Um levantamento realizado pelo European Council of Doctoral Candidates and Junior Researchers (Eurodoc), divulgado pela revista científica Nature em outubro de 2026, revela diferenças expressivas na remuneração e nas condições de trabalho dos doutorandos europeus.
Enquanto alguns países reconhecem o doutorando como pesquisador contratado, com salário e direitos sociais, outros adotam predominantemente bolsas acadêmicas, muitas vezes sem benefícios trabalhistas ou previdenciários equivalentes.
Os resultados oferecem uma oportunidade para refletir sobre o modelo brasileiro de financiamento da pós-graduação, especialmente sobre os valores das bolsas concedidas pela CAPES, pelo CNPq e pela FAPESP.
O problema brasileiro apresenta uma dimensão adicional: as bolsas federais de mestrado e doutorado permaneceram quase dez anos sem reajuste, entre 2013 e 2023, e chegaram a outubro de 2026 novamente sem atualização por três anos e oito meses.
A discussão precisa ultrapassar os valores nominais, incorporando o poder de compra, a proteção social, a estabilidade do financiamento e as oportunidades de inserção profissional dos doutores.
1. O que revela a experiência europeia?
O levantamento da Eurodoc examinou a remuneração dos doutorandos em 26 países europeus, utilizando dados referentes ao período de 2024 a 2025.
Os resultados mostram diferenças profundas tanto nos valores recebidos quanto na natureza jurídica da atividade desenvolvida.
Em países como Dinamarca, Alemanha, Bélgica, Noruega e Suíça, predominam modelos em que o doutorando possui vínculo empregatício, embora as condições contratuais variem.
Em Portugal, Espanha, Itália e diversos países do Leste Europeu, os sistemas são predominantemente fundamentados em bolsas.
Remunerações anuais aproximadas apresentadas no gráfico da Nature:
| País | Remuneração anual | Modelo predominante |
|---|---|---|
| Dinamarca | € 58.000 | Emprego |
| Alemanha | € 55.500 | Emprego |
| Bélgica | € 51.000 | Emprego |
| Noruega | € 50.000 | Emprego |
| Suíça | € 50.000 | Emprego |
| Países Baixos | € 37.000 | Emprego |
| França | € 26.500 | Emprego |
| Estônia | € 21.500 | Emprego |
| Portugal | € 15.000 | Bolsa |
| Polônia | € 9.500 | Bolsa |
Os valores são aproximados e não representam necessariamente a remuneração efetivamente recebida por todos os doutorandos.
Na Alemanha, por exemplo, contratos de tempo parcial são frequentes. Portanto, a remuneração anual efetiva pode ser consideravelmente inferior ao valor de referência apresentado.
Além disso, salários sujeitos a impostos e contribuições previdenciárias não podem ser comparados diretamente com bolsas eventualmente isentas de tributação.

2. O exemplo da Estônia: uma mudança estrutural
Um dos casos mais interessantes apresentados pelo estudo é o da Estônia.
Em 2022, o país reformulou seu sistema de financiamento do doutorado, substituindo bolsas de aproximadamente € 8 mil anuais por contratos com remunerações significativamente superiores.
No período analisado, os valores já se aproximavam de € 22 mil anuais, tendo posteriormente alcançado cerca de € 25 mil.
Segundo os pesquisadores responsáveis pelo levantamento, a mudança foi acompanhada de maior procura por posições de doutorado e de aproximação com o setor produtivo.
Embora seja necessário aprofundar a avaliação de seus efeitos, a experiência estoniana sugere que o reconhecimento profissional do pesquisador em formação pode contribuir para a atratividade da carreira científica.
A principal lição não consiste em simplesmente transformar todas as bolsas em salários, mas em reconhecer que as condições materiais de formação científica fazem parte da política nacional de desenvolvimento.
3. A situação brasileira: CAPES, CNPq e FAPESP
No Brasil, as principais agências públicas de financiamento oferecem bolsas de doutorado com valores significativamente diferentes.
Considerando os valores mensais de referência:
| Agência e modalidade | Valor mensal | Valor anual |
|---|---|---|
| CAPES — Doutorado | R$ 3.100 | R$ 37.200 |
| CNPq — Doutorado | R$ 3.100 | R$ 37.200 |
| FAPESP — Doutorado I | R$ 5.790 | R$ 69.480 |
| FAPESP — Doutorado II | R$ 7.140 | R$ 85.680 |
Os valores anuais representam doze mensalidades e não incluem benefícios adicionais.
A bolsa de doutorado FAPESP DR-II apresenta valor mensal aproximadamente 130% superior ao das bolsas federais.
Esse resultado evidencia que, mesmo dentro do Brasil, existem condições financeiras muito diferentes para estudantes dedicados à formação científica.
A FAPESP dispõe ainda de instrumentos complementares, como Reserva Técnica e benefícios previstos em suas normas.
É importante reconhecer, contudo, que bolsas de pesquisa não equivalem automaticamente a contratos de trabalho, mesmo quando possuem valores mais elevados.

4. O histórico das bolsas federais: quase uma década sem reajuste
Um aspecto fundamental da situação brasileira é a irregularidade histórica dos reajustes concedidos aos bolsistas da CAPES e do CNPq.
A evolução dos valores mensais permite identificar longos períodos de congelamento.
| Período | Mestrado | Doutorado |
|---|---|---|
| 2008–2011 | R$ 1.200 | R$ 1.800 |
| 2012, após reajuste | R$ 1.350 | R$ 2.000 |
| 2013–2022 | R$ 1.500 | R$ 2.200 |
| 2023–outubro de 2026 | R$ 2.100 | R$ 3.100 |
A tabela apresenta os valores nominais de referência. Nos anos em que ocorreram reajustes, os valores anteriores vigoraram durante parte do período.
O último reajuste das bolsas regulares de mestrado e doutorado ocorreu em fevereiro de 2023.
Antes dele, os valores haviam permanecido inalterados desde abril de 2013, aproximadamente nove anos e dez meses.
Em fevereiro de 2023, a bolsa de doutorado passou de R$ 2.200 para R$ 3.100, aumento nominal de 40,9%.
A bolsa de mestrado passou de R$ 1.500 para R$ 2.100, aumento nominal de 40%.
Embora relevantes, esses reajustes ocorreram após um período prolongado de perda do poder aquisitivo.
Até outubro de 2026, não havia ocorrido novo reajuste geral dessas modalidades, completando-se três anos e oito meses desde a última atualização.

5. Inflação e perda do poder de compra
O congelamento nominal das bolsas possui um efeito econômico direto: ao longo do tempo, a inflação reduz a quantidade de bens e serviços que os pesquisadores conseguem adquirir com o mesmo valor.
Somente entre janeiro de 2024 e setembro de 2026, considerando os índices utilizados neste levantamento, a inflação acumulada aproximou-se de 13,5%.
Isso significa que uma bolsa de R$ 3.100, para preservar em setembro de 2026 o poder de compra correspondente ao início de 2024, precisaria alcançar aproximadamente R$ 3.518 mensais.
Esse cálculo não incorpora toda a inflação acumulada desde o reajuste de fevereiro de 2023, nem as perdas anteriores ao reajuste daquele ano.
A consequência é especialmente significativa para estudantes que dependem integralmente da bolsa para custear moradia, alimentação, transporte, livros, equipamentos e demais despesas necessárias à formação.
Nas cidades com custo de vida elevado, essas dificuldades podem ser ainda maiores.
Também é necessário considerar que parte dos doutorandos possui responsabilidades familiares, o que amplia a importância da previsibilidade financeira e de mecanismos de proteção social.
6. Doutorado: formação acadêmica e atividade de pesquisa
O doutorado possui uma natureza particular.
Trata-se simultaneamente de um processo avançado de formação acadêmica e de uma atividade que produz conhecimento original.
O doutorando não apenas frequenta disciplinas. Ele desenvolve projetos científicos, executa experimentos, analisa dados, publica resultados, participa de grupos de pesquisa e contribui para o avanço do conhecimento.
Frequentemente, sua participação é fundamental para o funcionamento cotidiano de laboratórios e projetos financiados por instituições públicas e privadas.
Por outro lado, reconhecer essa contribuição não elimina as especificidades acadêmicas do doutorado, nem significa que todas as suas atividades devam ser automaticamente enquadradas em um regime trabalhista convencional.
A questão central é estabelecer condições adequadas para que a formação científica ocorra com qualidade e segurança.
7. Remuneração, internacionalização e fuga de talentos
As diferenças nas condições de remuneração podem influenciar a escolha do país e da instituição onde jovens pesquisadores realizam sua formação.
Entretanto, a remuneração não constitui o único fator relevante.
Infraestrutura de pesquisa, qualidade da orientação, acesso a equipamentos, oportunidades de publicação, colaboração internacional e perspectivas profissionais também influenciam as decisões.
O caso europeu sugere que países capazes de combinar remuneração competitiva e boas condições institucionais tendem a apresentar vantagens na atração de talentos.
Para o Brasil, isso suscita uma preocupação estratégica.
O país investe recursos públicos na formação de pesquisadores, mas precisa oferecer condições para que esses profissionais encontrem oportunidades de trabalho científico após a titulação.
A internacionalização deve ser incentivada, pois amplia redes de colaboração e acesso ao conhecimento.
O problema surge quando a saída de pesquisadores deixa de representar uma experiência temporária de formação ou cooperação e se transforma em perda duradoura de capital humano altamente qualificado.
8. Recomendações do IVEPESP
À luz da experiência internacional e das condições brasileiras, o IVEPESP considera importante discutir uma política nacional de valorização dos pesquisadores em formação, contemplando cinco dimensões fundamentais.
Primeira — Atualização periódica das bolsas.
Estabelecer um mecanismo regular, transparente e previsível de atualização das bolsas federais, utilizando indicadores oficiais de inflação e avaliações periódicas da suficiência financeira dos valores.
Segunda — Proteção social.
Estudar mecanismos de proteção previdenciária, parental e assistencial compatíveis com a natureza acadêmica da pós-graduação, considerando os efeitos jurídicos e orçamentários das diferentes alternativas.
Terceira — Avaliação regional do custo de vida.
Examinar as diferenças regionais de despesas básicas, especialmente moradia e transporte, sem comprometer a sustentabilidade e a equidade do sistema nacional de bolsas.
Quarta — Integração entre universidade, pesquisa e setor produtivo.
Ampliar oportunidades de participação de doutorandos e doutores em projetos de pesquisa desenvolvidos em universidades, institutos de ciência e tecnologia e empresas inovadoras.
Quinta — Acompanhamento da trajetória profissional.
Criar mecanismos nacionais de acompanhamento dos egressos da pós-graduação, permitindo avaliar inserção profissional, mobilidade internacional, permanência no país e contribuição à inovação.
Essas iniciativas exigem estudos de impacto, fontes estáveis de financiamento e diálogo entre o governo federal, as agências de fomento, as universidades, a comunidade científica e o setor produtivo.
9. Considerações finais
O estudo europeu apresenta uma conclusão importante: a remuneração dos doutorandos não deve ser analisada isoladamente, mas como parte das condições estruturais de desenvolvimento científico de cada país.
No Brasil, o histórico das bolsas CAPES e CNPq demonstra a necessidade de superar a prática de reajustes esporádicos, frequentemente separados por longos períodos de congelamento.
O reajuste de 2023 representou um avanço, mas não substitui a necessidade de uma política permanente de valorização da formação científica.
A comparação com a FAPESP revela, por sua vez, que o próprio sistema brasileiro apresenta diferentes patamares de financiamento e instrumentos complementares de apoio.
A questão fundamental não é apenas quanto o Brasil paga aos seus doutorandos, mas quais condições oferece para que possam concluir sua formação, produzir conhecimento e continuar contribuindo para o desenvolvimento científico, tecnológico, econômico e social do país.
Valorizar os pesquisadores em formação não constitui apenas uma despesa educacional. É parte de um investimento estratégico na capacidade futura do Brasil de gerar conhecimento, inovação e desenvolvimento.
Referências e fontes
- SIMMS, Chris. What does a PhD pay? Data reveal huge gaps across Europe. Nature, outubro de 2026. https://www.nature.com/articles/d41586-026-03181-1
- EURODOC. New data on the remuneration for doctoral candidates across Europe. 2026. https://eurodoc.net/news/2026/new-data-on-the-remuneration-for-doctoral-candidates-across-europe-still-a-long-way-to-go
- CAPES. Valores de bolsas e documentação institucional. https://www.gov.br/capes/
- CNPq. Modalidades e tabela de valores de bolsas no país. https://www.gov.br/cnpq/
- FAPESP. Valores de bolsas no país e normas para bolsas de doutorado. https://fapesp.br/valores/bolsasnopais
- IBGE. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). https://www.ibge.gov.br/indicadores/ipca.html
Nota metodológica: as remunerações europeias são aproximações extraídas do gráfico publicado pela Nature. Não constituem equivalência de rendimentos líquidos ou poder aquisitivo. Os cálculos de recomposição inflacionária devem ser interpretados conforme o período de referência explicitado.
Prof. Dr. Hélio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
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