O padrão recente das exportações brasileiras evidencia, de forma inequívoca, uma distorção estrutural persistente: o Brasil consolida-se como grande fornecedor de bens primários para a China — responsável por aproximadamente 29% das exportações nacionais — ao mesmo tempo em que amplia sua dependência de bens industrializados importados, inclusive do próprio parceiro asiático.

Este arranjo não constitui, por si só, um problema comercial. Trata-se, porém, de um problema estratégico de desenvolvimento econômico, que expõe fragilidades históricas da estrutura produtiva brasileira e indica um movimento regressivo em termos de complexidade econômica.


1. Reprimarização e perda de densidade industrial

O Brasil exporta predominantemente:

  • minério de ferro
  • soja
  • petróleo bruto

E importa:

  • máquinas e equipamentos
  • produtos químicos
  • bens manufaturados de maior valor agregado

Esse padrão caracteriza um processo clássico de reprimarização da pauta exportadora, no qual a economia perde densidade industrial e capacidade de geração de valor interno.

A consequência direta é a transferência sistemática de valor para economias com maior capacidade de transformação produtiva, notadamente a China.


2. O paradoxo tarifário brasileiro

Mesmo com níveis tarifários elevados — frequentemente superiores a 100% em determinados segmentos industriais — produtos importados seguem mais competitivos que seus equivalentes nacionais.

Esse fenômeno revela uma distorção mais profunda:

O problema não está na abertura comercial, mas na incapacidade estrutural de competir.

Os fatores determinantes incluem:

  • baixa produtividade industrial
  • fragmentação das cadeias produtivas
  • custo logístico elevado
  • complexidade tributária
  • custo de capital significativamente superior ao de economias concorrentes

O chamado “Custo Brasil” deixou de ser um conceito retórico e passou a ser um fator concreto de desindustrialização.


3. Assimetria estrutural na relação Brasil–China

A relação com a China segue um padrão assimétrico:

  • O Brasil exporta recursos naturais
  • A China exporta inteligência produtiva incorporada em bens industriais

Esse modelo reforça um ciclo de dependência tecnológica e limita a capacidade nacional de ascensão nas cadeias globais de valor.

Não se trata de uma falha conjuntural, mas de uma estratégia nacional ausente.


4. Consequências macroeconômicas e estratégicas

A manutenção desse padrão implica:

  • Baixa geração de empregos qualificados
  • Vulnerabilidade externa em cadeias industriais críticas
  • Redução da capacidade de inovação
  • Crescimento econômico limitado no longo prazo
  • Fragilidade geopolítica em setores estratégicos

Em termos objetivos, o Brasil corre o risco de consolidar-se como uma economia de baixa complexidade com alta dependência externa.


5. Evidência adicional: produtividade e complexidade

Indicadores internacionais de complexidade econômica e produtividade mostram que o Brasil permanece significativamente abaixo de economias da OCDE, mesmo possuindo base científica relevante e mercado interno robusto.

Instituições como a USP e a EMBRAER demonstram que o país possui capacidade de excelência — mas essa capacidade não tem sido convertida em densidade industrial e inovação sistêmica.


6. Diretrizes para reversão do quadro

O IVEPESP entende que a reversão desse processo exige uma agenda estruturante, baseada em evidências:

6.1 Política industrial orientada por dados e IA

  • uso intensivo de dados para aumento de produtividade
  • integração de inteligência artificial às cadeias produtivas

6.2 Integração efetiva da tríplice hélice

  • universidade, empresa e governo atuando de forma coordenada
  • estímulo à transferência tecnológica

6.3 Redução estrutural do Custo Brasil

  • simplificação tributária
  • modernização regulatória
  • redução do custo de capital

6.4 Foco em cadeias estratégicas

  • minerais críticos e terras raras
  • agroindustrialização
  • energia e transição energética
  • manufatura avançada

7. Conclusão

O atual padrão de inserção internacional do Brasil não é neutro. Ele define, de forma objetiva, os limites do desenvolvimento econômico nacional.

O Brasil não está apenas exportando commodities.
Está, na prática, exportando valor potencial e importando valor realizado.

Sem uma inflexão estratégica clara, o país permanecerá preso a uma trajetória de baixa complexidade econômica, incapaz de capturar os benefícios da economia do conhecimento.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
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