A divulgação de uma seleção de dez cursos de estratégia oferecidos por universidades internacionais de reconhecido prestígio, entre elas MIT, Stanford, Harvard, University of Virginia, University of London e Dartmouth, oferece uma oportunidade para refletirmos sobre as prioridades do ensino superior brasileiro.

Os cursos destacados abordam estratégia avançada, análise organizacional, planejamento estratégico, liderança, gestão competitiva e tomada de decisão.

Embora essa seleção não constitua um levantamento sistemático dos currículos dessas instituições, ela evidencia a importância atribuída à formação de competências que ultrapassam os limites tradicionais das disciplinas acadêmicas.

O exemplo suscita uma questão fundamental: estamos preparando nossos universitários apenas para dominar conhecimentos especializados ou também para liderar, inovar, tomar decisões e transformar a sociedade?

Essa reflexão ganha importância diante da expansão da inteligência artificial, das transformações do mercado de trabalho e dos persistentes desafios brasileiros de produtividade, competitividade e desenvolvimento tecnológico.

1. O descompasso entre a formação universitária e as competências contemporâneas

As universidades brasileiras construíram importantes capacidades científicas e educacionais, especialmente em instituições com tradição de pesquisa.

Entretanto, uma questão merece maior atenção: a organização dos currículos frequentemente privilegia conhecimentos disciplinares específicos, enquanto competências relacionadas à estratégia, liderança, gestão, empreendedorismo e inovação recebem tratamento menos sistemático.

Isso não significa que essas competências estejam ausentes de todas as instituições. Existem experiências relevantes no Brasil, mas sua presença é desigual entre cursos e universidades.

Parte desse problema decorre da própria organização histórica do ensino superior, estruturado em departamentos, áreas de conhecimento e trajetórias profissionais especializadas.

A especialização continua indispensável. Nenhum engenheiro, médico, físico ou professor pode prescindir de uma sólida formação científica.

Entretanto, o conhecimento especializado, isoladamente, não assegura capacidade de interpretar cenários complexos, administrar recursos, coordenar equipes ou transformar descobertas em soluções.

Precisamos preservar a profundidade científica e acrescentar uma formação transversal que prepare os estudantes para atuar em ambientes complexos e em permanente transformação.

2. O que podemos aprender com as universidades internacionais?

A seleção apresentada reúne cursos associados a instituições como MIT, Stanford, Harvard, University of Virginia, Copenhagen Business School, University of London, Dartmouth, University of Illinois e LMU Munich.

Seus temas sugerem cinco dimensões relevantes para a formação contemporânea:

  • Pensamento estratégico e análise de cenários.
  • Liderança e comportamento organizacional.
  • Planejamento, execução e avaliação de resultados.
  • Competitividade, inovação e gestão de mudanças.
  • Capacidade de decisão em ambientes de incerteza.

O ensinamento não está em reproduzir mecanicamente modelos estrangeiros, mas em reconhecer que essas competências podem beneficiar profissionais de praticamente todas as áreas.

Um pesquisador que coordena um laboratório, um médico que administra uma unidade de saúde, um engenheiro responsável por projetos ou um professor que dirige uma instituição educacional necessitam de competências que ultrapassam sua especialidade.

As universidades brasileiras precisam ampliar as oportunidades de formação nessas dimensões.

3. A inteligência artificial como competência transversal

A inteligência artificial representa uma das transformações tecnológicas mais relevantes para o futuro da educação superior.

Sua influência alcança a pesquisa científica, a administração pública, a indústria, a medicina, a educação e os serviços.

Entretanto, a incorporação da IA não pode limitar-se à disponibilização de ferramentas generativas ou à criação de cursos especializados.

É necessário que os estudantes compreendam seus fundamentos, aplicações, limitações e implicações éticas.

O IVEPESP propõe que a alfabetização em inteligência artificial e dados seja progressivamente incorporada aos diferentes cursos superiores, respeitando suas especificidades.

Essa formação deve incluir pensamento crítico, avaliação de resultados, proteção de dados, responsabilidade profissional e compreensão dos efeitos da automação sobre o trabalho.

A universidade precisa formar profissionais capazes de trabalhar criticamente com a inteligência artificial, e não apenas usuários de ferramentas tecnológicas.

4. Da produção científica à inovação

O Brasil possui grupos de pesquisa internacionalmente reconhecidos, mas enfrenta dificuldades estruturais para converter parte de sua produção científica em inovação, competitividade e ganhos de produtividade.

A aproximação entre universidades, empresas, governos e organizações sociais deve ser fortalecida sem comprometer a autonomia acadêmica ou a liberdade de investigação.

É importante ampliar a formação em empreendedorismo, transferência de tecnologia, propriedade intelectual, gestão de projetos e avaliação de impacto.

Isso não significa reduzir a universidade a uma instituição voltada exclusivamente ao mercado.

A pesquisa básica, as Ciências Humanas, a formação cultural e a produção de conhecimento sem aplicação imediata continuam essenciais.

O desafio consiste em integrar essas diferentes missões e ampliar sua contribuição para o desenvolvimento nacional.

5. Formar lideranças, e não apenas especialistas

Uma deficiência que merece investigação é a preparação dos futuros dirigentes de organizações científicas, educacionais, empresariais e públicas.

Frequentemente, profissionais assumem funções de coordenação e gestão após trajetórias exclusivamente técnicas ou acadêmicas.

A competência científica, embora necessária, não substitui conhecimentos de planejamento, administração, gestão de pessoas, negociação e tomada de decisão.

As universidades deveriam oferecer oportunidades sistemáticas de formação em liderança responsável, gestão institucional e execução estratégica.

Essas competências também precisam ser desenvolvidas entre docentes, pesquisadores e gestores universitários.

6. Educação continuada e formação interdisciplinar

A velocidade das transformações tecnológicas torna insuficiente um modelo de formação concentrado exclusivamente nos anos de graduação.

As universidades devem ampliar sua atuação na educação ao longo da vida, oferecendo cursos de atualização, programas de curta duração, microcredenciais e modalidades híbridas.

Simultaneamente, precisam estimular projetos interdisciplinares.

Problemas relacionados às mudanças climáticas, à saúde pública, à transição energética, ao envelhecimento populacional e à transformação digital exigem colaboração entre diferentes campos do conhecimento.

A interdisciplinaridade deve tornar-se uma prática efetiva de ensino, pesquisa e extensão, sem eliminar a profundidade necessária à formação disciplinar.

7. Por que as competências estratégicas ainda ocupam espaço limitado em muitos currículos?

Esta é uma das questões centrais que o IVEPESP considera necessário investigar.

A estrutura tradicional do ensino superior brasileiro apresenta características que podem dificultar a incorporação de competências transversais.

Entre os fatores que merecem investigação estão a organização departamental, a rigidez de determinadas estruturas curriculares, a fragmentação das áreas de conhecimento e os critérios utilizados para avaliar o desempenho acadêmico.

Também é necessário examinar a valorização institucional atribuída ao ensino de graduação, à inovação pedagógica e à formação profissional interdisciplinar.

A avaliação da carreira docente, frequentemente associada à produção científica e à pós-graduação, pode não oferecer incentivos suficientes para a modernização curricular.

Esses fatores, entretanto, não devem ser tratados como conclusões previamente demonstradas. Precisam ser examinados empiricamente, considerando as diferenças entre instituições públicas, privadas, comunitárias e tecnológicas.

A questão não é substituir a formação científica pela formação gerencial, mas compreender por que essas dimensões ainda não se encontram suficientemente integradas em muitos cursos superiores.

8. Uma agenda de dez prioridades para as universidades brasileiras

O IVEPESP propõe que as instituições de ensino superior considerem dez prioridades para a modernização de seus projetos acadêmicos:

  1. Pensamento estratégico: desenvolver a capacidade de analisar cenários, formular alternativas e tomar decisões fundamentadas.
  2. Inteligência artificial: incorporar competências digitais, alfabetização em dados e utilização crítica da IA.
  3. Liderança e gestão: preparar estudantes e pesquisadores para coordenar equipes, projetos e organizações.
  4. Inovação e empreendedorismo: estimular a transformação do conhecimento em soluções de interesse econômico e social.
  5. Integração universidade–empresa–governo: fortalecer projetos cooperativos e a transferência de conhecimento.
  6. Interdisciplinaridade: promover a colaboração entre diferentes áreas científicas.
  7. Educação continuada: ampliar oportunidades de atualização profissional ao longo da vida.
  8. Valorização e formação docente: investir na atualização pedagógica, científica e tecnológica dos professores.
  9. Qualidade e resultados: avaliar competências adquiridas, aprendizagem efetiva e impactos da formação.
  10. Internacionalização: fortalecer a cooperação científica, a mobilidade acadêmica e a participação em redes internacionais.

A implementação dessas prioridades deve respeitar a autonomia universitária, as diretrizes nacionais de formação profissional e as particularidades de cada instituição.

9. Proposta do IVEPESP: Programa de Modernização da Formação Universitária Brasileira

Para transformar essa reflexão em uma iniciativa concreta, o IVEPESP propõe a estruturação de um Programa de Modernização da Formação Universitária Brasileira, inicialmente desenvolvido como projeto-piloto em instituições públicas e privadas.

O programa teria como objetivo investigar e testar estratégias para incorporar competências transversais aos cursos superiores, preservando a qualidade da formação científica e profissional.

A proposta poderia ser organizada em quatro etapas.

Primeira etapa — Diagnóstico nacional e comparação internacional

Mapear a presença de competências relacionadas à estratégia, liderança, inteligência artificial, inovação e empreendedorismo nos currículos de cursos selecionados de universidades brasileiras.

Realizar estudo comparativo com instituições internacionais, considerando não apenas a oferta de cursos, mas também seus objetivos educacionais, métodos de ensino e mecanismos de avaliação.

Segunda etapa — Desenvolvimento de módulos formativos

Elaborar módulos interdisciplinares que possam ser incorporados aos cursos de graduação e pós-graduação.

Esses módulos contemplariam inteligência artificial, análise de dados, pensamento estratégico, liderança, inovação, gestão de projetos e responsabilidade ética.

Terceira etapa — Implementação experimental

Selecionar cursos e instituições participantes para testar diferentes modelos de integração curricular.

A implementação deveria envolver docentes, estudantes, gestores acadêmicos e representantes de setores profissionais.

Quarta etapa — Avaliação dos resultados

Acompanhar indicadores de aprendizagem, desenvolvimento de competências, satisfação dos participantes, capacidade de resolução de problemas e aplicação dos conhecimentos adquiridos.

Sempre que possível, utilizar grupos de comparação e avaliações antes e depois das intervenções, permitindo distinguir resultados observados de efeitos efetivamente atribuíveis ao programa.

A empregabilidade e a trajetória profissional dos egressos também poderiam ser acompanhadas em avaliações posteriores.

10. Uma oportunidade para pesquisa em políticas públicas

A proposta apresenta potencial para desenvolvimento como projeto de pesquisa em políticas públicas, inclusive no âmbito de programas de financiamento como o Programa de Pesquisa em Políticas Públicas da FAPESP, desde que observados os requisitos do edital aplicável.

O projeto poderia reunir pesquisadores das áreas de Educação, Computação, Administração, Economia, Engenharia e Políticas Públicas, em cooperação com instituições responsáveis pela implementação de políticas educacionais.

A pergunta central seria:

Como integrar competências estratégicas, inteligência artificial, liderança e inovação à formação universitária brasileira, preservando a excelência científica e melhorando os resultados educacionais e sociais?

Entre os resultados esperados estariam um diagnóstico comparativo, instrumentos de avaliação de competências, módulos educacionais testados, recomendações curriculares e subsídios para políticas públicas de modernização do ensino superior.

O programa também poderia contribuir para a discussão sobre a formação dos docentes universitários, os critérios de avaliação institucional e as novas exigências profissionais decorrentes da transformação digital.

11. O papel das políticas públicas

A modernização universitária não pode depender exclusivamente de iniciativas individuais de professores ou dirigentes.

Ela exige condições institucionais, financiamento adequado e políticas de incentivo à inovação educacional.

O Ministério da Educação, os sistemas de avaliação, as agências de fomento e as próprias instituições podem contribuir para essa transformação.

Entretanto, é importante evitar a imposição de um currículo único ou excessivamente padronizado.

A diversidade institucional constitui uma característica importante do ensino superior brasileiro.

As políticas públicas devem estimular experiências, avaliar resultados, disseminar boas práticas e apoiar a adaptação dos modelos bem-sucedidos às diferentes realidades acadêmicas.

12. Conclusão — A universidade que o Brasil precisa

O debate sobre o futuro das universidades brasileiras não deve limitar-se à expansão de vagas, à quantidade de diplomas concedidos ou ao volume de publicações científicas.

Esses indicadores são relevantes, mas insuficientes para expressar a contribuição das instituições ao desenvolvimento nacional.

Precisamos discutir a qualidade da aprendizagem, as competências desenvolvidas, a capacidade de inovação, a formação de lideranças e a contribuição efetiva do conhecimento científico para a sociedade.

A inteligência artificial amplia a urgência dessa transformação.

À medida que sistemas inteligentes passam a executar tarefas antes realizadas exclusivamente por profissionais especializados, tornam-se ainda mais importantes as capacidades humanas de pensamento crítico, criatividade, julgamento ético, liderança e resolução de problemas complexos.

A universidade brasileira precisa preparar seus estudantes para essa realidade, sem abandonar os fundamentos científicos, humanísticos e culturais que justificam sua existência.

O grande desafio não é escolher entre formar especialistas ou formar líderes. É formar especialistas que também saibam pensar estrategicamente, trabalhar com inteligência artificial, colaborar, inovar e contribuir para transformar a sociedade.

O IVEPESP considera que essa agenda merece ocupar posição central nas discussões sobre o futuro do ensino superior e nas prioridades educacionais do Brasil para os próximos anos.

Não basta ampliar o acesso à universidade. É necessário transformar a qualidade e a relevância da formação oferecida.


Prof. Dr. Hélio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
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