A Avaliação Quadrienal 2021–2024 da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) oferece uma das mais importantes fotografias da capacidade científica brasileira.

Mais do que atribuir conceitos aos programas de pós-graduação, a avaliação permite identificar onde estão alguns dos principais núcleos brasileiros de formação de pesquisadores, produção de conhecimento e desenvolvimento científico e tecnológico.

Os resultados mostram algo que merece ser destacado: o Brasil possui uma pós-graduação de excelência e demonstrou capacidade de construí-la em escala significativa.

Mas os mesmos números revelam um desafio: essa excelência ainda apresenta elevada concentração institucional e regional.

A questão estratégica, portanto, não deveria ser apenas saber qual universidade possui mais programas com notas 6 e 7, mas compreender como preservar os centros já consolidados e, simultaneamente, criar condições para que novos polos de excelência se desenvolvam em todo o País.

O que representam as notas 6 e 7

A CAPES realiza a avaliação periódica dos programas de pós-graduação stricto sensu integrantes do Sistema Nacional de Pós-Graduação.

Na Avaliação Quadrienal 2021–2024, os resultados passaram pelas comissões das áreas, pelo Conselho Técnico-Científico da Educação Superior (CTC-ES) e posteriormente pela etapa de reconsideração, cujo resultado foi divulgado em 27 de maio de 2026. Serviços e Informações do Brasil

Os conceitos 6 e 7 identificam programas situados no nível superior do sistema de avaliação, associado à excelência acadêmica e científica.

São, portanto, indicadores particularmente relevantes da capacidade brasileira de formar mestres e doutores e produzir conhecimento em ambientes acadêmicos altamente qualificados.

Quadro IVEPESP — a concentração da excelência

A partir dos resultados CAPES e das divulgações institucionais correspondentes, é possível construir uma fotografia das universidades que concentram grande número de programas nos níveis 6 e 7.

InstituiçãoProgramas 6–7Universo considerado*Participação aproximada
USP12825550,2%
UFRJ49105 programas acadêmicos46,7%
UFRGS45——
Unicamp438451,2%
UFMG4291 avaliados**46,2%
UFSC298833,0%
UFPR2379***29,1%
UnB23——
UFV1543***34,9%
PUCRS142070,0%

* Os universos divulgados pelas instituições não são perfeitamente homogêneos. Algumas comparações consideram programas próprios, outras programas acadêmicos ou programas efetivamente avaliados. Por isso, a coluna percentual deve ser utilizada como indicador de densidade, e não como ranking oficial entre universidades.

** A UFMG informou 93 programas, dos quais dois eram novos e não integraram aquela estatística comparativa. Na divulgação inicial, eram 27 programas nota 7 e 15 nota 6. UFMG

*** Dados institucionais inicialmente divulgados durante o processo avaliativo. A UFPR registrou 23 programas 6–7, correspondentes a 29,1% dos avaliados; a UFV informou 43 programas avaliados. Universidade Federal do Paraná

O quadro deve ser interpretado como painel analítico, e não como um ranking oficial da CAPES. Além das diferenças de denominador, há recursos previstos no processo avaliativo. A própria CAPES estabelece que somente após o esgotamento dos procedimentos recursais o resultado definitivo é encaminhado ao Conselho Nacional de Educação. Serviços e Informações do Brasil

USP: excelência em grande escala

A posição da Universidade de São Paulo é singular.

A USP passou a contar com 128 programas classificados nos níveis 6 e 7, sendo 60 programas nota 7 e 68 nota 6.

Considerando 255 programas, aproximadamente:

128 ÷ 255 = 50,2%.

Portanto, cerca de metade da pós-graduação da USP encontra-se nos dois níveis superiores da avaliação.

Esse resultado é importante porque combina duas características que nem sempre aparecem juntas:

escala e densidade de excelência.

A USP não possui apenas grande quantidade de programas de pós-graduação. Uma parcela extraordinariamente elevada desse grande sistema alcança os níveis superiores da avaliação.

A reconsideração também mudou a fotografia

A comparação com os resultados inicialmente divulgados mostra por que é necessário cuidado ao reproduzir rankings publicados no começo de 2026.

O exemplo da Unicamp é particularmente significativo.

No resultado preliminar, a Universidade apresentava 41 dos 84 programas com notas 6 ou 7. Portal Unicamp

Após a reconsideração, o número passou para 43 programas com notas 6 e 7. A própria Unicamp informou, em junho, que 60% dos seus programas com doutorado haviam atingido os níveis 6 e 7. PRPG Unicamp

Portanto, o quadro inicialmente divulgado nas redes sociais — que apresentava 41 — já não refletia integralmente a situação posterior à reconsideração.

Esse exemplo demonstra a importância de distinguir resultados preliminares, resultados após reconsideração e eventuais alterações decorrentes dos recursos.

Escala e densidade: duas medidas diferentes

Há uma questão metodológica ainda mais importante.

Classificar universidades exclusivamente pelo número absoluto de programas nota 6 ou 7 favorece naturalmente as instituições maiores.

Por isso, o IVEPESP propõe distinguir pelo menos dois conceitos.

Escala da excelência: número absoluto de programas classificados com notas 6 e 7.

Densidade da excelência: proporção do sistema de pós-graduação da instituição que alcançou esses níveis.

Essa distinção muda substancialmente a leitura dos resultados.

A USP constitui o principal exemplo de escala da excelência.

A PUCRS, por outro lado, constitui um excelente exemplo de densidade da excelência.

A Universidade informou que 70% de seus programas de pós-graduação integram o Programa de Excelência Acadêmica da CAPES, alcançando média institucional de 6,05 entre instituições com mais de dez programas. Oito programas receberam nota 7 e seis ficaram no nível 6, totalizando 14. PUCRS

Portanto, uma universidade pode aparecer em posição relativamente baixa quando se considera somente o número absoluto e, simultaneamente, apresentar extraordinária concentração de programas de excelência.

A nota 7 deve ser observada separadamente

Existe ainda uma terceira dimensão importante: a presença de programas com nota máxima 7.

Na UFMG, por exemplo, a divulgação institucional inicial registrou 27 programas nota 7 e 15 nota 6, totalizando 42 programas nos níveis superiores. UFMG

Na UFSC, eram sete programas nota 7 e 22 nota 6, totalizando 29. Notícias da UFSC

Na UFRJ, a distribuição inicialmente divulgada era de 21 programas nota 7 e 28 nota 6, totalizando 49. Conexão UFRJ

Essas informações mostram que um único indicador não é suficiente para representar a qualidade institucional.

O IVEPESP propõe quatro indicadores

Uma análise mais adequada da excelência da pós-graduação brasileira deveria considerar simultaneamente:

  1. Número de programas nota 6 e 7 — escala da excelência;
  2. Percentual de programas 6 e 7 — densidade da excelência;
  3. Número e percentual de programas nota 7 — excelência máxima;
  4. Evolução entre avaliações quadrienais — trajetória da instituição.

Esse conjunto produz uma fotografia muito mais informativa do que simplesmente ordenar universidades pelo número absoluto de programas.

A excelência permanece concentrada

O quadro revela também outra característica estrutural do sistema brasileiro.

Entre as dez universidades destacadas, há forte concentração nas regiões Sudeste e Sul, com presença da Universidade de Brasília no Centro-Oeste.

Isso não significa que inexistam programas de excelência nas demais regiões.

Significa que a construção histórica do sistema brasileiro de ciência e pós-graduação ocorreu de forma territorialmente desigual.

E isso conduz a uma pergunta fundamental:

Como fazer novos centros alcançarem os níveis das instituições consolidadas sem enfraquecer aquilo que o Brasil levou décadas para construir?

Excelência não deve ser redistribuída — deve ser multiplicada

A resposta não pode ser diminuir artificialmente a distância entre instituições por meio dos critérios de avaliação.

Excelência científica não se redistribui por decreto.

Ela é construída ao longo de décadas.

Exige pesquisadores qualificados, estudantes, laboratórios, equipamentos, infraestrutura, financiamento continuado, bolsas, redes internacionais, capacidade institucional e ambiente favorável à produção científica.

A política pública deveria, portanto, atuar simultaneamente em duas direções:

preservar os centros de excelência já existentes e criar condições para que novos centros atinjam o mesmo patamar.

Não há contradição entre esses objetivos.

Ao contrário, eles são complementares.

O papel do financiamento

A experiência brasileira demonstra que a estabilidade do financiamento é decisiva.

CAPES, CNPq, FINEP e as fundações estaduais de amparo à pesquisa exercem funções complementares na formação de pesquisadores, financiamento de projetos, manutenção de infraestrutura e apoio à inovação.

O exemplo paulista, com universidades de pesquisa consolidadas e a atuação continuada da FAPESP, mostra a importância de sistemas de financiamento de longo prazo.

Ciência de excelência exige continuidade.

Laboratórios e grupos de pesquisa construídos durante décadas podem ser rapidamente enfraquecidos quando há descontinuidade prolongada de financiamento ou perda de recursos humanos.

Internacionalização e circulação de talentos

Outro componente indispensável é a internacionalização.

Programas de excelência precisam manter relacionamento permanente com os principais centros científicos mundiais.

Doutorado-sanduíche, pós-doutorado, pesquisadores visitantes, projetos internacionais, laboratórios compartilhados e redes de pesquisa devem fazer parte estrutural da política brasileira de pós-graduação.

Mas internacionalização não significa simplesmente enviar pesquisadores brasileiros ao exterior.

O Brasil precisa também criar condições para atrair pesquisadores estrangeiros e trazer de volta brasileiros altamente qualificados.

A circulação internacional de pesquisadores é positiva.

O problema surge quando circulação se transforma em perda permanente de capital humano pela ausência de oportunidades no País.

E depois do doutorado?

Talvez essa seja a pergunta mais importante de toda a discussão:

O que o Brasil faz com os mestres e doutores que forma?

Uma pós-graduação excelente não deve existir isoladamente do desenvolvimento econômico e social.

O conhecimento produzido precisa chegar à educação básica, saúde, agricultura, indústria, infraestrutura, administração pública, inteligência artificial, biotecnologia, transição energética e transformação digital.

Isso significa aproximar muito mais:

universidades + institutos de pesquisa + empresas + governo + sociedade.

O doutor não deve ter como único destino a universidade

Em sistemas nacionais de inovação avançados, parcela significativa dos pesquisadores trabalha em empresas, laboratórios industriais, startups, hospitais, centros tecnológicos e governos.

O Brasil precisa avançar nessa direção.

A pós-graduação não pode ser vista apenas como um sistema destinado a formar futuros professores universitários.

Ela deve ser compreendida como parte da infraestrutura científica, tecnológica e de inovação do País.

Quanto maior a capacidade da economia brasileira de absorver profissionais altamente qualificados, maior será o retorno econômico e social dos investimentos feitos durante sua formação.

Da excelência acadêmica à produtividade

Esse ponto estabelece uma conexão direta entre pós-graduação e um dos grandes desafios brasileiros: produtividade.

A formação de mestres e doutores precisa contribuir para inovação tecnológica, novos produtos, novos processos, propriedade intelectual, modernização industrial, melhores serviços públicos e criação de empresas intensivas em conhecimento.

Portanto, ciência, educação, inovação e desenvolvimento econômico não constituem agendas independentes.

São partes de uma mesma estratégia nacional.

Conclusão — multiplicar a excelência

A Avaliação Quadrienal CAPES 2021–2024 traz uma mensagem positiva.

O Brasil sabe produzir ciência e pós-graduação de excelência.

A USP demonstra que podemos fazê-lo em grande escala.

A PUCRS demonstra que instituições menores podem alcançar extraordinária densidade de excelência.

A Unicamp mostra como um sistema amplo pode apresentar elevada proporção de programas nos níveis superiores — e sua evolução de 41 para 43 programas 6–7 após a reconsideração mostra também a importância de acompanhar todas as etapas da avaliação. Portal Unicamp

UFRJ, UFRGS, UFMG, UFSC, UFPR, UnB e UFV, entre muitas outras instituições brasileiras, demonstram a existência de uma infraestrutura científica sólida sobre a qual o País pode avançar.

O problema brasileiro, portanto, não é a ausência de excelência.

O desafio é:

preservá-la; ampliá-la; distribuí-la territorialmente; internacionalizá-la; conectá-la às empresas e ao setor público; reter talentos; e transformar conhecimento em inovação, produtividade e desenvolvimento.

Não devemos buscar uma redistribuição artificial da excelência.

Devemos buscar algo muito mais ambicioso:

multiplicar a excelência.

E há um objetivo ainda maior:

O Brasil já demonstrou que sabe construir excelência científica. O desafio agora é transformar essa excelência em conhecimento, inovação, produtividade, oportunidades e desenvolvimento econômico e social para o País.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
Av. Paulista, nº 1636, Conjunto 4, 15º Pavimento
Cerqueira César – São Paulo/SP
CEP 01310-200
E-mail: [email protected]

Fonte principal e nota metodológica

A referência principal desta nota é o resultado oficial da Avaliação Quadrienal CAPES 2021–2024, divulgado em 27 de maio de 2026 após a etapa de reconsideração. A CAPES disponibiliza nesse endereço as planilhas dos programas acadêmicos e profissionais e o painel de resultados. A etapa recursal permanece relevante: a CAPES informa que a decisão da Câmara Recursal constitui sua manifestação final e que somente após o esgotamento dos procedimentos recursais o resultado definitivo é encaminhado ao Conselho Nacional de Educação. Serviços e Informações do Brasil

Nota editorial do IVEPESP: o quadro comparativo não deve ser denominado “ranking oficial da CAPES”. Trata-se de uma elaboração do IVEPESP destinada a mostrar escala e densidade da excelência, com base nos resultados da CAPES e nas informações institucionais publicadas pelas universidades. Essa ressalva é importante porque os denominadores utilizados pelas instituições não são totalmente homogêneos e o processo prevê recursos.