A expansão mundial da inteligência artificial está provocando uma transformação sem precedentes na infraestrutura tecnológica. Grandes empresas investem bilhões de dólares em centros de processamento de dados, equipamentos especializados, redes de comunicação e sistemas de energia para sustentar a crescente demanda computacional.

A reportagem “Explosão de Dados”, de Ernesto Neves, publicada na revista Veja de 23 de outubro de 2026, apresenta um panorama dessa transformação e destaca as oportunidades que se abrem para o Brasil.

Segundo os dados apresentados, o país possui 218 data centers em operação, com capacidade elétrica instalada de 706 megawatts. Outros 660 megawatts estão associados a empreendimentos em construção, enquanto projetos em diferentes estágios de desenvolvimento somam uma capacidade prevista de 4.621 megawatts, ainda sem garantia de execução.

Os investimentos em centros de dados em construção são estimados em aproximadamente R$ 88 bilhões. Entretanto, essa expansão também representa um desafio energético: o consumo anual de eletricidade do setor poderá passar de 3 para 30 terawatts-hora entre 2026 e 2036, segundo as projeções citadas pela revista.

Esses números demonstram que a inteligência artificial deixou de ser apenas uma questão de software. Ela passou a exigir uma infraestrutura física, energética e industrial de grandes proporções.

Oportunidade ou nova dependência tecnológica?

O Brasil apresenta vantagens competitivas importantes, como a disponibilidade de fontes renováveis de energia, a existência de instituições científicas consolidadas e a possibilidade de ampliar sua infraestrutura digital.

Contudo, construir data centers não significa necessariamente desenvolver inteligência artificial.

Existe uma diferença fundamental entre hospedar equipamentos e dominar as tecnologias que esses equipamentos executam.

Se os investimentos forem concentrados exclusivamente em instalações físicas, o país poderá ampliar sua participação na economia digital sem necessariamente adquirir autonomia científica e tecnológica.

O risco é reproduzir um modelo conhecido da economia brasileira: fornecer recursos naturais e infraestrutura enquanto o conhecimento de maior valor agregado é produzido no exterior.

Incentivos fiscais precisam produzir desenvolvimento científico e tecnológico

Este é um ponto central que o IVEPESP considera necessário incorporar à política brasileira de inteligência artificial.

A reportagem da Veja destaca o ReData, programa federal de incentivos aos data centers, que prevê benefícios tributários associados a compromissos de sustentabilidade, atendimento ao mercado nacional e investimentos em pesquisa.

A iniciativa representa uma oportunidade importante para atrair investimentos. Entretanto, o IVEPESP entende que a concessão de incentivos fiscais não deve ser avaliada exclusivamente pelo volume de recursos privados mobilizados ou pela capacidade computacional instalada.

Todo incentivo público relevante destinado à infraestrutura de inteligência artificial deve produzir contrapartidas concretas, verificáveis e proporcionais ao benefício recebido, especialmente na formação de recursos humanos, no desenvolvimento científico e na inovação tecnológica nacional.

Essas contrapartidas devem ser incorporadas aos instrumentos de concessão dos benefícios, observadas as exigências legais, e acompanhadas por mecanismos transparentes de avaliação.

O IVEPESP propõe que sejam consideradas, entre outras medidas:

  1. Investimentos em pesquisa e desenvolvimento no Brasil: destinação de recursos para projetos científicos e tecnológicos executados em parceria com universidades, institutos de pesquisa e empresas brasileiras.
  2. Formação de recursos humanos: apoio à formação de estudantes, pesquisadores, engenheiros e profissionais especializados em inteligência artificial, computação, ciência de dados e infraestrutura digital, incluindo bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado.
  3. Acesso à infraestrutura computacional: disponibilização de capacidade de processamento, em condições previamente estabelecidas, para instituições científicas e tecnológicas brasileiras, especialmente aquelas com dificuldades de acesso à computação de alto desempenho.
  4. Cooperação universidade–empresa: estabelecimento de programas de pesquisa cooperativa, desenvolvimento de tecnologias e transferência de conhecimento, com metas e resultados avaliáveis.
  5. Desenvolvimento de tecnologia nacional: estímulo à criação de algoritmos, modelos de inteligência artificial, ferramentas computacionais e soluções tecnológicas produzidas no Brasil.
  6. Transparência e avaliação: publicação periódica de indicadores sobre recursos investidos, pesquisadores formados, projetos executados, tecnologias desenvolvidas e benefícios efetivamente produzidos para a sociedade.

Essas propostas não devem ser confundidas com obrigações que já estejam necessariamente previstas na legislação do ReData. Constituem recomendações do IVEPESP para o aperfeiçoamento e a avaliação das políticas de incentivo.

É importante também distinguir investimentos em construção civil, aquisição de equipamentos importados e instalação de infraestrutura daqueles efetivamente destinados à pesquisa, à inovação e à formação de profissionais brasileiros.

O objetivo não deve ser apenas atrair data centers, mas transformar parte dos benefícios econômicos associados à sua instalação em capacidade científica e tecnológica permanente para o país.

O papel das universidades e dos institutos de pesquisa

A expansão da inteligência artificial deve estar associada ao fortalecimento das universidades, dos institutos de pesquisa e das empresas brasileiras de base tecnológica.

É fundamental investir na formação de pesquisadores e profissionais especializados em computação, matemática, física, engenharia, ciência de dados e inteligência artificial.

Também é necessário criar condições para que universidades e empresas desenvolvam conjuntamente modelos computacionais, algoritmos, aplicações e tecnologias nacionais.

Nesse contexto, a infraestrutura instalada no país deve servir não apenas às grandes empresas internacionais, mas também à pesquisa acadêmica, às pequenas empresas inovadoras e aos serviços públicos.

A disponibilidade de capacidade computacional para universidades públicas e instituições científicas poderá contribuir para reduzir desigualdades regionais e ampliar a participação brasileira na produção internacional de conhecimento.

Energia, sustentabilidade e responsabilidade ambiental

A inteligência artificial oferece oportunidades importantes, mas também impõe custos ambientais.

Data centers demandam energia elétrica, sistemas de refrigeração, infraestrutura de transmissão e, dependendo da tecnologia utilizada, volumes significativos de água.

A expansão dessas instalações precisa ser acompanhada de critérios rigorosos de sustentabilidade, eficiência energética e planejamento territorial.

A disponibilidade de energia renovável constitui uma vantagem brasileira, mas não elimina a necessidade de avaliar os impactos ambientais e econômicos dos empreendimentos.

Uma política nacional orientada por resultados

O IVEPESP considera que a política brasileira de inteligência artificial precisa integrar infraestrutura, educação, ciência, inovação e desenvolvimento econômico.

Para isso, os programas de incentivo devem estabelecer objetivos mensuráveis e mecanismos de acompanhamento que permitam verificar os resultados alcançados.

Entre os indicadores recomendados estão o número de pesquisadores e profissionais formados, os investimentos efetivamente realizados em pesquisa e desenvolvimento no país, os projetos cooperativos com universidades, o acesso concedido a instituições científicas, as tecnologias desenvolvidas e os resultados de inovação obtidos.

É igualmente necessário avaliar a distribuição regional desses benefícios, evitando que a expansão da infraestrutura digital amplie as desigualdades já existentes entre instituições e regiões brasileiras.

A participação de órgãos públicos, agências de fomento, universidades, institutos de pesquisa e representantes do setor produtivo poderá contribuir para estabelecer critérios técnicos de acompanhamento, respeitadas as competências de cada instituição.

Considerações finais

A inteligência artificial representa uma oportunidade histórica para o Brasil ampliar sua produtividade, modernizar serviços públicos, fortalecer a indústria e aumentar sua participação na economia do conhecimento.

Entretanto, essa oportunidade não será aproveitada plenamente apenas com a instalação de grandes centros de processamento de dados.

O verdadeiro desenvolvimento tecnológico exige educação de qualidade, formação científica, capacidade de pesquisa, inovação empresarial e políticas públicas de longo prazo.

O Brasil não pode se limitar a fornecer energia e espaço físico para a inteligência artificial desenvolvida por outros países. Precisa formar pesquisadores, desenvolver tecnologias e participar da criação do conhecimento que definirá as próximas décadas.

A posição do IVEPESP é clara: incentivos fiscais à infraestrutura de inteligência artificial devem estar vinculados a contrapartidas efetivas e mensuráveis em educação, pesquisa científica, formação de recursos humanos e inovação tecnológica no Brasil.

Não basta contabilizar quantos bilhões de reais foram investidos ou quantos megawatts foram instalados. É necessário avaliar quanto conhecimento foi produzido, quantos profissionais foram formados e que capacidades tecnológicas permanecerão no país.

A infraestrutura é necessária, mas é o capital humano que transforma investimentos em desenvolvimento.

Prof. Dr. Hélio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
Av. Paulista, nº 1636, Conjunto 4, 15º Pavimento
Cerqueira César – São Paulo/SP
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Referência: NEVES, Ernesto. “Explosão de Dados”. Revista Veja, edição 3018, 23 de outubro de 2026.