A recente decisão da FAPESP de alterar as regras das Bolsas Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE) trouxe para o debate uma questão que ultrapassa a internacionalização: como financiar adequadamente a formação de pesquisadores sem comprometer os recursos destinados à própria pesquisa?
Os dados indicam que a preocupação da FAPESP com seu equilíbrio orçamentário é fundamentada. Mas também mostram que seria simplificador atribuir o problema apenas a uma retração generalizada das agências federais.
A realidade é mais complexa. A CAPES ampliou sua atuação nos últimos anos e continua respondendo por cerca de 80% das bolsas de mestrado e doutorado do País; o CNPq, por outro lado, apresentou redução relevante nas modalidades tradicionais de pós-graduação entre 2021 e 2024. A FAPESP oferece bolsas de valor consideravelmente superior às federais e experimentou crescimento excepcional no número de concessões. (Serviços e Informações do Brasil)
O desafio, portanto, não deve ser tratado como uma disputa entre União e Estado de São Paulo. Trata-se de construir uma divisão sustentável de responsabilidades no Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Pós-Graduação.
1. A diferença no valor das bolsas tornou-se muito expressiva
Em setembro de 2026, os valores das bolsas regulares da FAPESP continuam sendo os definidos a partir de agosto de 2025. No mestrado, variam de R$ 3.270 a R$ 3.450; no doutorado, de R$ 5.790 a R$ 7.140. (FAPESP)
CAPES e CNPq pagam atualmente R$ 2.100 no mestrado e R$ 3.100 no doutorado. Esses valores resultam do reajuste promovido em 2023, depois de uma década sem correção. (Serviços e Informações do Brasil)
| Modalidade | FAPESP | CAPES/CNPq | Diferença FAPESP |
|---|---|---|---|
| Mestrado | R$ 3.270–3.450 | R$ 2.100 | +56% a +64% |
| Doutorado | R$ 5.790–7.140 | R$ 3.100 | +87% a +130% |
A diferença tem uma justificativa importante: São Paulo, especialmente sua Região Metropolitana e cidades universitárias como Campinas, apresenta elevado custo de vida, e bolsas competitivas ajudam a manter jovens pesquisadores na atividade científica.
Mas há também um efeito colateral. Quanto maior a diferença em relação às bolsas federais, maior tende a ser a procura pelo financiamento da FAPESP e maior o custo orçamentário por pesquisador.
2. CAPES e CNPq não tiveram a mesma trajetória
Os dados oficiais do MCTI ajudam a evitar uma generalização inadequada.
Bolsas no País — 2021 a 2024
| Ano | CAPES Mestrado | CAPES Doutorado | CNPq Mestrado* | CNPq Doutorado* |
|---|---|---|---|---|
| 2021 | 42.139 | 47.006 | 5.739 | 7.650 |
| 2022 | 44.019 | 50.699 | 4.412 | 6.688 |
| 2023 | 47.188 | 52.895 | 4.288 | 6.049 |
| 2024 | 48.611 | 53.113 | 4.221 | 6.249 |
* O CNPq utiliza nesse levantamento o conceito de bolsa-ano, correspondente à média mensal de pagamentos ao longo do exercício. Por isso, os números absolutos das duas agências não devem ser simplesmente somados. (Serviços e Informações do Brasil)
Entre 2021 e 2024, a CAPES aumentou aproximadamente 15% suas bolsas de mestrado e 13% as de doutorado. No CNPq, ocorreu o contrário: as bolsas-ano caíram cerca de 26% no mestrado e 18% no doutorado. (Serviços e Informações do Brasil)
Portanto, não houve uma retração uniforme do financiamento federal da pós-graduação.
Houve expansão da CAPES e redução do CNPq nas modalidades tradicionais analisadas.
3. Os dados de 2025 reforçam o peso da CAPES
Há agora uma informação nova que merece ser incorporada ao debate.
Em 2025, a CAPES investiu R$ 5,7 bilhões em suas diferentes ações. Mais de 110 mil bolsas de pós-graduação no País e no exterior foram concedidas. Considerando especificamente mestrado e doutorado no País, a agência informou em 2026 possuir 101.729 das 127.525 bolsas existentes — aproximadamente 80% do total. O investimento apenas nos pós-graduandos chegou a cerca de R$ 2,9 bilhões. (Serviços e Informações do Brasil)
Isso reforça uma conclusão importante:
A CAPES continua sendo a estrutura central de sustentação financeira da pós-graduação brasileira.
O próprio Plano Nacional de Pós-Graduação mostra que, em 2023, a CAPES respondia por 79,05% das bolsas de mestrado e doutorado financiadas pelas principais agências, ante 8,17% do CNPq e 12,78% de todas as Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa reunidas. (Serviços e Informações do Brasil)
4. A pressão sobre a FAPESP, entretanto, é real
Se o financiamento federal não desapareceu, por que a FAPESP chegou à situação atual?
O comunicado oficial da Fundação, publicado em 1º de setembro de 2026, oferece números muito expressivos.
A FAPESP informa que investiu mais de R$ 1,1 bilhão em bolsas em 2025. Atualmente, mais de 13 mil estudantes e jovens pesquisadores recebem apoio da Fundação. Entre 2023 e 2025, o número de bolsas contratadas saltou de 7.610 para 13.180 — crescimento de 73%. No mesmo período, os auxílios destinados a projetos de pesquisa aumentaram apenas 3,7%. (FAPESP)
As bolsas no exterior também cresceram fortemente: de 1.242 para 1.889 contratações, expansão de 52%. (FAPESP)
O resultado apareceu diretamente no orçamento.
Segundo a FAPESP, as despesas com bolsas passaram de uma média histórica próxima de 35% para 58% de seu orçamento em junho de 2026. (FAPESP)
Esse talvez seja o número mais importante de toda a discussão.
A missão da FAPESP não se resume à formação de pesquisadores. A Fundação também precisa financiar projetos, infraestrutura laboratorial, equipamentos, centros de pesquisa, inovação tecnológica, pequenas empresas, cooperação internacional e programas estratégicos.
Se uma proporção crescente do orçamento for absorvida pelas bolsas, surge um paradoxo:
podemos formar mais pesquisadores, mas reduzir proporcionalmente os recursos necessários para que eles realizem pesquisa de alta qualidade.
5. São Paulo merece uma análise específica
A FAPESP afirma que parte do aumento da demanda decorre da redução da participação relativa de São Paulo nas bolsas federais, mencionando queda de aproximadamente 7% na participação paulista nas bolsas de doutorado da CAPES em dois anos. (FAPESP)
Essa afirmação precisa ser interpretada com cuidado.
São Paulo possui a maior concentração de universidades de pesquisa, programas de pós-graduação e produção científica do País. Ao mesmo tempo, uma política nacional legítima de redução das desigualdades regionais tende a ampliar proporcionalmente os investimentos no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A própria CAPES informa que essas regiões tiveram os maiores aumentos recentes. (Serviços e Informações do Brasil)
Portanto, duas políticas públicas legítimas podem entrar em tensão:
reduzir as desigualdades regionais brasileiras e preservar a capacidade científica instalada de São Paulo.
A solução não deveria ser enfraquecer nenhuma delas.
Por isso, o indicador mais importante a ser acompanhado daqui em diante não é apenas o número nacional de bolsas, mas:
qual é a evolução das bolsas e dos recursos de CAPES e CNPq destinados especificamente às universidades e instituições de pesquisa paulistas?
Somente essa série permitirá determinar com segurança se existe uma transferência progressiva de responsabilidade financeira da União para a FAPESP.
6. Internacionalização: a questão vai além das bolsas BEPE
A internacionalização é indispensável para um sistema científico de alto nível. Ela permite acesso a laboratórios, metodologias, redes científicas e grupos de pesquisa que dificilmente seriam reproduzidos integralmente no País.
Entretanto, também ocorreu uma mudança importante na política federal.
No CNPq, as bolsas-ano de doutorado pleno no exterior caíram de 44 em 2021 para apenas três em 2024. O doutorado-sanduíche passou de 31 para 95 no mesmo período, após atingir 186 em 2023. (Serviços e Informações do Brasil)
Na CAPES também ocorreu forte deslocamento do doutorado integral para modalidades de internacionalização durante o curso realizado no Brasil. Isso indica uma mudança de modelo: formar o doutor predominantemente no País e internacionalizar uma parte de sua formação.
Essa opção pode ser eficiente, mas precisa ser avaliada pelos resultados produzidos — redes internacionais duradouras, publicações conjuntas, transferência de conhecimento e impacto sobre a qualidade da pesquisa brasileira.
7. As mudanças recentes da BEPE devem ser acompanhadas, não tratadas como simples corte
A partir de 1º de setembro de 2026, a FAPESP modificou as regras da BEPE. No fluxo contínuo, passaram a ser elegíveis estudantes com bolsas de Doutorado Direto, Doutorado e Pós-Doutorado. A duração inicial passou de até 12 meses para seis meses, com possibilidade de prorrogação por outros seis mediante análise de mérito. Para Iniciação Científica e Mestrado foram previstas chamadas específicas. (FAPESP)
A própria Fundação ressalta que não houve redução das demais categorias de bolsas nem anúncio de corte global do número de BEPE, mas alteração dos critérios e da duração para preservar o equilíbrio entre bolsas e auxílios. (FAPESP)
O IVEPESP considera razoável que a FAPESP monitore sua sustentabilidade financeira. Entretanto, qualquer alteração que reduza, na prática, a internacionalização dos jovens pesquisadores deve ser acompanhada por indicadores objetivos.
O que precisa ser medido não é apenas quanto se economizou, mas também qual foi o impacto científico da mudança.
8. Há um caminho promissor: cofinanciamento, e não substituição
Uma iniciativa recente aponta para uma solução institucional interessante.
CAPES e FAPESP firmaram em 2025 um acordo pelo qual a CAPES mantém a bolsa federal e a FAPESP complementa seu valor até o nível praticado pela Fundação, envolvendo universidades públicas paulistas. O acordo CAPES-FAPESP prevê até R$ 304,8 milhões em bolsas de doutorado e pós-doutorado financiadas pela CAPES, cabendo à FAPESP a complementação estabelecida nos respectivos instrumentos. (FAPESP)
Em uma das etapas anunciadas, foram previstas 184 novas bolsas anuais distribuídas entre universidades públicas sediadas em São Paulo. (FAPESP)
Esse modelo contém um princípio que merece ser ampliado:
recursos federais devem fornecer a base da bolsa; recursos estaduais podem complementar valores, estimular excelência e financiar diferenciais estratégicos.
É uma solução mais sustentável do que simplesmente substituir uma bolsa federal por uma bolsa integralmente financiada pela FAPESP.
9. Propostas do IVEPESP
A partir dos dados disponíveis, o IVEPESP propõe:
- Criar um Painel Integrado de Bolsas para o Estado de São Paulo, reunindo FAPESP, CAPES e CNPq e indicando bolsas, valores e recursos por instituição, modalidade e área do conhecimento.
- Ampliar os mecanismos de cofinanciamento CAPES–FAPESP e CNPq–FAPESP, priorizando complementação em vez de substituição integral do financiamento federal.
- Instituir atualização periódica e previsível das bolsas federais, evitando novos períodos prolongados de congelamento.
- Estabelecer uma faixa de equilíbrio entre despesas da FAPESP com bolsas e com auxílios à pesquisa, acompanhada publicamente por indicadores anuais.
- Monitorar os efeitos das novas regras da BEPE, avaliando número de beneficiários, duração dos estágios, instituições de destino, publicações, cooperações internacionais e impacto acadêmico.
- Publicar anualmente a participação de São Paulo nas bolsas e nos recursos de CAPES e CNPq, distinguindo perda relativa de participação de eventual redução absoluta do apoio federal.
- Preservar a internacionalização como componente estratégico, especialmente no doutorado e pós-doutorado, onde a interação com grupos internacionais de excelência possui maior potencial de retorno científico.
Conclusão
Os dados permitem afastar duas interpretações extremas.
A primeira seria considerar que a FAPESP está simplesmente “gastando demais” com bolsas. Não é essa a conclusão dos números. Bolsas competitivas são um dos instrumentos que ajudam São Paulo a manter seu sistema científico de excelência.
A segunda seria atribuir toda a pressão orçamentária da FAPESP a uma retirada generalizada da União. Também não é isso que mostram os dados. A CAPES continua responsável por cerca de 80% das bolsas de mestrado e doutorado do País e ampliou seus investimentos recentemente, enquanto a trajetória do CNPq é mais preocupante nas modalidades tradicionais.
O problema central é de coordenação e equilíbrio.
A FAPESP não pode perder sua capacidade de formar pesquisadores excelentes. Mas também não pode permitir que o crescimento das despesas com bolsas comprometa progressivamente sua capacidade de financiar a pesquisa, a infraestrutura e a inovação que dão sentido a essa formação.
Ao mesmo tempo, a União precisa manter presença compatível com a dimensão do sistema científico paulista, sem que a legítima política de redução das desigualdades regionais resulte em transferência excessiva de responsabilidades para a agência estadual.
O acordo recente entre CAPES e FAPESP mostra uma direção possível: compartilhar responsabilidades, somar recursos e utilizar a FAPESP para agregar excelência — e não para substituir o financiamento federal.
O objetivo não deve ser escolher entre bolsas e pesquisa. Deve ser construir um modelo em que excelentes pesquisadores tenham bolsas adequadas e, ao mesmo tempo, encontrem laboratórios, projetos e recursos para transformar sua formação em ciência, inovação e desenvolvimento para o País.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
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Nota metodológica — Os dados quantitativos das diferentes agências não são sempre construídos segundo a mesma unidade estatística. CAPES divulga bolsas concedidas; o CNPq utiliza em parte de suas séries o conceito de bolsa-ano; a FAPESP divulga, conforme a base consultada, bolsas vigentes, contratações e desembolsos. Por essa razão, esta Nota utiliza comparações diretas apenas quando metodologicamente compatíveis e privilegia tendências quando as métricas diferem.