1. Uma reflexão construída a partir da experiência

Minha trajetória científica esteve ligada à área nuclear praticamente desde o início de minha formação como pesquisador.

Da iniciação científica em diante, tive a oportunidade de desenvolver atividades associadas ao Acelerador Pelletron do Instituto de Física da Universidade de São Paulo – IFUSP, ao Acelerador Linear do IFUSP, ao Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares – IPEN e, posteriormente, ao Instituto de Estudos Avançados do então Centro Técnico Aeroespacial – IEAv/CTA, atual DCTA.

Foram experiências envolvendo aspectos experimentais e teóricos da física nuclear, em um período particularmente importante da construção da infraestrutura científica brasileira.

Revisitar essa trajetória depois de várias décadas permite compreender melhor não apenas aquilo que conseguimos construir, mas também algumas dificuldades recorrentes que impediram o Brasil de transformar integralmente sua reconhecida competência científica em uma política nuclear de longo prazo.

Essa história foi construída por muitas instituições e centenas de pesquisadores, engenheiros e técnicos. Entretanto, algumas personalidades simbolizam de maneira particularmente clara diferentes etapas desse processo.

Entre elas, gostaria de destacar Oscar Sala, José Goldemberg, José Alberto Albano do Amarante e Rômulo Ribeiro Pieroni.

São trajetórias diferentes, ligadas à universidade, aos institutos de pesquisa e às instituições estratégicas do Estado, mas que demonstram algo fundamental: o Brasil teve — e continua tendo — capacidade científica para desenvolver tecnologias nucleares avançadas.

2. Oscar Sala e o Pelletron: quando construir ciência significava construir também os instrumentos

O professor Oscar Sala representa uma geração de cientistas para a qual fazer pesquisa de fronteira significava muitas vezes construir no próprio país a infraestrutura necessária para realizá-la.

Sua participação foi decisiva para o desenvolvimento da física nuclear experimental na Universidade de São Paulo.

O IFUSP registra sua atuação pioneira na construção do acelerador Van de Graaff e posteriormente na coordenação da implantação do Acelerador Pelletron, que se transformaria em uma das principais infraestruturas brasileiras para estudos de física nuclear experimental. (Portal IF USP)

Mas considero importante olhar para o Pelletron para além do equipamento.

Um grande acelerador é uma escola.

Ao redor de uma instalação dessa natureza formam-se físicos, engenheiros e técnicos. Desenvolvem-se detectores, eletrônica nuclear, sistemas de aquisição de dados, sistemas de vácuo, fontes de íons, instrumentação, análise computacional e metodologias experimentais.

Forma-se, sobretudo, uma cultura científica.

Foi nesse ambiente que parte significativa de minha própria formação científica ocorreu.

A física nuclear experimental ensina algo que permanece extremamente atual: ciência de alto nível exige infraestrutura, equipes qualificadas e continuidade.

Não basta adquirir um grande equipamento.

É preciso mantê-lo, atualizá-lo, formar sucessivas gerações de pesquisadores e criar condições para que novas perguntas científicas continuem sendo formuladas.

Oscar Sala compreendeu isso muito cedo.

E deixou outra importante lição: uma infraestrutura científica produz efeitos muito além dos trabalhos publicados diretamente por seus pesquisadores. Ela forma pessoas que posteriormente levam o conhecimento adquirido para universidades, empresas, hospitais, institutos de pesquisa e programas tecnológicos.

3. José Goldemberg e o Acelerador Linear: ciência brasileira conectada à fronteira internacional

Outra referência fundamental em minha trajetória foi o ambiente científico construído em torno do Acelerador Linear de Elétrons do IFUSP, associado à liderança do professor José Goldemberg.

A própria história desse equipamento é reveladora.

Em 1962, Goldemberg trabalhava na Universidade Stanford com o acelerador linear de elétrons MARK II, de aproximadamente 40 MeV. Com a evolução das instalações de Stanford, o equipamento tornou-se disponível, e Goldemberg conseguiu trazê-lo para o Brasil, permitindo o desenvolvimento de uma nova linha experimental na USP. (Portal IF USP)

Posteriormente, o Acelerador Linear seria utilizado tanto em pesquisas fundamentais como em estudos de reações fotonucleares e diferentes aplicações.

Esse episódio contém uma lição que permanece extremamente atual.

Internacionalização científica não significa dependência científica.

Ao contrário.

Os melhores programas de internacionalização são aqueles que permitem que pesquisadores brasileiros trabalhem nos principais centros científicos mundiais, absorvam conhecimento e retornem ao país trazendo ideias, equipamentos, redes de colaboração e novas linhas de pesquisa.

Foi assim que grande parte da ciência brasileira de excelência se desenvolveu.

Goldemberg representa também outra característica importante da geração que ajudou a consolidar a ciência brasileira: a capacidade de transitar entre pesquisa científica, universidade, gestão acadêmica e formulação de políticas públicas.

Foi o primeiro diretor do Instituto de Física da USP e posteriormente reitor da Universidade, além de ocupar diferentes funções públicas relacionadas a ciência, energia e meio ambiente. A história institucional do IFUSP reconhece Oscar Sala e José Goldemberg, juntamente com outras grandes lideranças, entre os nomes fundamentais para a consolidação das áreas de pesquisa do Instituto. (Portal IF USP)

4. Rômulo Ribeiro Pieroni e o IPEN: construir uma instituição nuclear brasileira

Minha passagem pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares – IPEN, então profundamente identificado com sua origem como Instituto de Energia Atômica – IEA, permitiu conhecer outra dimensão da área nuclear.

Se os aceleradores universitários estavam fortemente associados à investigação científica fundamental, o IPEN demonstrava a possibilidade de transformar conhecimento nuclear em tecnologia, produtos, serviços e aplicações para a sociedade.

Nesse processo merece destaque o professor Rômulo Ribeiro Pieroni, que exerceu importante liderança como superintendente do então Instituto de Energia Atômica.

Durante sua gestão ocorreu uma significativa expansão da infraestrutura do Instituto. Em 1972, por exemplo, foram ampliadas instalações relacionadas ao processamento de materiais radioativos, ao reator IEA-R1 e a outras atividades de pesquisa e desenvolvimento. (Serviços e Informações do Brasil)

Pieroni também teve papel decisivo na formação de recursos humanos.

Em 1976, foi criado o programa de pós-graduação em Tecnologia Nuclear do então IEA, iniciativa de sua gestão que institucionalizou a formação de mestres e doutores em uma área estratégica para o país. (Serviços e Informações do Brasil)

Essa talvez seja uma das contribuições mais importantes de sua trajetória.

Equipamentos envelhecem.

Edifícios podem ser reformados.

Tecnologias podem ser substituídas.

Mas uma política científica somente permanece viva quando existe formação contínua de novas gerações.

O IPEN tornou-se uma das instituições mais importantes da área nuclear brasileira justamente porque soube combinar pesquisa básica, desenvolvimento tecnológico, formação de pessoal e aplicações concretas.

O Instituto participou do domínio de diferentes etapas do ciclo do combustível nuclear e desenvolveu tecnologias relacionadas a reatores, materiais, radiações, radioisótopos e radiofármacos. Atualmente continua atuando em áreas que vão da medicina nuclear à indústria, agricultura, meio ambiente e engenharia nuclear. (Serviços e Informações do Brasil)

É importante recordar que a contribuição social da tecnologia nuclear talvez seja percebida de maneira mais direta justamente na saúde.

A produção brasileira de radioisótopos e radiofármacos tem uma longa história. Já em 1959, o então IEA produziu no país iodeto de sódio marcado com iodo-131 para aplicações médicas, um dos primeiros capítulos do desenvolvimento da medicina nuclear nacional. (Serviços e Informações do Brasil)

5. Coronel José Alberto Albano do Amarante e o IEAv: ciência, estratégia e autonomia tecnológica

Minha experiência posterior no Instituto de Estudos Avançados – IEAv, do então CTA, apresentou-me ainda outra dimensão da pesquisa científica: aquela diretamente ligada às tecnologias estratégicas e à soberania nacional.

Nesse contexto, uma personalidade que merece ser lembrada é o Coronel-Aviador José Alberto Albano do Amarante.

A história oficial do IEAv registra que, já em 1972, o então Major-Aviador Amarante iniciou, juntamente com o professor Sérgio Pereira da Silva Porto, da Unicamp, discussões para criação de um grupo de lasers voltado, entre outros objetivos, ao estudo da separação isotópica do urânio.

Os trabalhos seriam posteriormente incorporados à Divisão de Estudos Avançados, liderada por Amarante. O crescimento das pesquisas contribuiu para a criação, em 1982, do próprio Instituto de Estudos Avançados – IEAv. (SCTI)

Há nesse episódio uma característica particularmente relevante.

O objetivo não era simplesmente importar um equipamento e utilizá-lo.

Buscava-se dominar a tecnologia.

Isso significava desenvolver lasers, óptica, eletrônica de potência, instrumentação e os conhecimentos científicos necessários para compreender integralmente os processos envolvidos.

A Assembleia Legislativa de São Paulo, ao registrar posteriormente a contribuição de Amarante, destacou sua visão estratégica voltada ao estabelecimento de tecnologia própria e seu papel na criação do IEAv e nas pesquisas nucleares e de lasers. (Alesp)

Essa distinção entre usar tecnologia e dominar tecnologia é fundamental para qualquer país que pretenda possuir soberania tecnológica.

6. Quatro trajetórias, uma mesma lição

Oscar Sala, José Goldemberg, Rômulo Pieroni e José Alberto Albano do Amarante atuaram em ambientes institucionais diferentes.

Sala simboliza a construção da grande infraestrutura experimental universitária.

Goldemberg representa, entre outras dimensões de sua extensa trajetória, a conexão da ciência brasileira com os grandes centros internacionais e a capacidade de transformar essa experiência em infraestrutura científica nacional.

Pieroni representa a consolidação institucional da pesquisa e da formação de recursos humanos na tecnologia nuclear.

Amarante representa a busca pelo domínio de tecnologias consideradas estratégicas para a autonomia nacional.

Há, entretanto, algo em comum entre essas experiências.

Nenhum deles pensava apenas no experimento do dia seguinte.

Existia uma visão institucional.

Construíam-se laboratórios, formavam-se equipes e estabeleciam-se programas pensando em décadas.

É justamente essa capacidade de planejamento de longo prazo que precisamos recuperar.

7. O Brasil avançou — e muito

Seria injusto analisar a área nuclear brasileira apenas por seus problemas.

O país acumulou conhecimentos relevantes em física nuclear, engenharia nuclear, produção de radioisótopos, radiofármacos, reatores de pesquisa, tecnologia de materiais, proteção radiológica e diferentes etapas do ciclo do combustível.

O Brasil desenvolveu também sua própria tecnologia de enriquecimento de urânio por ultracentrifugação, resultado da atuação do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo em parceria com o IPEN.

A INB informa que a planta de enriquecimento de Resende possui atualmente capacidade instalada equivalente a aproximadamente 70% da quantidade necessária para uma recarga de Angra 1, e que sua expansão pretende levar o país à autossuficiência no enriquecimento necessário às centrais nucleares. (Indústrias Nucleares do Brasil)

Há, entretanto, uma importante lacuna: a etapa de conversão do urânio em hexafluoreto de urânio ainda não é realizada industrialmente no Brasil, demonstrando que domínio tecnológico e autonomia industrial completa não são necessariamente sinônimos. (Indústrias Nucleares do Brasil)

Outro desenvolvimento estratégico é o Programa Nuclear da Marinha.

O conhecimento acumulado no LABGENE – Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica, destinado ao desenvolvimento do protótipo da planta nuclear do futuro submarino brasileiro de propulsão nuclear, já começa a ser considerado também como base tecnológica para possíveis projetos nacionais de pequenos reatores modulares — SMRs. (Marinha do Brasil)

8. O Reator Multipropósito Brasileiro e uma nova geração de infraestrutura

Talvez o projeto que melhor represente a possibilidade de inaugurar uma nova etapa da área nuclear brasileira seja o Reator Multipropósito Brasileiro – RMB, em Iperó, São Paulo.

O RMB será uma grande infraestrutura dedicada à produção de radioisótopos e ao desenvolvimento de pesquisas utilizando nêutrons, além de atividades relacionadas a materiais e combustíveis nucleares. A CNEN informa que as obras de infraestrutura tiveram início em 2025 e que a etapa seguinte de construção civil tem conclusão prevista para 2030. (Serviços e Informações do Brasil)

Existe uma oportunidade histórica.

O RMB não deveria ser visto apenas como um reator.

Deveria ser concebido como uma grande infraestrutura científica nacional, aberta a universidades, institutos de pesquisa, hospitais e empresas, capaz de formar uma nova geração de físicos, engenheiros, químicos, médicos, tecnólogos e técnicos.

Assim como o Pelletron formou gerações de pesquisadores, o RMB poderá formar as próximas gerações da ciência nuclear brasileira.

9. As dificuldades permanecem

Ao olhar retrospectivamente para mais de meio século de desenvolvimento, uma conclusão torna-se inevitável.

O principal problema brasileiro nunca foi a ausência de pessoas competentes.

Tivemos excelentes pesquisadores.

Construímos instituições.

Dominamos tecnologias extremamente complexas.

Nossa dificuldade esteve frequentemente na descontinuidade.

Projetos estratégicos iniciados com grande entusiasmo enfrentam posteriormente restrições orçamentárias, mudanças administrativas, alterações de prioridades e longos intervalos de execução.

Isso é particularmente grave no setor nuclear.

Um laboratório nuclear, um acelerador, um reator ou uma instalação do ciclo do combustível não podem ser planejados segundo horizontes políticos de quatro anos.

São projetos de décadas.

E quando se interrompe um grande programa científico não se perde somente o dinheiro já investido.

Perdem-se equipes.

Perde-se conhecimento acumulado.

Jovens pesquisadores migram para outras áreas.

Engenheiros altamente especializados procuram outras oportunidades.

Técnicos se aposentam sem que uma nova geração tenha tido tempo de absorver integralmente seu conhecimento.

Esse conhecimento tácito é um patrimônio nacional extremamente difícil de reconstruir.

10. O desafio das novas gerações

Este ponto me preocupa particularmente.

Muitos dos grandes programas científicos e tecnológicos brasileiros foram construídos por pesquisadores formados nas décadas de 1960, 1970, 1980 e 1990.

O país precisa assegurar a renovação dessas equipes.

É necessário mostrar aos jovens que física nuclear, engenharia nuclear, tecnologia de radiações, radioquímica, instrumentação e áreas correlatas continuam sendo campos científicos com enormes possibilidades.

A preocupação é atual.

Na INAC 2026, realizada em agosto de 2026, representantes da CNEN, do MCTI e da indústria voltaram a destacar a formação de novas gerações, a transformação do conhecimento científico em inovação e a necessidade de aproximar grandes infraestruturas nucleares da indústria. Foram apontados como projetos estruturantes o RMB, o Laboratório de Fusão Nuclear, o CENTENA e outras infraestruturas científicas. (Serviços e Informações do Brasil)

É particularmente significativo que, décadas depois das experiências que marcaram minha geração, a questão central continue sendo semelhante:

como transformar competência científica em capacidade tecnológica permanente?

11. Uma Agenda Nuclear Brasileira 2030–2050

A experiência acumulada sugere que o Brasil deveria estabelecer uma política nuclear de Estado, apoiada em alguns compromissos fundamentais:

  1. Assegurar financiamento plurianual às grandes instalações nucleares e científicas, evitando que projetos estratégicos sejam interrompidos a cada ciclo orçamentário.
  2. Concluir e colocar em plena operação o Reator Multipropósito Brasileiro, transformando-o em uma infraestrutura nacional aberta às universidades, instituições de pesquisa, empresas e serviços de saúde.
  3. Implantar um amplo programa de formação e renovação de recursos humanos, incluindo bolsas, concursos, pós-graduação, formação técnica e mecanismos de transferência de conhecimento entre gerações.
  4. Promover maior integração entre universidades, CNEN, IPEN, Marinha, DCTA/IEAv, INB, Eletronuclear, instituições de saúde e indústria nacional, reconstruindo uma verdadeira rede brasileira de ciência e tecnologia nuclear.
  5. Buscar maior autonomia no ciclo do combustível nuclear, avaliando técnica e economicamente as etapas que ainda dependem do exterior e ampliando a escala das competências já dominadas nacionalmente.
  6. Utilizar o Programa Nuclear da Marinha e o LABGENE como plataformas de desenvolvimento tecnológico, inclusive estudando sua contribuição para futuros pequenos reatores modulares brasileiros.
  7. Fortalecer a medicina nuclear, aumentando a produção nacional de radioisótopos e radiofármacos e considerando essa capacidade parte integrante da estratégia de saúde pública nacional.
  8. Criar mecanismos permanentes de interação entre ciência e indústria, para que conhecimentos desenvolvidos nos laboratórios possam gerar empresas, produtos, patentes e cadeias produtivas nacionais.
  9. Manter uma regulação nuclear independente, tecnicamente qualificada e transparente, porque segurança, confiança pública e excelência regulatória são condições indispensáveis ao desenvolvimento do setor.
  10. Estabelecer uma estratégia nuclear nacional com horizonte até 2050, submetida a avaliações periódicas, mas suficientemente estável para sobreviver às mudanças de governos e às conjunturas políticas.

12. Recuperar a visão de longo prazo

Ao recordar o Pelletron, o Acelerador Linear, o IPEN e o IEAv, não pretendo simplesmente revisitar uma etapa importante de minha trajetória pessoal.

Essas instituições contam uma parte importante da história científica brasileira.

E nomes como Oscar Sala, José Goldemberg, Rômulo Ribeiro Pieroni e José Alberto Albano do Amarante ajudam a compreender por que foi possível construir essa história.

Eles pertenciam a uma época em que grandes projetos científicos eram concebidos também como projetos de construção nacional.

Isso não significa idealizar o passado.

Significa aprender com ele.

A ciência contemporânea tornou-se muito mais complexa, internacional, interdisciplinar e cara. Exatamente por isso, planejamento estratégico tornou-se ainda mais importante.

Conclusão — a capacidade existe

Depois de uma vida acadêmica iniciada em laboratórios ligados à física nuclear, permanece para mim uma convicção.

O Brasil tem capacidade científica.

Demonstrou isso no Pelletron.

Demonstrou no Acelerador Linear.

Demonstrou no IPEN.

Demonstrou no IEAv.

Demonstrou no desenvolvimento do ciclo do combustível nuclear.

E continua demonstrando essa capacidade no Programa Nuclear da Marinha, no LABGENE e no Reator Multipropósito Brasileiro.

O problema central nunca foi simplesmente saber se somos capazes.

A pergunta que precisamos responder é outra:

seremos capazes de oferecer continuidade institucional, recursos humanos, financiamento e planejamento de longo prazo para transformar o conhecimento acumulado durante décadas em soberania tecnológica e benefícios permanentes para a sociedade brasileira?

Para minha geração, que acompanhou parte importante dessa construção dentro dos próprios laboratórios, talvez exista também uma responsabilidade.

Precisamos transmitir às novas gerações não apenas aquilo que aprendemos sobre física nuclear.

Precisamos transmitir também a experiência institucional acumulada: o que funcionou, o que não funcionou, o que foi interrompido e aquilo que o Brasil não deveria precisar construir novamente a partir do zero.

Oscar Sala, José Goldemberg, Rômulo Pieroni, José Alberto Albano do Amarante e tantos outros mostraram que o país é capaz de construir ciência e tecnologia de alto nível.

O desafio da próxima geração será transformar esse patrimônio científico em um projeto nacional duradouro.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
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