

Segundo Zahavy, essa hipótese reduz a criatividade à capacidade de comprimir informações e identificar regularidades estatísticas. Porém, muitas das maiores revoluções científicas ocorreram justamente em contextos nos quais havia poucos dados disponíveis e inúmeras incertezas.

A formulação da Relatividade Geral por Einstein ilustra esse argumento. O avanço não surgiu simplesmente da análise estatística de observações, mas da criação de novos axiomas que reorganizaram completamente a compreensão da gravidade, do espaço e do tempo.

Sob essa perspectiva, a invenção científica exige muito mais do que reconhecer padrões: exige imaginar novas explicações para fenômenos ainda sem resposta.

O verdadeiro desafio da IA científica

O artigo identifica um gargalo que frequentemente passa despercebido no debate sobre inteligência artificial.

Os modelos atuais são extraordinariamente eficientes para sintetizar conhecimento existente, combinar conceitos conhecidos, escrever textos, elaborar códigos e realizar inferências lógicas. No entanto, ainda não demonstram capacidade consistente para criar novos princípios científicos que reorganizem a compreensão da realidade.

Por isso, Zahavy propõe que a próxima geração de sistemas inteligentes seja construída não apenas com modelos linguísticos cada vez maiores, mas também com modelos de mundo fisicamente consistentes, integração multimodal, percepção do ambiente, interação contínua com o mundo real e raciocínio simbólico.

Em outras palavras, a IA precisaria deixar de ser apenas uma máquina que processa textos para tornar-se um sistema capaz de construir representações profundas da realidade física.

Implicações para a educação e a pesquisa

Para o IVEPESP, essa discussão possui enorme relevância para universidades, centros de pesquisa e formuladores de políticas públicas.

A rápida evolução da inteligência artificial torna cada vez mais importante distinguir tarefas que podem ser automatizadas daquelas que continuarão exigindo competências humanas sofisticadas. Se a IA assume parte significativa da produção de textos, da programação e da organização do conhecimento, cresce ainda mais a importância da formação em pensamento crítico, criatividade, elaboração de hipóteses, raciocínio científico, ética e capacidade de formular boas perguntas.

A educação superior não deve limitar-se ao ensino do uso de ferramentas de IA. Deve preparar pesquisadores e profissionais capazes de utilizar essas tecnologias como instrumentos de ampliação da inteligência humana, preservando a autonomia intelectual e a responsabilidade científica.

A posição do IVEPESP

O IVEPESP entende que o artigo da Google DeepMind oferece uma contribuição relevante para equilibrar o debate contemporâneo sobre inteligência artificial.

O avanço dos LLMs representa uma transformação profunda na produção e na difusão do conhecimento. Contudo, a história da ciência demonstra que as grandes descobertas não resultam apenas da aplicação eficiente de regras ou da identificação de padrões estatísticos. Elas dependem da capacidade de imaginar novas explicações, formular hipóteses originais e reinterpretar a realidade à luz de novos princípios.

Enquanto os modelos de inteligência artificial continuam evoluindo rapidamente, permanece atual a principal lição sugerida pelo artigo: o maior patrimônio da ciência continua sendo a criatividade humana.

Essa conclusão reforça uma convicção que tem orientado as publicações do IVEPESP ao longo deste ano: a inteligência artificial deve ser vista como uma extraordinária parceira da pesquisa científica e da educação, mas não como substituta da inteligência humana. O futuro da inovação dependerá, cada vez mais, da integração entre o poder computacional das máquinas e a capacidade exclusivamente humana de questionar, criar e transformar o conhecimento.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP – Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
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