O recente debate sobre os resultados do ensino médio em tempo integral reacende uma questão fundamental para a formulação de políticas públicas educacionais: ampliar a permanência do estudante na escola é importante, mas, isoladamente, não garante melhor aprendizagem.
A discussão sobre os resultados obtidos entre 2019 e 2023 exige especial cautela. Esse período foi profundamente marcado pela pandemia da COVID-19, pelo fechamento total ou parcial das escolas, pela adoção emergencial do ensino remoto e pelo agravamento das desigualdades educacionais.
Por essa razão, uma eventual redução da diferença de desempenho entre estudantes das escolas de tempo integral e das escolas de jornada parcial não deve ser interpretada automaticamente como evidência de fracasso do modelo.
A pandemia afetou o tempo efetivo de aprendizagem, a continuidade dos vínculos escolares, a saúde emocional dos estudantes, a participação das famílias e as condições de trabalho dos professores. Seus impactos foram diferentes entre redes de ensino, regiões, escolas e grupos sociais.
Assim, comparar resultados sem controlar esses fatores pode conduzir a conclusões simplificadas e até equivocadas.
O IVEPESP entende que a principal pergunta não deve ser apenas:
Quanto tempo o estudante permanece na escola?
A questão essencial é:
O que a escola oferece durante esse tempo e quais resultados educacionais, sociais e humanos consegue produzir?
Tempo integral e educação integral não são expressões equivalentes
Uma escola pode funcionar durante sete, oito ou nove horas diárias e, ainda assim, não oferecer uma verdadeira educação integral.
No Brasil, considera-se matrícula em tempo integral aquela em que o estudante permanece pelo menos sete horas diárias ou 35 horas semanais em atividades escolares. O Programa Escola em Tempo Integral foi instituído pela Lei nº 14.640, de 31 de julho de 2023, para fomentar a criação de matrículas dessa natureza em todas as etapas e modalidades da educação básica. (Planalto)
Entretanto, o aumento formal da jornada não assegura, por si só:
- melhoria da aprendizagem;
- redução das desigualdades;
- desenvolvimento socioemocional;
- formação científica e tecnológica;
- ampliação do repertório cultural;
- fortalecimento da cidadania;
- preparação para o mundo do trabalho.
Há uma diferença importante entre tempo integral e educação integral.
O tempo integral diz respeito à duração da jornada. A educação integral envolve a formação das diferentes dimensões do ser humano: intelectual, científica, ética, cultural, física, emocional, social e profissional.
Portanto, não basta oferecer mais aulas do mesmo tipo durante mais horas. Uma escola verdadeiramente integral precisa reorganizar o currículo, os espaços, os tempos pedagógicos, a formação dos professores e a própria relação do estudante com o conhecimento.
O crescimento do ensino integral no Brasil
O Brasil vem ampliando progressivamente a oferta de matrículas em tempo integral. Segundo o Censo Escolar, a proporção dessas matrículas na educação básica passou de 18,2%, em 2022, para 22,9%, em 2024. (Serviços e Informações do Brasil)
Essa expansão é positiva e demonstra que o país começa a reconhecer a necessidade de oferecer aos estudantes uma jornada educacional mais ampla.
Entretanto, a expansão quantitativa precisa ser acompanhada de qualidade.
Sem infraestrutura adequada, alimentação, bibliotecas, laboratórios, quadras, recursos tecnológicos, equipes multidisciplinares e professores valorizados, o aumento da jornada pode gerar apenas maior permanência física, sem produzir uma transformação educacional efetiva.
Os dados da OCDE também mostram que o Brasil oferece aproximadamente 800 horas anuais de instrução obrigatória tanto na educação primária quanto nos anos finais do ensino fundamental. Nos anos finais, esse número permanece abaixo da média da OCDE, estimada em 909 horas. (OECD)
A ampliação do tempo pode, portanto, ser necessária. Mas as evidências internacionais demonstram que sua contribuição para a aprendizagem depende decisivamente da qualidade das atividades realizadas.
Uma análise recente do Banco Mundial concluiu que a relação entre o aumento do tempo de instrução e os resultados em testes é, em média, positiva, mas relativamente fraca. Nem todos os países que adotaram jornadas completas conseguiram elevar o desempenho dos estudantes. (Banco Mundial)
A conclusão é clara: tempo adicional mal planejado pode produzir pouco resultado; tempo bem utilizado pode transformar trajetórias escolares e sociais.
O que o Brasil pode aprender com outros países
É preciso evitar comparações superficiais.
Finlândia, Singapura, Japão, Canadá, Estônia e Coreia do Sul possuem histórias, culturas, estruturas sociais e sistemas educacionais diferentes. Além disso, nem todos adotam uma escola integral exatamente nos mesmos moldes pretendidos pelo Brasil.
O que se deve buscar nessas experiências não é a reprodução mecânica de modelos estrangeiros, mas a identificação de princípios que possam orientar uma política brasileira.
Os resultados do PISA 2022 mostram que Singapura liderou o desempenho internacional, enquanto Japão, Coreia do Sul, Estônia, Canadá e Finlândia permaneceram acima da média da OCDE em diferentes áreas avaliadas. (OECD)
Esses sistemas demonstram que bons resultados educacionais não decorrem exclusivamente da quantidade de horas em sala de aula. Eles resultam da combinação entre professores bem preparados, currículos coerentes, apoio aos estudantes, boa gestão, avaliação, equidade e continuidade das políticas públicas.
Quadro comparativo internacional
| País ou sistema | Características relevantes | Principal aprendizagem para o Brasil | Cuidados necessários |
|---|---|---|---|
| Finlândia | Forte formação dos professores, autonomia profissional, apoio individualizado, valorização do bem-estar e menor dependência de avaliações padronizadas frequentes | A qualidade do professor e do ambiente escolar pode ser mais importante do que simplesmente aumentar o número de aulas | O modelo depende de elevada confiança institucional, formação docente rigorosa e forte proteção social |
| Singapura | Currículo estruturado, elevado investimento na formação docente, acompanhamento do desempenho, forte presença de ciência, matemática e tecnologia | O tempo escolar deve ser planejado, orientado por objetivos claros e acompanhado por avaliação permanente | A elevada pressão por desempenho não deve ser reproduzida sem considerar a saúde emocional dos estudantes |
| Japão | Integração entre formação acadêmica, convivência, responsabilidade coletiva, atividades culturais, esportivas e participação dos alunos na vida escolar | A escola pode desenvolver autonomia, disciplina, cooperação e responsabilidade cidadã | Parte considerável do esforço educacional também ocorre fora da escola, inclusive em cursos privados, o que pode gerar desigualdade |
| Canadá | Descentralização, adaptação regional, inclusão, respeito à diversidade e forte participação das comunidades escolares | É possível combinar autonomia local com padrões elevados de qualidade | A descentralização exige boa coordenação, financiamento adequado e mecanismos nacionais de acompanhamento |
| Estônia | Uso estratégico da tecnologia, currículo nacional consistente, formação docente, autonomia escolar e políticas de equidade | A transformação digital pode apoiar a aprendizagem sem substituir professores e relações humanas | Tecnologia sem formação docente, infraestrutura e proteção de dados pode ampliar desigualdades |
| Coreia do Sul | Forte valorização social da educação, altas expectativas, investimento familiar e ampla dedicação aos estudos | A educação precisa ocupar posição estratégica no projeto nacional de desenvolvimento | Excesso de competição e estudos complementares pode gerar pressão emocional e desigualdade |
| Chipre – experiência de jornada ampliada | Extensão da jornada com apoio às tarefas, oficinas de habilidades para a vida, atividades direcionadas e acompanhamento dos estudantes | O tempo adicional produz melhores resultados quando está associado a atividades concretas e diversificadas | Apenas prolongar o horário, sem reorganizar a proposta pedagógica, tende a gerar baixo impacto |
A experiência recente de escolas de jornada ampliada em Chipre, examinada pela UNESCO, mostrou efeitos positivos quando a extensão do horário foi acompanhada por apoio às tarefas escolares, oficinas de habilidades para a vida e atividades voltadas ao bem-estar dos estudantes. (UNESCO)
Essa experiência reforça um princípio fundamental: a ampliação da jornada deve estar associada a uma nova organização pedagógica.
Finlândia: confiança, formação docente e equidade
A Finlândia é frequentemente citada como referência internacional, mas sua principal lição não está na adoção de longas jornadas escolares.
O sistema finlandês se destaca pela formação rigorosa dos professores, pela autonomia das escolas, pela confiança nos profissionais da educação e pela preocupação em oferecer apoio precoce aos estudantes que apresentam dificuldades.
No PISA 2022, os estudantes finlandeses permaneceram acima da média da OCDE em matemática, leitura e ciências, embora o país também venha enfrentando desafios e redução de desempenho em relação a ciclos anteriores. (OECD)
A lição para o Brasil é que o ensino integral não pode ser construído sem uma política consistente de formação e valorização docente.
Não há educação integral de qualidade com professores sobrecarregados, mal remunerados, atuando em várias escolas e sem tempo adequado para planejamento, estudo, avaliação e trabalho coletivo.
Singapura: planejamento, formação e acompanhamento
Singapura liderou os resultados do PISA 2022 em matemática, leitura e ciências. (OECD)
Seu sistema educacional combina currículo estruturado, altas expectativas, acompanhamento constante dos resultados e forte investimento na formação dos professores.
O país também incorporou progressivamente recursos tecnológicos ao ensino, sem abandonar o papel central do professor.
A experiência de Singapura demonstra que a jornada ampliada precisa ter objetivos definidos. Cada período adicional deve responder a uma necessidade educacional: reforço, aprofundamento, laboratório, projeto interdisciplinar, arte, esporte, tecnologia ou orientação individual.
Entretanto, o Brasil não deve reproduzir os aspectos excessivamente competitivos desses sistemas. A busca por desempenho precisa estar equilibrada com saúde mental, criatividade, convivência, autonomia e bem-estar.
Japão: formação acadêmica e responsabilidade coletiva
No Japão, a vida escolar não se resume às aulas formais.
Os estudantes participam de atividades culturais, esportivas e coletivas. Em muitas escolas, também colaboram na organização e limpeza dos espaços, fortalecendo valores de responsabilidade, respeito, cooperação e pertencimento.
O Japão obteve resultados elevados no PISA 2022, especialmente em matemática e ciências. (OECD)
Entretanto, a experiência japonesa também exige uma leitura crítica. Parte considerável do tempo de estudo ocorre fora do horário oficial, incluindo cursos preparatórios privados frequentados por muitas famílias. Isso pode ampliar desigualdades e aumentar a pressão sobre crianças e adolescentes.
A lição não é submeter os estudantes a jornadas exaustivas, mas reconhecer que a escola também deve formar atitudes, valores e responsabilidades sociais.
Canadá: diversidade, descentralização e participação comunitária
O Canadá não possui um sistema nacional centralizado de educação básica. As províncias organizam seus próprios currículos e políticas.
Mesmo assim, o país consegue manter resultados educacionais elevados, combinando autonomia regional, compromisso com a inclusão e acompanhamento da qualidade.
A experiência canadense demonstra que a política de educação integral precisa dialogar com as características locais.
Uma escola situada em uma região rural, por exemplo, possui necessidades distintas de uma escola localizada na periferia de uma grande metrópole. A proposta pedagógica deve considerar o território, as condições sociais, as oportunidades culturais e as demandas da comunidade.
A autonomia, contudo, não pode significar abandono. Ela deve ser acompanhada por financiamento, formação, apoio técnico e avaliação.
Estônia: tecnologia a serviço da aprendizagem
A Estônia tornou-se uma das principais referências europeias em educação e transformação digital. Seus estudantes obtiveram resultados acima da média da OCDE nas três áreas avaliadas pelo PISA 2022. (OECD)
O país incorporou tecnologias digitais ao currículo e à gestão educacional, investindo simultaneamente em conectividade, formação dos professores e desenvolvimento de competências.
A principal lição para o Brasil é que distribuir equipamentos não é suficiente.
Tecnologia educacional exige:
- conexão de qualidade;
- equipamentos atualizados;
- plataformas adequadas;
- formação docente;
- suporte técnico;
- proteção dos dados;
- avaliação dos resultados;
- integração com os objetivos pedagógicos.
A Inteligência Artificial pode apoiar o ensino integral ao identificar dificuldades, personalizar atividades, organizar materiais e fornecer informações aos professores. Entretanto, deve ser utilizada como instrumento de apoio, e não como substituta da interação humana, do pensamento crítico ou da responsabilidade docente.
A escola integral que o Brasil necessita
O Brasil não precisa simplesmente de uma escola que permaneça aberta por mais horas.
Precisa de uma escola que utilize esse tempo para:
- recuperar aprendizagens;
- aprofundar conhecimentos;
- desenvolver projetos;
- realizar experimentos;
- estimular leitura e escrita;
- ampliar o acesso à cultura;
- promover atividades físicas;
- ensinar ciência e tecnologia;
- desenvolver competências socioemocionais;
- oferecer educação profissional;
- formar cidadãos.
Uma jornada ampliada não deve significar oito ou nove horas de aulas expositivas, estudantes sentados e currículos fragmentados.
O ensino integral deve alternar momentos de estudo, investigação, experimentação, expressão artística, prática esportiva, convivência, leitura, orientação, descanso e alimentação.
Também deve garantir que os estudantes não sejam obrigados a escolher entre estudar e trabalhar sem que existam políticas de apoio social.
Essa questão é especialmente importante no ensino médio, período em que muitos jovens brasileiros precisam contribuir para a renda familiar.
A expansão da jornada deve ser acompanhada por bolsas, alimentação, transporte, assistência social e estratégias de permanência.
Agenda IVEPESP para o Ensino Integral 2035
O IVEPESP propõe que a expansão do ensino integral seja orientada por uma agenda nacional de longo prazo, com metas claras, financiamento estável e avaliação permanente.
1. Construir uma política de Estado
O ensino integral não pode ser tratado como programa temporário de um governo.
É necessário estabelecer objetivos nacionais para 2030 e 2035, com responsabilidades compartilhadas entre União, estados e municípios.
A continuidade institucional é uma das características comuns aos sistemas educacionais de melhor desempenho.
2. Priorizar os estudantes em maior vulnerabilidade
A expansão deve começar pelas regiões e escolas com maiores índices de pobreza, defasagem, evasão e baixo desempenho.
O ensino integral pode reduzir desigualdades, mas também pode ampliá-las caso seja oferecido inicialmente apenas às comunidades mais favorecidas.
3. Valorizar e formar os professores
A jornada integral do estudante exige uma política integral para o professor.
Isso significa:
- carreira atrativa;
- remuneração adequada;
- dedicação preferencial a uma única escola;
- tempo remunerado para planejamento;
- formação continuada;
- trabalho colaborativo;
- apoio tecnológico e pedagógico.
4. Garantir infraestrutura mínima antes da expansão
Nenhuma escola deveria ampliar sua jornada sem possuir condições adequadas de funcionamento.
É necessário garantir:
- salas ventiladas e acessíveis;
- alimentação de qualidade;
- água e saneamento;
- bibliotecas;
- laboratórios;
- quadras e áreas esportivas;
- espaços de convivência;
- conectividade;
- segurança;
- ambientes para descanso e atividades culturais.
5. Reorganizar o currículo
O currículo do ensino integral deve integrar formação geral, ciência, tecnologia, cultura, cidadania e preparação profissional.
As atividades adicionais não podem ser consideradas meros complementos. Elas devem compor uma proposta pedagógica coerente, interdisciplinar e vinculada à realidade dos estudantes.
6. Criar um programa nacional de recuperação da aprendizagem
As perdas acumuladas durante e após a pandemia ainda exigem ações específicas.
Cada escola deve identificar as dificuldades de seus estudantes e organizar atividades de recuperação, tutoria, monitoria e acompanhamento personalizado.
7. Incorporar ciência, tecnologia e Inteligência Artificial
A escola integral deve oferecer iniciação científica, programação, robótica, cultura digital, educação midiática e uso responsável da Inteligência Artificial.
Esses recursos devem ampliar a capacidade de investigação dos estudantes e apoiar os professores, preservando autoria, ética, privacidade e pensamento crítico.
8. Integrar educação, saúde, cultura e proteção social
Uma verdadeira política de educação integral exige atuação conjunta das áreas de educação, saúde, assistência social, esporte, cultura, ciência e tecnologia.
Problemas de visão, audição, alimentação, saúde mental e violência doméstica afetam diretamente a aprendizagem.
A escola não resolverá sozinha todos esses problemas, mas pode identificá-los e articular respostas com outros serviços públicos.
9. Fortalecer a participação das famílias e comunidades
A expansão da jornada precisa ser discutida com estudantes, professores, famílias e comunidades.
Cada escola deve possuir mecanismos permanentes de participação, escuta e prestação de contas.
O ensino integral terá maior legitimidade quando a comunidade compreender seus objetivos e participar de sua construção.
10. Criar um sistema nacional de avaliação do ensino integral
A avaliação não deve considerar apenas notas em testes padronizados.
É necessário acompanhar:
- aprendizagem;
- frequência;
- abandono;
- conclusão;
- desigualdade;
- saúde emocional;
- participação;
- desenvolvimento cultural e científico;
- acesso à educação profissional;
- continuidade dos estudos;
- inserção social.
As escolas devem ser avaliadas considerando seus contextos, recursos e perfis de estudantes.
11. Desenvolver projetos-piloto antes da expansão em larga escala
Modelos diferentes devem ser testados em regiões urbanas, rurais, indígenas, quilombolas e periféricas.
As experiências devem ser avaliadas de forma independente antes de sua ampliação.
Políticas públicas baseadas em evidências precisam aprender com os erros e aperfeiçoar continuamente seus métodos.
12. Garantir financiamento estável e transparente
Educação integral possui custos superiores aos da jornada parcial.
É necessário prever recursos para pessoal, alimentação, transporte, infraestrutura, manutenção, tecnologia e atividades pedagógicas.
A expansão sem financiamento adequado pode comprometer a qualidade e gerar descrédito em relação à política.
Indicadores para acompanhar a Agenda 2035
O IVEPESP considera que a política deve possuir indicadores públicos e anuais.
Entre eles:
| Dimensão | Indicadores sugeridos |
|---|---|
| Acesso | Percentual de matrículas integrais por etapa, território e nível socioeconômico |
| Equidade | Diferenças de acesso e aprendizagem entre grupos sociais, raciais, regionais e estudantes com deficiência |
| Aprendizagem | Evolução em língua portuguesa, matemática, ciências e competências digitais |
| Permanência | Frequência, abandono, reprovação e conclusão |
| Professores | Formação, remuneração, dedicação à escola, rotatividade e condições de trabalho |
| Infraestrutura | Bibliotecas, laboratórios, conectividade, quadras, alimentação, acessibilidade e saneamento |
| Desenvolvimento integral | Participação em ciência, arte, cultura, esporte e projetos comunitários |
| Bem-estar | Clima escolar, segurança, saúde emocional e sentimento de pertencimento |
| Tecnologia | Acesso, utilização pedagógica, formação docente, segurança e proteção de dados |
| Resultados futuros | Ingresso no ensino superior, educação profissional, trabalho e participação cidadã |
Uma política baseada em evidências
O ensino integral não deve ser defendido como solução automática nem rejeitado com base em resultados isolados.
A política precisa ser acompanhada por pesquisas independentes, comparações adequadas e avaliações de longo prazo.
É necessário distinguir:
- correlação de causalidade;
- aumento de matrícula de melhoria de aprendizagem;
- presença física de participação efetiva;
- ampliação de horário de transformação pedagógica;
- resultado médio de redução das desigualdades.
Também é preciso considerar que os efeitos podem variar.
Uma mesma política pode produzir resultados positivos em uma rede bem estruturada e resultados limitados em outra que não disponha de professores, infraestrutura ou gestão adequados.
Por isso, os dados devem orientar aperfeiçoamentos, e não apenas servir para confirmar posições previamente estabelecidas.
Conclusão
O ensino integral continua sendo uma das políticas mais promissoras para a educação brasileira.
Entretanto, as experiências internacionais demonstram que não existe relação automática entre mais tempo na escola e melhores resultados.
O sucesso depende da qualidade do professor, da organização curricular, da infraestrutura, do apoio aos estudantes, do uso adequado da tecnologia, da participação das famílias e da continuidade das políticas públicas.
Os melhores sistemas educacionais não são necessariamente aqueles que mantêm seus estudantes por mais horas em aulas tradicionais. São aqueles que conseguem transformar o tempo disponível em oportunidades reais de aprendizagem, convivência, investigação, cultura, desenvolvimento e cidadania.
O Brasil deve ampliar o ensino integral, mas precisa fazê-lo com planejamento, responsabilidade e avaliação.
A meta não pode ser apenas aumentar o número de matrículas de sete horas diárias.
A verdadeira meta deve ser construir escolas capazes de oferecer a cada criança e jovem as condições necessárias para aprender, desenvolver seus talentos e participar plenamente da sociedade.
Para o IVEPESP, uma escola verdadeiramente integral não é apenas aquela em que o estudante permanece por mais tempo.
É aquela que utiliza cada hora para ampliar conhecimentos, oportunidades, autonomia, dignidade e esperança.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo – IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/